O MacGuffin: Julho 2004

Segunda-feira, Julho 05, 2004

FEBRAS EM ÁGUEDA
O Difool: ”Macguffin, tira uns dias em Águeda. Gostas de febras?” Se gosto de febras?! E a Sharapova não ganhou em Wimbledon?


E PRONTO, PERDEMOS
(ou Mais Um Momento ‘Gabriel Alves’)
O maradona diz que “a Grécia ganhar o Campeaonato Europeu de Futebol é mais ou menos como o Prémio Nobel da Literatura ser atribuído a uma operadora de caixa do Pingo Doce pela excepcional qualidade dos talões de compras que faz sair do seu posto de venda.” Pois. Está bem, Diego, mas nós nem a Caixa conseguimos chegar. Ontem, ficámos por empregadas de limpeza – daquelas que são olhadas com desdém pelas operadoras de caixas, que operam maravilhas com talões.

“Ah, mas nós somos melhores do que eles.” Meus caros: ontem não fomos. De pouco valeu a finta impossível de Ronaldo, o passe mágico de Deco, a segurança e a mestria de Ricardo Carvalho, a fibra de Maniche. De nada vale, agora, relembrar as responsabilidades de Costinha e de Ricardo (duas falhas que não podem acontecer numa final do campeonato da Europa) no golo da Grécia. A equipa grega – repito: a equipa grega – foi melhor. Não se tratou, como já para aí ouvi dizer, da vitória do “anti-jogo”. Foi a vitória da consistência, do rigor táctico, das marcações irrepreensíveis. Os gregos não falharam. Nós falhámos. Ao contrário do que deu a entender Portugal, a Grécia voltou a entrar em campo com a lição bem estudada. Ao contrário de Scolari, O Sr. Otto ‘filho-da-p***’ Rehagell sabia muitíssimo bem com quem ia ter. A Grécia é a operadora de caixa do Pingo Doce? Ok. Mas já devíamos estar carecas de saber que, hoje em dia, até licenciados operam caixas nos supermercados.

COMENTANDO COMENTÁRIOS
Carlos Fernandes, a propósito do ‘post’ sobre o Michael Moore vs. Christopher Hitchens:

”Caro Carlos,
na ausência de comentários no Contra-a-Corrente, apenas por este meio posso manifestar o meu repúdio pelo último parágrafo do "seu" texto Moore, Michael. Não vou discutir as virtudes de um filme que não vi, nem o seu carácter, o qual, no entanto, não creio que seja facilmente inserido na categoria "documentário", como muitos pretendem fazer crer. Nisso estamos de acordo. Mas não posso aceitar que Christopher Hitchens, depois de debitar tantas palavras que atacam Moore e a sua putativa desonestidade, recorra ele próprio a argumentos desonestos ou, no mínimo, reveladores de uma imensa ignorância histórica e geográfica. Não vou alongar-me sobre a situação sérvia, a tal nação esfomeada. Mas seria interessante falar um pouco sobre as negociações entre americanos e Milosevic, antes dos ataques de 1999. Também não quero, porque o tempo é curto, questionar a "limpeza" da Bósnia. Porque, se ela existiu, a responsabilidade não pode ser sacudida dos ombros daqueles que rejeitaram o plano Cutileiro. Mas usar a palavra anexar, quando se refere ao Kosovo, revela uma ignorância (ou má-fé) intolerável (em relação à Bósnia pode-se aceitar; mas, de qualquer forma, seria prudente debater questões como a autodeterminação dos povos e o Direito Internacional antes de falar em anexação). Nem sequer é, apenas, um argumento falacioso. As palavras de Hitchens revelam falta de rigor histórico, e um profundo desconhecimento da organização política da Jugoslávia (o Kosovo e, por exemplo, a Bósnia, não tinham a mesma natureza administrativa e política, dentro da federação). Ou então - hipótese mais grave - o autor aproveita-se da ignorância dos leitores para tentar difundir a sua mensagem. E nada melhor do que uma palavra forte como "anexação" para os convencer da eficácia de uma política em que acredita (claro que "starved" também não fica mal). Inaceitável.”


Como vê, Carlos, o Contra-a-Corrente não tem um sistema de comentários mas nunca deixou de publicar os que considerou válidos, honestos, «construtivos», «destrutivos» mas com pinta, etc. - em oposto a insultos gratuitos, «bocas» e derivados. Os critérios, esses continuarão a ser da minha lavra.

Em relação ao seu comentário, não percebo a sua indignação, nem, sequer, a ferocidade da sua crítica relativamente às palavras de Hitchens. Em primeiro lugar, Hitchens não pôs em causa (eu que o leio há bastante tempo) qualquer «rigor histórico», nem sequer menosprezou a importância histórica do Kosovo no imaginário sérvio. Utilizou uma expressão (“anexação”) que pode, eventualmente, suscitar interpretações de ordem diversa. Daí a concluir que ele cometeu crime de «lesa pátria» vai uma enorme distância.

É certo, e sabido, que os sérvios sempre observaram o Kosovo como a mística área central do seu grande estado medieval. Os mosteiros sérvios bizantinos e os seus frescos estão lá para quem os quiser ver. Mas as coisas são o que são, e se a história recente não deve substituir ou apagar a antiga, não pode, por outro lado, ser escamoteada. É bom não esquecer que, após a constituição jugoslava de 1974 (com Tito), o Kosovo tornou-se uma província autónoma (terá sido por mero capricho de Tito?), com uma administração largamente albanesa (é certo que com um estatuto diferente de outras províncias). Em 1981 foi, aliás, tentada uma revolta no sentido de se alcançar um estatuto de república plena, embora sem resultados. Ou seja, o Kosovo está longe de ser uma mera região de uma grande sérvia - sem «história», sem clivagens, sem conteúdo étnico evolutivo. Na vigência dessa autonomia, os sérvios foram, com o tempo, abandonando a região (por motivos diversos, incluindo a descriminação e a violência), ao ponto de passarem a representar uma pequeníssima minoria. Isso, obviamente, tem o seu peso.

Milosevic fez questão de incendiar a região quando, em 1987, visitando o Kosovo, acicatou o sentimento nacionalista sérvio – um gesto, aliás, apoiado por políticos de outras nacionalidades, como foi o caso do croata Tudjman. Foi Milosevic quem retirou, unilateralmente, autonomia ao Kosovo e o colocou sob administração sérvia directa, abrindo caminho à revolta albanesa, pontuada pela auto-proclamação da denominada República Kosova (como eles escrevem), de Ibrahim Rugova. O que a seguir se seguiu já toda a gente sabe. Não vale a pena referir aqui a natureza abjecta das engenharias sociais e étnicas levadas a cabo pelos operacionais de Milosevic. Até porque, diga-se, o que parece ter «irritado» Carlos Fernandes foi o uso do termo "anexar" aplicado a uma região que, segundo ele, nunca poderia ter sido alvo de "anexação", uma vez que, supostamente, ela nunca foi "desanexada".

POr tudo isto, a reacção de Carlos Fernandes ao uso do termo “anexação” é completamente exagerada. No fundo, estamos apenas na presença de uma questão semântica. Não? Então deixem-me colocar a seguinte questão: se “anexação” é um termo descabido e contrário ao «rigor» histórico, o que será a ideia de fazer crer que no Kosovo nada se passava de extraordinário, no que à autonomia administrativa (por muito diferente que esta fosse de outras províncias) e à composição demográfica dizia respeito?

Sexta-feira, Julho 02, 2004

MOORE, MICHAEL
Há dias, o Pedro Mexia perguntava-me, num jeito que presumia recomendação, se eu tinha lido o artigo de Christopher Hitchens sobre o filme de Michael Moore (Fahrenheit 9/11), publicado na Slate. Confessei, evergonhado, que ainda não tinha tido oportunidade para o fazer. Contudo, vindo, agora, do Pedro, depois de já ter vindo doutro amigo, apercebi-me que cometia ilícito grave. Ontem, finalmente, apressei-me a ler o artigo (um longo artigo, diga-se). Apraz-me concluir o seguinte: Christopher Hitchens pregou um sovão ao Sr. Moore, do qual ele jamais se esquecerá (em boa verdade, não será bem assim: é bastante provável que a inteligência e o poder de encaixe de Moore o impeça de perceber as críticas a si endereçadas).

Para além de conter passagens memoráveis e de antologia (Hitchens escreve primorosamente), o artigo coloca literalmente a nu a apetência de Moore pela mentira, pela hipocrisia, pela deturpação dos factos e pela forma parcial e enviesado como aborda certas questões, revertendo-as a seu favor independentemente da verdade, da objectividade e das evidências. Para além, é claro, do mau gosto revelado quando expõe as pessoas nos seus momentos mais privados – sejam de lazer ou de sofrimento.

O artigo de Hitchens vem provar, à saciedade, a natureza maniqueísta, paranóica e obsessiva de Michael Moore. Resta acrescentar que o facto do seu «documentário» ter ganho a Palma de Ouro, em Cannes, diz muito do estado de absoluta cretinice em que o mundo se encontra.

Eis alguns excertos:

“To describe this film as dishonest and demagogic would almost be to promote those terms to the level of respectability. To describe this film as a piece of crap would be to run the risk of a discourse that would never again rise above the excremental.”

“A film that bases itself on a big lie and a big misrepresentation can only sustain itself by a dizzying succession of smaller falsehoods, beefed up by wilder and (if possible) yet more-contradictory claims.”

“We are introduced to Iraq, "a sovereign nation." (In fact, Iraq's "sovereignty" was heavily qualified by international sanctions, however questionable, which reflected its noncompliance with important U.N. resolutions.) In this peaceable kingdom, according to Moore's flabbergasting choice of film shots, children are flying little kites, shoppers are smiling in the sunshine, and the gentle rhythms of life are undisturbed. Then—wham! From the night sky come the terror weapons of American imperialism. Watching the clips Moore uses, and recalling them well, I can recognize various Saddam palaces and military and police centers getting the treatment. But these sites are not identified as such. In fact, I don't think Al Jazeera would, on a bad day, have transmitted anything so utterly propagandistic. You would also be led to think that the term "civilian casualty" had not even been in the Iraqi vocabulary until March 2003. I remember asking Moore at Telluride if he was or was not a pacifist. He would not give a straight answer then, and he doesn't now, either. I'll just say that the "insurgent" side is presented in this film as justifiably outraged, whereas the 30-year record of Baathist war crimes and repression and aggression is not mentioned once.”


”That this—his pro-American moment—was the worst Moore could possibly say of Saddam's depravity is further suggested by some astonishing falsifications. Moore asserts that Iraq under Saddam had never attacked or killed or even threatened (his words) any American. I never quite know whether Moore is as ignorant as he looks, or even if that would be humanly possible. Baghdad was for years the official, undisguised home address of Abu Nidal, then the most-wanted gangster in the world, who had been sentenced to death even by the PLO and had blown up airports in Vienna* and Rome. Baghdad was the safe house for the man whose "operation" murdered Leon Klinghoffer. Saddam boasted publicly of his financial sponsorship of suicide bombers in Israel. (Quite a few Americans of all denominations walk the streets of Jerusalem.) In 1991, a large number of Western hostages were taken by the hideous Iraqi invasion of Kuwait and held in terrible conditions for a long time. After that same invasion was repelled—Saddam having killed quite a few Americans and Egyptians and Syrians and Brits in the meantime and having threatened to kill many more—the Iraqi secret police were caught trying to murder former President Bush during his visit to Kuwait. Never mind whether his son should take that personally. (Though why should he not?) Should you and I not resent any foreign dictatorship that attempts to kill one of our retired chief executives? (President Clinton certainly took it that way: He ordered the destruction by cruise missiles of the Baathist "security" headquarters.) Iraqi forces fired, every day, for 10 years, on the aircraft that patrolled the no-fly zones and staved off further genocide in the north and south of the country. In 1993, a certain Mr. Yasin helped mix the chemicals for the bomb at the World Trade Center and then skipped to Iraq, where he remained a guest of the state until the overthrow of Saddam. In 2001, Saddam's regime was the only one in the region that openly celebrated the attacks on New York and Washington and described them as just the beginning of a larger revenge. Its official media regularly spewed out a stream of anti-Semitic incitement. I think one might describe that as "threatening," even if one was narrow enough to think that anti-Semitism only menaces Jews. And it was after, and not before, the 9/11 attacks that Abu Mussab al-Zarqawi moved from Afghanistan to Baghdad and began to plan his now very open and lethal design for a holy and ethnic civil war. On Dec. 1, 2003, the New York Times reported—and the David Kay report had established—that Saddam had been secretly negotiating with the "Dear Leader" Kim Jong-il in a series of secret meetings in Syria, as late as the spring of 2003, to buy a North Korean missile system, and missile-production system, right off the shelf. (This attempt was not uncovered until after the fall of Baghdad, the coalition's presence having meanwhile put an end to the negotiations.)”

