O MacGuffin: Junho 2004

Terça-feira, Junho 22, 2004

FILOSOFIA POLÍTICA NA FEIRA DE S. JOÃO
Évora, 21 de Março, 22:30, recinto da Feira de S. João. Alguém teve a ideia de pagar uma rodada de cerveja. Ninguém pediu, mas alguém o fez. A seguir, foi a vez do meu amigo L. pagar a “sua” rodada. Quando toda a gente esperava que eu pagasse a minha… pisguei-me. Zarpei. Pus-me a milhas. Os que não me conhecem, poderão pensar que: a) o exercício de evasão foi a típica atitude do típico «chico-esperto»: beber à bórliu para, no momento crítico (leia-se “da reciprocidade”), escorregar dali para fora; ou b) eu sou um incorrigível resmelengo, somítico, ‘come-em-vão’. Nada disso. Comigo a coisa é sempre mais complexa. Como diz a minha filha: eu complico sempre tudo. Foram várias as razões: 1.ª) há quem não goste de iogurtes; eu não gosto de feiras; 2.ª) estava cheio sono; 3.ª) se eu não pedi rodada alguma, por que carga de água (neste caso “de cerveja”) haveria de pagar a “minha”?!; e 4.ª) (associada à 3.ª), eu funciono sempre pela lógica da psicologia invertida: "aí é assim? Então tomem lá assado".

Certo, certo é que, passados alguns minutos, já em casa, recebo, via sms (a nova praga), a seguinte mensagem da R.: “Bebes e depois não pagas? Bonito!”

Pois. A velha e boa discussão do «consentimento tácito». O Sr. Hart e o Sr. Rawls contra o Sr. Nozick. As “political obligations”, os “natural rights”, o “principal of fairness”. Descansem que já lá irei.
(só por isto já valeu a pena não pagar a rodada. Agora, deixem-me jantar. E descansar.)
PRONTO, PRONTO
O leitor Jorge Bento chega-me nas orelhas: ”Então o meu caro comenta o golo do Abromovich e não comenta o golo que nos leva aos 4ºs final? Antes prefere fazer um elogio ao grande Ricardo Carvalho. Será o mesmo que, se formos campeões da Europa, no dia a seguir o meu amigo fará um post individual a elogiar o Ricardo (e o guarda redes, porque não ?)”

Caro Jorge Bento: pois que sim, que estiveram todos bem. À excepção do Ricardo Carvalho: este esteve ainda melhor. Como disse o Mourinho, e com razão: o Ricardo Carvalho fez um jogo absurdo. Eu diria mais: brutal. Foi, para mim, o melhor jogador em campo (logo a seguir: Beto e Costinha; e, claro, Nuno Gomes, mas «só» pelo golo.)
FROM DE BOTTON
O Rooney refere que leu todos os livros do Alain de Botton. Humpf… as if! Sobre o de Botton, apraz-me dizer o seguinte: How Proust Can Change Your Life é um dos mais deliciosos e provocantes easy-to-read-but-not-quite-as-you-think-it-is livros que li nos últimos tempos (melhor que The Consolations of Philosophy). Gosto mesmo muito do Botton - isto, é claro, se o Rooney me der licença (pois, pois, leu os livros todos…).

Domingo, Junho 20, 2004

RICARDO CARVALHO
Grande, grande jogador.

COMMIE
A Sara dá-nos a conhecer o seu fetiche nº. 4: The Communist Manifesto - A modern edition, Karl Marx and Frederick Engels, with an introduction by Eric Hobsbawm, Verso, 1998.

Que desilusão. Toda a gente sabe que a melhor edição do manifesto é esta: The Communist Manifesto, Karl Marx and Frederick Engels, with and introduction by A.J.P. Taylor, Penguin Books, 1985.

Pôr o Hobsbawm a prefaciar o Manifesto Comunista, equivale, mais ou menos, a pedir que Bin Laden faça a recensão crítica do Corão (ooopps...).


Sábado, Junho 19, 2004

CONFIEM EM MIM
Este disco é muito bom. Mesmo.


Forum West, Modern Jazz From West Germany - Wewerka Archive 1962-1968 (Sonar Kollektiv)

Sexta-feira, Junho 18, 2004

ZLATAN
O golo do Ibrahimovic foi... er... bem... foi... do outro mundo?

Vi o Itália-Suécia e confirmo: a seguir a Portugal, sempre torci - e continuarei a torcer - pela Itália. Não sou, como já referi, um entendido em futebol. Mas pressinto e conheço algumas coisas. Sei que nem sempre a Itália pratica um futebol «bonito». Mas quando a Itália joga bem, retiro um prazer enorme em ver futebol. Quando a Itália joga bem, vislumbro nos passes, pontapés, fintas e movimentações, a marca de um ethos futebolístico, a experiência e o peso da civilização romana a vir ao de cima. Hoje, por exemplo, a Itália jogou de forma a criar "um período de antecedência do prazer bastante extenso e excitante" ao ponto de conduzir ao "clímax" (mental, atente-se). Não sei o que quis dizer com a pretérita frase (que roubei a um tal de Norbert Elias). Suponho que tal se fique a dever ao facto de, em si mesma, a frase não significar nada. Ainda assim, parece-me adequada. Até porque a Sara garante que o Sr. Norberto é um "doente por futebol", logo mais um «especialista» - apesar, é certo, de ser um "sociólogo brilhante", facto que, por si só, pressagiava formas incognoscíveis e tenebrosas de perscrutar o que está por detrás de um pontapé na bola (que não o pé e a perna do jogador). Por último, fiquei a saber que existe (há quem jure a pés juntos que sim) uma "Sociologia do Desporto". 'Da-se!

Still, be that as it may... perdi-me no que queria dizer.
E PORQUE HOJE É SEXTA-FEIRA
(actualizado)
Não tenho nada para dizer, a não ser isto: o 9.º livro da excelente (em tudo: grafismo, encadernação, papel, etc.) colecção Horas Extraordinárias, publicada no Independente, chama-se Vida Independente e é da autoria de João Pereira Coutinho. Trata-se de uma colectânea de crónicas publicadas pelo ‘jota pê cê’ ao longo de cinco anos (1998-2003), não só no Indy, mas sobretudo (a excepção vai para o brilhante "A putinha da Bovary", publicada na revista Os Meus Livros).

Eu queria, Ó se queria!, escrever alguma coisa sobre o livro e sobre o João. Mas não posso. E não devo. Não posso, porque acabei de ler os prefácios do Miguel Esteves Cardoso e do Alberto Gonçalves. Está lá tudo o que eu queria dizer e muito melhor dito. Não devo, porque acabaria, certamente, a dar conta da inveja que tenho do Miguel e do Alberto.

Porque hoje é sexta-feira, pouco ou nada há a acrescentar. A não ser, talvez, isto: muito obrigado João.

PS: comprei vários, para oferecer. Um deles vai direitinho para o sr. maradona. Estava a pensar oferecer um exemplar ao Prado Coelho. E outro ao Augusto M. Seabra. E outro, ainda, ao Boaventura Sousa Santos. Mas não sei se deva.

Quinta-feira, Junho 17, 2004

PROVOCAÇÃO INTELIGENTE
No Terras do Nunca: "Será que o Contra-a-Corrente ainda não percebeu que o que está a dar, entre a malta da direita inteligente, é fechar o blogue?"

Caro João: isso quer dizer que tenho de fechar o meu?

Quarta-feira, Junho 16, 2004

AO MENOS...
O Francisco, perdão, o Aviz faz hoje um ano. Portanto, um ano. Em compensação, consta que não vai acabar. Obrigado Francisco. Um grande abraço, aonde quer que estejas.
MERDE
O Comprometido Espectador comemora, hoje, o seu primeiro aniversário. Hip hip hurrah!

O Luciano Amaral decidiu, hoje, acabar com o Comprometido Espectador. Snif… Não há mesmo nada a fazer, Luciano?

Um grande abraço, então. E obrigado por teres criado um dos mais interessantes blogues da blogosfera lusa.

A PROPÓSITO DA TOLERÂNCIA INSÍPIDA E DO RESPEITO PELA OPINIÃO CONTRÁRIA
Recebo missiva muito interessante de Fernando Gomes da Costa, que passo, de imediato, a reproduzir:

”Liberdade ou tolerância?"
Podem escolher qualquer cor, desde que seja preto (Henry Ford sobre a possibilidade de escolha da cor do Ford T)
Circula neste momento pela Internet um abaixo-assinado com o título “Mulheres em medicina sim, retrocessos não!” que se refere às declarações do ministro da Saúde sobre o facto de haver uma cada vez maior prevalência de mulheres em medicina, tendo ele aludido a uma possível menor disponibilidade das mulheres para se dedicaram por inteiro à profissão médica - decorrente das suas "responsabilidades em termos domésticos e em termos de vida familiar".
No abaixo-assinado exige-se, face à opinião emitida, a retractação do ministro, bem como a sua eventual demissão.
Sempre fui contra as quotas como elemento de “correcção” social. Sou médico e, por isso, estou particularmente à vontade para continuar a ser anti-quotas em relação ao assunto em causa. Seria bem mais complicado em termos de coerência sempre ter sido contra e agora a favor, ou vice-versa…
Mas não é concretamente o problema da percentagem de mulheres em medicina ou a maior ou menor importância da vida familiar e doméstica em relação à profissional que me inquieta neste momento. Aquilo que me preocupa é o facto de se achar que alguém, mesmo que seja ministro, pelo simples facto de emitir uma opinião, seja obrigado a retractar-se. Compreenderia a atitude se estivesse em causa um acto concreto, um insulto, uma violação à Lei, ou qualquer outra acção ilícita ou imoral. Mas o que se passou foi a análise de uma situação, eventualmente a opinião sobre um problema. Obrigar alguém a retractar-se ou a demitir-se por ter uma dada ideia ou interpretar um facto choca flagrantemente com a ideia de liberdade. É algo que cheira intensamente a Inquisição, Pide, Fascismo ou Estalinismo.
O mais preocupante é que esta atitude de condenar as pessoas e pedir a sua demissão por terem emitido opinião diversa do que é politicamente correcto está a tornar-se recorrente e passa nos jornais e nos cidadãos com total naturalidade. Cada vez têm mais força e ressonância alguns sectores ditos intelectuais que se julgam donos da verdade e iluminados em relação ao caminhos que a humanidade deve tomar. Há assuntos como a homossexualidade, igualdade, globalização, religião, racismo e muitos outros em que se passou de um certo tipo de moralismo retrógrado para outro moralismo de sinal contrário, mas não menos reaccionário, embora geralmente com o rótulo de progressista, que de igual modo não admite contestação. Quem ousar, hoje em dia, divergir dessa cartilha neo-moralista arrisca-se, se tiver sorte, a ser silenciado, e se for ouvido a ser proscrito socialmente.
Talvez por isso, e significativamente, esses sectores não advogam o respeito pelas ideias diferentes mas veneram a “tolerância”. Ora, a tolerância, por definição, é a típica atitude (com limites, note-se) de quem está certo em relação a quem está errado. Tolerar não exige discussão de pontos de vista nem troca de argumentos, uma vez que, à partida, está definido quem tem razão. Tolerar uma ideia, em vez de a respeitar, é no fundo uma narcisista posição de magnanimidade de quem está convencido de que às suas certezas apenas se opõem os erros dos outros, tal como o estavam os Torquemadas, Hitlers e Estalines da História.
Quando um médico, por exemplo, manifesta perante colegas a sua opinião sobre a maneira de tratar um determinado doente, não interessa que tolerem a sua opinião, mas que o ouçam e discutam, com ele, as razões por que ela pode estar certa ou errada. É o caminho mais seguro para escolher como tratar o doente. E a verdade é que a sociedade está doente…

Confirma-se: ainda há gente de bom senso e lúcida neste país. Obrigado Fernando. Escreva sempre.

