O MacGuffin: Fevereiro 2004

domingo, fevereiro 29, 2004

INTERESSANTE

Arguing With Oakeshott
By DAVID BROOKS
"This is a good time of year to step back from daily events and commune with big thinkers, so I've been having a rather one-sided discussion about this whole Iraq business with Michael Oakeshott.
One of the most important philosophers of the 20th century, Oakeshott lived and died, in 1990, in England. As Andrew Sullivan, who did his dissertation on him, has pointed out, the easiest way to grasp Oakeshott is to know that he loved Montaigne and Shakespeare. He loved Montaigne for his skepticism and Shakespeare for his array of eccentric characters. Oakeshott seemed to measure a society by how well it nurtured idiosyncratic individuals, and he certainly qualified as one.
Oakeshott was epistemologically modest. The world is an intricate place, he believed, filled with dense patterns stretching back into time. We have to be aware of how little we know and how little we can know.
But the fog didn't make Oakeshott timid. He believed we should cope with the complex reality around us by adventuring out into the world, by playfully confronting the surprises and the unpredictability of it all. But we should always guard against the sin of intellectual pride, which leads to ideological thinking. Oakeshott's doctrine was that no doctrine could properly describe the world.
In his 1947 essay, "Rationalism and Politics," he distinguished between technical and practical knowledge. Technical knowledge is the sort that can be put into words and written down in books. If you pick up a cookbook, you can read about the ingredients and proportions and techniques for preparing a meal.
But an excellent cook brings some other body of knowledge to the task, which cannot be articulated. This knowledge comes from experience. It can't be taught but must be acquired through doing, by entering into the intrinsic pattern of the activity.
Oakeshott cites a tale by Chuang-tzu about a wheelwright who tells a scholar that the stuff in books is but "the lees and scum of bygone men." When making a wheel, the man says, a craftsman has to feel his way to know how much pressure to put on his tools. "The right pace, neither slow nor fast, cannot get into the hand unless it comes from the heart."
Oakeshott was living in the hubristic age of social science, when governments were building monstrous housing tracts they thought would improve the lives of the poor. Long before others, he understood the fallacy of social engineering. He believed instead that government should be prudent, limited and neutral, so that individuals would have the freedom to be daring and creative.
We can't know how Oakeshott would have judged the decision to go to war in Iraq, but it is impossible not to see the warnings entailed in his writings. Be aware of what you do not know. Do not go charging off to remake a society when you don't understand its moral traditions, when you do not even understand yourself. Do not imagine that if you conquer a nation and impose something you call democracy that the results will be in any way predictable. Do not try to administer a country from behind a security bunker.
I try to reply to these warnings. I concede that government should be limited, prudent and conservative, but only when there is something decent to conserve. Saddam sent Iraqi society spinning off so violently, prudence became imprudent. The Middle East could not continue down its former course.
I remind Oakeshott that he was ambivalent about the American Revolution, and dubious about a people who had made a sharp break with the past in the name of inalienable rights and other abstractions. But ours is the one revolution that worked, and it did precisely because our founders were epistemologically modest too, and didn't pretend to know what is the good life, only that people should be free to figure it out for themselves.
Because of that legacy, we stink at social engineering. Our government couldn't even come up with a plan for postwar Iraq — thank goodness, too, because any "plan" hatched by technocrats in Washington would have been unfit for Iraqi reality.
I tell Oakeshott that the Americans and Iraqis are now involved in an Oakeshottian enterprise. They are muddling through, devising shambolic, ad hoc solutions to fit the concrete realities, and that we'll learn through bumbling experience. In the building of free societies, every day feels like a mess, but every year is a step forward."

(Nota: os realces a bold são da minha autoria)
TADINHA
Escreve o Luciano:

"Note-se que desde esse dia, Wolf teve uma excelente carreira académica, uma excelente carreira de articulista, uma excelente carreira de autora de livros, um casamento feliz (na confissão da própria), dois filhos e uma bela conta bancária. Será certamente um novo conceito de “espiral descendente”. Daqui resulta uma ideia triste: como este “novo” feminismo, que parecia liberto da velha conversa “vitimista” do feminismo de antanho, volta a colocar tudo no ponto de partida. Ou talvez mais atrás: antes do ponto de partida. A mão na coxa destruiu a estrutura mental da senhora? A isto não se chama vitimização. Chama-se histeria."

Não, Luciano. Chama-se "frustração"...

sábado, fevereiro 28, 2004

GRANDE ANA!
Tal como o Alberto, também tenho de o publicar:

"Até aqui , eu, como devoradora de cinema, só posso afirmar: « ok, cá está um filme idiota,embora perigoso,mas lá está, é apenas ficção; não se baseia, como a maior parte dos filmes , em factos reais.»
Mas não. Este filmezeco é apresentado como a verdadeira história. Como se, passado tantos e tantos anos, um novo "messias" , munido de câmaras e efeitos especiais, viesse trazer a luz da verdade ao mundo.
É um filme perigoso, reaccionário e anti-semita. É.
Mas o que me chateia é que, ao falarmos tanto da ficção dos Gibson , estámos a contribuir para o seu sucesso. Para que mais pessoas o vejam. (...) Nem toda a gente é parva, é certo, mas há uma imensa parte que o é. Se já é difícil, nos dias de hoje, acabar com os preconceitos de antanho em relação aos judeus, não ajuda nada deitar mais achas para a já imensa fogueira anti-semita que grassa por este mundo fora.
(...) É que esta questão não é entre católicos e judeus: é entre doentes mentais e gente sã.
E mais não digo porque, ao contrário do Nuno Guerreiro e do Francisco José Viegas, tendo a perder a calma, e a educação, com qualquer filho da puta anti-semita. E já falei de mais."

FALTOU O MAIS IMPORTANTE
O Bruno faz o elogio do Barbeiro dos manos Coen (excelente filme, sem dúvida), esquecendo-se de referir o mais importante: está lá a ninfeta Scarlett Johansson!



PS: entretanto, o Bruno já se redimiu, com a publicação de uma foto da 'lolita' do Barbeiro. Condição, aliás, sine qua non.
CARO JMF,
O meu amigo achou por bem criar (em abstracto) uma empresa comigo (facto que me deixou muito contente), achando também por bem estabelecer uma série de pressupostos e criar posteriormente outro conjunto de factos para benefício retórico. Muito bem. Agora que eu resolvi fazer o mesmo, complicando um pouco a questão com a entrada de novas variáveis e de novas restrições, e deixando ir a história para um rumo que, confesso, também me era conveniente, o meu amigo resolve encanitar-se e soltar a língua difamatoriamente.
O meu amigo, para além de ter arruinado uma relação empresarial com uma atitude intempestiva e despropositada, insiste na questão do outsourcing, alegando que a empresa era de um primo meu. Não o vou negar: a empresa – a tal que presta serviços de outsourcing para a Miele, Bosch e Siemens – pertence ao meu primo Custódio e é, de facto, uma excelente empresa, com provas dadas no mercado internacional. O facto de ele ser meu primo deveria ter impedido qualquer tipo de relação comercial? Porque carga d’água? Que raio de preconceito é esse? Não se estabeleceu, afinal, uma relação comercial profícua e sã, vantajosa para a nossa empresa e livre de negociatas? Deixe-me ver se entendi: o ser “primo” ou militante do “PSD” (ou CDU, PS, etc.) é, desde logo, um handicap? É sinónimo de conluio potencial? E o meu amigo está redondamente enganado: por incrível que possa parecer, em Évora o PSD tem-se coligado com a… CDU!
De seguida, afirma vócemessê que eu só queria fazer «receitas extraordinárias». Mentira. Mais uma vez leu o que não estava escrito. O que eu disse é que, numa altura de crise, em que estava em causa a manutenção de cinquenta postos de trabalho - e uma vez que teríamos de recorrer ao «emagrecimento» (palavra que, já vi, lhe faz socialmente confusão) da empresa - seriam necessária e legalmente libertadas (embora excepcionalmente) receitas extraordinárias que, por sua vez, iriam servir para colmatar alguns problemas: 1) um problema de insolvência de curto prazo; 2) o pagamento dos salários em atraso; 3) o pagamento de indemnizações; 4) a compra de equipamento moderno; 5) a recuperação da própria imagem da empresa junto do mercado e dos agentes económicos. O meu amigo é que entende que o despoletar de receitas extraordinárias é sinónimo ou de má gestão ou de vigarice. Não é!
Por último, desanca no meu amigo Ambrósio (o de Borba), porque ele é militante do PSD. É extremamente deselegante da sua parte sonegar o facto de ter sido o Ambrósio o grande responsável pelo programa de qualificação profissional que colocou a Icily num patamar de excelência sem paralelo. Se bem estou recordado, a empresa tornou-se num case study na área da gestão de recusros humanos, passando a representar um exemplo de aposta clara na qualificação do pessoal (até porque a crise da Icily esteve ligada a factores externos). Só entendo essa insinuação pelo facto de ter sido o Ambrósio a ficar com o seu Mercedes-Benz depois de vócemessê ter batido com a porta. Facto que nunca perdoou.
A Líbia? Vamos a isso! Mas, é claro, não "iremos". Agora que o meu amigo fechou as portas a qualquer entendimento – e, inclusivamente, a uma perdiz desossada! – não poderei contar consigo. Não leve a mal mas, ainda assim, aproveitarei a dica da Líbia. Irei eu. Surpreendido? Não esteja. É que, como não deve ter reparado, eu nunca confundi o plano das convicções ideológicas com o plano da competência profissional e do relacionamento humano.