“Moore has announced that he won't even appear on TV shows where he might face hostile questioning. I notice from the New York Times of June 20 that he has pompously established a rapid response team, and a fact-checking staff, and some tough lawyers, to bulwark himself against attack. He'll sue, Moore says, if anyone insults him or his pet. Some right-wing hack groups, I gather, are planning to bring pressure on their local movie theaters to drop the film. How dumb or thuggish do you have to be in order to counter one form of stupidity and cowardice with another? By all means go and see this terrible film, and take your friends, and if the fools in the audience strike up one cry, in favor of surrender or defeat, feel free to join in the conversation.
However, I think we can agree that the film is so flat-out phony that "fact-checking" is beside the point. And as for the scary lawyers—get a life, or maybe see me in court. But I offer this, to Moore and to his rapid response rabble. Any time, Michael my boy. Let's redo Telluride. Any show. Any place. Any platform. Let's see what you're made of.”

Perhaps vaguely aware that his movie so completely lacks gravitas, Moore concludes with a sonorous reading of some words from George Orwell. The words are taken from 1984 and consist of a third-person analysis of a hypothetical, endless, and contrived war between three superpowers. The clear intention, as clumsily excerpted like this (...) is to suggest that there is no moral distinction between the United States, the Taliban, and the Baath Party and that the war against jihad is about nothing. If Moore had studied a bit more, or at all, he could have read Orwell really saying, and in his own voice, the following:
The majority of pacifists either belong to obscure religious sects or are simply humanitarians who object to taking life and prefer not to follow their thoughts beyond that point. But there is a minority of intellectual pacifists, whose real though unacknowledged motive appears to be hatred of western democracy and admiration for totalitarianism. Pacifist propaganda usually boils down to saying that one side is as bad as the other, but if one looks closely at the writing of the younger intellectual pacifists, one finds that they do not by any means express impartial disapproval but are directed almost entirely against Britain and the United States …
And that's just from Orwell's Notes on Nationalism in May 1945. A short word of advice: In general, it's highly unwise to quote Orwell if you are already way out of your depth on the question of moral equivalence. It's also incautious to remind people of Orwell if you are engaged in a sophomoric celluloid rewriting of recent history.
If Michael Moore had had his way, Slobodan Milosevic would still be the big man in a starved and tyrannical Serbia. Bosnia and Kosovo would have been cleansed and annexed. If Michael Moore had been listened to, Afghanistan would still be under Taliban rule, and Kuwait would have remained part of Iraq. And Iraq itself would still be the personal property of a psychopathic crime family, bargaining covertly with the slave state of North Korea for WMD. You might hope that a retrospective awareness of this kind would induce a little modesty. To the contrary, it is employed to pump air into one of the great sagging blimps of our sorry, mediocre, celeb-rotten culture. Rock the vote, indeed.”

Quinta-feira, Julho 01, 2004

LISTEN CAREFULLY: I SHALL SAY THIS ONLY ONCE
Amanhã, no Independente. Livro: Segunda Opinião. Ensaios de História. O seu autor: Rui Ramos. Need I say more?
DIA D
Domingo será dia D: de Desforra. Penso eu...
O MEU CLUBE
O Serras lembra, e muito bem, a efeméride: o Sporting Clube de Portugal faz hoje 98 anos.

VIVÓ SPORTING!!!!!!

DIÁLOGOS
No São Luiz:

(dois amigos observando alguém que havia entrado de fato e gravata)
- Aquele tipo tem cara de ser um blogger.
- Qual?
- Aquele, de fato e gravata com um capacete na mão.
- Achas?
- Tenho quase a certeza.
- Mas porquê?
- Eh pá, tenho um feeling.
- Ah, então deve ser.

CALMA. MUITA CALMA.
(actualizado)
Meti-me com o «mundo da bola» e recebo duas admoestações no espaço de uma hora. Uma do John Difool:

”Porra, Mac, o "Figo: safou-se"? O Figo fez um jogo "absurdo", pá. Três arrancadas do meio campo até à linha de fundo na primeira parte que teriam acabado com qualquer veterano antes dos trinta minutos, uma jogada magistral que levou a bola ao poste, poucos passes falhadas, poucas bolas perdidas e, acima de tudo, a garra de um gajo que, aos 32 anos, com uma carreira brilhante, nome de fundação, muitos milhões e uma loira na cama, parece que ainda tem tudo para provar. Cascar no Figo é moda desde o Mundial de 2002, mas o gajo continua a ser, de longe, o nosso melhor jogador. E não falo só do jogo de ontem. O Figo tem sido, a par do Ricardo Carvalho, o jogador mais regular (até no jogo contra a Grécia jogou bem).”

outra de Jorge Bento:

”Eu de futebol também percebo pouco, mas olhe que o Figo ontem “safou-se” muito bem , pois foi considerado o melhor em campo pela UEFA , pelo que jogou, fez jogar, rematou etc.
PS: Para mim a grande final foi contra a Inglaterra , pela emoção e incerteza até ao fim. Os jogos de ontem e de domingo é só para preencher calendário. A Taça é nossa.


Ambas pelo mesmo motivo: o facto de ter escrito “O Figo safou-se”.

Sim, o Figo safou-se. Com isto não quis desvalorizar ou menosprezar o seu papel no jogo de ontem. “O Figo safou-se” não foi a forma por mim encontrada para nele «cascar», como parece ser agora moda em certos meios. Figo fez, ontem, um bom jogo. Ok, vá lá, um muito bom jogo. Mas se tivesse de eleger o melhor jogador em campo, elegeria outro(s). E o facto de ter sido eleito oficialmente o homem do jogo, em nada influência a minha posição.

Figo foi e é um grande jogador. Adquiriu, perante a «tribo do futebol» – o povo, alguns intelectuais, os plumitivos do meio e um poeta - um estatuto único. Em abono da verdade, por mérito próprio. Figo não foi um "bom jogador" fabricado pela imprensa ou pelo star system (como é o caso de Beckham). O seu trabalho, a sua garra e o seu génio fizeram-se notar inequívoca e objectivamente. À flor da sua pele. Na minha memória está a sua carreira no Barça e os dois primeiros anos no Real. Digo-o sem margem para quaisquer dúvidas: Figo foi, durante anos, um dos melhores jogadores do mundo.

Mas Figo já não é o que era. O que é perfeitamente natural, normal, etc. É a PDI. É a «ordem natural da vida». Os anos pesam e, em excelentes jogadores, ainda pesam mais. Apesar de continuar a ser um «incontornável», temos assistido a um Figo que tem tentado, acima de tudo, adaptar-se à sua actual forma. O seu estilo e o seu modus operandi mudaram. Figo sabe que tem, hoje em dia, contra si, vários handicaps. Continua a ser um jogador seguro. Continua a ser um jogador difícil de desarmar. Continua a ter uma boa «visão de jogo». Mas basta reparar no número de pseudo-faltas por ele reclamadas ou na forma como ele não arrisca o drible, a finta e a corrida, para perceber que ele já se encosta a certo tipo de subterfúgios e evasivas. Já para não falar nos remates frouxos e nas assistências falhadas. Tirando o jogo de ontem, foram raros os momentos em que Figo, neste campeonato, driblou e fintou em clara vantagem ou com aquela iminência de perigo que o caracterizavam.

Para que não haja dúvidas, repito: Figo continua a ser um excelente jogador e, ontem, esforçou-se para o demonstrar. Talvez picado por ter sido chamado à pedra pela birrinha no jogo anterior, Figo excedeu-se no jogo de ontem. Mas este pontual descomedimento demonstra tudo o que disse: foi uma excepção. O Figo “Euro 2004” esteve uns furos abaixo do Figo de outros tempos. Há que compreender e aceitar isso. Nessa medida, eu digo: ontem Figo safou-se ("muito bem", se quiserem). Foi o seu melhor jogo, neste campeonato. Mas Figo é um jogador que já está a gerir a sua própria decadência. Isso, meus amigos, nota-se à distância. De um sofá a um televisor.
EU, QUE NÃO PERCEBO MUITO DE FUTEBOL
(actualizado)
Devia estar calado. Pois devia. Mas, como terão reparado, deixei de perceber “nada” para perceber “alguma coisa”, que não “muito”. O sentido evolucionista do meu intelecto, no que «à bola» diz respeito, deve-se, em parte, a uma conversa que tive, há dias, com este senhor (que fica, agora, a dever-me um mais que justo link). Exemplo: eu pensava que o Cristiano Ronaldo e o Deco tinham sido sofríveis no jogo contra a Inglaterra. Pois parece que não. As movimentações e o trabalhinho que deram aos defesas e centrais ingleses foram preponderantes, apesar de ambos não terem feito um jogo “vistoso”. Em relação ao jogo de ontem, queria dizer o seguinte:

- Golos. O golo de Maniche é um “hino ao futebol” (que tal para cliché?);
- Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Costinha, Deco: impecáveis, fundamentais, fundamentais, impecáveis;
- Figo: safou-se, ontem.(*)
- Cristiano Ronaldo: apesar de enlear, de vez em quando, as suas próprias pernas, cumpriu;
- Pauleta: não faço comentários, para não ofender o bom povo dos Açores;
- Jorge Andrade: ainda assim, um grande golo. Pena o penteado;
- Fernando Couto: apesar dele, ganhámos;
- Ricardo: Vitor Ba-quê?
- Scolari: continuo a achar que há, nas suas «tácticas», uma dose de acaso e casualidade que me impedem de o colocar nos píncaros;
- Vitória: justíssima.

Agora? Como diz o outro “o céu é o limite”.

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(*) ver post seguinte

Quarta-feira, Junho 30, 2004

POR DUAS RAZÕES
Primeira: porque ele tem blogado tão pouco que temos de aproveitar (e difundir);
Segunda: porque é genial.

”O país possível”
por ALBERTO GONÇALVES
Cenário ideal: Ligeiramente alterados pela vitória sobre a Holanda, os membros do Conselho Nacional do PSD enganam-se na votação e acabam por eleger Rui Rio presidente do partido. Rio reúne um executivo de contas curtas e assume em simultâneo sete pastas, incluindo a tutela do desporto. Sampaio ratifica e Portugal segue de vento em popa até à retoma final.
Cenário dantesco: O PSD elege Santana. Sampaio não aceita o Governo proposto por este e convoca eleições antecipadas. O PS vence com maioria relativa e coliga-se com o BE. Louçã vai para a Defesa e o nãoseiquê Fazenda para a Educação. A Cultura é entregue a uma junta e a Comunicação Social a duas. Eu mudo-me para Espanha.
Cenário razoável: O PSD elege Santana. Sampaio não aceita o Governo proposto por este e convoca eleições antecipadas. O PS vence com maioria absoluta e Ferro Rodrigues torna-se primeiro-ministro.
Cenário (um bocadinho mais) razoável: O PSD elege Santana. Sampaio não aceita o Governo proposto por este e convoca eleições antecipadas. O PS, depois de nomear José Lamego secretário-geral em congresso extraordinário, vence com maioria absoluta. Lamego é primeiro-ministro e sugere ao dr. Gama, o novo MNE, a designação da dra. Ana Gomes para adida cultural no Benim.
Cenário provável: O PSD elege Santana. Sampaio aceita o Governo proposto por este. Os autarcas celebram. Portugal perde com a Holanda e o país entra em esquizofrenia populista-depressiva.
Cenário remotamente eventual: Numa comunicação em horário nobre, Durão informa os portugueses de que tudo não passou de uma brincadeira. Na verdade, ele não chegou a aceitar o cargo na Comissão, mas pedira aos jornalistas sediados em Bruxelas para fingirem que sim. Durão é reconhecido como um génio por 87,32% dos cidadãos, os demais partidos abdicam e o dr. Ferro inscreve-se no PSD, que vence por falta de comparência as eleições de 2006.”

DIOGO CERTEIRO
Manifs espontâneas: "Santana ó meu, S. Bento não é teu", "Santana sai de perto, isto não é bar aberto"... Pois, a direita é que é populista, não é?.
Diogo Belford Henriques in O Acidental
ESTÁ COMBINADO
Ontem conheci a Isabel e a Helena. Giras, simpáticas e, deu para ver, inteligentes. Uns amores. Tanto mais que me convenceram que Pedro Santana Lopes não presta. E pediram-me para não aderir ao Santanismo. Não tenho outro remédio senão fazer-lhes a vontade. Aliás, nunca o pensei fazer.
AO CUIDADO DO SENHOR PROFESSOR

"Carta aberta ao Senhor Professor Freitas do Amaral"
por João Titta Maurício (Professor Universitário)
"Lida a missiva que publicamente dirigiu ao Senhor Presidente da República, atordoado (e sem a posição “senatorial” de que o Senhor Professor dispõe), não pude deixar de, publicamente, lhe apresentar as perplexidades que aquela me gerou.