Terça-feira, Junho 15, 2004

ÉVORA, 12:30 h: 35ºC. RESOLUÇÃO/PROJECTO DE VIDA
Passava a maior parte do tempo enfiado numa banheira olímpica. De início, a água tinha de estar no limiar do suportável. Com o passar dos minutos, lá ia arrefecendo. Espuma abundante. Quarto climatizado. À volta da banheira, apoiadas em bancos, cadeiras e mesas, espalhava as coisas que davam sentido à vida: café, whiskey, gelo, cigarros, comida, livros, jornais, bloco de notas, caneta e telefone. Quando alguém chegava, era convidado a tirar a roupa e a entrar. Sem segundas intenções, atente-se - apesar das sugestivas e suculentas estagiárias. Era assim com Vinícius. De Moraes. Ele, que a sabia toda.
A VASSOURADA
No rescaldo dos resultados das eleições europeias, Daniel Oliveira publica um ‘post’ no Barnabé onde, por cima da imagem de uma vassoura, escreve “E a limpeza continua”.

É assim que o Daniel Oliveira e a boa gente do Bloco de Esquerda gostam de observar os seus adversários políticos: uma máfia de gente virulenta e hedionda, que arrasta atrás de si um lastro de sujidade que importa «varrer» e «expurgar». Neste inocente e singelo ‘post’, podemos observar a pior face da pior esquerda: a arrogância e a demagogia da bestialização dos seus antagonistas; a natureza panfletária do seu modus operandi; a auto-complacência de mãos dadas com a presunção de quem se julga puro, perfeito, magistral e primoroso, sempre com a razão do seu lado. Afinal de contas, «eles» são pela paz, «eles» são pelo «social», «eles» são pelas minorias, «eles» são pela desratização da vida política portuguesa.

Juntamente com o cartaz do padeiro caceteiro, aquela vassoura compõe a marca indelével do Bloco: a meio caminho entre a presunção e a altivez, passando pela arrogância de quem se julga acima da ralé e do «sistema».
SEMPRE NA CRISTA DA ONDA
Espantoso: o Daniel Oliveira é sempre tão previsível, enérgica, ideológica e insipidamente politiqueiro!

Take it easy, man. Be cool!

Segunda-feira, Junho 14, 2004

ESPECIAL ELEIÇÕES EUROPEIAS!!!

É a loucura!
E pronto. Com uma abstenção a rondar os 62%, a esquerda lá fez a festa: a direita ímpia, neoliberal, neoconservadora, belicista, bushista, extremista, machista (?), passadista (??) e materialista (???) foi derrubada!! Cool.

Longe de mim estragar a festa, mas gostaria de lembrar duas coisinhas:

1.ª) Pela dimensão da abstenção, pelo clima emocional que se viveu (a morte violenta e trágica do cabeça de lista do principal partido da oposição), pela natureza e objecto destas eleições (não foram umas legislativas), pela conjuntura económica que ainda se vive (quem foi votar tê-lo-á feito, sobretudo, como forma de manifestar a sua insatisfação) - por tudo isto, qualquer extrapolação de resultados e quaisquer leituras políticas «internas» estarão enfermas de subjectividade, falta de rigor e enquadramento;

2.ª) As eleições para o governo serão só em 2006. Não sei se repararam, mas Durão Barroso continua a ser o primeiro-ministro de Portugal. Ainda assim, é bom que Durão Barroso retire algumas pequenas ilações. Por exemplo esta: tocar no situacionismo e melindrar os interesses estabelecidos não é lá muito popular.

A esquerda que leve, então, a taça e trate de ampliar, até à exaustão, o «fiasco» eleitoral da direita. Só lhe fica bem. Como diria o meu pai: “se queres ver um pobre soberbo, dá-lhe a chave de um palheiro.” Sem ofensa, é claro.

Abstenção
Razões para tão alta abstenção? Pelo menos, três:

1. A sensação de que «eles», lá na «Europa», decidirão o que tiverem que decidir sem dar cavaco a ninguém;
2. A falta de consistência, motivação e poder de mobilização do projecto europeu, que nada diz a ninguém;
3. A maturidade do eleitorado na assumpção de que há liberdade e legitimidade para votar, mas também, e ao contrário do que o Dr. Sampaio insinua, para não votar (a propósito, ler a crónica do João Pereira Coutinho)

As questões mais prementes
Um pouco por todo o lado, assistiu-se ao crescimento da abstenção e da votação nos partidos mais eurocépticos. Pergunto: como é que os «artífices», burocratas e líderes da UE estão a pensar enquadrar, neste cenário, a aprovação de uma Constituição Europeia (caso mais gritante: Inglaterra)?
Com mais um puxão de orelhas do Sr. Prodi? Com mais umas boquinhas do Sr. Chirac dirigidas aos «maus alunos»? Com o reforço do eixo e do directório franco-alemão? Com a introdução de mais uns parágrafos ocos na Constituição Europeia, sobre nada e coisa nenhuma?

Domingo, Junho 13, 2004

A PRAIA

To the Sea
To step over the low wall that divides
Road from concrete walk above the shore
Brings sharply back something known long before –
The miniature gaiety of seasides.
Everything crowds under the low horizon:
Steep beach, blue water, towels, red bathing caps,
The small hushed waves’ repeated fresh collapse
Up the warm yellow sand, and further off
A white steamer stuck in the afternoon –

Still going on, all of it, still going on!
To lie, eat, sleep in hearing of the surf
(Ears to transistors, that sound tame enough
Under the sky), or gently up and down
Lead the uncertain children, frilled in white
And grasp at enormous air, or wheel
The rigid old along for them to feel
A final summer, plainly still occurs
As half an annual pleasure, half a rite,

As when, happy at being on my own,
I searched the sand for Famous Cricketers,
Or, farther back, my parents, listeners
To the same seaside quack, first became known.
Strange to it now, I watch the cloudless scene:
The same clear water over smoothed pebbles,
The distant bathers’ weak protesting trebles
Down at its edge, and then the cheap cigars,
The chocolate-papers, tea-leaves, and, between

The rocks, the rusting soup-tins, till the first
Few families start the trek back to the cars.
The white steamer has gone. Like breathed-on glass
The sunlight has turned milky. If the worst
Or flawless weather is our falling short,
It may be that through habit these do best,
Coming to water clumsily undressed
Yearly; teaching their children by a sort
Of clowning; helping the old, too, has they ought.

Philip Larkin, in High Windows 1974


DIA QUÊ?


QUANDO UMA EXCELENTE CANÇÃO POP (LEVE, CLÁSSICA E IRRESISTÍVEL) NOS BATE À PORTA
O Miguel Esteves Cardoso tinha razão. E o Nuno também. Os Keane podem nunca mais fazer nada de significativo (o mais provável). Mas fizeram, com "Somewhere Only We Know", uma grande canção pop. Daquelas que, a brincar a brincar, nos põe a lamber as feridas. A propósito, já vos falei do que disse o Alain de Botton...

Oiçam-na:

Real One Player ou Windows Media Player

"And if you have a minute why don't
we go
Talk about it somewhere only we know?
This could be the end of everything
So why don't we go
Somewhere only we know?"

Sábado, Junho 12, 2004

REFLEXÕES EM "DIA DE REFLEXÃO"
1. Toca a retirar as bandeirinhas.

2. Portugal perdeu. Durão Barroso está tramado.

3. A jogar assim, Portugal não vai lá. Faço minhas as palavras do Carlos Amorim: “Uma equipa desgarrada, um jogo sem qualquer fio lógico, cada um a correr para seu lado, substituições tardias, erros fatais - Paulo Ferreira e Ricardo no primeiro golo, Cristiano Ronaldo no penalti.”

4. Provavelmente, não irei votar.

5. Afinal, depois de o escutar com mais atenção, o último álbum dos Zero 7 não é assim tão chocho.

6. O que é um “Dia de Reflexão”?

7. O Alain de Botton é que tinha razão: “There are few things humans are more dedicated to than unhappiness. Had we been placed on earth by a malign creator for the exclusive purpose of suffering, we would have good reason to congratulate ourselves on our enthusiastic response to the task”.

HALIFAX E CHAMBERLAIN
Sobre o excelente post do Luciano, dirigido ao André Belo (do Barnabé), recomendo, de facto, a leitura do texto de Isaiah Berlin (o link está no blogue do Luciano), que poderá (eu diria "deverá") ser encontrado em “Personal Impressions” (Pimlico, 1998). Contudo, o livro a ler, acima de tudo (já que o assunto é a relação Churchill-Chamberlain e a famosa doutrina do appeasement), é o brilhante ”Five Days in London” de John Lukacs (Yale University Press, 2001). Nele são reproduzidas, com um detalhe surpreendente e esclarecedor, as movimentações que opuseram as várias sensibilidades no seio do governo inglês, naqueles que foram os anos mais decisivos para o desfecho da II Guerra. Fala-se muito em Chamberlain, mas esquece-se sempre que o appeaser mor foi Halifax. Nele encontramos a quinta-essência do denominado appeasement - expressão que está longe de ser um chavão mais ou menos difuso ou infundado. Foi a substituição de Eden por Halifax (para o cargo de foreign secretary), conduzida por Chamberlain, que precipitou muita coisa e, numa primeira fase, tirou o sono a Churchill. Não nos podemos esquecer que, das muitas visitas que prestou a Hitler, Halifax passou a considerar Goebbels uma pessoa “francamente atractiva”, um tipo “extremamente simpático e interessante”. Chegou a dizer que o “misticismo” de Hitler era idêntico ao de Gandhi. Em Novembro de 1937, Halifax escreveu a Chamberlain para lhe transmitir que, após reunião com Hitler, achava que a questão que eventualmente oponha a Inglaterra à Alemanha era meramente “colonial” e não europeia (uma ideia totalmente errada). Halifax tentou, em determinadas alturas, manipular a imprensa no sentido de não «afrontar» Hitler e a Alemanha. Após a visita de Wiedemann, adjunto de Hitler, a Inglaterra, sugeriu que “gostaria de ver, como culminar do seu trabalho diplomático, o Führer a entrar em Londres, ao lado do rei e aclamado pelo povo inglês”. Halifx foi, certamente, a personagem que mais contribuiu para alimentar uma atitude de benevolência para com Hitler, permitindo a edificação de uma espécie de cortina de fumo sobre a verdadeira natureza e as verdadeiras intenções de Hitler para a Europa. Não que Halifx fosse cúmplice de Hitler, ou simpatizante do modus operandi nazi. Provavelmente, as razões eram nobres e vinham no seguimento da ideia da "injustiça Versalheana" (injustiça, diga-se, bastante discutível). Mas a melhor razão terá sido resumida por Oliver Harvey: “Halifax parece cegar-se a si próprio quando é confrontado com factos desagradáveis e é ingénuo e jesuítico na forma como circunda os cantos mais obscuros da sua mente”. Neste, como noutros aspectos, Churchill era de outra linhagem. O resto, é História.