GRANDE JORNADA DE LUTA
Ontem estive envolvido numa grande jornada de luta com o meu amigo maradona. Palmilhámos quilómetros, conversámos pelos cotovelos, lavámos a vista na Häagen-Dazs do Chiado (onde discutimos questões estéticas e éticas), demos um pulo à Tema (a TLS e a The Atlantic aguardavam o resgate), escutámos, por breves momentos, as movimentações da Igreja Pentecostal mesmo ali ao lado, não sem antes nos termos debruçado sobre a qualidade do recheio da estanteria da secção de Filosofia, História e Política da FNAC do Chiado. Uma tarde em cheio. E a dor de dentes, passou?

PS: maradona: o Jouneys é delicioso.

PPS: e, convenhamos: o meu Moleskine (pautado) é mais bonito que o teu (quadriculado).


É A CULTURA, ESTÚPIDO! - EDIÇÃO 02/2004
Moderador: Anabela Mota Ribeiro
Críticos literários: José Mário Silva e Pedro Mexia
Jornalistas: João Miguel Tavares (cinema) e Nuno Costa Santos (música)
Política: Daniel Oliveira e Pedro Lomba
Stand-up comedian: Luis Filipe Borges.

Convidado: António-Pedro Vasconcelos

Estive, pela segunda vez, no “É a Cultura, Estúpido!”, mais uma vez realizado no lindíssimo Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz. O convidado desta edição era o realizador de cinema António-Pedro Vasconcelos. Assisti, na rua, à sua chegada: 1,90 m a sair de um taxi, envergando uma gabardina creme e um chapéu de feltro. Grande pinta. O APV é um gentleman. É uma pessoa cultíssima e um contador de histórias nato - ingredientes suficientes para fazer dele um convidado excepcional. Para inicio de conversa, Anabela Mota Ribeiro fez-lhe uma pergunta em jeito de provocação: seria APV um escritor frustrado, tendo encontrado no cinema o escape preferencial para as suas frustrações? APV respondeu peremptoriamente que não. Muito pragmaticamente, APV afirmou que a escrita é uma tortura e que há poucos romancistas felizes. “A literatura está cheia de cadáveres”, disse o cineasta. Francamente, não sei se isso não passa de um mito – o do escritor angustiado, solitário, pobretanas e de coração partido. Não haverá estivadores, escriturários, cineastas ou pintores infelizes? Se o critério é o da infelicidade, o problema, a meu ver, é que existe gente infeliz a mais no mundo. “Qual é, então, a diferença entre literatura e cinema?”, perguntou a doce Anabela. “O cinema filma a vida directamente, sem filtros”. Uma espécie de WYSIWYG: what you see is what you get. E as adaptações cinematográficas das grandes obras literárias? APV defende a ideia de que os grandes livros raramente são bem adaptados. Qualquer filme fica invariavelmente aquém do livro e, regra geral, acabam por ser obras menores no currículo de qualquer cineasta. Uma excepção? Lolita de Kubrick, a adaptação do romance de Nabokov (houve uma outra adaptação realizada por Adrian Lyne, mas não falemos de lixo por agora). Neste ponto, estou inteiramente de acordo com APV. Penso até que qualquer realizador de cinema que se preze sentirá sempre uma espécie de respeito angustiante quando está em causa a adaptação de um grande livro, especialmente de um livro do seu contentamento. Haverá sempre uma tendência para sacralizar a obra e o autor e isso nunca será um bom presságio. A maioria dos grandes filmes partiram de obras «menores» (pelo menos pouco relevantes) ou feitas à medida do filme. APV deu como exemplo To Have and Have Not de Howard Hawks, uma adaptação de um livro medíocre de Hemingway. Curiosidade: APV afirmou que trocava toda a sua obra cinematográfica pela autoria do Le Rouge et Le Noir...
(Por falar nisso, tinha comprado, minutos antes, um dos filmes da minha vida (à conta do qual se produziu uma troca de correspondência entre mim e o João Benard da Costa nas páginas do Independente), e uma das maiores obras da história do cinema: A Matter of Life and Death de Michael Powell e Emeric Pressburger. Segundo consta, não foi baseado numa grande obra: o argumento foi inteiramente made to measure.)

Seguiram-se Pedro Mexia e José Mário Silva – sempre impecáveis. Falaram dos livros que andam a ler e dos que não andam a ler. Na secção “não ando a ler”, e voltando a falar de lixo, Pedro Mexia desfez, como não podia deixar de ser, o livro de poemas do bardo Pedro Barroso. Não era preciso muito: bastava ler duas ou três «estrofes». Foi o segundo momento BNC: “bater no ceguinho”. O primeiro aconteceu com José Mário Silva, a propósito dessa grande obra Causas de Cultura, de Pedro Santana Lopes. Contudo, confesso, caro José Mário, que a piadinha sobre os concertos para violino de Chopin já está estafadita...

João Miguel Tavares falou de Óscares e, neste particular, não gostei do início. JMT afirmou qualquer coisa como “Nos Óscares nunca lá estão os nossos filmes” ou “Os melhores filmes nunca vão aos Óscares”. Discordo. Podemos ser críticos relativamente à natureza mainstream da Academia, à estética do evento, etc. etc. - mas parece-me inconsequente e injusto recorrer ao cliché que é «bater» nos Óscares. Olhando para a sua história e para o seu presente, nos Óscares de Hollywood não houve um só ano em que não estivessem presentes grandes filmes. Este ano, por exemplo, está lá Mystic River (grandioso filme) e Clint Eastwood, Lost in Translation, etc. (embora seja verdade que Spike Lee e a sua 25th Hour não estarão presentes). Como estiveram, no passado, Coppola, Scorcese, Woody Allen, Wyler, Kazan, Mankiewicz, Wilder, Ford...
Bem diferente é dizer que nem sempre os melhores (ou aqueles da nossa preferência) ganham. Fair enough. Tenho para mim que, ao longo de quase oitenta anos, os Óscares premiaram alguns filmes sofríveis e outros medíocres, mas estou igualmente convicto de que passaram (e ainda passam) por lá os melhores realizadores e os filmes que ficaram nos “anais da história da sétima arte”. Quer gostemos, quer não, os Óscares simbolizam, para todos os efeitos, o cinema. Todo o cinema. E representam aquilo que de melhor se faz nos EUA: conciliar apelativamente valores culturais de referência obrigatória com a chamada cultura «popular». Ao longo de décadas, em registo maioritariamente mainstream, foram muitos os realizadores, produtores e actores que desenvolveram um trabalho meritório de raiz popular – digamos “comercial” – de mão dada com o génio. Coisa que requer inteligência, trabalho e humildade. A que acresce uma sensação que APV também referiu: o cinema americano pode ter piores argumentos (adaptados ou originais), mas sempre soube contar melhor uma história.
JMT fez, ainda, referência à diferença de estatuto entre os actores de hoje e os actores de «antigamente». Antigamente os actores confundiam-se com as suas próprias personagens. Bogart fazia de Bogart, John Wayne fazia sempre o mesmo papel, Cooper também, Cagney idem. Certos actores nunca podiam morrer (o caso de Wayne), outros morriam sempre no fim (o caso de Cagney). Francamente, não sei se é esse o caso. Nelson Rodrigues escreveu um dia: “O mal do actor é que ele funciona como tal. Representando Shakespeare, Sófocles ou O’Neill, sabe que está ali apenas como actor, isto é, como cidadão que tem um salário, uma carteira profissional, um sindicato. Eis o equívoco desesperador: o actor jamais se desembaraça de sim mesmo para ser o personagem que está encarnando”. JMT acha que, hoje em dia, os actores multiplicam-se em papeis, cada um mais diferente do outro - facto que baralha eventuais sobreposições entre personagem/actor. De acordo. Sem dúvida que, hoje em dia, o actor é aparentemente mais versátil, o que se traduz num aumento da criatividade, diversidade e do «trabalho de campo». Mas não será um sinal de que são cada vez menos os actores a conseguirem “desembaraçar-se” da sua condição de stars e de assalariados?