Senhor Professor, na concepção de eleições legislativas que transparece do seu texto parece que estas são “apenas” para escolher um PM e, já agora,... porque não,... já que estamos aqui... elegemos uns 230 tipos... ainda que constituam «a assembleia representativa de todos os cidadãos portugueses»,... sabe-se lá para quê... talvez para apreciarem o programa do Governo e o seu cumprimento?... quiçá, para exercerem essa “coisa menor” que é aprovar ou rejeitar moções de censura ou confiança?
Senhor Professor, se a AR é competente para derrubar o Governo, como justifica que não o seja também para aprovar o programa e participar na legitimação política de um outro?... Ao esvaziar das competências dos Deputados (os representantes do Povo), não estará o Senhor Professor a contribuir para a “partidocracia” que quer evitar?...
E se as eleições legislativas servissem principalmente para escolher um PM, qual o papel que o Senhor Professor reserva para o PR no nosso sistema constituicional? E para que serviria então a sua eleição directa pelos cidadãos se lhe reserva um papel de mero notário de actos políticos?

Ao avocar a tese duvergiana das democracias “directas” e “indirectas”, apresentou-as como antitéticas. Mas, como o Senhor Professor bem sabe (e ensina), a Democracia é um modelo complexo, que exige mecanismo de salvaguarda que permitam uma saída política constitucional para situações excepcionais. É o caso dos instrumentos da democracia “indirecta”, quando, por exemplo, proporcionam (como solução política legítima) a nomeação de um novo PM porque o seu antecessor ficou impossibilitado de continuar a exercer o seu mandato (que é, na Europa civilizada, situação bem mais comum do que a extrema-esquerda – e os seus úteis compagnons – deixam transparecer). Porque, e acredito que o Senhor Professor concordará, em situação de crise, arranjar instabilidade política é uma má solução! Como aconteceu quando o Senhor Professor, enquanto presidente do CDS, aceitou ser parte de uma solução governativa que brotou do parlamento... e sem eleições intercalares! E nessa altura fê-lo, e bem!

A causa da decisão do PM de «voluntariamente apresentar a sua demissão», perdoar-me-à Senhor Professor, deve e tem que ser discutida. Esquecê-la é não atender à “causa da coisa”. A vacatura do cargo de PM resulta de um extraordinário convite para uma posição internacional de destaque. Tanto, que os partidos que representam uma esmagadora maioria dos portugueses reconheceram que o país teria muito a ganhar se fosse exercido por um português... Ou só seria assim se o escolhido houvesse sido o Dr. António Vitorino?!?
Assim, a “causa da coisa” é tão importante e extraordinária que, a solução deverá ela mesma ser extraordinária. A não ser que o Senhor Professor haja pretendido criar condições para que ao Dr. Durão Barroso não restasse outra solução senão a de... rejeitar o convite!

A crise que o país atravessa (...mas que todos os indicadores e agentes macro-económicos afirmam estar em inversão – e que, uma vez mais, não é questão de somenos). O Senhor Professor sabe que a aceitação do pedido de exoneração apresentado pelo PM tem como consequência necessária a queda do Governo. E que as razões de relevante interesse nacional que levam à apresentação daquele pedido exigem a disponibilidade imediata do Dr. Durão Barroso e que, por isso, não poderia presidir a um governo de gestão até às eleições que solicita que o PR convoque! Que este teria que convidar e nomear um novo PM para governar a prazo, até às eleições antecipadas! Quem aprovaria o programa deste Governo “a quo”: a AR a que o Senhor Professor não reconhece legitimidade para sustentar politicamente um Governo... “normal”? E como compatibilizar a sua preocupação com a crise com o adiar de um Governo pleno de legitimidade política lá para o Natal?!? Então e a crise, Senhor Professor?... e o país?... e os portugueses?

Critica o Senhor Professor a hipótese de um novo PM poder ser «escolhido por 70 dirigentes partidários»! Porém, eles ainda não se pronunciaram... e só têm legitimidade para propôr soluções ao PR. Imagine que eles deliberavam pedir ao PR a convocação de eleições? Já seriam, para si, 70 iluminati? O Senhor Professor sabe que os partidos se submetem a uma lei que exige a democraticidade interna. Que, entre Congressos, a vontade imputável a cada um dos partidos é apurada no seu “parlamento”, os conselhos nacionais! E, não se conhecendo que algum haja convocado a sua “reunião magna”, serão os 70 do PS, outros 70 do CDS, outros do PCP e mais alguns do BE quem deverá aprovar as propostas de solução a apresentar ao PR! Mas, que a escolha nomeação do Primeiro Ministro é um acto descricionário e solitário do Presidente da República! Em nome do Povo e estribado na legitimidade que lhe advém das eleições directas! E é também por isso (e para isso) que o órgão existe!

Como sabe, Senhor Professor, no sistema semi-presidencialista português a legitimidade política plena do Governo decorre da sua nomeação pelo PR (tendo em atenção os resultados eleitorais e ouvida a opinião dos partidos com representação parlamentar) e da não rejeição do seu programa pela AR! Esta é a “arquitectura constitucional” presente e existente! Olvidar isto e laborar em “esquemas alternativos” é promover a subversão do sistema! Isso sim é uma tentativa de golpe de Estado!
Porque a não aceitação da solução governativa PS-PRD deveu-se a nenhum destes partidos ser o mais votado. E o exemplo do Prof. Vitor Crespo deveu-se ao outros factores... um dos quais o Senhor Professor foi protagonista destacado!

Concordando com os benefícios da estabilidade político-governativa, não compreendo as suas dúvidas quanto «legitimidade política e autoridade institucional» de um PM escolhido pelo PR após audição dos partidos com representação parlamentar! Não vivemos numa “Democracia representativa”? O Povo, na Primavera de 2002, elegeu 230 deputados e neles delegou o exercício da responsabilidade política para apreciar o programa e julgar o exercício do Governo? Faltam ainda 2 anos para se esgotar a legitimidade do mandato. Parece que há uma maioria parlamentar que se dispõe a suportar uma solução governativa de que os 2 anos decorridos são uma parte de um processo de 4 anos, e pelo qual querem ser julgados... no tempo certo! Quer o Senhor Professor interromper um ciclo de quase 20 anos de confiança nas instituições e de aposta na estabilidade?

Serão estas dúvidas suficientes para merecer da Sua parte uma reflexão e, quem sabe, outra posição?"

TAL COMO ELES O CONHECEM
Recomendo. Vivamente. The World As We Know It.
SERÁ DESTA?
Rui Tavares insiste em deturpar aquilo que eu aqui escrevi e, agora, em alinhar-me com outros blogues, partidos e pessoas avulsas. Não que eu me importe. Só não me interessam os argumentos alheios - que podem, ou não, ser diferentes na defesa de uma determinada posição comum. Das três uma: Rui Tavares não percebeu, não quer perceber ou finge não perceber o que eu afirmei. Não é o argumento formalista, da estrita legalidade e legitimidade constitucionais, que me interessa. Ou, pelo menos, o que eu considero mais importante. O que eu digo é simples: não se justifica, nem considero benéfico para o país, avançar para eleições antecipadas, na medida em que considero que as políticas que estavam a ser implementadas pelo governo da maioria (mesmo com futuras e eventuais nuances e diferenças mas, certamente, diferentes das de um partido de esquerda) devem chegar até ao fim da presente legislatura. Tanto mais que este cenário (“não avançar para eleições antecipadas”) também está «protegido» por lei. Ou seja: eu não me agarro à lei, cegamente, para o defender. Mas se a própria lei prevê a hipótese da “não dissolução” da AR, por que carga de água não o hei-de referir se essa é, também, a solução que eu considero melhor? Mais: qual terá sido o espírito e o propósito do legislador para o incluir na lei? Mera caturrice? Não terá o legislador pensado que, em determinados cenários de crise, a "legitimidade política" e a "legitimidade constitucional" podem coexistir ao ponto de justificar a inclusão dessa prerrogativa na lei, de modo a evitar a opção mais radical da "dissolução da AR"?

É a esquerda que parece esquecer que essa via existe e que é sustentável. Legalmente e não só. Repito a pergunta: não é de estranhar não aparecer alguém, à esquerda, a defender a não dissolução do parlamento? Isso sim, é que me parece sinistro.

EH PÁ (DIÁLOGO ENTRE AMIGOS)
Eu percebo-te, . Mas o que não faltam por aí são "Pedros Duartes". No PS, no BE, no PCP, no PND (especialmente aqui, claro). Ok, podes sempre dizer-me que preferes um “Pedro Duarte” do PS a um “Pedro Duarte” do PSD (sobretudo o próprio). Nesse caso, eu digo-te: uma bela de uma urticária para ti, sim? Quanto à «alegada» quebra da "relação de confiança entre eleitores e eleitos"… mas qual relação de confiança entre eleitores e eleitos? A relação de confiança que um socialista ou um bloquista mantinha com o futuro ex-primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso? Ah, sim, claro. Ela que sempre se tinha feito sentir até há quatro dias atrás...
ELES NÃO SABEM NEM SONHAM (LÁ-LÁ, LÁRÁLÁ, LÁ-LÁ)
Entro na “Ler Devagar”. Perguntarão os mais distraídos (como era o meu caso, há cerca de 12 horas): o que é a “Ler Devagar”?. Ora, é uma livraria situada no coração do Bairro Alto. Chega? Não, não chega. Ontem, visitei-a pela primeira vez. Gostei. E apraz-me comunicar que a “Ler Devagar”, para além de uma excelsa livraria, é também uma espécie de último reduto ideológico e bastião cultural da esquerda mais canhota. Basta observar o role de publicação panfletárias de grupos anarquistas, proto-revolucionários, sindicalistas «alternativos» (juro!) ou trotskistas. Na “Ler Devagar” respira-se ideologia, lê-se ideologia, ouve-se ideologia. Só faltam bardos e saltimbancos. Mas é claro que não: vislumbra-se por ali sofisticação a mais para palhaçadas. Entre outras coisas, fiquei a saber, também, que nos podemos divertir à grande na “Ler Devagar”. Numa «ilha» dedicada à actualidade político-social (what else?), no meio de dezenas de Ramonets, Chomskys e Kleins vejo… “On Empire, Liberty and Reform – Speeches and Letters” de Edmund Burke (edição da Yale University Press). Caros leitores: Edmund Burke na “Ler Devagar”. Parece que os estou a ver:

- E este tipo, conheces?
- “Edmund Burke”… não, não estou a ver.
- Mandamos vir?
- Não sei… é arriscado. Faltam-nos "as" referências.
- Espera aí! Já reparaste no título?
- “On Empire…” Fosga-se! (em delírio): é sobre o imperialismo norte-americano!
- Eh pá, manda vir, manda vir!
- Fónix!


DANIEL
Gosto de observar as pessoas. Por vezes, comovo-me facilmente. Ontem, por exemplo: Daniel Oliveira, um dos Barnabés, esteve com a sua filha, no S. Luiz. Deus sabe como eu «embirro», por vezes (será quase sempre?), com a opinião e o estilo «rajada» do Daniel Oliveira (sentimento, presumo eu, recíproco). Mas eis que, ontem, tive a oportunidade de observar a forma carinhosa e atenciosa como o Daniel se dirigia à sua filha (que deve ter, mais ou menos, a idade da minha). Vi o brilhozinho nos olhos do Daniel (um brilhozinho que me familiar). Os abraços que lhe deu. E os bracitos dela agarrados ao pescoço do pai. Não sei porquê, fiquei a gostar do Daniel. Com quem, é bom lembrar, nunca falei. Mas atenção: não confundir com o Daniel Oliveira.

Terça-feira, Junho 29, 2004

JÁ CÁ FALTAVA
O senador Freitas do Amaral também opinou:

"O país está em crise política, económica e social. O próximo Governo precisa de plena legitimidade política. Se Durão Barroso foi escolhido pelo voto de sete milhões de portugueses, deveremos achar bem que o seu sucessor - com todas as dificuldades que vai enfrentar - seja escolhido por 70 dirigentes partidários?"

Tão previsível, o Sr. Professor. Curioso é o facto de reconhecer que o "país está em crise política, económica e social" e, ainda assim, achar conveniente a dissolução da Assembleia da República. É por estas e por outras que, se se descuida, ainda chega a presidente de todos nós.
MAIS PARABÉNS
Ao Memória Virtual. Um ano de blogosfera é obra.
FETICHES
A Sara escreveu: "É claro que não li o "livro" (só o primeiro parágrafo), mas já ouvi falar no Hobsbawm, que não é nada parvo. Compará-lo a Bin Laden parece-me intelectualmente desonesto (yes! sempre quis dizer isto no blog!)".

Pronto, Sara. Agora que já o disse, perceba que eu não comparei o Hobsbawm ao Bin Laden. Que disparate! Hobsbawm não é nada parvo, não senhora. Tentei insinuar apenas isto: o engajamento ideológico de Hobsbawm não fará dele, certamente, a pessoa mais acertada (leia-se "imparcial") para falar de Carlos Marx e do comunismo. E a operação com anestesia bi-polar: correu bem?
A CARREIRA
No Nova Floresta aborda-se a questão do ponto de vista da carreira de Durão Barroso. De forma realista e sem juizos de valor. Interessante.