Sexta-feira, Junho 11, 2004

ERRADO E BÁSICO, DISSE ELA
Lolita, do blogue Blogame Mucho (de quem sou, agora, intimo), critica a forma "básica" e "desapropriada" (face ao momento "histórico-político" (sic)) como critiquei Mário Soares. Afirma, entre outras coisas, que eu não passei das adjectivações e que não terei dado o benefício da dúvida face a uma frase "se calhar" mal dita, afocinhando num infantil e indignado “facilitismo demagógico” (sic).

Com a devida vénia, e para encerrar, de uma vez por todas, a questão "Soares", quem não esteve à altura do momento "histórico-político" (sic) foi Mário Soares com aquela frase. Não fui eu. Que eu saiba, Mário Soares não clarificou, ou esclareceu, a posteriori, as suas afirmações. Nesse sentido, estou de acordo com a Lolita: o momento "histórico-político" (sic) exigia, de facto, menos demagogia. Soares deveria sabê-lo.

Partimos, então, de pontos diferentes. Lolita acha que a frase não foi intencional, ou seja, que escapou, inocente, da boca de Mário Soares, num momento que era difícil, de consternação. Eu, que já conheço a «personagem» de há muitos anos, e que sobre ela já escrevi muita ‘posta’, ponho em causa a candura e irreflexão dessa gaffe casual. É isso que me separa da Lolita, e não qualquer tipo de "facilitismo demagógico" (mas se ela insistir, também pode ser). Não é de agora aquilo que penso de Mário Soares. Talvez por isso não possa, nesta altura do campeonato, i. e., tendo em conta o Soares de hoje, conceder-lhe o benefício da dúvida.

Por último, e para acabar de vez com a cultura, deixo um excerto de uma das muitas 'postas' que, nestes últimos doze meses, dediquei à figura enigmática (que o é) do Dr. Soares.

"Mário Soares é uma figura incontornável da história portuguesa contemporânea. Falo de uma pessoa que influenciou para sempre o destino do pais – antes e depois de 74. A ele, embora não só, devemos a instauração de um regime democrático. Devemos à sua perseverança e coragem - bem como à de Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa, Ramalho Eanes e outras figuras de back-office - a travagem que impediu a estalinização e militarização de Portugal (no PREC e no seu aftermath). Também a ele devemos a boa negociação que permitiu a entrada de Portugal na então CEE. Como governante, Soares não teve tarefa fácil. Governou em períodos conturbados, com o pais em constantes derrapagens orçamentais e financeiras. Mais tarde, assistimos a um Soares em grande forma, a arrecadar de forma surpreendente a corrida para a presidência da república. Sobre o cargo, pode hoje dizer-se que o desempenhou de forma mais ou menos pacífica, tendo sido um apologista da tolerância e da pacificação entre órgãos de soberania. Entre alfinetadas aos governos de Cavaco – umas vezes injustas, outras vezes justíssimas - lá foi levando a sua água ao moinho. Foi sempre corajoso, e certo, na forma como tem afrontado o regime de Angola. Tudo isto corporizado numa figura bonacheira, simpática, com uma postura fleumática e denotando, por vezes, um excelente sentido de humor. Este é, em traços gerais, o retrato rosáceo de um político que todos se habituaram a respeitar e, nalguns casos, a venerar. Uma espécie de referência do Portugal democrático.
Mas, em Mário Soares, existe um outro lado. Existe um lado mais obscuro, difuso, incerto e, certamente, menos pacífico. E é esse o lado que Mário Soares tem dado a conhecer, de há uns anos a esta parte. NO fundo, o Soares de agora – o da defesa da corporação ‘Soarista’, o da anti-globalização e do anti-americanismo mais primário, o do esquerdismo radical-chic, o dos "tumores" dirigido a adversários políticos - sempre existiu. É o Soares da vaidade e da presunção. É o Soares da boa e velha «ética republicana», reminiscência de um «velho mundo»: um mundo lodoso de amigalhaços e intocáveis; um mundo de sombras e influências; um mundo de pequenos favores, de telefonemas oportunos, de tacticismo e de eminências pardas; um mundo onde é totalmente inconcebível que um «puto» de trinta e poucos anos, juiz de Direito, que tem por hábito envergar uns ténis e uma t-shirt, decrete a prisão preventiva de um amigalhaço, ou autorize a escuta dos telefonemas de outro. Neste mundo não se toleram tamanhas ousadias e alarvidades. É um mundo onde perdura e reina um respeitinho reverencial e uma babugem em torno dos chefes.
Poderão dizer que Soares é hoje um homem livre e que, como tal, ousa exprimir aos sete ventos a sua cosmovisão sobre o mundo e as suas convicções mais profundas. Pessoalmente, não dou um tostão por essa tese. Aquilo a que assistimos é a uma tentativa desenfreada de protagonismo paternalista. Uma tentativa de realinhamento e de resgate de um mundo em vias de extinção. Mete dó assistir ao desnorte de um ‘senador’. Mas, infelizmente, Mário Soares parece empenhado em destruir o que resta da sua imagem de estadista, de homem de bom senso, contrário a radicalismos e a maniqueísmos de pacotilha. É pena. Alguém o deveria avisar que o mundo mudou. E que, muito provavelmente, este já não lhe pertence."

RECOMENDAÇÕES
(ou Mais Um Momento "Rebelo de Sousa")

At The End Of An Age de John Lukacs, Yale University Press, 2002


Occidentalism de Ian Buruma & Avishai Margalit, The Penguin Press, 2004


Further Requirements; Interviews, Broadcasts, Statements and Book Reviews 1952-1985 Philip Larkin, Anthony Thwaite (editor), Faber and Faber 2001


MAIS UMA MORTE
Morreu Lino De Carvalho. Sim, era comunista. Sim, estava nos antípodas das minhas posições políticas. Mas era um homem bom, justo e trabalhador. Um político que só sabia fazer política “alta”, com argumentos e fortes convicções. Um homem decente e um amigo de Évora. Da nossa Évora. Hoje, voltámos a ficar mais pobres.

Quinta-feira, Junho 10, 2004

COMPROMISSO O TANAS!
Ao Besugo (que outro nome lhe poderei chamar?):

1. Os compromissos – salutares num mundo que foge deles como o diabo da cruz – não justificam tudo. O Besugo diz que Mário Soares permaneceu erecto. Erecto? Mário Soares permaneceu prepotente e arrogante na forma como insulta a inteligência dos outros. Mário Soares continua a pensar como uma eminência parda pensa. Julga que pode dizer tudo, mas não pode. Mário Soares poderia ter apelado ao voto (latu sensu), à participação cívica, à democracia, como forma de homenagear António Sousa Franco. Estaria com ele. Mas não. Mário Soares, descaradamente e sem pudor algum, apelou ao voto "no PS" (pormenor importante: Mário Soares não estava a discursar para as hostes socialistas; não estava a falar para meia-dúzia de apoiantes; não estava num congresso; apelar aos socialistas para votar na lista que Sousa Franco encabeçava como forma de o homenagear é lógico e compreensível; mas Mário Soares dirigiu-se a todos os portugueses, em geral). No fundo, Mário Soares permanece igual a si próprio. Erecto, sim. Mas do alto da sua altivez e da sua distinta alarvidade. Se fosse ao contrário, não julgo que António Sousa Franco fizesse o mesmo. São essas as diferenças que distinguem as pessoas;

2. Diz o Besugo, a seguir, que "apenas" não concordou. Errado. É escusado, agora, armar-se em ingénuo e santinho. Assuma aquilo que disse ou insinuou. E o que insinuou foi que eu, como outros, tinha representado "um papel", cumprindo uma espécie de «formalidade», ao fazer o elogio «hipócrita» de Sousa Franco. Isso não é "apenas" discordar. É pôr em causa uma sincera manifestação de pesar pela morte de uma pessoa. Por muito que discordasse de Sousa Franco do ponto de vista político, merecia e merece o meu respeito, não só pelas suas qualidades técnicas, mas, sobretudo, pelas suas qualidades humanas;

3. Finalmente, afirma que eu não sou assim tão importante, apesar de me ter sentido "bíblico" (sic) e de me ter "irritado com um mosquito" (sic) que terá, supostamente, obrado no meu pensamento. Meu caro Besugo: eu não sou nada nem ninguém. E não, não me irritei consigo. Se me tivesse irritado, teria sido com uma pessoa (o Besugo) e não com um "mosquito". Além do mais, cagadelas no pensamento nunca me trouxeram problemas: varro-as fácil e rapidamente para o caixote do lixo.

PS: a resposta do Besugo merece dois breves comentários: 1) Agora, quem parece "sentir-se bíblico" é o Besugo com aquela do "aceite o que disse em 3 que eu perdoo-lhe esta precipitação". Ena, caro Besugo, tanta generosidade! Obrigado!; 2) Por falar em precipitações (numa altura em que não chove), você "tresleu" o que eu disse. Eu nunca disse que tinha mandado para o lixo aquilo que você afirmou. Se a sua opinião fosse uma «cagadela» e se eu a tivesse mandado para o «lixo», não tinha, certamente, escrito uma linha sobre o assunto. Mas, vá lá: eu, que também sei ser magnânimo, perdoo-lhe a confusão.
NÃO PERCEBEU?
O Sr. Besugo, do Blogame Mucho, arranjou maneira de me mandar uma boquinha. Segundo ele, eu terei feito o elogio de Sousa Franco (um elogio não político) porque “fica sempre bem”. Logo de seguida, não concordou com a minha crítica a Mário Soares, que, na minha opinião, fez um aproveitamento reles da comoção e do sentimento alheios para apelar ao voto no PS, género “agora que estão com pena do homem, aproveitem para votar no PS”.

Não sei qual é o problema do Sr. Besugo. Uma coisa lhe digo: fique-se com os seus sentimentos e respeite os dos outros, que podem ser sinceros e sentidos (ou serão apenas os seus?). E se não atingiu o que está de errado nas declarações de Mário Soares, então aí cuidado: o caso pode ser clínico.

Quarta-feira, Junho 09, 2004

INACEITÁVEL, AVILTANTE, INDECOROSO
Mário Soares, em declarações à Antena 1, declarou que "a melhor homenagem que se pode prestar à memória de Sousa Franco, será votar na coligação que encabeçava".

Minhas senhoras e meus senhores, the one and only Dr. Soares.
PORTUGAL FICOU MAIS POBRE
Morreu António Luciano Pacheco de Sousa Franco (1942-2004). Um académico de eleição, professor de Direito, eminente economista (um dos maiores), uma pessoa que dedicou grande parte da sua vida à causa pública. Morreu, agora, estupidamente, numa campanha eleitoral, após uma peixeirada provocada por um bando de energúmenos.

Desaparece, assim, um homem de carácter, íntegro, competente e culto, defensor intransigente do ideário democrático. Uma perda irreparável.