Nuno Costa Santos falou-nos da BSO de Lost in Translation e de Gary Jules (aquele tipo que canta aquela musica do “mad, mad world”). Ok, Nuno: a BSO é porreira, mas Gary Jules...nããã.

Finalmente, Pedro Lomba e Daniel Oliveira debruçaram-se (mas não caíram) sobre a imigração, a propósito do livro de Rui Pena Pires Migrações e Integração (Celta). Primeira conclusão: Daniel Oliveira é perigosamente bom. Tem uma linha de raciocínio clara, é eloquente e nota-se que prepara meticulosamente a suas intervenções. Um blogtrotter (repararam no trocadilho?). Tem o péssimo hábito de interromper os outros e de não deixar mais ninguém falar, mas isso, meus amigos, é próprio da... (vocês sabem). De resto, amigos reaças, é destes esquerdistas que vale a pena ter medo! Pedro Lomba fez-me lembrar o autor destas linhas: sabe pensar (modéstia à parte), sabe o que quer, tem convicções mas exprime-as de forma um pouco atabalhoada e sem o ritmo alucinante do seu antagonista. Pelo menos, não tinha a lição tão bem estudada. E falhou em explorar o ponto fraco da tese do Daniel, que é: como é impossível evitar a migração de pessoas, ou seja, como eles (os imigrantes) acabarão sempre por conseguir entrar (por ar, terra ou mar), a única solução é... escancarar as portas, nacionalizar toda a gente e abolir, se necessário, o conceito de estado-nação. No plano dos princípios, e tal como o Pedro Lomba, estou de acordo com o Daniel quando ele afirma que a imigração é uma coisa intrinsecamente positiva. E não é, à partida, um problema. Por enquanto, acrescento eu. Parece-me redutor e simplista partir de uma inevitabilidade (“eles entrarão sempre”) e, a partir daí, defender a desregulamentação, o facilitismo, etc. Desde logo porque não me parece liquido que a maioria dos imigrantes venha com a intenção de ficar. Por outro lado, e para sermos perfeitamente honestos, a oferta de trabalho não é elástica. Ou seja, é razoável pensar que o clima de coabitação pacífica entre imigrantes e população nativa se possa deteriorar, transitando para um clima menos favorável se o nível de imigrantes, em relação à população activa, por exemplo, duplicar. Qualquer governo terá sempre de equacionar eventuais tensões futuras, por força do aumento do desemprego e, simultaneamente, do fluxo de imigrantes. Por enquanto, com base nos dados disponíveis, a imigração em Portugal continua a ser de baixa intensidade. Mas só por agora. É de prever que, a este ritmo, surjam os primeiros focos de tensão e se agravem os problemas de integração pela via do aumento do desemprego e pela sensação de que os imigrantes começam a ameaçar os postos de trabalho de quem aqui nasceu (uma sensação que não deixa de ser legítima, mesmo levando em linha de conta o facto de muitos imigrantes virem fazer o trabalho que a população nativa não quer fazer). A grande questão é a de saber se se poderá enveredar por uma política restritiva – que controle minimamente os fluxos de imigração (a meu ver uma prerrogativa inalienável de qualquer Estado) – sem com isso beliscar os direitos e garantias a que qualquer cidadão do mundo civilizado tem direito. E, por favor: não acusemos de incoerência a defesa da livre circulação de mercadorias e de capitais com a defesa de um mínimo de controlo sobre os fluxos migratórios das pessoas. São coisas distintas. Até porque estou com o Vasco Pulido Valente: o que nos poderá salvar, como país, é emigrarmos durante uns tempos para a civilização para, passado outro tempo, voltarmos com a lição bem aprendida...

Houve ainda tempo para APV referir a pobreza das traduções em Portugal, dando como exemplo um livro em que traduziram sistematicamente Rule of Law (Estado de Direito) por "regra da lei"...

Falhei o número de stand-up comedy. Tive de sair mais cedo.

QUANDO A MÁ FÉ E A FALTA DE EDUCAÇÃO ANDAM DE MÃOS DADAS
Masson, do blogue Almocreve das Petas, tem o péssimo e intermitente hábito de rotular os outros e de nem sequer se dirigir aos visados pelo nome. No seu último ‘post’, trata-me por “este” e atribui-me os epítetos de “neófito da economia política”, “liberal eborense” e “contabilista”. O que confirma a tese de que no melhor pano cai a pior nódoa. Não é a primeira vez que o erudito e sofisticado Almocreve das Petas (um caso de serviço público na blogosfera) faz referência à minha pessoa e ao meu blogue de forma incorrecta e injusta, recorrendo, quase sempre, à presunção e à altivez de quem parece estar acima da ralé (neste caso de moi même). Vem de longe este ódiozinho de estimação. Até à data, nunca ousei responder-lhe publicamente, por uma questão de respeito. Mas, desta vez, não passa. Porque, desta vez, resolveu o distinto bloguista imiscuir-se numa troca de emails alheia, cujo estilo e tratamento estavam de antemão, e tacitamente, acordados entre os intervenientes. Masson parece não ter percebido que tanto eu como o JMF assumimos esta espécie de “divertimento” com total respeito mútuo e sem a mínima intenção de injuriar ou rotular alguém. Esticámos a corda consciente e deliberadamente. Esta tentativa pífia e tardia de gerar, ou acalentar, uma eventual crispação entre os dois antagonistas originais é patética. Quando eu coloquei JMF de braço dado com Carvalho da Silva estava, obviamente, a brincar e a tentar trazer para a discussão alguma latitude e sentido de humor. Foi esse, aliás, o espírito da última resposta de JMF – como a qual, devo dizer, me diverti bastante. Mas ter-se-á tratado apenas de um “divertimento”? Claro que não. Em ambos os casos estivemos na presença de uma espécie de alegoria, ou seja, de uma tentativa de exposição de uma opinião e de um pensamento sob a forma figurada. Deixando de lado o exercício, não acredito que JMF não perceba que, em situações de crise, o recurso às receitas extraordinárias é legítimo, legal e, até, necessário. As empresas e o país têm muitas vezes de recorrer a essas medidas de excepção, sobretudo quando as políticas estruturais têm um timing de eficácia de médio prazo. Isto nada tem que ver com “liberalismo”, “contabilidade” ou “vigarice”. Foi isso que tentei transmitir com a minha alegoria. Da mesma forma que, obviamente, não posso discordar de JMF na crítica que ele faz aos erros de gestão, às manobras «obscuras» e às «vigarices» avulsas - que também as há neste país e em todos os sectores. No fundo, na minha história e na história do JMF pode haver de tudo. Porque, invariavelmente, cada um de nós dar-lhe-á o rumo mais «conveniente» e «favorável».
Ao JMF: um abraço, um agradecimento pelo fair-play e a promessa de uma resposta “à altura” e de uma "perdiz desossada" quando ele passar por Évora. Ao Masson: seja mais correcto, menos presunçoso e tenha cuidado com os telhados de vidro. E se gosta de "perdiz", junte-se ao "contabilista" e ao "divino".