Segunda-feira, Junho 28, 2004

ISTO DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA NÃO ENTRA NA CABEÇA DE QUALQUER UM
Daniel Oliveira, no Barnabé: "O Contra-Corrente exige um congresso extraordinário do PSD para eleger o novo primeiro-ministro. Eu compro, com uma condição: nesse dia, todos os cidadãos portugueses com mais de 18 anos serão delegados ao Congresso. Não pode ser? Fica uma coisa demasiado popular para o gosto de MacGuffin? Compreendo... O poder não poder cair nas urnas... perdão... na rua."

Pois. Muito engraçado. Daniel Oliveira esquece um pormenor: foi o PSD que ganhou as últimas eleições l-e-g-i-s-l-a-t-i-v-a-s. Espera-se que seja o PSD a resolver a questão. É o mínimo que se pode exigir.

Pelos vistos, para Daniel Oliveira, o poder do Parlamento, emanado da rua após consulta popular, não serve para nada. No fundo, para o Daniel, o Parlamento é só para inglês ver, porque o poder está ali, todos os dias, na rua. Só os bárbaros e as democracias da treta não percebem isto. Veja-se o caso da Inglaterra: “John Major, primeiro-ministro, sucedeu a Margaret Thatcher. Foi escolhido pelos membros do seu partido. Só foi a eleições dois anos depois” (João Miranda no Blasfémias). Uma cambada de idiotas, estes ingleses. Pena o Daniel não os ter esclarecido na altura.
FORA DO CONTEXTO NADA
JMF: a crónica do dia 27 (ontem) de VPV não está disponível no site do DN (a minha única fonte, já que não comprei o jornal). Eu, pelo menos, não consigo visualizá-la. Já tentei tudo, incluindo forçar na barra do endereço o número da edição de ontem do DN. Nada. Daí ter recorrido à mais recente.

Se consegue aceder à dita, agradecia (peço o favor) que me a remetesse via email. O endereço, encontrá-lo-á no canto superior esquerdo deste blogue.

Como vê, e como de costume, não aprecio a mentira e as desculpas esfarrapadas. E não tenho medo de ler opiniões que dizem contrárias à minha. Ainda por cima recomendadas. Não a li porque não consegui. É só.

Obrigado.
NO BLOGUITICA

Will you please stand up?


Mas não passará ele, apenas, de um bom «técnico» (ver 'post' mais abaixo sobre o "racionalismo")? Não lhe faltará experiência e tacto político? Não lhe faltará coragem e margem de manobra política para não sucumbir ao facilitismo e às pressões internas a que está sujeito um chefe de governo? Gostaria de acreditar que não (eu quero acreditar que não!)
EXIJO
Congresso extraordinário do PSD para escolher substituto de Durão Barroso. Até lá, poderiam colocar Manuela Ferreira Leite como chefe interino do governo. Ou Pedro Santana Lopes. Tanto faz.
É TUDO A MESMA CORJA
Iraque:"Teoricamente, hoje é um dia histórico para o Iraque. A coligação que invadiu o país entregou a soberania a um grupo de iraquianos - tão eleitos quanto o seu antecessor Saddam. Para já, não há nada para comemorar.

Pois é: são todos iguais, não são? E ficou tudo na mesma ou pior, não ficou? E quem foi o culpado, quem foi?
POR ACASO, ATÉ CONCORDO
Caro JMF: se era a esta que se referia, «por acaso» até concordo. Em nada contradiz o que aqui escrevi. VPV não se refere à questão da dissolução, ou não, da AR; não se refere à substituição do cargo de PM; nem sequer dá conta da sua preferência em termos de opções constitucionais. Repito o que disse: “Coisa bem diferente é saber se concordei com a decisão de Durão Barroso de aceitar o cargo de Presidente da Comissão Europeia. Para quem se interessar: não concordei.” Durão Barroso não se safa das comparações com António Guterres, embora as razões para a «fuga» sejam bem diferentes. Também creio que o cargo de Presidente da Comissão Europeia reverte mais a favor da pessoa que o ocupa do que a favor do país de origem do plesidente da junta. Mas não há que desvalorizar o poder de influência e as eventuais (por muito poucas que sejam) vantagens políticas que podem reverter a favor de Portugal - apesar de tipicamente portuguesa e patetinha essa ideia da «cunhazinha» agora que o «nosso homem» por lá «manda».

Como diz VPV, preferia ter ouvido Durão Barroso afirmar (seria, até, um orgulho): “Não me ocorreu em momento algum abandonar as responsabilidades que livremente tomei. Por respeito pelos portugueses, pela democracia e por mim próprio.” Coisa bem diferente, é discutir o que fazer a partir de agora. E como fazê-lo.

“Auto-estima”
por Vasco Pulido Valente
“Fantasia, conjectura, propaganda, possibilidade? Ninguém sabe ao certo. De qualquer maneira, a imprensa indígena continua a discutir com entusiasmo a putativa escolha do primeiro-ministro para presidente da Comissão Europeia. É interessante verificar as presunções de que toda a gente, ou quase toda a gente, parte. Em primeiro lugar, nem sequer se discute que a escolha está feita. Quem não trocaria o «horror» da política portuguesa pela grande política de Bruxelas? Que bom treinador de futebol hesitaria um instante que fosse entre «o Alverca e o Manchester United»? Que terrível decisão para o dr. Barroso, agora «cruelmente» dividido entre uma brilhantíssima carreira e os pequenos problemas de um país mesquinho. Há vozes generosas que lhe dizem: «Vá, vá. Amigo não empata amigo. Aproveite a oportunidade. Nós cá nos arranjamos. Veja lá o Guterres, se ele não anda triste.» E há os desconfiados, que não conseguem acreditar em tanta sorte ou a quem a coisa cheira a propaganda. Mas só um ou dois «velhos do Restelo» não concordam que a vertiginosa ascensão de Barroso aos píncaros seria para Portugal uma honra insigne. Pensem bem: um português, nosso, completamente nosso, a «mandar» na «Europa». Que felicidade. E, ainda por cima, além da honra, ficávamos com uma «cunha». Nesta matéria, a esperteza nacional nunca duvida: se ele (o Barroso) não nos puder dar uns tostões por cima da mesa, dá por baixo da mesa. Claro que dá. Não imagino que espécie de conclusão o prof. Marcelo vai tirar deste extraordinário espectáculo de «auto-estima». Para certas pessoas, certamente mal-formadas, o primeiro-ministro devia ter publicado a semana passada o seguinte comunicado: «Não me ocorreu em momento algum abandonar as responsabilidades que livremente tomei. Por respeito pelos portugueses, pela democracia e por mim próprio.»”

in Diário de Notícias (a edição online não merece o link)
O CASO ITALIANO
João Miranda faz eco do que eu afirmei: o caso italiano, apresentado desajustadamente pelo JMF, joga contra aqueles que defendem a dissolução do parlamento e a marcação de eleições antecipadas. Não há que confundir legislaturas com governos.
CALMA
1. Durão Barroso ainda não tomou a decisão.

2. Pedro Santana Lopes pode não ser o escolhido para suceder a Durão Barroso. Pessoalmente, acho que há gente mais capaz no PSD para desempenhar essa função, embora, provavelmente, menos coalition friendly. Ainda assim, creio que são de um exagero desmedido as reacções contra Santana Lopes, como se o homem fosse um perfeito idiota ou tivesse lepra.

3. (agora, para algo politicamente incorrecto) Preferia ver Santana Lopes sentado como primeiro-ministro do que viver a possibilidade de um governo de esquerda (liderado por Ferro Rodrigues) coligado com a extrema-esquerda (uma hipótese perfeitamente plausível). Nesta altura do campeonato, depois do trabalho feito (incluindo o sujo e o impopular) e de tanto sacrifício pedido aos portugueses, seria, certamente, um cenário desfavorável para o país. Mas, repito, preferia outro(s) a Santana Lopes.

4. Há quem defenda o racionalismo aplicado à política, como é o caso do meu amigo maradona, para quem o cargo de primeiro-ministro exige a presença de um ser humano ”que passou os primeiros 30 anos de vida mergulhado em livros, técnicos ou outros (de preferência técnicos), e que tenha sido aprovado com distinção por uma instituição universitária de rererererenome mundial.”. Não acho nada disso. Nada mesmo. Oakeshott explicou-o, muito bem explicadinho. Aqui. Não creio que precisemos de um tecnocrata puro ou de um encartado académico carreirista. Pelo contrário. O tacto, a sapiência, a razoabilidade e a paciência, em política, não se adquire ou assimila by the book. Mas isso levar-nos-ia bem longe e estão neste momento 39º C em Évora. Capice?
A PUTA DA GENERALIZAÇÃO
Rui Tavares no Barnabé: ”Devemos então concluir certamente que aqueles que recusam eleições antecipadas o fazem porque não querem saber do poder para nada.”

Não. Devemos concluir o seguinte:

  1. Existe uma esquerda que reclama por eleições antecipadas, porque:

    a) o doce e inebriante cheiro do poder lhe chegou aos bolbos e receptores olfactivos, querendo, à viva força, aproveitar o momento político, naquela que parece ser uma oportunidade de ouro para saltar para o poleiro;
    b) pensa, desinteressadamente, que, em termos de “legitimidade política”, é a forma mais clara de fazer as coisas.


  2. Existe uma direita que não reclama por eleições antecipadas, porque:

    a) quer manter o poder a todo o custo;
    b) pensa, por razões diversas e também desinteressadas (ou seja, mais viradas para o interesse geral do país), que não se justifica dissolver o parlamento.


  3. Existe uma direita que reclama por eleições antecipadas, porque:

    a) não estando certamente “apegada” ao poder, estando mais ou menos «furiosa» com Durão Barroso, «temendo» ou «embirrando» mais ou menos com Santana Lopes, acredita que, em termos de “legitimidade política”, é a forma mais clara de fazer as coisas.

Pela minha parte, estou-me nas tintas para o poder. As minhas explicações já foram dadas, em ‘posts’ anteriores. Chamo, apenas, a vossa atenção para um pormenor: onde está a esquerda que não reclama por eleições antecipadas? E eu adoraria, ó se adoraria!, saber qual é a percentagem de uns (1.b) e de outros (1.a).
O REPTO
JMF lança-me o repto: ”Agora é a minha vez de fazer uma adenda: porque não transcreve o MacGuffin, na íntegra, a crónica de VPV no DN de hoje, como já fez noutras ocasiões?”

Acredite se quiser, mas ainda não a li (a edição on-line do DN é uma bela me***). Se dela discordar, é provável que não a publique. Onde é que está o problema? JMF publica (todas) as crónicas de que discorda? É natural que publiquemos as crónicas com as quais concordamos. É uma forma de, por interposta pessoa, afirmarmos o nosso ponto de vista. Por vezes, publicamos aquelas de sinal contrário para daí, i.e., desse ponto de partida, construirmos a nossa argumentação. Na matéria em apreço, julgo já o ter feito, antes de ler, “na íntegra, a crónica de VPV”. Porque não a transcreve o JMF? Será por medo de conspurcar o seu blogue com as palavras de um «infame»? E descanse: se discordar desta crónica, em particular, não deixarei de ser seguidor canídeo do VPV.
TÃO RÍDICULOS E MESQUINHOS QUE NÓS SOMOS
Primeiro, foram os SMS’s: “Cuidado com o Santana”, “Santana: nunca!”, como se Santana (Lopes) fosse sinónimo de “Santanás”. Depois foi a Manif «espontânea» perante o iminente fim do mundo (incluindo o pavonear de personagens públicas, como foi o caso de uma Helena Roseta febril). Agora é uma petição on-line: “não a Santana Lopes! Antecipadas já! envie msg ao PR e assine petição. divulgue!”. Meu Deus!: o homem dos “concertos para violinos de Chopin” ao leme?!

Em Portugal, a esquerda (ou uma “certa esquerda”, para não abusar das generalizações) não pára de surpreender. Quando julgávamos já ter visto tudo, eis que 2.500 cidadãos (numa televisão eram «milhares», ou seja, qualquer número entre 1 e 999 mil) nos dão a reconhecer o mais pueril dos moralismos e o mais gritante oportunismo politiqueiro, disfarçado de "altruísmo desinteressado" e "ética democrática". Mas sobre o assunto, já escrevi.

Faço, apenas, um derradeiro pedido: posso dizer, ao mesmo tempo, que: 1) gostaria que Durão Barroso ficasse; 2) tomada a decisão, apoiarei a sua ida para Presidente da Comissão Europeia; 3) não concordo com, não julgo necessária e não me parece razoavelmente justificável a decisão de dissolver a AR e convocar eleições antecipadas? Posso? Obrigado.