CALHOU-ME





Faça você também Que
gênio-louco é você?
Uma criação de O Mundo Insano da Abyssinia


SEINFELDIANA
A mais seinfeldiana das séries de humor passa num canal da TV Cabo, a que deram o sinistro nome de Sic Mulher: The King Of Queens (título em português... “Eu, ela e o pai”). O tom e o estilo (o cinismo e o sarcasmo aplicados às minudências e fraquezas da natureza humana), os temas abordados (mesquinhos, insignificantes, patéticos mas tão familiares) – tudo nos faz lembrar Seinfeld. Kevin James é excelente no papel do típico homo sapiens suburbano de barriga proeminente e espertalhão (embora raramente acerte uma), cujo conceito de felicidade passa necessariamente por muita cerveja, super bowl e hotdogs; Leah Remini no papel da esposa e cérebro do casal, fonte inesgotável da mais cruel ironia relativamente ao seu semelhante; e, claro, o impagável Jerry Stiller (o pai do George Costanza em Seinfeld), no papel do sogro meio senil, sempre em busca do próximo esquema que o fará ganhar a fast and extra buck (de preferência em parceria com o genro), e cuja linguagem gestual põe a rir qualquer um (até o Mourinho).

Pena é que a SIC Mulher tenha empurrado a série para lá da 1 da manhã. Ainda assim, vale a pena o esforço.

PS: O leitor Paulo Ferreira informa-me que, afinal, a série pode ser vista na SIC Mulher por volta das 20:00. Obrigado ao Paulo pela valiosa informação.


Terça-feira, Junho 08, 2004

TRADUÇÃO (QUASE) SIMULTÂNEA
Luis Bonifácio, do interessante Nova Floresta (a seguir de perto), propõe uma tradução para as afirmações do Dr. Carlos Zorrinho:

1. "[...]competência de uma juíza discreta[...]" = uma juíza que segue religiosamente as leis não escritas deste país.

2. "[...]arrogância de um juiz mediático[...]" = Um Juiz que teve o desplante de tratar os politicos como meros cidadãos de Portugal.

Mais uma opinião.
AINDA É CEDO



"No, you’re too young for Slut Barbie."
DIA D
(Cortesia O Observador)
"There is just one thing more I want to say. What for you is a haunting memory of danger and sacrifice one summer long ago is for your country, and for generations of your countrymen to come, one of the proudest moments in our long national history. I salute you and thank you on behalf of our whole nation."
Rainha Isabel II


QUANDO O MAU GOSTO SE ALIA AO CINISMO
Daniel Oliveira, no Barnabé:

"Morreu Ronald Reagan. Sinceramente e sem qualquer ironia, lamento. Até porque já não fazia mal a ninguém."

Segunda-feira, Junho 07, 2004

REFLEXÃO PEDIDA
(versão corrigida)
Carlos Zorrinho, dirigente do Partido Socialista, em crónica publicado hoje, no Diário do Sul (Évora), afirma:

”Entre a competência de uma juíza discreta e a arrogância de um juiz mediático, houve a distância de uma acusação falsa que se desmoronou! Aos que se indignaram quando neste espaço exigi justiça, apenas peço reflexão.”

Não fui dos que se “indignou” com o anterior “pedido de justiça” de Carlos Zorrinho. Aliás, nunca houve, da parte de Carlos Zorrinho, qualquer pedido de "justiça". Pelo menos um pedido sincero e puro para que se fizesse justiça. Carlos Zorrinho pediu uma coisa bem diferente: a absolvição de Paulo Pedroso como condição sine qua non para a prossecução da justiça. Tudo feito com base numa «profunda convicção» que advinha, sobretudo, de prováveis, e louváveis, laços de amizade que o uniam a Paulo Pedroso (sentimento, aliás, compreensível do ponto de vista humano) e, por outro lado, de uma tentativa de defender o seu partido que, por força das circunstâncias e da sua própria conduta, saía beliscado de toda a questão. Fui um dos que o criticou, na altura, precisamente pela forma e pelo tom com que insinuou que a “justiça” só seria feita com a absolvição do seu companheiro de partido. Carlos Zorrinho podia tê-lo pensado e dito em privado, mas dizê-lo e exigi-lo em público era coisa bem diferente. E a diferença estava em sujeitar o sistema judicial e a credibilidade dos magistrados ao resultado de um decisão judicial.

Lamento, agora, uma vez mais, que Carlos Zorrinho – o qual, repito, é um alto dirigente do Partido Socialista e um opinion maker experiente – volte à baila com acusações gratuitas e deselegantes relativamente ao desempenho e ao carácter de um juiz de direito, dando a entender que Paulo Pedroso foi vitima da “arrogância” de um magistrado que, para além de “mediático”, acusou falsamente um outro cidadão, agora salvo às mãos de uma juíza «boazinha» e, valho-nos isso!, discreta. Considero a insinuação inaceitável do ponto de vista deontológico e político.

É bom lembrar a Carlos Zorrinho alguns factos. Não foi o juiz Rui Teixeira que acusou Paulo Pedroso. Foi o Ministério Público que, após aturada investigação, achou que tinha reunido provas suficientes que indiciavam Paulo Pedroso em práticas pedófilas. Apresentadas as provas ao Dr. Rui Teixeira, considerou este haver ali fundamento para que Paulo Pedroso fosse arguido num processo, dando luz verde para que a máquina da justiça apurasse a verdade (no limite comfirmando, condenando, ou dissipando a acusação, absolvendo). Processo esse que, como se sabe, obedece a uma série de etapas e trâmites.

Lembro, também, que a decisão do Dr. Rui Teixeira foi corroborada mais do que uma vez pela Relação. Seriam todos, então, «arrogantes»e «mediáticos»?

Lembro, ainda, que em Direito, a interpretação dos factos não é estática, exclusiva ou invariável. A apreciação das mesmas provas por juízes diferentes pode resultar em decisões aparentemente contraditórias. E que isso é mesmo assim, ou seja, é normal, comum e, provavelmente, desejável, não se podendo daí retirar a ilação de que uns agem de má-fé, teimosa ou arrogantemente, enquanto que outros detêm o dom da mais pura objectividade no caminho para a verdade. Repare-se, por exemplo, no seguinte: a juíza Ana Teixeira e Silva ignorou, na fase de instrução, as cassetes de vídeo onde Paulo Pedroso surgia sem o aparelho nos dentes, à época em que a defesa afirmava que o aparelho era uma marca distinta em Paulo Pedroso (segundo a defesa, um aparelho que ele "nunca largava"), logo não passível de ser ignorado pelas alegadas vitimas. Pelo contrário, o juiz Rui Teixeira achou por bem considerar essa prova. Serve este exemplo para reforçar a ideia de que, nas várias etapas de um processo judicial (especialmente na fase da instrução), há lugar a uma latitude interpretativa de factos, argumentos e contra-argumentos, não sendo isso sinónimo, repito, de má justiça. Mais: nada indica que, caso Rui Teixiera fosse agora o juiz (na fase da instrução), ele não decidisse de forma idêntica à colega. Muita coisa correu desde então.

Carlos Zorrinho acusa, ainda, Rui Teixeira de «mediatismo». Mas qual «mediatismo»? Duas ou três aparições fugazes, todas elas fruto de perseguições à vida privada do juiz, levadas a cabo por jornalistas em registo idiota? Não foi o juiz que foi «mediático», mas sim o processo. Nesta altura do campeonato, a juiza Ana Teixeira e Silva só foi poupada porque o tempo serenou os ânimos. Em certa medida, o «mediatismo» quebrou-se. À distância, só mesmo por má-fé ou arrebatamento retórico se pode acusar Rui Teixeira de «mediatismo» - ele que, numa altura em que o processo estava no auge da estridência mediática, se pautou por uma discrição a toda a prova.

Colocaria, por fim, algumas questões a Carlos Zorrinho. Se Paulo Pedroso não tivesse sido, agora, libertado, mas absolvido apenas em julgamento (ou seja, com outro juiz), poder-se-ia dizer que a Dra. Ana Teixeira e Silva padecia da mesma «arrogância» ou «teimosia»? Se Rui Teixeira foi, de facto, como Carlos Zorrinho parece insinuar, um juiz “arrogante” e “mediático” (no sentido pejorativo), podemos então inferir que a juíza Ana Teixeira e Silva não deveria ter levado a julgamento outros arguidos? Que o processo está inquinado? Ou foi só no caso do amigo de Carlos Zorrinho? Eu não vi, nem consultei, o processo. Tê-lo-á feito Carlos Zorrinho?
ONDE É QUE EU JÁ OUVI ISTO?
O Dr. Mário Soares resolveu chamar ao seu novo espaço de crónicas no Expresso, nada mais, nada menos, que “Contra a Corrente”.

“Contra a Corrente”?! Será coincidência? Eu, que tenho sido tão crítico do Dr. Soares, mereço um plágio - que digo eu! - um mimo deste calibre?

Disse, também, que “procurará ser um registo mais impressionista [??] e livre, invocando o passado, comentando criticamente o presente [a saber: os EUA, a globalização e Israel] e procurando perscrutar o futuro [a Maya que se cuide].”

Nevertheless, segue queixa para a SPA, ao cuidado do Sr. Freire.

PS: Lourenço, do blogue O Projecto, chama-me a atenção para o facto de "Contra a Corrente" ser também o nome da crónica da Leonor Pinhão n'A Bola. Ai o...
Shut up, I’m thinking
Shut up, I’m thinking
Shut up, I’m thinking

I’m thinking, so shut up”

Tindersticks in Piano Song

Domingo, Junho 06, 2004

ARGENTINA RULES
Gaston Gaudio acaba de vencer Roland Garros, numa memorável final argentina, contra Guillermo Coria.

REST IN PEACE
Ronald Reagan (1911-2004)


COISAS QUE NÃO SE PODEM ESQUECER
Há 15 anos.



Sábado, Junho 05, 2004

CARRILHOCENTRISMO
É impressão minha ou a fotografia do Dr. Manuel Maria Carrilho, na sua crónica do Expresso, tem aumentado na mesma proporção em que tem diminuido a caixa com o texto?
MAIS UMA RAZÃO PARA NÃO VOTAR NO BLOCO
Aquele senhor careca, de óculos escuros. Esse mesmo: o Abrunhosa.
CORREIO
R. Camilo, via email, contesta a minha ‘posta’ sobre o Pastilhas:

”Vai-me desculpar, mas há uma grande diferença: a Coluna Infame deu origem a 2 blogs muito bons, dicionario do diabo (que era, juntamente com o abrupto, o melhor blog português) e o jpcoutinho.com; do pastilhas, do "grupo de pessoas absolutamente fantásticas ", não 'saiu' nenhum blog que valha VERDADEIRAMENTE a pena ler. São todos interessantes, competentes, digamos
assim, todos mais ou menos iguais, mas falta o génio, que o MEC, e só ele,
fornecia ao Pastilhas. Usando uma metáfora futebolistica, já que estão na
moda, é como o Porto: com os mesmos jogadores, mas sem o Mourinho, a equipa
nunca mais vai fazer nada.
É por isso que a Coluna Infame é que vai ficar na história dos blogs. C'est
la vie.