quinta-feira, fevereiro 26, 2004

NOVO BLOGUE
Da equipa do Memória Inventada, eis que surge o Conta Natura. A seguir. De perto.
COMPLIQUEMOS AS COISAS
Vamos supor, então, que o MacGuffin e o JMF criavam uma empresa para produção de frigoríficos, dado o promissor mercado da Islândia. O seu nome: Icily Lda.
A empresa iniciou a sua actividade com a compra de: um armazém de 2.000 m2; equipamento completo para permitir total independência relativamente a terceiros (ou seja, para que não houvesse necessidade de recorrer ao outsourcing e para permitir a monitorização de todo o processo de fabrico, incluindo a implementação de um rigoroso controlo de qualidade interno); uma pequena frota de três viaturas comerciais para transporte de matérias-primas, máquinas e material diverso. Como manda a boa gestão financeira, nomeadamente a regra de ouro segundo a qual os capitais utilizados pela empresa no financiamento dos seus activos devem ter uma maturidade igual ou superior à vida económica destes, a Icily Lda. contraiu um empréstimo de médio-longo prazo para financiar o investimento em activos fixos. Optou-se por não dotar a empresa de viaturas de serviço para os sócios-gerentes (facto que deixou inconsolável, durante uma semana, o sócio MacGuffin, esperançado que estava em montar-se num Mercedes-Benz S400 CDI, apesar de saber que o sócio JMF se contentava com um Fiat Punto Biturbo).
A empresa iniciou a sua actividade com cerca de 30 funcionários (15 homens e 15 mulheres, por imposição do sócio JMF, muito dado às questões da igualdade e do politicamente correcto).
Ao fim de seis meses de laboração, a Icily Lda. ia de vento em popa, entrando desafogadamente no ciclo de exploração (passada a fase inicial de investimentos). Ao quinto mês, o Break-even point havia sido atingido e ultrapassado. Os custos estavam controlados, o rigor orçamental fazia-se sentir e o nível de encargos financeiros era, agora, comestível.
Passados dois anos, os resultados estavam muito acima das expectativas. A empresa encontrava-se financeiramente equilibrada (níveis de Cash-flows e de liquidez adequados, Necessidades de Fundo de Maneio a um nível aceitável, rácios de solvabilidade irrepreensíveis).
Com o passar do tempo, começaram a verificar-se os primeiros excessos de liquidez e fluxos de caixa supérfluos. As encomendas não paravam de entrar - de tal forma que a capacidade produtiva começou a ficar aquém da desejada. A empresa atacava agora em três frentes: Islândia, Irlanda e Inglaterra (os três "is"). Perante este cenário, tomaram-se algumas decisões: arrancar com duas novas unidades de produção, comprando dois novos armazéns (1.000 m2 cada), totalmente equipadas; admitir mais 40 funcionários (20 para cada nova unidade); aumentar a frota de viaturas comerciais de três para seis; e, finalmente, alugar duas viaturas topo de gama para os sócios gerentes (dois Mercedes-Benz S400 CDI, recorrendo ao Aluguer Operacional, ou renting, em que a renda mensal passaria a incluir os serviços de manutenção e gestão de frota, substituição de pneus, seguro e cartões de combustível).
Passados três anos da sua fundação, a empresa era, agora, um caso de sucesso, com direito a visita de S. Exa. o Presidente da República, e os sócios MacGuffin e JMF eram convidados para colóquios e workshops sob o lema da “Gestão para o Sucesso”.
No ano seguinte, nuvens negras adensaram-se no horizonte da Icily Lda. Duas novas marcas concorrentes – uma coreana e outra norte-americana - haviam conseguido ganhar uma série de concursos para fornecimento de frigoríficos industriais e os seus modelos para o segmento de retalho começavam a ser um sucesso de vendas. A Icily Lda. começou por assistir a uma quebra acentuada das suas encomendas. A razão tornou-se, rapidamente, óbvia: os frigoríficos das marcas concorrentes eram muito mais baratos e fiáveis.
Com a quebra das encomendas e da produção, chegou-se à conclusão que a Icily Lda. havia crescido mas, ao mesmo tempo, engordado. Os custos fixos representavam um peso insuportável na estrutura da empresa, o desperdício era notório, a qualidade dos seus frigoríficos tinha regredido, o descontrolo orçamental instalou-se, o nível de liquidez tinha alcançado um nível preocupante e a insatisfação dos trabalhadores começava a fazer-se sentir.
Os sócios MacGuffin e JMF, com a ajuda de um consultor externo, encetaram, então, um trabalho de diagnóstico. As conclusões não se fizeram esperar: a Icily Lda. tinha de emagrecer, não só através da redução da sua dimensão e respectiva capacidade produtiva, mas igualmente levando o enfoque da sua activiadade para o nicho de mercado onde o critério fosse o da qualidade. Só dessa forma a Icily Lda. poderia voltar a posicionar-se no mercado e ganhar vantagem competitiva sobre as suas rivais. Entrar na guerra dos preços seria um suicídio. O mercado a atacar seria o escandinavo e a lógica “volume” teria de ser substituída pela lógica “valor e qualidade”. Finalmente, o emagrecimento da empresa seria a única opção viável para que a Icily não entrasse em falência e não tivesse de fechar as suas portas.
Primeiro medida de fundo preconizada: desactivar duas das unidades de produção, alienando o imóvel e todo o equipamento (resultado: receitas extraordinárias). Segunda: alienar todo o equipamento de pintura, incluindo as duas estufas e o laboratório (resultado: receitas extraordinárias). Terceira: recorrer ao outsourcing na parte referente à pintura e aos acabamentos finais – colmatando uma das grandes pechas dos frigoríficos Icily: a pouca resistência à corrosão e o deficiente isolamento térmico - contratando a empresa que, em Portugal, fazia esse tipo de trabalho para as maiores marcas mundiais de frigoríficos (resultado: redução de custos, melhoria da qualidade). Quarta: reinvestir parte das mais-valias na compra de novo equipamento – mais moderno e robotizado – e aplicar outra parte das receitas no pagamento das indemnizações derivadas do despedimento de cerca de 20 trabalhadores.
É claro que tudo deu para o torto. O sócio JMF recusou tal solução. Numa atitude despropositada, vendeu a sua quota a um familiar. Passou a acusar o sócio MacGuffin de «vigarista» e «desonesto». JMF considerava que o simples facto de figurarem nas contas da empresa “receitas extraordinárias” (ainda por cima de montantes tão elevados), era, por si só, sinónimo de “negociatas obscuras”, “trapalhice” e “manobras sinistras de engenharia financeira”. JMF não queria estar associado a tais epítetos. Mais: JMF esteve sempre convencido de que a alienação dos carros de serviço teria sido suficiente. MacGuffin, coitado, bem tentou explicar-lhe que os carros nem sequer eram da empresa: pertenciam a uma gestora de frotas. Explicou-lhe, também, que o encargo mensal referente a essas viaturas representava uma gota de água no oceano de custos correntes e operacionais da Icily Lda. E tentou convencê-lo de que mais valia dar trabalho a 40 ou 50 funcionários do que a nenhum. Mas de nada lhe valeu. Um JMF orgulhoso e febril, apareceu, um dia, na companhia de Carvalho da Silva, empunhando um cartaz onde se podia ler a mensagem: “Abaixo o patronato e as manobras obscuras!”

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

ENTRETANTO...
...chove copiosamente em Évora. Mas, se Deus quiser, hei-de estar logo à tarde no S. Luis, para mais um "É a Cultura, Estúpido!"
RECTIFICAÇÃO
(actualizado)
A Charlotte escreveu: "O Macguffin escreveu que a autora do azul limão seria a nossa Azul do Pastilhas". Pois parece que não. Mas eu ia jurar que: 1) a própria Charlotte tinha feito referência a esse facto, em post anterior; 2) Os textos do Azul Limão eram anteriormente assinados por uma tal de "Azul" e não, como agora, por "Maria Limonada". Mistérios...

PS: A Charlotte afirmou, há dias, que achou o Lost in Translation "chocho". Não posso comentar essa afirmação porque ainda não vi o filme (embora acredite piamente nas palavras do Alberto). Já não posso deixar passar em claro o facto da Charlotte ter gostado do MST em registo de rábula na TVI. É como tudo na vida, querida Charlotte: nada como uma boa Perdiz à Fialho, regada com Cartuxa, e com o remate final de um Torrão de Évora, para recuperarmos a lucidez...