Domingo, Junho 27, 2004

ADENDA
Escreve o JMF: "E agora (...) ainda lhe digo que a minha convicção de que, se não houver eleições, haverá um novo governo baseia-se, não em «fontes secretíssimas», mas apenas... na Constituição." Certo. Mas o JMF ainda não me entendeu: quem lhe disse que tudo será diferente (estratégia, programa, rostos, etc.)?

Quanto à Itália, os exemplos apresentados nada significam. Se fosse esse o critério - o dos exemplos isolados, ad hoc - todas as democracias ocidentais chumbavam no exame. Em todos os países democráticos e civilizados, existe corrupção, impasses e disfunções nas mais diversas áreas, incluindo a da Justiça. Aliás, foi o próprio JMF que me deu razão: "A Itália teve mais governos no pós-guerra do que nós desde os famosos governos de Dona Maria e a última vez que olhei para a lista dos G7 ainda lá estava. A tal «maturidade» democrática de que fala, aguenta bem uma ida às urnas." (sic). A Itália é um bom exemplo de como o Estado - nas mais diversas instituições que o constituem e representam - funciona apesar de toda a turbulência política e social.

Sábado, Junho 26, 2004

ESTÁ CONFIRMADO
Pedro Santana Lopes é o novo idiota à lá Bush, para consumo interno. Com uma nuance: em vez da «religiosidade exarcebada», temos a «mulherenguice aguda».
RENÃO, CARO JMF
Primeiro: eu não estou contra a ida de Durão Barroso para a «Europa». Preferia que não fosse. Coisa bem diferente.

Segundo: "não há qualquer problema em irmos para eleições"? Pudera... Se a Direita está "agarrada" ao poder, o desejo de "eleições antecipadas", por parte da esquerda, é puramente altruísta e desinteressado, não é?

Terceiro: o exemplo italiano é, caro JMF, infeliz. É que o Estado, em Itália, funciona mesmo: mesmo com «instabilidade», sem governo ou com governo, com eleições todos os meses ou nem por isso. A máquina, por lá, está muito bem oleada.

Quarto: não o sabia tão bem informado ao ponto de afirmar, peremptoriamente, que "pura e simplesmente, haverá um novo governo, com novo programa e novos rostos". Baseia-se no quê, para afirmar isso? Fontes secretíssimas?

Quinto: por falar em "humor falhado", apreciei a tirada "à esquerda, o que objectivamente mais lhe interessaria seria mesmo um novo governo, de preferência com Santana e Portas à frente". Nice.

Por último: folgo muito em saber que o meu amigo não é contra a ida de Durão para Bruxelas. Desculpe, então, tê-lo arrastado numa generalização que envolvia a "esquerda".

PS: Quanto ao JPP e ao seu Abrupto, apesar de concordar quase sempre com as suas posições, nesta matéria não me parece que comungue do mesmo tipo de «inquietações». Até porque, confesso, ainda não o entendi. Aguardo, por isso, desenvolvimentos.
ppl: get it?

(cortesia O Acidental)
QUANDO O DOCE E INEBRIANTE CHEIRO DO PODER LHE CHEGA AOS BOLBOS E RECEPTORES OLFACTIVOS
(actualizado)
1. A boa da esquerda – para quem a colocação de António Vitorino (um português) como Presidente da Comissão Europeia representaria “uma vitória” e “um prestigio” para Portugal – vê-se grega para aceitar, na mesma medida, a ida de Durão Barroso para Bruxelas. É certo que tenta disfarçar. Mas muito mal. Entusiasmada pelo resultado das eleições europeias (onde putativamente alcançou uma "estrondosa" vitória...), desperta, agora, para outros voos. A oportunidade parece ser de ouro. Os elementos agrupam-se, os argumentos – sólidos, obviamente seríssimos e sempre a pensar no interesse geral do país – já brotaram das mais iluminadas cabeças. Ontem, na SIC Notícias, os olhos de António José Teixeira brilhavam. Hoje, na blogosfera, há já quem esfregue as mãos perante a perspectiva de colocar, no olho da rua, o nefasto governo de direita. Tudo serve para justificar a dissolução da Assembleia da República (AR): ”É claro que, se Durão Barroso se demitir de primeiro-ministro, o país deve ir para eleições antecipadas. A Constituição permite que isso não acontece, mas a legitimidade política não se faz apenas da legitimidade que está na lei. Os portugueses votaram nele para primeiro-ministro - as eleições legislativas são altamente personalizadas. A pessoa e o projecto que foram escolhidos foram os de Durão Barroso, não do PSD.”. Mais: “Tendo em conta o trajecto presidencial de Jorge Sampaio, é de esperar que não haja eleições antecipadas. Sampaio fará mal e estará a contribuir decisivamente para a criação de uma situação política com todos os ingredientes para acabar mal, muito mal.”. Pelo meio, JMF fala, ainda, em boa-fé vs. má-fé.

Exacto. Só por má-fé alguém pode, agora, agarrar-se a essa coisa da “legitimidade política” separando-a da “legitimidade constitucional”, como se esta não passasse de “lei”, e como se a “lei” fosse uma coisa artificial, abstracta e formalista, uma espécie de «aberração» vazia de sentido.

Entre: a) dissolver a AR e marcar eleições antecipadas, conduzindo o país para mais um processo de lutas pré-eleitorais, interrompendo uma legislatura a meio numa altura em que o país precisa de estabilidade, contenção e alguma tranquilidade; e b) manter no activo o elenco da AR, sustentar um governo que está a meio da sua legislatura, emanado da mesma AR, a qual, por sua vez, resultou de um acto eleitoral que supostamente deverá ocorrer de quatro em quatro anos; um governo de muitos rostos e com uma estrutura real e funcional; um governo que tem um programa e uma estratégia no activo, e que tem tentado (bem, mal ou assim-assim) a prossecução dos mais diversos objectivos (gerais e particulares);

a esquerda prefere fazer tabula rasa de tudo - até porque, hey!, a oportunidade é uma boa oportunidade, não é? E o governo é um mau governo, não é? E general que sai, guerra que acaba, não é?

2. Durão Barroso pode sair sem que isso implique nova auscultação popular, vulgo eleições. Até porque, convém lembrar, Durão Barroso não era o governo. Era, sem dúvida, o chefe. Era, sem margem para dúvidas, quem dava a cara. Mas perante as actuais circunstâncias, ou seja, perante a iminência de um primeiro-ministro abandonar o seu cargo por razões não «internas», é para isto que existem vice-presidentes, é para isto que existem partidos, foi, também, para isto que votámos num partido e não apenas numa pessoa e é, sobretudo, para isto que existe um Parlamento.

3. Voltam ao de cima, uma vez mais, os dramas, as «indignações», os «problemas» que nos relembram quão jovem é a nossa democracia e quão recorrentes são os traços do nosso endémico provincianismo. Só por falta de maturidade e por um apego sem tréguas à «esperteza saloia», se pode tentar transformar este caso num drama shakespeariano - repleto de desmaios, indignações, «gravosas» consequências e ”ingredientes para tudo acabar mal, muito mal” – ou tentar retirar da situação dividendos políticos, com o poder no horizonte.

4. Coisa bem diferente é saber se concordei com a decisão de Durão Barroso de aceitar o cargo de Presidente da Comissão Europeia. Para quem se interessar: não concordei.

Sexta-feira, Junho 25, 2004

PARABÉNS
De parabéns está, também, o João "JMF". O seu Terras do Nunca (com novo visual) celebra hoje um ano - o que, na blogosfera, significa já a maturidade. Cheers!

Quinta-feira, Junho 24, 2004

GRANDES RICARDOS!
O Carvalho (outra vez, outra vez, outra vez)...



E o simplesmente...



PS: E não é que o comentário de Jorge Bento se revelou premonitório?

Quarta-feira, Junho 23, 2004

OIÇAM A VOZ
O Tiago anunciou a boa nova: a edição, em DVD, da série de desenhos animados Conan - O Rapaz do Futuro. Não, os caros leitores ainda não perceberam: Conan, O Rapaz do Futuro foi a ‘minha’ série. Foi o meu primeiro objecto de culto em televisão. Os episódios em torno de um tsunami ainda hoje me perseguem. E mais não digo. Por uma questão de decoro.

Terça-feira, Junho 22, 2004

FILOSOFIA POLÍTICA NA FEIRA DE S. JOÃO
Évora, 21 de Março, 22:30, recinto da Feira de S. João. Alguém teve a ideia de pagar uma rodada de cerveja. Ninguém pediu, mas alguém o fez. A seguir, foi a vez do meu amigo L. pagar a “sua” rodada. Quando toda a gente esperava que eu pagasse a minha… pisguei-me. Zarpei. Pus-me a milhas. Os que não me conhecem, poderão pensar que: a) o exercício de evasão foi a típica atitude do típico «chico-esperto»: beber à bórliu para, no momento crítico (leia-se “da reciprocidade”), escorregar dali para fora; ou b) eu sou um incorrigível resmelengo, somítico, ‘come-em-vão’. Nada disso. Comigo a coisa é sempre mais complexa. Como diz a minha filha: eu complico sempre tudo. Foram várias as razões: 1.ª) há quem não goste de iogurtes; eu não gosto de feiras; 2.ª) estava cheio sono; 3.ª) se eu não pedi rodada alguma, por que carga de água (neste caso “de cerveja”) haveria de pagar a “minha”?!; e 4.ª) (associada à 3.ª), eu funciono sempre pela lógica da psicologia invertida: "aí é assim? Então tomem lá assado".

Certo, certo é que, passados alguns minutos, já em casa, recebo, via sms (a nova praga), a seguinte mensagem da R.: “Bebes e depois não pagas? Bonito!”

Pois. A velha e boa discussão do «consentimento tácito». O Sr. Hart e o Sr. Rawls contra o Sr. Nozick. As “political obligations”, os “natural rights”, o “principal of fairness”. Descansem que já lá irei.
(só por isto já valeu a pena não pagar a rodada. Agora, deixem-me jantar. E descansar.)
PRONTO, PRONTO
O leitor Jorge Bento chega-me nas orelhas: ”Então o meu caro comenta o golo do Abromovich e não comenta o golo que nos leva aos 4ºs final? Antes prefere fazer um elogio ao grande Ricardo Carvalho. Será o mesmo que, se formos campeões da Europa, no dia a seguir o meu amigo fará um post individual a elogiar o Ricardo (e o guarda redes, porque não ?)”

Caro Jorge Bento: pois que sim, que estiveram todos bem. À excepção do Ricardo Carvalho: este esteve ainda melhor. Como disse o Mourinho, e com razão: o Ricardo Carvalho fez um jogo absurdo. Eu diria mais: brutal. Foi, para mim, o melhor jogador em campo (logo a seguir: Beto e Costinha; e, claro, Nuno Gomes, mas «só» pelo golo.)
FROM DE BOTTON
O Rooney refere que leu todos os livros do Alain de Botton. Humpf… as if! Sobre o de Botton, apraz-me dizer o seguinte: How Proust Can Change Your Life é um dos mais deliciosos e provocantes easy-to-read-but-not-quite-as-you-think-it-is livros que li nos últimos tempos (melhor que The Consolations of Philosophy). Gosto mesmo muito do Botton - isto, é claro, se o Rooney me der licença (pois, pois, leu os livros todos…).

Domingo, Junho 20, 2004

RICARDO CARVALHO
Grande, grande jogador.

COMMIE
A Sara dá-nos a conhecer o seu fetiche nº. 4: The Communist Manifesto - A modern edition, Karl Marx and Frederick Engels, with an introduction by Eric Hobsbawm, Verso, 1998.

Que desilusão. Toda a gente sabe que a melhor edição do manifesto é esta: The Communist Manifesto, Karl Marx and Frederick Engels, with and introduction by A.J.P. Taylor, Penguin Books, 1985.

Pôr o Hobsbawm a prefaciar o Manifesto Comunista, equivale, mais ou menos, a pedir que Bin Laden faça a recensão crítica do Corão (ooopps...).


Sábado, Junho 19, 2004

CONFIEM EM MIM
Este disco é muito bom. Mesmo.


Forum West, Modern Jazz From West Germany - Wewerka Archive 1962-1968 (Sonar Kollektiv)

Sexta-feira, Junho 18, 2004

ZLATAN
O golo do Ibrahimovic foi... er... bem... foi... do outro mundo?