Atentamente,
R.Camilo


Caro Camilo,

Vamos por partes porque a confusão é muita:

1. Eu não comparei o Pastilhas e os blogues criados, mais tarde, pelos seus participantes, com a Coluna Infame e os blogues que dela nasceram. Não disse que uns eram melhores que outros. Nunca iria por aí. A Coluna Infame continuará a ser a referência. Mas tão próximos me foram (e são) uns, como foram (e são) outros. É claro que a blogosfera lusa não seria a mesma sem a presença do João Pereira Coutinho, do Pedro Mexia ou do Pedro Lomba. Seria, certamente, um lugar menos interessante. Pelo contrário: se o Contra a Corrente acabasse, pouca gente daria por isso e certamente não deixaria saudades. Mas, ainda assim lhe digo: a blogosfera está cheia de excelentes blogues que importa visitar e acariciar. A lista que mantenho aqui ao lado não me deixa mentir;
2. O formato convencional de ‘weblog’, tal como nós agora o conhecemos, não encaixa no formato do Pastilhas. Mas o Pastilhas continha um Fórum onde eram discutidos os mais diversos assuntos. A esse Fórum só se acedia através de um ‘login’, de forma a publicar textos ou colocar comentários. Para todos os efeitos, o Fórum era um blogue colectivo;
3. Esse blogue colectivo (o Fórum) funcionava, quase sempre, sem a participação activa do MEC - o qual se «limitava» a colocar as suas geniais crónicas na ‘frontpage’ e a atender os seus “doentes” no Consultório. Só por ignorância ou má-fé se pode dizer que, mesmo sem a participação do MEC, o Fórum tenha sido uma coisa sofrível ou dispensável. O nível qualitativo de certos textos e de certos tópicos era bastante elevado;
4. “O grupo de pessoas absolutamente fantásticas” surge de uma apreciação meramente pessoal, carregada daquela subjectividade que advém da proximidade que mantivemos, e ainda mantemos, com determinadas pessoas. Pessoas com quem trocámos, ao longo de mais de dois anos, muita opinião, cumplicidade, etc. – tudo isso à volta dessa figura quase tutelar chamada Miguel Esteves Cardoso;
5. Quanto ao “não saiu nenhum blogue que valha verdadeiramente a pena ler”, considero-a uma opinião subjectiva e, se me é permitido, sem qualquer fundamento.
6. Por último, o sentimento: devo ao Pastilhas momentos inesquecíveis. Aprendi muito com o MEC e com essas pessoas “fantásticas” que por lá passaram, ao longo de quase três anos. Foi uma experiência gratificante. Mas, lá está: declaração objectivamente subjectiva.

Sexta-feira, Junho 04, 2004

LAMBIDELAS
Há discos que nos pegam ao colo, nos dão miminhos, nos passam a mão pelo pêlo, nos aconchegam a alma. São discos estranhos e ao mesmo tempo familiares. Discos que julgávamos perdidos. Discos que nos ajudam a regressar ao passado com direito a passar pela casa «partida». Discos que nos deixam aqui, frente ao computador, sem saber o que escrever mas com vontade de escrever sobre. Discos que apetece oferecer a toda a gente: conhecida, não conhecida, amada e não amada. Discos que gostávamos de pôr a tocar bem alto, no duplo sentido da palavra. Lá no alto, por cima de tudo e de todos. Para que ninguém e todos escutassem. Eis um deles:


Lambchop is a woman (2002)
BENDITA EXPLORAÇÃO
Segundo um estudo do Instituto de Pesquisa de Economia Aplicada (IPEA), “as empresas estrangeiras no Brasil empregam mão-de-obra mais qualificada, pagam salários melhores e mantêm seu quadro de funcionários por um período mais longo do que as companhias brasileiras”. O estudo teve por base uma análise a mais de 20 mil empresas brasileiras.

”O indicador que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a distância salarial entre uma e outra, que atingiu 156%. O estudo, que servirá de subsídio para as políticas de governo, mostrou que a escolaridade média da mão-de-obra nos grupos estrangeiros foi de 9,29 anos, enquanto nas brasileiras a média ficou em 6,72 anos. O tempo de permanência do trabalhador nas companhias estrangeiras foi de 62,51 meses, no período analisado. Já nas brasileiras foi de 43,16 meses.”

O resultado mais imediato desse descompasso entre o capital nacional e estrangeiro é a constatação de que as multinacionais exportam e importam um volume bem superior do que as empresas de capital nacional. As companhias estrangeiras exportaram, no período de 1996 e 2002, 17,3 milhões de dólares, em média, por ano. Já as brasileiras, apenas 3,1 milhões. Segundo Luciana Acioly, também co-autora do estudo, essas evidências mostram que isso ocorre por conta do "diferencial competitivo" das multinacionais face às firmas nacionais.

Os economistas concluem que as empresas estrangeiras incorporam tecnologia ao sector industrial brasileiro e que tal incorporação amplia a "capacidade competitiva" do Brasil no mercado internacional. A questão também é alvo de análise de outro economista do IPEA, Rogério Dias, que está terminando um trabalho sobre a influência do capital externo na inovação tecnológica do Brasil.

Isto não é novidade para ninguém. Ninguém? Estou a ser simpático. Emendo: não é novidade para quem estuda o fenómeno da «globalização» (que é, aliás, bastante velho) de forma séria e com a cabeça limpa da tralha ideológica (de preferência da pseudo neo-marxista, que de «neo» só tem o jargão). Quem assim o estuda, sabe, por exemplo, que a ladainha segundo a qual as multinacionais vão para os países em vias de desenvolvimento, ou do terceiro mundo, com o intuito de «explorar cruelmente» as populações nativas, como se de um mercado de escravos se tratasse, não encaixa na realidade. É evidente que existem excessos. É evidente que existem maus exemplos. Mas voltamos sempre à velha questão da árvore e da floresta. A esmagadora maioria do intercâmbio comercial e económico entre países ricos e países pobres é benéfico nos dois sentidos e a vários níveis: económico, social e tecnológico. E o critério para a deslocação não passa necessária e exclusivamente pelo do custo da mão-de-obra. Trata-se de uma conjugação de factores: estabilidade política interna, nível médio de qualificação da população activa, boas vias de comunicação e infra-estruturas, abertura da sociedade civil à mudança e à inovação, vontade dos governos em lançar mão de políticas externas tendentes a uma maior abertura ao exterior, etc. etc.

Regra geral, as multinacionais pagam mais do que os empregadores locais, empurrando, para cima, o nível real de salários. Os empregos nas multinacionais são disputados ávida e quase que violentamente, especialmente pelas mulheres (cuja perspectiva de arranjar emprego na industria e no comercio locais é infelizmente baixa, por motivos, sobretudo, culturais.) É óbvio que as condições de trabalho e o nível médio das remunerações continuam a ficar aquém dos dos paises de origem das multinacionais, ou seja, do que a ocidente. Mas é importante frisar que não sendo o “ideal”, neste caso estamos a falar do "possível". De um "possível" que não espera por ninguém. De um "possível" que, para além de exequível a curto prazo, contribui de facto para a subida generalizada dos padrões de vida das populações e para a melhoria das próprias condições de trabalho - quando comparadas com as que se apresentavam no passado, antes da abertura ao exterior. E não tenhamos medo: esse «intercâmbio» não deixa de ser um intercâmbio de interesses, mas de interesses r-e-c-í-p-r-o-c-o-s.

Sob o limbo das intenções e das dialécticas político-ideológicas, acerca de «modelos de crescimento», regulamentações e «constituições» à escala planetária (animado pelas luminárias de serviço), permanece, activo, um mundo real que não pára de se mexer e de se organizar. Um mundo feito de pessoas de carne e osso, que, passo a passo, objectivamente, através de um imparável sistema empírico de conjugação de interesses – onde umas vezes se cede, outras vezes se ganha – vão alcançando resultados práticos positivos para as suas vidas, com base em realidades que surpreendem e contrariam a doutrina da litania e a profecia do doomsday aplicada ao capitalismo. Tão queridas do Sr. Marx e dos seus devotos. Sim, que eles andam nai.

Quinta-feira, Junho 03, 2004

DECLARAÇÃO DE VOTO
Vi, na SIC Notícias, o debate com os cabeças de lista de cada partido (com assento na AR), candidatos ao Parlamento Europeu. Apraz-me dizer que dia 13 de Junho votarei na Dra. Ilda Figueiredo.

Não ficaria bem com a minha consciência, e estaria, certamente, a trair a minha saúde mental, se não ajudasse, com o meu voto, a mandar a Dra. Ilda Figueiredo para fora do país. Segundo um apurado e meticuloso estudo por mim encetado logo após o debate, os deputados europeus entram em nossa casa (via televisão ou rádio), em média, 11,56877 vezes menos que os deputados e políticos que exercem a sua actividade em território nacional. A hipótese de a CDU não obter os votos suficientes para eleger um só deputado, e com isso, despoletar o regresso compulsivo da voz da Dra. Ilda Figueiredo, das ideias da Dra. Ilda Figueiredo, da pose da Dra. Ilda Figueiredo, da linguangem gestual da Dra. Ilda Figueiredo, do olhar da Dra. Ilda Figueiredo – os quais, todos juntos, veriam acrescidas em cerca de 12 vezes as probabilidades de entrarem nos nossos pacatos lares - é uma ideia que, no meu caso, me é objectiva e incomensuravelmente insuportável.

Creiam, caros leitores, amigos e afins, que votar na CDU é prestar um serviço público ao país, que poupará muitas idas ao psicólogo, fará diminuir, drasticamente, o consumo de anti-depressivos e anti-histamínicos (já por si um dos mais altos da UE) e, last but not least, concorrerá para o tão desejado e afamado aumento da auto-estima nacional – que é, segundo nos dizem, a nova e mais eficaz panaceia para o nosso atávico atraso cultural, económico, etc. e tal.



ENTRETANTO…
Manuel Monteiro parece ter sugerido que há quem, no PSD, PP e PS (a escolha é múltipla), tenha medo em debater com ele porque, está bom de ver, o homem está na diposição de despir a falsidade, hipocrisia e nulidade dos outros candidatos. “Como?”, pergunta o povo. Monteiro explica: é que ele está fora do «sistema» e não se confunde com essa corja de políticos que vivem do e para o dito. O homem está, por isso, desinfectado. Está acima de tudo. Ele é o novo homem lusitanus: jovem e dinâmico; frontal e cheio de convicções; repleto de ideias e «mundos»; pronto a reciclar o «sistema» e a refundar esta coisa da democracia. Espera-se, a todo momento, uma nova Magna Carta.
PALHAÇADAS
A obsessão do Partido Socialista - na pessoa do Dr. Ferro Rodrigues, do Prof. Sousa Franco e do Dr. António Costa - por Paulo Portas raia já a pornografia. Haverá, algures nas hostes socialistas, uma pulsação erótica (agora quase incontrolável), servida pelo eterno confronto entre o amor recalcado e o mais puro e prosaico ódio?

Ou isso ou é, uma vez mais, a típica e irresistível esperteza saloia que caracteriza a politica portuga quando resolve baixar de nível (coisa que faz regularmente), alimentada por ilustres conselheiros políticos que, no seio dos partidos, lançam para o ar estratégias infalíveis. Nesta campanha, a estratégia parece advir de um filão riquíssimo e inesgotável: o Paulinho das feiras, o Paulinho da extrema-direita, o Paulinho totalitário, o Paulinho outrora anti-europeísta convicto. Não esquecendo, é claro, a natureza «contra-natura» da coligação.