PPS: Afinal não. A Charlotte gostou apenas da putativa imitação da voz do Vasco Pulido Valente, levada a cabo por Miguel Sousa Tavares na Gala da TVI. Mas será que era essa a intenção de MST? Duvido. Seja como for, a recomendação, em jeito de prescrição, mantém-se: a Perdiz dos manos Fialho (já toda desossada, que a mão-de-obra está cara) faz milagres. Eu, pelas confusões que tenho feito (que desencadearam rectificações de rectificações de...), estou a precisar da iguaria. Ainda bem que vou lá hoje almoçar.

segunda-feira, fevereiro 23, 2004

VIVA!: OS BARNABÉS LÊEM O CONTRA!
Depois de eu ter escrito, num post referente à blogosfera (V. Ainda a Blogosfera, 20.02.2004), que "se o Barnabé fosse da responsabilidade exclusiva do Rui Tavares, no espaço de uma semana teriam sido publicados apenas três posts", Rui Tavares publicou, em apenas 24 horas, nada mais nada menos do que 9 (nove) posts! Estes tipos não brincam em serviço.
AZUL
A menina Azul - mais uma pastilhenta forjada na montanha do fogo pelo feiticeiro-mor MEC - chegou à blogosfera, com o refrescante Azul Limão. Bem-vinda.

domingo, fevereiro 22, 2004

PHILIP ROTH II
Eu diria mais, caro Francisco: o mais importante escritor americano de hoje.

PS: Não é, caro Francisco. Não é. É a livraria da Editorial Notícias.
PHILIP ROTH I
A propósito da edição portuguesa de The Human Stain, Francisco José Viegas – o mestre, do Aviz - escreve, na Grande Reportagem:

”A América de Roth é espantosa, cheia de pecados e de segredos; depois de O Complexo de Portnoy e de Teatro de Sabbath é um crime ainda não ter lido o mais importante escritor americano de hoje.

Li A Mancha Humana no original (edição Vintage). Como é meu hábito, ontem dirigi-me a uma livraria de Évora para comprar a edição portuguesa (Dom Quixote). Nas duas «ilhas» destinadas à ficção, nem sombra do livro. Muito por acaso, olhei para a prateleira inferior (aquela que ninguém vê) de uma das «ilhas» dedicada a ensaios, à História, à política, etc. e, por incrível que pareça, estavam lá escondidos os cerca de vinte exemplares de A Mancha Humana. Resultado: acusei a gerente de acto criminoso. Não era para menos.

DE UMA E DE OUTRA
Pergunta JMF, no Terras do Nunca: “estamos a falar de política ou de contabilidade?”. De ambas, JMF. De ambas. É que uma (esta) reflecte a outra (aquela). Reflecte-a na medida em que a contabilidade é um sistema de recolha, classificação, interpretação e exposição de dados económicos, sendo também «filha» do Direito Fiscal. “Receitas extraordinárias” ou “Resultados extraordinários” não são sinónimo de “Receitas maquilhadas” ou “Resultados artificialmente fabricados.” E o déficit, ou o superavit, resulta do confronto de forças antagónicas, como são, por exemplo, o caso das “receitas” e das “despesas”. As receitas ordinárias ou extraordinárias podem diminuir o déficit. E o mesmo se aplica às despesas, só que com um efeito de sinal contrário. Pois é, caro JMF: neste caso, os «alhos» e os «bugalhos» andam de mão dada. E, de uma vez por todas, parem de pavlovianamente falar em “manobras de maquilhagem” e “vigarice” sempre que surge a categorização de “extraordinárias”.

sábado, fevereiro 21, 2004

E A TROPICAL?
Sábado à noite, num restaurante em Évora. Avista-se na ementa, secção "sobremesas", a existência de "Fruta da Época" (€1,75) e de "Fruta Tropical" (€4,5). Opta-se pela "Fruta da Época". Chama-se o garçon. Aproxima-se o garçon. Pergunta-se ao garçon:
P: Qual é a fruta da época?
R: Manga, papaia, ananás, abacaxi, kiwi e laranja.
LARKIN
Este rapaz - que, segundo a doutrina barnabeniana, também se encontra em depressão - publicou no dia 6 de Fevereiro um poema do Larkin (o meu poeta favorito). Mal sabia ele que, dois dias depois, a 8 de Fevereiro, o autor destas linhas comemorava mais um aniversário. Uma deliciosa e acidental prenda de aniversário. Ou talvez não.
VIDEO KILLED THE RADIO STAR

'Make love to me, David.'

in The Spectator
UMA MENTIRA
JMF não percebeu a ponta de um cor** do que foi escrito pelo João, a propósito do déficit. Eu explico. A empresa onde trabalho registou uma receita extraordinária no valor de 350.000 euros, respeitante à alienação de um imóvel. Uma coisa que, contabilisticamente, é registada numa conta da classe 7 denominada "79-Proveitos e Ganhos Extraordinários", mais concretamente na subconta "7942-Alienação de Imobilizações Corpóreas". Caso esse imóvel tivesse passado, ao abrigo do "princípio contabilistico da substância sobre a forma", a Investimento Financeiro, registar-se-ia na "7941-Alienação de Investimentos Financeiros". Uma decisão programada e inserida numa estratégia bem definida? Não: uma mentira, um truque, uma farsa. Estamos sempre a aprender.
DECRETO-LEI 245/04 DE 20-02
O presente diploma estabelece o regime de obrigatoriedade de leitura das crónicas gastronómicas do Sr. Miguel Esteves Cardoso, publicadas na edição semanal do caderno/suplemento do Diário de Notícias “DNA”. A intenção do presente diploma é a de proporcionar a todos os cidadãos portugueses momentos de intenso prazer, imensa sabedoria e puro génio.

CAPITULO ÚNICO – Âmbito e forma de aplicação do diploma

  1. A obrigatoriedade de leitura das crónicas do Sr. Miguel Esteves Cardoso está sujeita ao regime estabelecido pelo presente diploma.

  2. O regime definido no presente diploma é aplicável a todos os cidadãos portugueses maiores de dezoito anos e residentes em território nacional.

  3. As crónicas objecto deste diploma devem ser lidas uma primeira vez no próprio dia da publicação, nomeadamente às sextas-feiras.

  4. A leitura a que alude o ponto 3 não deverá ocorrer depois das 12h.

  5. Deverão ser relidas no dia seguinte, de preferência em voz alta e se possível em família.

  6. Deverão ser posteriormente relidas com uma regularidade mínima de duas vezes por semana, durante os 30 dias subsequentes à sua publicação inicial.

  7. O caderno onde as crónicas são publicadas deverá ser guardado em local arejado, livre de humidade e de luz solar, e fora do alcance de crianças ou, em alternativa, deverão destacar-se as páginas onde figura a crónica, recorrendo de seguida à sua imediata plastificação.

  8. A leitura das crónicas do Sr. Miguel Esteves Cardoso anula e substitui a leitura de qualquer obra do Sr. Eduardo Lourenço onde se disserte sobre o devir, a alma e as características do homo lusitanus, por manifesta inferioridade linguística, temática, emocional e de conteúdo.

Visto e aprovado em Conselho de Ministros – Promulgado em 21 de Fevereiro de 2004 – Publique-se – O Presidente da República, Jorge Sampaio.
MAIS UM DO HOMEM COM UM 'PENTEADO ASSIM'

A estrela de Belém
"Enquanto programa de candidatura, eis um modelo deliciosamente nulo, à rigorosa medida de um PR que se preze. Santana deseja ser o presidente de todos os portugueses – que votaram nos partidos do Governo. E só.

Alguns lamentam que as eleições presidenciais ocupem, a dois anos de distância, uns setenta por cento da “discussão” política vigente. Estranha-se o espanto, dado os trinta por cento que sobram. Dr. Louçã à parte, digamos que debater o haxixe ou o aborto não mobiliza ninguém.

Verdade que, no nosso particular regime, o cargo de chefe de Estado é algo dúbio. À semelhança dos EUA, toda a gente conhece o respectivo titular; à semelhança da Suíça, ninguém sabe ao certo para que serve. Não importa: no caso português, a popularidade do lugar sobrepõe-se sem problemas à irrelevância do mesmo. Para todos os efeitos, ao contrário dos partidos, o PR é um único indivíduo, ou seja, uma potencial celebridade. E os portugueses, como se pode constatar nas bancas de revistas, apreciam celebridades.