Vi o Itália-Suécia e confirmo: a seguir a Portugal, sempre torci - e continuarei a torcer - pela Itália. Não sou, como já referi, um entendido em futebol. Mas pressinto e conheço algumas coisas. Sei que nem sempre a Itália pratica um futebol «bonito». Mas quando a Itália joga bem, retiro um prazer enorme em ver futebol. Quando a Itália joga bem, vislumbro nos passes, pontapés, fintas e movimentações, a marca de um ethos futebolístico, a experiência e o peso da civilização romana a vir ao de cima. Hoje, por exemplo, a Itália jogou de forma a criar "um período de antecedência do prazer bastante extenso e excitante" ao ponto de conduzir ao "clímax" (mental, atente-se). Não sei o que quis dizer com a pretérita frase (que roubei a um tal de Norbert Elias). Suponho que tal se fique a dever ao facto de, em si mesma, a frase não significar nada. Ainda assim, parece-me adequada. Até porque a Sara garante que o Sr. Norberto é um "doente por futebol", logo mais um «especialista» - apesar, é certo, de ser um "sociólogo brilhante", facto que, por si só, pressagiava formas incognoscíveis e tenebrosas de perscrutar o que está por detrás de um pontapé na bola (que não o pé e a perna do jogador). Por último, fiquei a saber que existe (há quem jure a pés juntos que sim) uma "Sociologia do Desporto". 'Da-se!

Still, be that as it may... perdi-me no que queria dizer.
E PORQUE HOJE É SEXTA-FEIRA
(actualizado)
Não tenho nada para dizer, a não ser isto: o 9.º livro da excelente (em tudo: grafismo, encadernação, papel, etc.) colecção Horas Extraordinárias, publicada no Independente, chama-se Vida Independente e é da autoria de João Pereira Coutinho. Trata-se de uma colectânea de crónicas publicadas pelo ‘jota pê cê’ ao longo de cinco anos (1998-2003), não só no Indy, mas sobretudo (a excepção vai para o brilhante "A putinha da Bovary", publicada na revista Os Meus Livros).

Eu queria, Ó se queria!, escrever alguma coisa sobre o livro e sobre o João. Mas não posso. E não devo. Não posso, porque acabei de ler os prefácios do Miguel Esteves Cardoso e do Alberto Gonçalves. Está lá tudo o que eu queria dizer e muito melhor dito. Não devo, porque acabaria, certamente, a dar conta da inveja que tenho do Miguel e do Alberto.

Porque hoje é sexta-feira, pouco ou nada há a acrescentar. A não ser, talvez, isto: muito obrigado João.

PS: comprei vários, para oferecer. Um deles vai direitinho para o sr. maradona. Estava a pensar oferecer um exemplar ao Prado Coelho. E outro ao Augusto M. Seabra. E outro, ainda, ao Boaventura Sousa Santos. Mas não sei se deva.

Quinta-feira, Junho 17, 2004

PROVOCAÇÃO INTELIGENTE
No Terras do Nunca: "Será que o Contra-a-Corrente ainda não percebeu que o que está a dar, entre a malta da direita inteligente, é fechar o blogue?"

Caro João: isso quer dizer que tenho de fechar o meu?

Quarta-feira, Junho 16, 2004

AO MENOS...
O Francisco, perdão, o Aviz faz hoje um ano. Portanto, um ano. Em compensação, consta que não vai acabar. Obrigado Francisco. Um grande abraço, aonde quer que estejas.
MERDE
O Comprometido Espectador comemora, hoje, o seu primeiro aniversário. Hip hip hurrah!

O Luciano Amaral decidiu, hoje, acabar com o Comprometido Espectador. Snif… Não há mesmo nada a fazer, Luciano?

Um grande abraço, então. E obrigado por teres criado um dos mais interessantes blogues da blogosfera lusa.

A PROPÓSITO DA TOLERÂNCIA INSÍPIDA E DO RESPEITO PELA OPINIÃO CONTRÁRIA
Recebo missiva muito interessante de Fernando Gomes da Costa, que passo, de imediato, a reproduzir:

”Liberdade ou tolerância?"
Podem escolher qualquer cor, desde que seja preto (Henry Ford sobre a possibilidade de escolha da cor do Ford T)
Circula neste momento pela Internet um abaixo-assinado com o título “Mulheres em medicina sim, retrocessos não!” que se refere às declarações do ministro da Saúde sobre o facto de haver uma cada vez maior prevalência de mulheres em medicina, tendo ele aludido a uma possível menor disponibilidade das mulheres para se dedicaram por inteiro à profissão médica - decorrente das suas "responsabilidades em termos domésticos e em termos de vida familiar".
No abaixo-assinado exige-se, face à opinião emitida, a retractação do ministro, bem como a sua eventual demissão.
Sempre fui contra as quotas como elemento de “correcção” social. Sou médico e, por isso, estou particularmente à vontade para continuar a ser anti-quotas em relação ao assunto em causa. Seria bem mais complicado em termos de coerência sempre ter sido contra e agora a favor, ou vice-versa…
Mas não é concretamente o problema da percentagem de mulheres em medicina ou a maior ou menor importância da vida familiar e doméstica em relação à profissional que me inquieta neste momento. Aquilo que me preocupa é o facto de se achar que alguém, mesmo que seja ministro, pelo simples facto de emitir uma opinião, seja obrigado a retractar-se. Compreenderia a atitude se estivesse em causa um acto concreto, um insulto, uma violação à Lei, ou qualquer outra acção ilícita ou imoral. Mas o que se passou foi a análise de uma situação, eventualmente a opinião sobre um problema. Obrigar alguém a retractar-se ou a demitir-se por ter uma dada ideia ou interpretar um facto choca flagrantemente com a ideia de liberdade. É algo que cheira intensamente a Inquisição, Pide, Fascismo ou Estalinismo.
O mais preocupante é que esta atitude de condenar as pessoas e pedir a sua demissão por terem emitido opinião diversa do que é politicamente correcto está a tornar-se recorrente e passa nos jornais e nos cidadãos com total naturalidade. Cada vez têm mais força e ressonância alguns sectores ditos intelectuais que se julgam donos da verdade e iluminados em relação ao caminhos que a humanidade deve tomar. Há assuntos como a homossexualidade, igualdade, globalização, religião, racismo e muitos outros em que se passou de um certo tipo de moralismo retrógrado para outro moralismo de sinal contrário, mas não menos reaccionário, embora geralmente com o rótulo de progressista, que de igual modo não admite contestação. Quem ousar, hoje em dia, divergir dessa cartilha neo-moralista arrisca-se, se tiver sorte, a ser silenciado, e se for ouvido a ser proscrito socialmente.
Talvez por isso, e significativamente, esses sectores não advogam o respeito pelas ideias diferentes mas veneram a “tolerância”. Ora, a tolerância, por definição, é a típica atitude (com limites, note-se) de quem está certo em relação a quem está errado. Tolerar não exige discussão de pontos de vista nem troca de argumentos, uma vez que, à partida, está definido quem tem razão. Tolerar uma ideia, em vez de a respeitar, é no fundo uma narcisista posição de magnanimidade de quem está convencido de que às suas certezas apenas se opõem os erros dos outros, tal como o estavam os Torquemadas, Hitlers e Estalines da História.
Quando um médico, por exemplo, manifesta perante colegas a sua opinião sobre a maneira de tratar um determinado doente, não interessa que tolerem a sua opinião, mas que o ouçam e discutam, com ele, as razões por que ela pode estar certa ou errada. É o caminho mais seguro para escolher como tratar o doente. E a verdade é que a sociedade está doente…

Confirma-se: ainda há gente de bom senso e lúcida neste país. Obrigado Fernando. Escreva sempre.

Terça-feira, Junho 15, 2004

ÉVORA, 12:30 h: 35ºC. RESOLUÇÃO/PROJECTO DE VIDA
Passava a maior parte do tempo enfiado numa banheira olímpica. De início, a água tinha de estar no limiar do suportável. Com o passar dos minutos, lá ia arrefecendo. Espuma abundante. Quarto climatizado. À volta da banheira, apoiadas em bancos, cadeiras e mesas, espalhava as coisas que davam sentido à vida: café, whiskey, gelo, cigarros, comida, livros, jornais, bloco de notas, caneta e telefone. Quando alguém chegava, era convidado a tirar a roupa e a entrar. Sem segundas intenções, atente-se - apesar das sugestivas e suculentas estagiárias. Era assim com Vinícius. De Moraes. Ele, que a sabia toda.
A VASSOURADA
No rescaldo dos resultados das eleições europeias, Daniel Oliveira publica um ‘post’ no Barnabé onde, por cima da imagem de uma vassoura, escreve “E a limpeza continua”.

É assim que o Daniel Oliveira e a boa gente do Bloco de Esquerda gostam de observar os seus adversários políticos: uma máfia de gente virulenta e hedionda, que arrasta atrás de si um lastro de sujidade que importa «varrer» e «expurgar». Neste inocente e singelo ‘post’, podemos observar a pior face da pior esquerda: a arrogância e a demagogia da bestialização dos seus antagonistas; a natureza panfletária do seu modus operandi; a auto-complacência de mãos dadas com a presunção de quem se julga puro, perfeito, magistral e primoroso, sempre com a razão do seu lado. Afinal de contas, «eles» são pela paz, «eles» são pelo «social», «eles» são pelas minorias, «eles» são pela desratização da vida política portuguesa.

Juntamente com o cartaz do padeiro caceteiro, aquela vassoura compõe a marca indelével do Bloco: a meio caminho entre a presunção e a altivez, passando pela arrogância de quem se julga acima da ralé e do «sistema».
SEMPRE NA CRISTA DA ONDA
Espantoso: o Daniel Oliveira é sempre tão previsível, enérgica, ideológica e insipidamente politiqueiro!

Take it easy, man. Be cool!

Segunda-feira, Junho 14, 2004

ESPECIAL ELEIÇÕES EUROPEIAS!!!

É a loucura!
E pronto. Com uma abstenção a rondar os 62%, a esquerda lá fez a festa: a direita ímpia, neoliberal, neoconservadora, belicista, bushista, extremista, machista (?), passadista (??) e materialista (???) foi derrubada!! Cool.

Longe de mim estragar a festa, mas gostaria de lembrar duas coisinhas:

1.ª) Pela dimensão da abstenção, pelo clima emocional que se viveu (a morte violenta e trágica do cabeça de lista do principal partido da oposição), pela natureza e objecto destas eleições (não foram umas legislativas), pela conjuntura económica que ainda se vive (quem foi votar tê-lo-á feito, sobretudo, como forma de manifestar a sua insatisfação) - por tudo isto, qualquer extrapolação de resultados e quaisquer leituras políticas «internas» estarão enfermas de subjectividade, falta de rigor e enquadramento;

2.ª) As eleições para o governo serão só em 2006. Não sei se repararam, mas Durão Barroso continua a ser o primeiro-ministro de Portugal. Ainda assim, é bom que Durão Barroso retire algumas pequenas ilações. Por exemplo esta: tocar no situacionismo e melindrar os interesses estabelecidos não é lá muito popular.

A esquerda que leve, então, a taça e trate de ampliar, até à exaustão, o «fiasco» eleitoral da direita. Só lhe fica bem. Como diria o meu pai: “se queres ver um pobre soberbo, dá-lhe a chave de um palheiro.” Sem ofensa, é claro.

Abstenção
Razões para tão alta abstenção? Pelo menos, três:

1. A sensação de que «eles», lá na «Europa», decidirão o que tiverem que decidir sem dar cavaco a ninguém;
2. A falta de consistência, motivação e poder de mobilização do projecto europeu, que nada diz a ninguém;
3. A maturidade do eleitorado na assumpção de que há liberdade e legitimidade para votar, mas também, e ao contrário do que o Dr. Sampaio insinua, para não votar (a propósito, ler a crónica do João Pereira Coutinho)

As questões mais prementes
Um pouco por todo o lado, assistiu-se ao crescimento da abstenção e da votação nos partidos mais eurocépticos. Pergunto: como é que os «artífices», burocratas e líderes da UE estão a pensar enquadrar, neste cenário, a aprovação de uma Constituição Europeia (caso mais gritante: Inglaterra)?
Com mais um puxão de orelhas do Sr. Prodi? Com mais umas boquinhas do Sr. Chirac dirigidas aos «maus alunos»? Com o reforço do eixo e do directório franco-alemão? Com a introdução de mais uns parágrafos ocos na Constituição Europeia, sobre nada e coisa nenhuma?

Domingo, Junho 13, 2004

A PRAIA

To the Sea
To step over the low wall that divides
Road from concrete walk above the shore
Brings sharply back something known long before –
The miniature gaiety of seasides.
Everything crowds under the low horizon:
Steep beach, blue water, towels, red bathing caps,
The small hushed waves’ repeated fresh collapse
Up the warm yellow sand, and further off
A white steamer stuck in the afternoon –

Still going on, all of it, still going on!
To lie, eat, sleep in hearing of the surf
(Ears to transistors, that sound tame enough
Under the sky), or gently up and down
Lead the uncertain children, frilled in white
And grasp at enormous air, or wheel
The rigid old along for them to feel
A final summer, plainly still occurs
As half an annual pleasure, half a rite,

As when, happy at being on my own,
I searched the sand for Famous Cricketers,
Or, farther back, my parents, listeners
To the same seaside quack, first became known.
Strange to it now, I watch the cloudless scene:
The same clear water over smoothed pebbles,
The distant bathers’ weak protesting trebles
Down at its edge, and then the cheap cigars,
The chocolate-papers, tea-leaves, and, between

The rocks, the rusting soup-tins, till the first
Few families start the trek back to the cars.
The white steamer has gone. Like breathed-on glass
The sunlight has turned milky. If the worst
Or flawless weather is our falling short,
It may be that through habit these do best,
Coming to water clumsily undressed
Yearly; teaching their children by a sort
Of clowning; helping the old, too, has they ought.