Quando aqui se chega, passa a valer tudo: à cabeça, claro, a demagogia mais reles (que serve para combater demagogias passadas); de seguida, o despudor em dar a conhecer, com um sorriso de orelha a orelha, uma total ignorância face às ideias políticas presentes e passadas (saberão eles o que é a extrema-direita?); por último, o insulto pessoal disfarçado de «crítica política».

É isto que o Partido Socialista tem para nos dizer?

Quarta-feira, Junho 02, 2004

PARABÉNS!
Parabéns ao Bloco de Esquerda. Assumir a natureza trauliteira "barra" caceteira do seu projecto político (projecto político?) é coisa rara. Os cartazes do Bloco de Esquerda são de uma autenticidade e clareza a toda a prova. Para que não restem dúvidas:

Terça-feira, Junho 01, 2004

O FIM DO LIBERDADE
Já o tinha dito várias vezes. Volto, agora, a repeti-lo: o Liberdade de Expressão era um dos melhores blogues nacionais. Não é de admirar: João Miranda - o seu criador, animador, mentor, etc. - é um ser humano de qualidade. Mesmo. Bem sei que os blogues não são nada, pouco ou nada importam e o diabo a sete, mas não posso deixar de lamentar o fim do Liberdade de Expressão.

O facto do João anunciar que continuará a escrever no Blasfémias (que recebe, assim, um colaborador de luxo), não suplanta a perda que o fim do Liberdade de Expressão representa para a blogosfera lusa (opinião pessoal, passe o pleonasmo). Em primeiro lugar, é provável que o João Miranda passe a escrever menos. Em segundo lugar, o Blasfémias é um blogue colectivo. De referência. Mas, como em todos os blogues colectivos, nele se encontram reunidas sensibilidades e cosmovisões antagónicas e contraditórias, bem como capacidades e qualidades diferentes. Não que eu defenda a unanimidade (que é, por definição, burra), a unissonância, a imutabilidade de opiniões ou a falta de diversidade. Nada disso. A questão é bem mais prosaica: no Liberdade de Expressão tudo estava arrumadinho. Tudo era coerente - dentro, obviamente, dos limites pessoais da nossa coerência. Já sabia o que ia encontrar: acutilância e sagacidade, o raciocínio rápido e um sentido de humor inteligente. O Liberdade de Expressão era um porto de abrigo. Sempre que lá entrava tinha a reconfortante sensação de estar «em casa», seguindo um pensamento que já me era familiar e próximo. Ou seja, a tonificante sensação de respeitar alguém do ponto de vista intelectual, não só por concordar quase sempre com as suas opiniões, mas por poder discordar sem ser insultado ou agredido, antes provocado e instigado a melhorar, a perceber e a compreender. E a aprender - que era coisa que se fazia, e muito, quando se lia o Liberdade de Expressão.

Rumo ao Blasfémias, então.

Domingo, Maio 30, 2004

OBITUÁRIO
Dicionário do Diabo (2003-2004). Next stop: Fora do Mundo

Sábado, Maio 29, 2004

NOTÍCIA ABSOLUTAMENTE FANTÁSTICA
(actualizado)
Há dias, lembrava, com o maradona, quais velhos a contemplar memórias, os bons velhos tempos do Pastilhas. Que me desculpem o Pedro, o Pedro e o João, mas não foi a Coluna Infame que trouxe, para Portugal, o conceito de blogue. Foi o Miguel Esteves Cardoso com o Pastilhas. E foi no Pastilhas que se conseguiu reunir um grupo de pessoas absolutamente fantásticas (autodenominados de ‘pastilhentos’), que mais tarde acabaram por criar os seus próprios blogues. Exemplos: Moi Même, Estações Diferentes, Bomba Inteligente, Ford Mustang, A Papoila, A Causa Foi Modificada, Memória Inventada, Crónicas Matinais, Senhor Carne, Tradução Simultânea, Avenida Vastulec, Umbigo Niilista, Elvis Está Vivo, Triciclo Feliz, Sem Querer Penso, Moody Swing, Sr. Vertigem, Ideafix, Conversa na Travessa, Titas, A Bomba, etc. etc. (se me estou a esquecer de alguém, escrevam para carlosccc@mail.telepac.pt). Outros optaram por participar ocasionalmente na blogosfera, como é o caso da Zazie no Janela Indiscreta e no Associação de Radicais Pela Ética.

Hoje, qual não é o meu espanto, descubro o blogue de um dos mais interessantes e talentosos ‘pastilhentos’: o Rui Pelejão, a. k. a. Vodka7. Portanto, aviso à navegação: não percam este farol. Estou a falar de um valor seguríssimo!

(eu, que já tinha prometido encerrar a lista de blogues, lá tive de abrir esta excepção)
ENTRETANTO
No Causa Nossa os 'posts' são "inseridos por...".

Sexta-feira, Maio 28, 2004

JUNTO-ME
Como refere o Alberto (Alberto: para quando um regresso em pleno?), o Ricardo continua a prestar serviço público com a publicação das crónicas do grande Auberon Waugh, que escrevia, na sua autobiografia: "My own attitude to the innumerable injustices of life has always been a philosophical one, specially when they have tendend to operate in my favour. A player in life's poker game can use only the cards he is dealt. It is not the sign of a clever or compassionate player who is dealt three kings if he trades one of them in for a jack. Most hands have good and bad cards in them. Others may have been born richer or more athletic than I was, better at singing or dancing or drawing in charcoal. I was born with a famous name and a certain fluency in writing - and also with sufficient acumen to see that neither of this gifts would endear me to everyone in my chosen line of business. Writing is a jealous profession, and journalism even more so. If I had not already been aware of it, I was soon to learn of the unbudgeable resentment which these two advantages would cause in many quarters." ("Will This Do?", House of Stratus 2001)

Remexendo os arquivos do Contra, descobri esta crónica de Auberon, publicada em 4 de Janeiro de 1999. Junto-me, assim, a esta espécie de homenagem, levada a cabo pelo Babugem:

"Stand Up For Snobs"
"A friend characterised my strong desire for greater European integration as being inspired by snobbish motives, and this seemed fair enough. The word “snob” – at any rate since its original meaning of «shoemaker» - has always been used pejoratively, and we must agree that when described an excessive regard for the peerage, or for social aggrandisement, it may have been justified as a term of abuse.
Nowadays, however, it is used in the proletarian culture to describe anyone who reads the Telegraph rather than the Sun, and in the great cultural battle between snobs and yobs we should be all proud to call ourselves snobs.
The difference between the two cultures was well illustrated on Friday night’s television, when Jeremy Paxman, on BBC2, introduced a version of University Challenge with two teams, one from the tabloid and one from the broadsheet press. My point is not that the tabloids showed themselves in a poor light. In fact both the tabloid team, led by the Mirror’s Tony Parsons, and the broadsheet team, led by our own Boris Johnson, struck me as brilliant – very quick and impressively well informed.
Then half an hour later, ITV showed a new series: Who wants to be a millionaire? This was presented by Chris Tarrant and sponsored, needless to say, by the Sun, promising up to £1 million for anyone who could answer a number of general knowledge questions correctly.
A fat, expressionless man called Jason with an unrecognisable accent was brought on and asked eight general knowledge questions of an easiness which made everybody present gasp. Refusing the ninth question, he was told he had won £16,000 and led away. Another, almost equally fat man, this time with a northern accent, was brought on and started the process again. The contrast between the two cultures could not have been plainer. We are all snobs. This is not quite the same thing as saying we must all support the common currency, only that those who don’t support it have some explaining to do."
UMA VEZ MAIS, A LADAINHA
Há muitos anos que não lia a Newsweek. A semana passada, passando por uma banca de jornais, dei de caras com uma capa que me deixou curioso: “The Death of The Bristo – Are Taxes and Red Tape Strangling the French Food Industry?”, edição de 24 de Maio. Comprei a revista e mergulhei de cabeça na página 41, local da dita reportagem.

A oriente, nada de novo. O artigo em questão, de Marie Valla e Christopher Dickey, parece ter sido encomendado pelo Sr. Bové, pelo Sr. Villepain e pelo sindicato dos agricultores franceses. Nele se defende a idiossincrasia e exclusividade da cozinha francesa, apresentando-a ao mundo como a mais recente vitima da, claro está, «globalização». O que prova, mais uma vez, que a «globalização» passou a a ser o bode expiatório preferencial quando alguma coisa corre mal. Sobretudo, e por ironia, nos países do «primeiro mundo».

O artigo começa com a lapidar e dramática afirmação de que “a famosa industria alimentar francesa está em declínio”. A culpa, segundo os autores da reportagem, é da “globalização, bem como do governo francês.” Mais à frente, diz-se que “o que é medíocre lá fora, acaba por ser importado para a França”, provocando o descontentamento dos turistas, que, de lágrima no canto do olho, “já não conseguem discernir o que há assim de tão especial na cozinha francesa”. Depois, chega a vez dos agricultores: “Cheaper imports threaten the backbone of French cuisine – its local farmers”, lê-se numa das caixas. A activista Brigitte Allain, ela própria uma agricultora, afirma que “neste sistema [PAC] os agricultores são fornecedores de produtos básicos, onde apenas se exige [de forma a receber o subsídiozinho da ordem] que os bens agrícolas sejam entregues de acordo com as regras”, sem que estas tenham em consideração aspectos como a qualidade e a variedade de sabores, acrescentam os jornalistas. E por aí fora.

O artigo está pejado de contradições, incoerências e propaganda anti-globalização com direito a tiro no pé. Os agricultores franceses e, em geral, os da UE, vivem há décadas da «mama» dos subsídios para evitar entrar em confronto directo com os produtos dos países em vias de desenvolvimento, cuja grande diferença, sejamos honestos, não é de qualidade mas sim de preço: são muito mais baratos. A queixa relativa à globalização é, neste caso, completamente absurda. No CEPR Policy Paper N.º 8, um estudo comissionado pelo Centre for Economic Policy Research, através da UE, onde participaram inúmeros e conceituados investigadores de universidades e institutos franceses, italianos, ingleses e americanos (estudo esse que o Sr. Prodi meteu na gaveta, uma vez que contrariava a litania contra a globalização), concluía-se que ”Farmers in developing countries switch to cash crops that despoil the local environment and mean they can no longer feed themselves in case of a crisis, all in order to satisfy the whims of northern consumers. They are forced out of world markets for their traditional crops by agricultural protection and face dumping of subsidized northern crops on their own markets. (…) Farmers in poor countries have indeed been forced out of northern markets, and face subsidized exports from rich countries. Fortunately, there are suitable domestic policy responses to the first problem, while the second problem requires developed countries to live up to their own globalizing rhetoric. In other words, more (or more consistent) globalization rather than less.”.

É particularmente obsceno verificar como os jornalistas da Newsweek se debruçaram sobre este tema sem estudar todas as suas implicações e variáveis. A cozinha francesa não entrou em declínio por causa da globalização. Se o motivo a apontar é o da quebra da qualidade, culpe-se a UE por apostar numa agricultura intensiva e pouco diversificada e, paralelamente, por fechar as portas à riqueza e variedade de uma multiplicidade de produtos provenientes dos países do terceiro mundo. O sistema dos subsídios não estrangula, apenas, os agricultores dos mercados exteriores à UE; inflaciona, também, o preço dos produtos agrícolas europeus, através de taxas e regulamentações proibitivas que, por sua vez, servem para alimentar o ciclo vicioso dos subsídios à agricultura. Para além disso, o argumento da qualidade é falso. Qualquer chef que se preze, sabe onde ir e como arranjar os bons ingredientes e a melhores matérias-primas, venham elas dos quintaneiros espalhados nos arredores dos grandes centros urbanos, das pequenas explorações viradas para a qualidade ou, ainda, do próprio mercado externo.