Por coincidência, o único candidato declarado às presidenciais de 2006, até ver, cumpre à partida os requisitos da função, o que explica o frenesim em curso: pelos padrões contemporâneos, Santana Lopes é célebre e produz aquela mistura de espalhafato e inconsequência que, ao que parece, constitui a essência do “carisma”. Pela capacidade de habitar o vazio sem ocupar espaço, Santana Lopes é o dr. Carrilho do (PPD) PSD. E, pode-se acrescentar com à-vontade, do PP.

Donde o dilema do momento: é o candidato ideal da direita? Se o calculismo mandar, não é, visto que as sondagens favorecem Cavaco. À direita, porém, convirá decidir o melhor para o País, e perceber que, tirando vaga aura sebastianista, Cavaco é homem de sisudez e balancetes, atributos de duvidoso proveito em Belém. Face a Santana, perde de goleada nas autênticas exigências do cargo. Se avançar, Cavaco terá fatalmente um programa, repleto de recomendações para a economia (que o PR influencia tanto quanto um vogal da junta de Algés) e uma ou outra alucinação (lembrar a polémica “religiosa” das presidenciais de 1996).

Santana, é o próprio a jurá-lo, não tem nada, e quer ser presidente apenas para “salvar” a coligação governamental. Ignora-se se a coligação precisa de salvamento, ou sequer se interessaria salvá-la. Mas, enquanto programa de candidatura, eis um modelo deliciosamente nulo, à rigorosa medida de um PR que se preze. Santana deseja ser o presidente de todos os portugueses – que votaram nos partidos do Governo. E só. Num mundo perfeito, esta equívoca franqueza deveria valer-lhe automaticamente a eleição para um equívoco cargo. No mundo real, entretém e diverte-nos. Bem precisamos."

Alberto Gonçalves, in Correio da Manhã

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

ONE MAN SHOW
O que vou dizer a seguir é absolutamente verdade: Miguel Sousa Tavares está neste momento a fazer uma rábula, como actor, num programa da TVI. Em directo. Está a fazer o papel de "arrumador de carros". O mesmo Miguel Sousa Tavares escreveu hoje, no Público: “Se algum dia Santana Lopes for Presidente da República, eu, pelo menos, vou passar a ter vergonha de ser português. Quero ser bielorrusso, apátrida, monárquico, anarquista, qualquer coisa, menos cidadão de uma República de que ele seja Presidente.” Suponho que esteja já a treinar.
DE ACORDO
Escreve o meu amigo Luis, no Miniscente:

“Gosto menos [do Contra a Corrente] quando o tom do seu belo blogue parece derivar da definição de uma família de blogues que estabeleceria um determinado perímetro de segurança e uma arena plena de identificação e empatia. Eu não tenho, nem necessitaria de famílias desse teor, i.e., fechadas e circunscritas a padrões e valores de concordância mútua e quase ilimitada. Na blogosfera, como no mundo off-line, encontro a minha família em segmentos, em casos concretos, variados, das mais diversas origens.”

Caro Luis: totalmente de acordo. Mas, como diz o anúncio, é “natural como a sua sede” encontrarmos mais empatia ou cumplicidade (estética, política ou pessoal) por cm2 em determinados blogues. Mais ainda quando alguns deles foram fonte de inspiração. Mas isso não invalida que “na blogosfera, como no mundo off-line, encontro a minha família em segmentos, em casos concretos, variados, das mais diversas origens.” Ninguém aqui está «agarrado» a uma família ou a uma capelinha. Não compliquemos as coisas, ok?
AINDA A BLOGOSFERA (COM DIREITO A PROVOCAÇÃO)
Alguns «bloguistas de esquerda» avançam com a tese de que, ao contrário do que dizem os «bloguistas de direita», a blogosfera não está a viver um momento de crise mas sim a “direita da blogosfera”. Explicação? Como não podia deixar de ser, simples: antes “os blogues cresceram com a direita acabada de chegar ao poder, o começo da guerra e a chegada das teorias neo-conservadoras a Portugal. O entusiasmo era muito. Hoje, o governo está desfeito, da defesa da guerra descredibilizada e dos neo-conservadores nem vale a pena falar. Depois do entusiasmo, veio a depressão, nos casos piores, a falta de paciência para os ataques, nos melhores casos” (Daniel Oliveira in Barnabé). Há dias escrevi “a blosgosfera parece definhar. Pelo menos no que respeita aos blogues da minha preferência. Não tive a intenção de deixar no ar a tese de que a blogosfera, como um todo, estava em crise. Daí ter tido o cuidado de dizer “pelo menos os da minha preferência”. E nunca me passaria pela cabeça explicar essa putativa crise com base numa explicaçãozinha tão teoricamente arrumadinha e perfeitinha (como é característico da esquerda). Não sei se o governo está em crise, não sei se a defesa da guerra está descredibilizada (falo por mim e não em função dos outros) e essa história dos neo-conservadores foi, desde o início, mal contada e estupidamente diabolizada. A malta da esquerda é incapaz de enfiar na cabeça a possibilidade de haver, por aí, uma explicação bem mais comezinha e sem pingo de espectacularidade: afazeres profissionais, questões de ordem familiar ou, até, questões de saúde (mental e/ou física). Também não se lhes ocorre um pormenor: os mais proeminentes blogues de esquerda funcionam em equipa. Quando um falha, há logo outro que grita “presente!”. Isso faz a diferença. Reparemos no Barnabé, um caso de «sucesso» na blogosfera. Cerca de 75% dos seus posts são da autoria do Daniel Oliveira, logo seguido do André Belo e do Celso Martins, somando 20%. O Barnabé sem o Daniel não entraria em «crise»? Provavelmente. Exemplo: se o Barnabé fosse da responsabilidade exclusiva do Rui Tavares, no espaço de uma semana teriam sido publicados três posts. Eu não sei como é que o Daniel Oliveira consegue, mas se eu quisesse armar-me em analista, estudioso ou especialista, poderia avançar, também, com uma tesesinha: os esquerdistas que escrevem para os blogues são gente com muito tempo livre, o que indica que os bloggers de direita são os únicos que têm empregos a sério… (desculpem, mas não resisti à provocação).
POST DEFINITIVO, LONGO (MUITO LONGO), CONFUSO, MAS ABSOLUTAMENTE SINCERO, SOBRE AS ARMAS DE DESTRUIÇÃO EM MASSA E O IRAQUE
Tempos houve em que uma guerra – ou, eufemisticamente, um “conflito armado” – começava por causa de um mero lapsus linguae, uma indisposição gástrica ou um desarranjo passional. Com o passar dos séculos, e até ao advento dos Estados Modernos, o mundo assistiu a guerras santas, territoriais e dinásticas, nas quais estiveram presentes, acima de tudo, razões de ordem económica, de sucessão ou, no que toca a factores intangíveis, razões de ordem religiosa. Foi assim até meados do Sec. XVII, altura que alguns historiadores apontam como o ponto de viragem nas relações internacionais, com a instituição do que veio a denominar-se de “Paz Westfálica”, ou seja, o princípio de uma espécie de direito internacional, neste caso originariamente regional, onde países beligerantes acordavam um suposto pacto de não-ingerência. A mesma leitura foi feita já no Sec. XIX, com a denominada “Segunda paz de Westfália” e, mais tarde, no período seguinte ao da Primeira Guerra Mundial, com os projectos de constitucionalismo global: a SDN e, posteriormente, a ONU. É possível caracterizar, a partir destes três ciclos de «ordem» e «paz», o nascimento de uma nova ideia de ingerência em estados alheios por parte de coligações e grupo de estados, com base em motivações humanitárias ou de “interesse geral”, levada a cabo contra ditadores e estados párias - em sintonia, aliás, com os crescentes clamores das opiniões públicas em torno da ideia de «moralização» por imposição. A intervenção no Kosovo foi um exemplo inequívoco desta forma de ingerência em seara alheia, na qual o móbil da acção militar foi quase exclusivamente de ordem moral. Mas a História ensina-nos que, à margem de pactos, ordens e pazes, nunca fez muito sentido falar em razões puramente altruístas, nem sequer em motivações isoladas. Regra geral, o denominado “interesse geral” não é separável de interesses particulares. As coisas são o que são. Se por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher, em matéria de relações internacionais, por detrás de uma razão forte existiram e existirão sempre outras. É assim desde que o homem é homem. Mesmo nos períodos em que vigorava a denominada “Paz de Westfália”, nunca deixaram de existir estratégias indirectas, prerrogativas de interferência, intervenções selectivas de baixa intensidade. Os «interesses» (económicos, territoriais, puramente políticos) farão sempre parte do jogo.