Philip Larkin, in High Windows 1974


DIA QUÊ?


QUANDO UMA EXCELENTE CANÇÃO POP (LEVE, CLÁSSICA E IRRESISTÍVEL) NOS BATE À PORTA
O Miguel Esteves Cardoso tinha razão. E o Nuno também. Os Keane podem nunca mais fazer nada de significativo (o mais provável). Mas fizeram, com "Somewhere Only We Know", uma grande canção pop. Daquelas que, a brincar a brincar, nos põe a lamber as feridas. A propósito, já vos falei do que disse o Alain de Botton...

Oiçam-na:

Real One Player ou Windows Media Player

"And if you have a minute why don't
we go
Talk about it somewhere only we know?
This could be the end of everything
So why don't we go
Somewhere only we know?"

Sábado, Junho 12, 2004

REFLEXÕES EM "DIA DE REFLEXÃO"
1. Toca a retirar as bandeirinhas.

2. Portugal perdeu. Durão Barroso está tramado.

3. A jogar assim, Portugal não vai lá. Faço minhas as palavras do Carlos Amorim: “Uma equipa desgarrada, um jogo sem qualquer fio lógico, cada um a correr para seu lado, substituições tardias, erros fatais - Paulo Ferreira e Ricardo no primeiro golo, Cristiano Ronaldo no penalti.”

4. Provavelmente, não irei votar.

5. Afinal, depois de o escutar com mais atenção, o último álbum dos Zero 7 não é assim tão chocho.

6. O que é um “Dia de Reflexão”?

7. O Alain de Botton é que tinha razão: “There are few things humans are more dedicated to than unhappiness. Had we been placed on earth by a malign creator for the exclusive purpose of suffering, we would have good reason to congratulate ourselves on our enthusiastic response to the task”.

HALIFAX E CHAMBERLAIN
Sobre o excelente post do Luciano, dirigido ao André Belo (do Barnabé), recomendo, de facto, a leitura do texto de Isaiah Berlin (o link está no blogue do Luciano), que poderá (eu diria "deverá") ser encontrado em “Personal Impressions” (Pimlico, 1998). Contudo, o livro a ler, acima de tudo (já que o assunto é a relação Churchill-Chamberlain e a famosa doutrina do appeasement), é o brilhante ”Five Days in London” de John Lukacs (Yale University Press, 2001). Nele são reproduzidas, com um detalhe surpreendente e esclarecedor, as movimentações que opuseram as várias sensibilidades no seio do governo inglês, naqueles que foram os anos mais decisivos para o desfecho da II Guerra. Fala-se muito em Chamberlain, mas esquece-se sempre que o appeaser mor foi Halifax. Nele encontramos a quinta-essência do denominado appeasement - expressão que está longe de ser um chavão mais ou menos difuso ou infundado. Foi a substituição de Eden por Halifax (para o cargo de foreign secretary), conduzida por Chamberlain, que precipitou muita coisa e, numa primeira fase, tirou o sono a Churchill. Não nos podemos esquecer que, das muitas visitas que prestou a Hitler, Halifax passou a considerar Goebbels uma pessoa “francamente atractiva”, um tipo “extremamente simpático e interessante”. Chegou a dizer que o “misticismo” de Hitler era idêntico ao de Gandhi. Em Novembro de 1937, Halifax escreveu a Chamberlain para lhe transmitir que, após reunião com Hitler, achava que a questão que eventualmente oponha a Inglaterra à Alemanha era meramente “colonial” e não europeia (uma ideia totalmente errada). Halifax tentou, em determinadas alturas, manipular a imprensa no sentido de não «afrontar» Hitler e a Alemanha. Após a visita de Wiedemann, adjunto de Hitler, a Inglaterra, sugeriu que “gostaria de ver, como culminar do seu trabalho diplomático, o Führer a entrar em Londres, ao lado do rei e aclamado pelo povo inglês”. Halifx foi, certamente, a personagem que mais contribuiu para alimentar uma atitude de benevolência para com Hitler, permitindo a edificação de uma espécie de cortina de fumo sobre a verdadeira natureza e as verdadeiras intenções de Hitler para a Europa. Não que Halifx fosse cúmplice de Hitler, ou simpatizante do modus operandi nazi. Provavelmente, as razões eram nobres e vinham no seguimento da ideia da "injustiça Versalheana" (injustiça, diga-se, bastante discutível). Mas a melhor razão terá sido resumida por Oliver Harvey: “Halifax parece cegar-se a si próprio quando é confrontado com factos desagradáveis e é ingénuo e jesuítico na forma como circunda os cantos mais obscuros da sua mente”. Neste, como noutros aspectos, Churchill era de outra linhagem. O resto, é História.

Sexta-feira, Junho 11, 2004

ERRADO E BÁSICO, DISSE ELA
Lolita, do blogue Blogame Mucho (de quem sou, agora, intimo), critica a forma "básica" e "desapropriada" (face ao momento "histórico-político" (sic)) como critiquei Mário Soares. Afirma, entre outras coisas, que eu não passei das adjectivações e que não terei dado o benefício da dúvida face a uma frase "se calhar" mal dita, afocinhando num infantil e indignado “facilitismo demagógico” (sic).

Com a devida vénia, e para encerrar, de uma vez por todas, a questão "Soares", quem não esteve à altura do momento "histórico-político" (sic) foi Mário Soares com aquela frase. Não fui eu. Que eu saiba, Mário Soares não clarificou, ou esclareceu, a posteriori, as suas afirmações. Nesse sentido, estou de acordo com a Lolita: o momento "histórico-político" (sic) exigia, de facto, menos demagogia. Soares deveria sabê-lo.

Partimos, então, de pontos diferentes. Lolita acha que a frase não foi intencional, ou seja, que escapou, inocente, da boca de Mário Soares, num momento que era difícil, de consternação. Eu, que já conheço a «personagem» de há muitos anos, e que sobre ela já escrevi muita ‘posta’, ponho em causa a candura e irreflexão dessa gaffe casual. É isso que me separa da Lolita, e não qualquer tipo de "facilitismo demagógico" (mas se ela insistir, também pode ser). Não é de agora aquilo que penso de Mário Soares. Talvez por isso não possa, nesta altura do campeonato, i. e., tendo em conta o Soares de hoje, conceder-lhe o benefício da dúvida.

Por último, e para acabar de vez com a cultura, deixo um excerto de uma das muitas 'postas' que, nestes últimos doze meses, dediquei à figura enigmática (que o é) do Dr. Soares.

"Mário Soares é uma figura incontornável da história portuguesa contemporânea. Falo de uma pessoa que influenciou para sempre o destino do pais – antes e depois de 74. A ele, embora não só, devemos a instauração de um regime democrático. Devemos à sua perseverança e coragem - bem como à de Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa, Ramalho Eanes e outras figuras de back-office - a travagem que impediu a estalinização e militarização de Portugal (no PREC e no seu aftermath). Também a ele devemos a boa negociação que permitiu a entrada de Portugal na então CEE. Como governante, Soares não teve tarefa fácil. Governou em períodos conturbados, com o pais em constantes derrapagens orçamentais e financeiras. Mais tarde, assistimos a um Soares em grande forma, a arrecadar de forma surpreendente a corrida para a presidência da república. Sobre o cargo, pode hoje dizer-se que o desempenhou de forma mais ou menos pacífica, tendo sido um apologista da tolerância e da pacificação entre órgãos de soberania. Entre alfinetadas aos governos de Cavaco – umas vezes injustas, outras vezes justíssimas - lá foi levando a sua água ao moinho. Foi sempre corajoso, e certo, na forma como tem afrontado o regime de Angola. Tudo isto corporizado numa figura bonacheira, simpática, com uma postura fleumática e denotando, por vezes, um excelente sentido de humor. Este é, em traços gerais, o retrato rosáceo de um político que todos se habituaram a respeitar e, nalguns casos, a venerar. Uma espécie de referência do Portugal democrático.
Mas, em Mário Soares, existe um outro lado. Existe um lado mais obscuro, difuso, incerto e, certamente, menos pacífico. E é esse o lado que Mário Soares tem dado a conhecer, de há uns anos a esta parte. NO fundo, o Soares de agora – o da defesa da corporação ‘Soarista’, o da anti-globalização e do anti-americanismo mais primário, o do esquerdismo radical-chic, o dos "tumores" dirigido a adversários políticos - sempre existiu. É o Soares da vaidade e da presunção. É o Soares da boa e velha «ética republicana», reminiscência de um «velho mundo»: um mundo lodoso de amigalhaços e intocáveis; um mundo de sombras e influências; um mundo de pequenos favores, de telefonemas oportunos, de tacticismo e de eminências pardas; um mundo onde é totalmente inconcebível que um «puto» de trinta e poucos anos, juiz de Direito, que tem por hábito envergar uns ténis e uma t-shirt, decrete a prisão preventiva de um amigalhaço, ou autorize a escuta dos telefonemas de outro. Neste mundo não se toleram tamanhas ousadias e alarvidades. É um mundo onde perdura e reina um respeitinho reverencial e uma babugem em torno dos chefes.
Poderão dizer que Soares é hoje um homem livre e que, como tal, ousa exprimir aos sete ventos a sua cosmovisão sobre o mundo e as suas convicções mais profundas. Pessoalmente, não dou um tostão por essa tese. Aquilo a que assistimos é a uma tentativa desenfreada de protagonismo paternalista. Uma tentativa de realinhamento e de resgate de um mundo em vias de extinção. Mete dó assistir ao desnorte de um ‘senador’. Mas, infelizmente, Mário Soares parece empenhado em destruir o que resta da sua imagem de estadista, de homem de bom senso, contrário a radicalismos e a maniqueísmos de pacotilha. É pena. Alguém o deveria avisar que o mundo mudou. E que, muito provavelmente, este já não lhe pertence."

RECOMENDAÇÕES
(ou Mais Um Momento "Rebelo de Sousa")

At The End Of An Age de John Lukacs, Yale University Press, 2002


Occidentalism de Ian Buruma & Avishai Margalit, The Penguin Press, 2004


Further Requirements; Interviews, Broadcasts, Statements and Book Reviews 1952-1985 Philip Larkin, Anthony Thwaite (editor), Faber and Faber 2001


MAIS UMA MORTE
Morreu Lino De Carvalho. Sim, era comunista. Sim, estava nos antípodas das minhas posições políticas. Mas era um homem bom, justo e trabalhador. Um político que só sabia fazer política “alta”, com argumentos e fortes convicções. Um homem decente e um amigo de Évora. Da nossa Évora. Hoje, voltámos a ficar mais pobres.

Quinta-feira, Junho 10, 2004

COMPROMISSO O TANAS!
Ao Besugo (que outro nome lhe poderei chamar?):

1. Os compromissos – salutares num mundo que foge deles como o diabo da cruz – não justificam tudo. O Besugo diz que Mário Soares permaneceu erecto. Erecto? Mário Soares permaneceu prepotente e arrogante na forma como insulta a inteligência dos outros. Mário Soares continua a pensar como uma eminência parda pensa. Julga que pode dizer tudo, mas não pode. Mário Soares poderia ter apelado ao voto (latu sensu), à participação cívica, à democracia, como forma de homenagear António Sousa Franco. Estaria com ele. Mas não. Mário Soares, descaradamente e sem pudor algum, apelou ao voto "no PS" (pormenor importante: Mário Soares não estava a discursar para as hostes socialistas; não estava a falar para meia-dúzia de apoiantes; não estava num congresso; apelar aos socialistas para votar na lista que Sousa Franco encabeçava como forma de o homenagear é lógico e compreensível; mas Mário Soares dirigiu-se a todos os portugueses, em geral). No fundo, Mário Soares permanece igual a si próprio. Erecto, sim. Mas do alto da sua altivez e da sua distinta alarvidade. Se fosse ao contrário, não julgo que António Sousa Franco fizesse o mesmo. São essas as diferenças que distinguem as pessoas;

2. Diz o Besugo, a seguir, que "apenas" não concordou. Errado. É escusado, agora, armar-se em ingénuo e santinho. Assuma aquilo que disse ou insinuou. E o que insinuou foi que eu, como outros, tinha representado "um papel", cumprindo uma espécie de «formalidade», ao fazer o elogio «hipócrita» de Sousa Franco. Isso não é "apenas" discordar. É pôr em causa uma sincera manifestação de pesar pela morte de uma pessoa. Por muito que discordasse de Sousa Franco do ponto de vista político, merecia e merece o meu respeito, não só pelas suas qualidades técnicas, mas, sobretudo, pelas suas qualidades humanas;

3. Finalmente, afirma que eu não sou assim tão importante, apesar de me ter sentido "bíblico" (sic) e de me ter "irritado com um mosquito" (sic) que terá, supostamente, obrado no meu pensamento. Meu caro Besugo: eu não sou nada nem ninguém. E não, não me irritei consigo. Se me tivesse irritado, teria sido com uma pessoa (o Besugo) e não com um "mosquito". Além do mais, cagadelas no pensamento nunca me trouxeram problemas: varro-as fácil e rapidamente para o caixote do lixo.