Esqueceram, também, que o declínio do chamado “turismo gastronómico” em França, está associado a uma melhoria significativa dos métodos, meios e qualidade de outras cozinhas europeias e mundiais, a que se associa a maior mobilidade de pessoas. Espanha e Portugal são o exemplo disso mesmo. Os franceses ainda não terão percebido que já não é só em França que se come bem. Come-se muito bem "lá fora" e muito mais em conta. Não foi tanto a França que decaiu. Houve, sim, quem se tivesse levantado.

A globalização é, de facto, uma coisa «lixada». Mas é lixada para quem, durante décadas, adormeceu à sombra da bananeira, mamando na teta do proteccionismo e subvalorizando quem, ali ao lado, foi fazendo pela vidinha. Os mesmos que, agora, reclamam justamente um lugar ao sol.
E, NO ENTANTO...
"Ganhámos"
por VASCO PULIDO VALENTE
"José Mourinho garantiu em Gelsenkirchen que ficará na história, pelo menos nos próximos cem anos, porque nos próximos cem anos ninguém tornará a ganhar, como ele ganhou, sucessivamente a Taça UEFA e a dos Campeões. Mourinho merece a nossa gratidão. Como de certeza nem o sr. Barroso, nem o sr. Sampaio ficarão na história, o Portugal do século XXI sobreviverá através dele, e só através dele, na memória humana. A vitória do Porto teve, na verdade, consequências de inconcebível alcance, que, de resto, e por assim dizer com grande espírito desportivo, o Presidente da República e o primeiro-ministro se apressaram a reconhecer. Para o Presidente da República, ela trouxe ao país «felicidade», «auto-estima» e também, dentro em pouco, a «retoma». Para o primeiro-ministro, ela foi «boa», genericamente «boa». E, para o «povo», que se manifestou como hoje já nem por si se manifesta, nada de melhor podia acontecer? A partir de anteontem, Portugal é perfeito e não se compreende, na verdade como ainda há por aí gente que se queixa. O Porto demonstrou o nosso génio nacional; o Porto saiu da cauda da Europa para a cabeça da Europa. A Europa está prostrada perante nós, tremendo de admiração e respeito. Claro que para certos «velhos do Restelo» (que escaparam à polícia) esta versão das coisas, a versão oficial e geral, só mostra até que ponto se degradou a sociedade e corrompeu o Estado. Dizem eles que a baixa cultura da plebe democrática não devia, em circunstância alguma, servir à política de medida e muleta. Que, pelo contrário, se devia sempre resistir à força do futebol, às pretensões do futebol, à falsa vida do futebol. Os «velhos do Restelo» felizmente não contam. Que vale esse país desgovernado e pobre, e agora indiferente ao seu destino, que persiste em não desaparecer apesar das proezas de Mourinho? Ganhámos, não ganhámos?"



in Diário de Notícias
EU, QUE NÃO PERCEBO NADA DE FUTEBOL
Reparo que o José Mário Silva escreveu “Desta vez, não houve a magia de Madjer, mas houve o pragmatismo de Deco, a calma glacial de Alenitchev.”

“O pragmatismo de Deco”? No FCP, Deco é o jogador que mais se aproxima da antítese do “jogador pragmático”. Deco é o jogador dos rasgos de génio, da magia inconstante e do drible impossível. Está a anos luz de ser um Maradona, mas é da mesma estirpe. Pragmático será, por exemplo, o Alenitchev. Ou o Derlei. O golo que Deco marcou – um golo que quase valeu o encontro – foi prova disso mesmo. Pena é que seja tão irregular e lhe falte capacidade atlética para outros voos.

O jogo de guelzenquirchem foi parco em bom futebol. O Mónaco foi uma sombra de si mesmo – por culpa, também, do FCP – e o Porto não esteve nos seus melhores dias. Mas mereceu ganhar. Aliás, o Porto tem sido um justo vencedor de tudo o que tem ganho. Quem disser o contrário e alinhar na ladainha do «sistema», das duas uma: ou é tendencioso ou é cego. E Mourinho - feitio e trejeitos à parte - é um dos melhores treinadores mundiais. O resto é conversa.

De um sportinguista: parabéns ao Futebol Clube do Porto. Parabéns à Ana e ao Francisco. E parabéns a todos os que torceram pelo FCP no jogo da final (nesse caso, se me dão licença, também estou de parabéns).
AINDA MOORE
A leitora Ermelinda de Sá Carioca põe em causa a minha opinião sobre o mais recente filme de Michael Moore, vencedor da Palma de Ouro, com base numa pergunta fulminante:

”Mas você já viu o filme?”

Já, cara Ermelinda. Já o vi em Bowling For Columbine e Roger and Me, já o li em Stupid White Men e Dude Where’s My Country?. O que nunca vi, em Moore, foi cinema, tal como eu o entendo. Mas admito que o defeito seja meu.

Escreva sempre.


Quinta-feira, Maio 27, 2004

A GRAND DON'T COME FOR FREE
Fosga-se! É muita bom!



PS: o Ricardo tinha, uma vez mais, razão.

A NOSSA PETRONELLA WYATT
Quem está comigo na convicção de que a Charlotte tem potencial para se tornar na versão blogosferiana da Petronella Wyatt?



ALBERGUE ESPANHOL
(actualizado)
Daniel Oliveira, no seu Barnabé, publica, solícito, a lista dos «países mal frequentados», com base no relatório da Amnistia Internacional. Ou seja, a lista de países onde: há prisioneiros de consciência; foi aplicada a pena de morte; se verificam execuções extra-judiciais; se pratica a tortura e os maus tratos; há detenções sem julgamento ou acusação; se verificam “desaparecimentos”; grupos armados da oposição violam os Direitos Humanos.

A lista é útil, diz o Daniel, porque ”ajudará a muitos debates sobre o «bem» e o «mal», a «civilização» e os «barbáros».” (sic).

De facto, a lista é utilíssima, sobretudo para quem esfrega as mãos de contente ao verificar que países como a Áustria ou os EUA podem estar associados a outros como o Congo, o Irão ou a Libéria. É utilíssima a quem pratica, com especial afinco, o relativismo e a má-fé (não propriamente a mentira, mas a má-fé). São estas listas que sustentam as equivalências morais e retóricas entre países e regimes cujo único ponto de contacto é estarem situados no mesmo planeta.

Ao colocar no ar essa lista – não ponderada e não graduada – de países onde se violam os direitos humanos (sem estar em causa a existência desses atropelos), Daniel Oliveira acaba por fazer eco daqueles que, sem qualquer problema de consciência e fazendo gosto em passear a sua ignorância, conseguem desculpar ou amenizar os atropelos aos direitos humanos na Arábia Saudita ou no Irão, afirmando que também nos EUA se verificam. Ou em Portugal. Está lá a listinha para o confirmar. A própria expressão do Daniel (de que ”ajudará a muitos debates entre o «bem» e o «mal», a «civilização» e os «barbáros»”), aponta já nesse sentido: esta história dos «civililzados» e dos «bárbaros» é muito relativa, não é? E o «bem» e o «mal» tem muito que se lhe diga, não tem? Portanto, muito cuidadinho na hora de apontar o dedo ao regime x ou ao país y: a nossa casinha (leia-se: a nossa civilização e os países que denominamos de «civilizados») pode ter telhados de vidro.

Pois. O problema surge logo a seguir, quando decidimos comparar o tipo, quantidade, natureza e origem dos «atropelos». Daniel Oliveira bem pode dizer que, mais à frente, a AI explica tudo. É verdade que tenta explicar, mas explica-o de forma nebulosa e por vezes incerta. Por exemplo: comparando os relatórios de vários países acentuadamente diferentes, chegamos à conclusão que, para a AI, “death sentences carried out under federal and state law” e “extra-judicial death sentences” se podem equivaler. Não podem. Outro exemplo: aos EUA são dedicadas cinco páginas de denúncias e factos; ao Irão apenas três. No relatório sobre Israel, a AI refere o assassínio de 600 palestinianos por parte das forças israelitas, ao passo que, no que respeita aos ataques perpetrados pelos grupos armados palestinianos, a AI tem o cuidado de separar as mortes dos civis (130) das dos soldados israelitas (70). Fica-se com a ideia de que Israel atacou indiscriminadamente civis (podendo o relatório escudar-se no facto de não existir um exercito formal do lado dos palestinianos), enquanto que os grupos extremistas palestinianos terão tentado atingir militares (ou seja, um confronto marcial taco-a-taco), embora tenham ceifado a vida de 130 civis. Ou seja, uma total subversão da realidade.

A lista da AI deve ser lida com parcimónia e cautela. Acima de tudo, devem evitar-se comparações que, para além de absurdas, ajudam à impunidade de dezenas de regimes que espezinham grosseira, sistemática e deliberadamente os mais elementares direitos humanos. O facto de se verificarem excessos e abusos no denominado mundo «civilizado» (o mundo das democracias, dos Estados de Direito, da liberdade, dos direitos e garantias), não pode resultar na confusão entre «civilizados» e «bárbaros». Os estados párias e os regimes bárbaros não são uma ficção nem resultam de perspectivas ou interpretações. As suas acções não podem acabar alegremente «contextualizadas» ou «suavizadas», com base em leituras simplistas e distorcidas de um relatório que, já por si, aparenta falhas de rigor e de tom, juntando realidades completamente díspares no mesmo saco. E o contrário também é válido: é injusto e incorrecto fazer crer que países onde o «rule of law» está solidamente implantado; onde o escrutínio popular, a liberdade de expressão, os valores democráticos e o respeito pela dignidade humana são dados adquiridos; que esses países, dizia, possam ser comparados, quase que de igual para igual, com países e regiões onde o ser humano ainda é sinónimo de carne para canhão.

Quarta-feira, Maio 26, 2004

AS IF...

UM QUEVEDINHO A CAMINHO?
Lê-se no Bomba Inteligente:

"Sobre o casamento real: que venha o herdeiro lá para Fevereiro ou Março de 2005 o mais tardar! O casamento foi o que tinha de ser. A descendência é que interessa e o resto é conversa."

JAQUINZINHOS COM ARROZ DE TOMATE
Mais um aniversário. Dos nossos Jaquizinhos, o blogue com o nome mais português. Parabéns ao Jota Cê Dê, um tipo às direitas!

Terça-feira, Maio 25, 2004

Ó DIACHO!
Diz o Luis: ”Uma a duas vezes por semana, vou passar a dar conta de uma visita aos blogues que mais me visitam (impor-se-á sempre uma selecção, como é natural).” Obviamente, acrescento eu.

Fico com dúvidas. Como é que ele sabe quais são os blogues que mais o visitam? De que instrumentos ou fontes dispõe? Serão fontes infalíveis, fidedignas, cientificas? Será através do IP da máquina que acede ao Miniscente? E se um pobre diabo utilizar várias máquinas com vários IP’s ao longo do dia? E se, em vez do link no seu blogue particular, o visitante utilizar o arquivo dos “Favoritos”, que mantém no Internet Explorer, para aceder ao Miniscente? Estará irremediavelmente excluido do concurso? Como será?