Em pouco mais de uma década, foram desencadeadas duas intervenções militares no Iraque com base em coligações de nações. Uma ao abrigo do Direito Internacional, outra supostamente alheia a esse mesmo direito. Ambos os conflitos foram assistidos por razões e motivações diversas. O petróleo, por exemplo? Claro que sim. Nesse sentido, o Iraque é um país «especial»: tem petróleo a pontapés e está situado numa zona do globo estrategicamente fundamental. Isso tem, obviamente, um peso. Mas, repito: as coisas são o que são. É intrínseco à natureza humana agir em nome do bem; mas é igualmente intrínseco agir selectivamente em função de interesses praticando, ou não, o bem. Directa ou indirectamente. Consciente ou inconscientemente. Idealmente ou não. Dito de outro forma, nem sempre é possível separar questões de princípio e de ordem moral, de questões de valor «inferior», dado o intricado sistema de relações existentes entre estados, governos, grupos económicos e instituições internacionais. E isso não tem de ser necessariamente uma fatalidade. A existência de «interesses» e motivações «colaterais» egoístas são naturais e não têm de significar uma derrota moral para o ser humano. Seria importante perceber que vivemos hoje, como vivíamos ontem, num mundo possível, recheado de equilíbrios precários, motivações antagónicas, interesses múltiplos e (inter)dependências diversas. No plano dos conflitos e problemas mundiais mais prementes, há quem exija coerência, altruísmo e total assepsia relativamente a motivações mais «sujas» ou, pelo menos, mais terrenas e comezinhas. Há quem defenda que todo o sofrimento e todo o mal do mundo deve ser combatido a toda a linha e ao mesmo tempo (o famoso argumento de “existirem outros ditadores para além de Saddam”), sob pena de sermos selectivamente hipócritas ou «interesseiros». Outros há que, não discordando da declaração de princípios daqueles, aceitam como válidas outras razões e outros interesses a juntar à ideia de justiça desde que, no fim, se faça essa mesma justiça. Ou seja, desde que o mundo, em geral, avance e fique um nadinha mais aliviado. No fundo, aceitam essa história dos interesses paralelos como uma coisa natural, retirando-lhes a carga negativista. Porque sabem, também, que para levar a cabo acções desse tipo não existem meios materiais e humanos acima das nações. A maioria das nações depende de outras. Daí o trabalho complexo e nem sempre profícuo de concertação e de negociação em sede de organismos internacionais. É um pouco aquela ideia de alguém ter de fazer um determinado trabalho; se o fizer de borla, tanto melhor; se o fizer exigindo um preço ou lucrando com isso, ainda assim poderá valer a pena.

A recente intervenção no Iraque foi rica em comportamentos, no mínimo, curiosos. Assistimos à desvalorização, a toda a linha, das questões de ordem moral contra o argumento de que a intervenção era pobre nessas mesmas razões. O factor NIMB foi deslocado do seu contexto para dar lugar à doutrina INIMB: “If Not In My Backyard…” Os que, no passado, exigiam a interferência salvífica da ONU ou a intervenção desinteressada dos EUA (à falta de um exercito mundial) em cenários onde as botas pesadas dos mais sanguinolentos ditadores espezinhavam os mais elementares direitos humanos (em regimes onde vigorava o mais puro terror físico e psicológico) - quer houvesse, ou não, uma ameaça real sobre o mundo ou sobre os seus quintais – viraram o bico ao prego. A estratégia mudou: os críticos do «sistema» e a putativa opinião pública mundial (que eu não sei o que é, nem se existe), passaram a reclamar investigações criminais de contornos detectivescos, provas irrefutáveis, demonstrações in loco que pudessem confirmar, without a reasonable doubt, que o regime X, o líder Y ou o Estado Z representavam uma ameaça à escala mundial. Coincidência, ou não, esta viragem fez-se de forma proporcional relativamente ao crescente protagonismo do país que, ideológica, económica e politicamente mais influenciou e alterou – por razões más, boas ou assim-assim – a face do mundo: os EUA. Coincidência, ou não, esta nova forma de racionalizar os problemas passou a ser notada sempre que passaram a estar envolvidas vontades e interesses norte-americanos. Os utópicos, os idealistas e os altruístas de outrora são, hoje em dia, os principais cínicos e calculistas. Passaram-se a pesar os prós e os contras, a avaliar consequências e timings, a deitar mão de uma metodologia cost-benefit. Não foi Louçã que, respondendo à pergunta “O regime de Saddam não é um regime brutal?”, afirmou, na SIC-Notícias, que “ainda assim, o Iraque não é uma ameaça para os seus vizinhos nem para o mundo”, ou seja, que não havia razões «externas» que justificassem a possibilidade, ainda que paralela, de aliviar o fardo do povo iraquiano? Não foram os anti-americanistas em geral, e certos esquerdistas em particular, que passaram a desvalorizar as milhares e milhares de execuções sumárias no Iraque, a continuada e silenciosa marginalização criminosa dos curdos, a utilização de armas químicas e biológicas no passado, a ignóbil gincana feita por Saddam ao programa Food for Oil (com especial prejuízo para a população não engajada), os efeitos nefastos de um ambargo, porque o que estava em causa era evitar que a mãozinha sórdida e interesseira do Sr. Bush e da nação imperial (a tal que apoia Israel, é contrária a Quioto e venera o capitalismo) pudesse agir e, com isso, retirar benefícios «interesseiros» e «egoístas» (mesmo que isso significasse a perpetuação de um doentio status quo e o adiamento de uma intervenção que, mais tarde ou mais cedo, teria de ser feita)? “Ah!”, dirão uns, “mas foram eles que armaram Saddam!“. De acordo. Eles e meio mundo (franceses, alemães e russos). Mais uma razão para se tentar emendar a mão. Desfazer os erros do passado. Haveria outra nação ou coligação com capacidade para o fazer? “Ah!”, dirão outros, “mas não há no mundo outros ditadores? Não existem por aí outras populações em sofrimento?” E eu digo: haverá argumento mais favorável à promoção do imobilismo perante a inexequibilidade de se intervir ao mesmo tempo em todos os cenários de terror? Duvido. “Mas eles foram lá por causa do pitrólio!”, insistem. Também, respondo eu. Mas terá sido essa a principal motivação? Não creio. Dou a palavra ao mafarrico Wolfowitz: “A verdade é que por razões que têm muito a ver com a burocracia dos Estados Unidos acordámos numa questão em que toda a gente pudesse concordar, que foi a das armas de destruição em massa como razão central, mas houve sempre três preocupações fundamentais. Uma eram as armas de destruição massiva, outra o apoio do terrorismo, a terceira o tratamento criminoso do povo iraquiano.”