PS: a resposta do Besugo merece dois breves comentários: 1) Agora, quem parece "sentir-se bíblico" é o Besugo com aquela do "aceite o que disse em 3 que eu perdoo-lhe esta precipitação". Ena, caro Besugo, tanta generosidade! Obrigado!; 2) Por falar em precipitações (numa altura em que não chove), você "tresleu" o que eu disse. Eu nunca disse que tinha mandado para o lixo aquilo que você afirmou. Se a sua opinião fosse uma «cagadela» e se eu a tivesse mandado para o «lixo», não tinha, certamente, escrito uma linha sobre o assunto. Mas, vá lá: eu, que também sei ser magnânimo, perdoo-lhe a confusão.
NÃO PERCEBEU?
O Sr. Besugo, do Blogame Mucho, arranjou maneira de me mandar uma boquinha. Segundo ele, eu terei feito o elogio de Sousa Franco (um elogio não político) porque “fica sempre bem”. Logo de seguida, não concordou com a minha crítica a Mário Soares, que, na minha opinião, fez um aproveitamento reles da comoção e do sentimento alheios para apelar ao voto no PS, género “agora que estão com pena do homem, aproveitem para votar no PS”.

Não sei qual é o problema do Sr. Besugo. Uma coisa lhe digo: fique-se com os seus sentimentos e respeite os dos outros, que podem ser sinceros e sentidos (ou serão apenas os seus?). E se não atingiu o que está de errado nas declarações de Mário Soares, então aí cuidado: o caso pode ser clínico.

Quarta-feira, Junho 09, 2004

INACEITÁVEL, AVILTANTE, INDECOROSO
Mário Soares, em declarações à Antena 1, declarou que "a melhor homenagem que se pode prestar à memória de Sousa Franco, será votar na coligação que encabeçava".

Minhas senhoras e meus senhores, the one and only Dr. Soares.
PORTUGAL FICOU MAIS POBRE
Morreu António Luciano Pacheco de Sousa Franco (1942-2004). Um académico de eleição, professor de Direito, eminente economista (um dos maiores), uma pessoa que dedicou grande parte da sua vida à causa pública. Morreu, agora, estupidamente, numa campanha eleitoral, após uma peixeirada provocada por um bando de energúmenos.

Desaparece, assim, um homem de carácter, íntegro, competente e culto, defensor intransigente do ideário democrático. Uma perda irreparável.


CALHOU-ME





Faça você também Que
gênio-louco é você?
Uma criação de O Mundo Insano da Abyssinia


SEINFELDIANA
A mais seinfeldiana das séries de humor passa num canal da TV Cabo, a que deram o sinistro nome de Sic Mulher: The King Of Queens (título em português... “Eu, ela e o pai”). O tom e o estilo (o cinismo e o sarcasmo aplicados às minudências e fraquezas da natureza humana), os temas abordados (mesquinhos, insignificantes, patéticos mas tão familiares) – tudo nos faz lembrar Seinfeld. Kevin James é excelente no papel do típico homo sapiens suburbano de barriga proeminente e espertalhão (embora raramente acerte uma), cujo conceito de felicidade passa necessariamente por muita cerveja, super bowl e hotdogs; Leah Remini no papel da esposa e cérebro do casal, fonte inesgotável da mais cruel ironia relativamente ao seu semelhante; e, claro, o impagável Jerry Stiller (o pai do George Costanza em Seinfeld), no papel do sogro meio senil, sempre em busca do próximo esquema que o fará ganhar a fast and extra buck (de preferência em parceria com o genro), e cuja linguagem gestual põe a rir qualquer um (até o Mourinho).

Pena é que a SIC Mulher tenha empurrado a série para lá da 1 da manhã. Ainda assim, vale a pena o esforço.

PS: O leitor Paulo Ferreira informa-me que, afinal, a série pode ser vista na SIC Mulher por volta das 20:00. Obrigado ao Paulo pela valiosa informação.


Terça-feira, Junho 08, 2004

TRADUÇÃO (QUASE) SIMULTÂNEA
Luis Bonifácio, do interessante Nova Floresta (a seguir de perto), propõe uma tradução para as afirmações do Dr. Carlos Zorrinho:

1. "[...]competência de uma juíza discreta[...]" = uma juíza que segue religiosamente as leis não escritas deste país.

2. "[...]arrogância de um juiz mediático[...]" = Um Juiz que teve o desplante de tratar os politicos como meros cidadãos de Portugal.

Mais uma opinião.
AINDA É CEDO



"No, you’re too young for Slut Barbie."
DIA D
(Cortesia O Observador)
"There is just one thing more I want to say. What for you is a haunting memory of danger and sacrifice one summer long ago is for your country, and for generations of your countrymen to come, one of the proudest moments in our long national history. I salute you and thank you on behalf of our whole nation."
Rainha Isabel II


QUANDO O MAU GOSTO SE ALIA AO CINISMO
Daniel Oliveira, no Barnabé:

"Morreu Ronald Reagan. Sinceramente e sem qualquer ironia, lamento. Até porque já não fazia mal a ninguém."

Segunda-feira, Junho 07, 2004

REFLEXÃO PEDIDA
(versão corrigida)
Carlos Zorrinho, dirigente do Partido Socialista, em crónica publicado hoje, no Diário do Sul (Évora), afirma:

”Entre a competência de uma juíza discreta e a arrogância de um juiz mediático, houve a distância de uma acusação falsa que se desmoronou! Aos que se indignaram quando neste espaço exigi justiça, apenas peço reflexão.”

Não fui dos que se “indignou” com o anterior “pedido de justiça” de Carlos Zorrinho. Aliás, nunca houve, da parte de Carlos Zorrinho, qualquer pedido de "justiça". Pelo menos um pedido sincero e puro para que se fizesse justiça. Carlos Zorrinho pediu uma coisa bem diferente: a absolvição de Paulo Pedroso como condição sine qua non para a prossecução da justiça. Tudo feito com base numa «profunda convicção» que advinha, sobretudo, de prováveis, e louváveis, laços de amizade que o uniam a Paulo Pedroso (sentimento, aliás, compreensível do ponto de vista humano) e, por outro lado, de uma tentativa de defender o seu partido que, por força das circunstâncias e da sua própria conduta, saía beliscado de toda a questão. Fui um dos que o criticou, na altura, precisamente pela forma e pelo tom com que insinuou que a “justiça” só seria feita com a absolvição do seu companheiro de partido. Carlos Zorrinho podia tê-lo pensado e dito em privado, mas dizê-lo e exigi-lo em público era coisa bem diferente. E a diferença estava em sujeitar o sistema judicial e a credibilidade dos magistrados ao resultado de um decisão judicial.

Lamento, agora, uma vez mais, que Carlos Zorrinho – o qual, repito, é um alto dirigente do Partido Socialista e um opinion maker experiente – volte à baila com acusações gratuitas e deselegantes relativamente ao desempenho e ao carácter de um juiz de direito, dando a entender que Paulo Pedroso foi vitima da “arrogância” de um magistrado que, para além de “mediático”, acusou falsamente um outro cidadão, agora salvo às mãos de uma juíza «boazinha» e, valho-nos isso!, discreta. Considero a insinuação inaceitável do ponto de vista deontológico e político.

É bom lembrar a Carlos Zorrinho alguns factos. Não foi o juiz Rui Teixeira que acusou Paulo Pedroso. Foi o Ministério Público que, após aturada investigação, achou que tinha reunido provas suficientes que indiciavam Paulo Pedroso em práticas pedófilas. Apresentadas as provas ao Dr. Rui Teixeira, considerou este haver ali fundamento para que Paulo Pedroso fosse arguido num processo, dando luz verde para que a máquina da justiça apurasse a verdade (no limite comfirmando, condenando, ou dissipando a acusação, absolvendo). Processo esse que, como se sabe, obedece a uma série de etapas e trâmites.

Lembro, também, que a decisão do Dr. Rui Teixeira foi corroborada mais do que uma vez pela Relação. Seriam todos, então, «arrogantes»e «mediáticos»?

Lembro, ainda, que em Direito, a interpretação dos factos não é estática, exclusiva ou invariável. A apreciação das mesmas provas por juízes diferentes pode resultar em decisões aparentemente contraditórias. E que isso é mesmo assim, ou seja, é normal, comum e, provavelmente, desejável, não se podendo daí retirar a ilação de que uns agem de má-fé, teimosa ou arrogantemente, enquanto que outros detêm o dom da mais pura objectividade no caminho para a verdade. Repare-se, por exemplo, no seguinte: a juíza Ana Teixeira e Silva ignorou, na fase de instrução, as cassetes de vídeo onde Paulo Pedroso surgia sem o aparelho nos dentes, à época em que a defesa afirmava que o aparelho era uma marca distinta em Paulo Pedroso (segundo a defesa, um aparelho que ele "nunca largava"), logo não passível de ser ignorado pelas alegadas vitimas. Pelo contrário, o juiz Rui Teixeira achou por bem considerar essa prova. Serve este exemplo para reforçar a ideia de que, nas várias etapas de um processo judicial (especialmente na fase da instrução), há lugar a uma latitude interpretativa de factos, argumentos e contra-argumentos, não sendo isso sinónimo, repito, de má justiça. Mais: nada indica que, caso Rui Teixiera fosse agora o juiz (na fase da instrução), ele não decidisse de forma idêntica à colega. Muita coisa correu desde então.

Carlos Zorrinho acusa, ainda, Rui Teixeira de «mediatismo». Mas qual «mediatismo»? Duas ou três aparições fugazes, todas elas fruto de perseguições à vida privada do juiz, levadas a cabo por jornalistas em registo idiota? Não foi o juiz que foi «mediático», mas sim o processo. Nesta altura do campeonato, a juiza Ana Teixeira e Silva só foi poupada porque o tempo serenou os ânimos. Em certa medida, o «mediatismo» quebrou-se. À distância, só mesmo por má-fé ou arrebatamento retórico se pode acusar Rui Teixeira de «mediatismo» - ele que, numa altura em que o processo estava no auge da estridência mediática, se pautou por uma discrição a toda a prova.

Colocaria, por fim, algumas questões a Carlos Zorrinho. Se Paulo Pedroso não tivesse sido, agora, libertado, mas absolvido apenas em julgamento (ou seja, com outro juiz), poder-se-ia dizer que a Dra. Ana Teixeira e Silva padecia da mesma «arrogância» ou «teimosia»? Se Rui Teixeira foi, de facto, como Carlos Zorrinho parece insinuar, um juiz “arrogante” e “mediático” (no sentido pejorativo), podemos então inferir que a juíza Ana Teixeira e Silva não deveria ter levado a julgamento outros arguidos? Que o processo está inquinado? Ou foi só no caso do amigo de Carlos Zorrinho? Eu não vi, nem consultei, o processo. Tê-lo-á feito Carlos Zorrinho?
ONDE É QUE EU JÁ OUVI ISTO?
O Dr. Mário Soares resolveu chamar ao seu novo espaço de crónicas no Expresso, nada mais, nada menos, que “Contra a Corrente”.

“Contra a Corrente”?! Será coincidência? Eu, que tenho sido tão crítico do Dr. Soares, mereço um plágio - que digo eu! - um mimo deste calibre?

Disse, também, que “procurará ser um registo mais impressionista [??] e livre, invocando o passado, comentando criticamente o presente [a saber: os EUA, a globalização e Israel] e procurando perscrutar o futuro [a Maya que se cuide].”

Nevertheless, segue queixa para a SPA, ao cuidado do Sr. Freire.

PS: Lourenço, do blogue O Projecto, chama-me a atenção para o facto de "Contra a Corrente" ser também o nome da crónica da Leonor Pinhão n'A Bola. Ai o...
Shut up, I’m thinking
Shut up, I’m thinking
Shut up, I’m thinking

I’m thinking, so shut up”

Tindersticks in Piano Song

Domingo, Junho 06, 2004

ARGENTINA RULES
Gaston Gaudio acaba de vencer Roland Garros, numa memorável final argentina, contra Guillermo Coria.

REST IN PEACE
Ronald Reagan (1911-2004)


COISAS QUE NÃO SE PODEM ESQUECER
Há 15 anos.



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