Amigo Luis: conta-me tudo!
PORTUGAL POSITIVO: PEQUENA NOTA
O Bruno, que também aprecia o Vasco Pulido Valente, pergunta: “se o objectivo era aumentar a auto-estima, porque é que foram convidar o homem? É que VPV diz o que tem a dizer, e o que tem a dizer não contribui lá grande coisa para aumentos de auto-estima.”

Esta ideia do Portugal Positivo não dá azo a grandes deambulações. Para além de ingénua e inconsequente, não deixa de ser um tanto ou quanto pateta. Também não é novidade nenhuma: vem de longe esta tentativa de injectar no povão a dose de optimismo e de auto-estima de que, supostamente, está necessitado para “vencer os desafios” e “colocar Portugal no mundo”. E sintomático é o facto destes propósitos surgirem associados a momentos de crise ou instabilidade latente.

Como referiu VPV, não é de auto-estima que Portugal precisa. Nós não somos bons por acreditamos ou dizermos que o somos. A auto-estima advém de uma série de circunstâncias, não (re)nasce da boca de meia-dúzia de nacional-porreiristas, por muito boas e louváveis que sejam as suas intenções. Advém do bem estar material, da boa educação, do trabalho e da realização individual. Do que nós precisamos é de maior capacidade de trabalho e organização. A auto-estima virá por acréscimo. Como consequência.

Precisamos, também, de nos preocupar menos com o acessório e mais com o essencial. Precisamos de menos soberba e menos mediocridade. Precisamos de viajar e ver o mundo. E aprender com isso. Precisamos disso tudo. Mas não é a apregoá-lo que vamos ganhar o que quer que seja. Antropologicamente, a postura crónica e por vezes repugnante do optimista de serviço, nunca foi causa de desenvolvimento social e económico.
VOLTANDO A FALAR DE CINEMA
Este bom rapaz, a propósito de Gabriel Byrne, refere Miller’s Crossing (1990), o filme dos manos Coen, com fotografia de Barry Sonnenfeld.

Confesso: da extensa filmografia de Joel e Ethan Coen, Miller’s Crossing é o meu preferido. Sei que Barton Fink é um portento, mas não consigo retirar dele o mesmo prazer que retiro de “História de Gangsters” (o título português…). A cada regresso a Miller’s Crossing, sinto-me reconfortado com o cinema. Está lá tudo: excelente fotografia, trabalho de casting irrepreensível, desempenho vintage de fantásticos actores (para além de Byrne, lembro John Turturro, Jon Polito, Steve Buscemi, Márcia Gay Harden e, claro, o grande Albert Finney), diálogos fabulosos, uma história de amor e de olhares, o sentido da amizade e da lealdade, uma moral da história numa história de homens de carne e osso. Tudo filmado com tempo mas nunca abdicando do ritmo. É assim: não critiquem este filme perto de mim. Fica o aviso.


DUPLAMENTE GRATIFICANTE
Michael Moore ganhou a Palma de Ouro, em Cannes. O filme: Fahrenheit 9/11. A noticia é duplamente gratificante.

Por um lado, é a primeira vez que se premeia a originalidade. Reparem: o facto de Moore ter realizado um filme onde se critica violentamente a actual administração norte-americana, partindo do 11 de Setembro, é de loucos. Ninguém se lembraria de uma coisa destas. Numa altura em que Bush é um dos mais pacíficos e adorados lideres mundiais, o repto e a atitude de Moore são de uma coragem e originalidade a toda a prova. Tanto mais que, observando a filmografia de Moore, o tema é uma verdadeira pedrada no charco.

Por outro lado, Cannes confirma a tendência e esvanece as dúvidas: o cinema, ou a tal “ideia cinematográfica” de que falava Hitchcock, deixou de interessar. A um filme já não interessa ser filme. Tem de ser, sobretudo, outra coisa qualquer. Por exemplo, poderá e deverá ser um «manifesto». Ou um «veículo» da mais reles propaganda política. E se misturarmos ficção com mentira num suposto «documentário», tanto melhor.

É sempre bom saber estas coisas, não vá um gajo pôr-se a falar de Lang, Wilder, Preminger, Hitchcock ou Ray, correndo o risco de ser acusado de passadista, reaccionário ou simplesmente totó.
NOTÍCIAS DA MINHA TERRA
De Évora, um texto (a segunda parte) da autoria de um jovem promissor eborense, onde se abordam alguns temas da sua inquietação, sobre a mui nobre e sempre leal cidade de Évora. O texto denota alguma ingenuidade, própria de quem ainda pensa conseguir mudar o mundo. O estilo é um pouquinho acima do sofrível, o que já de si não é mau. Destaco a referência a Saddam Hussein: um ponto que me liga ao autor que nem uma lapa. Continuarei atento ao seu percurso, na denominada "imprensa regional". Apesar de tudo, são poucos os jovens deste calibre.

”A Cidade das Coisas Incompreensíveis – 2”
Por CARLOS DO CARMO CARAPINHA
“Eu não queria tocar no assunto. As declarações públicas não fazem parte do programa das festas. Os leitores saberão como é: Évora é uma cidade com muito de aldeia. Toda a gente se conhece, toda a gente se inveja, toda a gente se adora, toda a gente se odeia. Não há desporto mais difundido e popular na paróquia eborense que o da maledicência encapotada. O “diz agora que ninguém ouve.” O “faz agora que ninguém vê”. Não há eborense que se preze que não arrisque, perante o constatar de um virar de costas, um desabafo ou a confissão do que lhe vai na alma, omitidas acabrunhadamente no frente-a-frente. Daí que tenha hesitado em escrever sobre o assunto. Et pour cause. A questão envolve gente conhecida, amiga ou assim-assim. Gente com quem falo, com quem me dou, com quem pretendo manter a melhor das relações. Mas, como diria o outro (que eu não sei quem é), o homem ou é um homem, ou é um rato. E eu, de mamífero roedor, tenho muito pouco.

Queria falar-vos das aventuras e desventuras do comércio em Évora. Presumo que (eu que sou um presunçoso), por esta altura, alguns leitores estejam a soltar um “até que enfim!”, sonoro ou abafado. Não é de admirar. Como já tive oportunidade de referir, em matéria de «incompreensibilidade», Évora é um maná e, neste contexto, a atitude e comportamento dos comerciantes desta cidade (onde incluo patrões, gerentes, chefes de secção, empregados, trolhas, etc.), constitui a marca de água de qualquer análise que se produza sobre o nível de cosmopolitismo, urbanidade e sociabilidade das gentes de Évora. Questão de pormenor, dirão alguns. Certíssimo. Mas, como afirmou um dia Frank Lloyd Wright (ou terá sido Mies van der Rohe?), Deus está nos pormenores.

Primeiro dado extraordinário, capaz de causar vagas de epilepsia a quem por aqui passa ou aos nativos que, até à data, ainda não foram atingidos por um daqueles dardos de “anestesia crítica”: os horários de funcionamento dos estabelecimentos comerciais. Na cidade museu vivo - das artes e dos espectáculos, do turismo e dos roteiros, da fruição dos espaços públicos e das encantadoras ruelas - onde é suposto verificar-se uma frenética actividade de gentes e seus derivados, deparamo-nos com esta coisa extraordinária: a generalidade (arrisco 99,99%) dos estabelecimentos comerciais encerra às 19 h, fecha para almoço durante duas horas, recusa-se a abrir portas aos sábados à tarde e ao domingo concorre para uma bizarra sensação de emudecimento do centro histórico, a que podemos chamar de «desertificação». Falo, obviamente, do denominado «comércio tradicional». O tal que se queixa da «concorrência» das «grandes superfícies». Sei que este assunto, tocado da forma como está a ser tocado, poderá trazer-me dissabores, em particular no que toca a certas regalias de que gozo há anos (descontos, ofertas e mimos de vária ordem). Mas a compaixão que estes queixumes em mim provoca é igual à que senti quando vi um Saddam Hussein barbudo, com ar de avozinho da Heidi: nenhuma.

Presumo (eu, que ainda acredito no Pai Natal) que os pequenos e médios comerciantes «tradicionais» – que, ou porque o não sabem, ou porque o esqueceram, têm o privilégio de exercer a sua actividade na melhor e maior «superfície comercial» de Évora, mais conhecida por “Centro Histórico” – tenham já tomado medidas para inverter a situação (que uns afirmam «grave» e outros «preocupante»). Eu, pela minha parte, tenho feito um esforço titânico para notar essas alterações mas, já sabem como eu sou: um incorrigível distraído.

Dizem-me que há por aí uma Associação Comercial, constituída por gente de boa vontade, altruísta, trabalhadora, empenhada em inverter o comodismo, as meias-tintas, a falta de profissionalismo de alguns dos seus associados, e a incapacidade de outros em perceber que a vida mudou, ou seja, que os estilos de vida já não são os mesmos de há trinta anos atrás. Dizem-me, também, que há por aí hectolitros de «sangue novo», que percorre alegremente os vasos de jovens empresários e gerentes (herdeiros, ou não, de negócios de família), cuja mentalidade já não se compadece com enleios de natureza passadista, hesitações medrosas ou justificações esfarrapadas para evitar, por exemplo, a flexibilização de horários. Entretanto, no meio de tanto informação, falo com uma jovem herdeira de um império comercial eborense, que me alerta para a «complexidade» da questão: o «pessoal» (ou serão mais os proprietários?) tem direito ao descanso, ao lazer, à família e ao sono. E dou comigo a pensar: caramba, sou um distraído quadrado! Como é que me terá escapado o tratamento cruel que o patronato europeu (já aqui em Espanha, por exemplo) imprime ao seu pessoal, na figura da tortura do sono, da ruína do ambiente familiar e do esgotamento física e mental de milhões de pobres diabos? Tentei falar-lhe de coisas como «turnos», «part-time», «outsourcing», «trabalho temporário». Ainda tentei colocar em causa a razoabilidade de, em plena canícula, as lojas abrirem as portas às 15 h da tarde para as fechar às 19 h. Ainda tentei perceber porque razão se encerrarem as lojas ao sábado à tarde, quando a cidade tem gente a circular nas ruas (o resto estará em Badajoz, Lisboa ou no Fórum Montijo a afogar as mágoas da depressão económica). Ainda tentei, mas não consegui.

Era minha intenção falar destas e doutras idiossincrasias do comércio eborense. Por exemplo, dizer algumas coisas sobre o sector da restauração e derivados: restaurantes, cafés, pastelarias, snack-bars, etc. Falar dos horários de aldeia praticados, do encerramento colectivo ao domingo, dos maus tratos e roubos infligidos por certos «profissionais» do ramo a turistas e transeuntes de ocasião. Falar da falta de gosto na escolha do mobiliário das esplanadas, da falta de simpatia e cortesia evidenciadas em alguns estabelecimentos hoteleiros. Queria, mas agora não tenho tempo. Nem espaço. E, deixem-me ser absolutamente sincero: não me quero ‘queimar’ mais.”


Segunda-feira, Maio 24, 2004

WITTY


"I’m looking for books on obsessive-compulsive disorder, but
only if the dust jackets are green."
Powered by Blogger Licença Creative Commons
Esta obra está licenciado sob uma Licença Creative Commons.