Eu nunca ignorei a questão das ADM, mas nunca a entendi como o grande e único casus belli. Os EUA e a Inglaterra estiveram mal na forma como abusaram dessa justificação. Mas contínuo a achar que há algo de profundamente errado nesta obsessão em torno da existência das ADM perante o cenário desolador de centenas de valas comuns onde se esconderam milhares de corpos; por entre as imagens esclarecedoras do despotismo, demência e brutalidade de Saddam e seus filhos; e, claro está, perante o aftermath do 11 de Setembro. Porque a chave que despoleta todas as motivações está aí. É bom não esquecer este facto, que a alguns pode dizer pouco e que muitos já esqueceram: os EUA foram alvo de um ataque soez, sem precedentes, no dia 11 de Setembro de 2001. Um ataque onde morreram, em poucos minutos, cerca de 3.000 inocentes. Para o bem e para o mal, o 11 de Setembro marcou indelevelmente a forma de olhar o mundo por parte dos responsáveis norte-americanos, tendo precipitado algumas decisões. Existe, na região do médio oriente, uma forte instabilidade política e social, servida pelo fanatismo religioso e por uma propaganda anti-ocidente (cuja explicação pode e deve ser encontrada no retrocesso civilizacional e na estagnação de mentalidades que por lá se enraizaram, fruto da inacção, incompetência e estupidez de muitos dos seus lideres). No Iraque, Saddam Hussein foi um dos mais brutais ditadores do Sec. XX, responsável por três conflitos armados, pela aniquilação de milhares de iraquianos e pelo atraso económico do seu país a um nível vergonhoso, num território riquíssimo em reservas petrolíferas. Os EUA consideraram que a indiferença seria, num futuro próximo, bem mais perigosa do que a acção. Os responsáveis americanos e ingleses olharam para Saddam e julgaram ser bastante provável, dada a conjuntura internacional e a história recente do regime iraquiano, que Saddam voltasse a pôr em prática os seus propósitos megalómanos e, da mesma forma que já apoiava o terrorismo dos grupos radicais palestinianos, passasse a apoiar grupos terroristas «globais» (como é o caso da Al Qaeda), com armas de destruição em massa. Aos políticos (não os detectives, os operacionais ou os agentes infiltrados) chegou um dossier onde se encontrava um pouco de tudo: factos irrefutáveis, suspeitas mais ou menos fundamentadas e evidências preocupantes: o tratamento criminoso do povo iraquiano, o facto de o regime iraquiano ter falhado em provar que tinha destruído o seu arsenal de armas biológicas e químicas (já agora, o Sr. Blix é um canalhinha: se afirma, agora, pomposa e altivamente, que não existiam ADM no Iraque, porque razão não o escreveu peremptoriamente nos seus relatórios?), o jogo de hide-and-seek com os inspectores da ONU e a respectiva violação das resoluções do Conselho de Segurança, as suspeitas relativas ao tráfico de urânio, as ligações a grupos terroristas palestinianos, os campos de treino da al-Qaeda em solo iraquiano, etc. Como políticos, e não como especialistas em balística ou física nuclear, optaram por agir. Foi, a todos os níveis, uma decisão política. Não no sentido da cruzada utópica, não no sentido dos interesses exclusivamente económicos (embora também), mas com objectivos de natureza geo-política incluídos numa estratégia global de combate ao terrorismo, a que se aliou uma bandeira de ordem moral (que era insofismavelmente real): a ideia de libertar um povo do jugo de um sanguinário e de instituir no medio-oriente um Estado que promovesse a ideia de liberdade e democracia (aliada a um Estado de Direito) e que garantisse o bem estar material e espiritual do seu povo.

Parece-me razoável e até essencial discutir a forma como foi feita a intervenção. É importante assacar responsabilidades pela forma como foram cometidos erros de palmatória, com se menosprezaram factores de segurança básicos e como falhou o trabalho de comunicação e diálogo junto da população civil. Contudo, enquanto não for provada a total iniquidade, impertinência e falência da intervenção militar que derrubou Saddam (prova essa só disponível daqui a um, dois ou três anos), continuarei a achar que valeu a pena. Porque continuarei a achar que o povo iraquiano está hoje melhor do que estava há um ano atrás. E não me refiro aos habitantes de Bagdad ou aos simpatizantes de Saddam. Refiro-me à esmagadora maioria da população. Até lá, ou seja, até prova em contrário, a questão das ADM será sempre uma questão que tenderei a desvalorizar. Não a suprimir, porque entendo que nessa questão há lições políticas a retirar. Mas, até lá, recusar-me-ei a entrar no jogo da objectividade asséptica e a encarnar o papel de Cassandra. Quando as coisas não correm na perfeição – embora estando no bom caminho – é fácil recorrer ao “I told you so”. Espero, sinceramente, que a intervenção não tenha sido em vão e que os seus mais nobres propósitos sejam cumpridos. É para isso que estão lá os soldados americanos, britânicos, polacos, japoneses, australianos, portugueses, etc. E lembrar-me-ei sempre do que escreveu Ramos Horta, quando justificou o seu apoio à guerra:
Abandonar esta ameaça seria, agora, perigoso e arriscado. Sim: o movimento anti-guerra poderia clamar por vitória por ter evitado uma guerra. Mas teria também de reconhecer e aceitar que teria ajudado a manter no poder um ditador impiedoso e teria de o explicar às suas milhares de vitimas. A história já demonstrou por diversas vezes que o uso da força é por vezes o preço a pagar pela libertação. Um intelectual Kosovar respeitável disse-me, uma vez, como se tinha sentido quando o mundo finalmente tinha decidido intervir no seu país: “Eu sou um pacifista. Toda a vida o fui. Mas tive uma grande alegria e senti-me livre quando vi as bombas da NATO caírem.”

quinta-feira, fevereiro 19, 2004

HOJE À NOITE...
...não vou perder um segundo que seja a ouvir a entrevista do Sr. Pinto da Costa na SIC. Em vez disso, vou continuar a escutar este fabuloso disco: Echo Parcours. Dentro do género house/breaks/dub/down tempo/jazz, foi a melhor coisinha que por aí apareceu depois de, é claro, Satta. Ah, pois é: anda por lá o Sr. Peter Heider dos Boozoo Bajou... Contagioso!! (Ricardo: toma nota!)


terça-feira, fevereiro 17, 2004

E AGORA, PARA DESANUVIAR...
...segue uma valsa:

Zebra
So we got married in Venice in June
So what?
We circled the Earth in a hot air ballon
So what?
and the rest of our lives
is one long honeymoon
well, that doesn't mean we're in love

If you really loved me
you'd buy me a beautiful pearl
but you've already bought me
all of the pearls in the world
so there's one thing I crave
when my days become ho-hum and blah
I want a zebra

We've got so many tchotchkes
we've pratically emptied the Louvre
In most of our palaces
there's hardly room to manouvre
I shan't go to Bali today
I must stay home and Hoovre
up the gold dust
That doesn't mean we're in love

If you really loved me
you'd buy me the Great Pyramid
Oh, I'm so forgetful, you already did
But there's one thing I need
if you won't think I'm greed, my deah
another zebra
Zelda looks lonely, I want a Zebra

The Magnetic Fields, in 69 LOVE SONGS
ATÉ BREVE, PEDRO
Foi por culpa do Pedro, do Pedro e do João (os infames) que decidi, um dia, criar um blogue. Trato-os familiarmente pelo primeiro nome porque o Pedro, o Pedro e o João passaram a ser, desde então, “muito cá de casa”. Hoje, como dantes, à distância e sem o mínimo contacto de ordem pessoal (contando apenas com as suas crónicas, artigos, ‘posts’ e alguns emails acidentais), continuam a ser, juntamente com este e este moço (*), o núcleo duro de amigos que me ajudam a levar à cena as minhas "Conversas Imaginárias Com...", as quais me vão entretendo neste enterior desquecido.
O Pedro despede-se, agora, da blogosfera. E eu penso: a pouco e pouco, a blosgosfera parece definhar. Pelo menos no que respeita aos blogues da minha preferência. Manter um blogue solitariamente, sem a ajuda de uma equipa (nalguns casos de uma wonder team) é, de facto, tarefa complicada. No meu caso, consigo fazê-lo sem grandes transtornos, em boa parte porque tenho um estatuto profissional que me permite alguns devaneios. Mas admito que o seja, e muito, para quem tem uma vida profissional e pessoal agitada, tanto mais vivendo numa cidade que funcionalmente impede qualquer alma de arranjar tempo para o «supérfluo». Daí à questão das “prioridades” vai um pequeníssimo passo que ninguém, no seu perfeito juízo, pode deixar de dar.
Há cerca de um ano atrás, fui dos poucos a escrever "a blogosfera vai durar o tempo que tiver que durar". Com esta afirmação estupidamente Lili Caneciana, pretendi dizer que a blogosfera dificilmente ultrapassaria o estatuto de epifenómeno. Ou seja: acessório, conjuntural, transitório. Na altura, recusei-me a embarcar na euforia e na embriaguez que tinham tomado de assalto a generalidade dos bloggers. Contudo, tive também o cuidado em não desvalorizar a importância e significado dos blogues, principalmente o caso dos blogues de direita. Para muita gente à direita, a blogosfera foi um verdadeiro palco onde se exercitaram visões, consciências e convencionalismos. No fundo, um verdadeiro exercício de libertação levado a cabo pela (imensa?) minoria que não pertencia, ou recusava pertencer, à grande família da esquerda, ainda dona e senhora (ok, estou a exagerar) de redacções e modus operandi (chegou mesmo a dizer-se, penso que exagerada e infundadamente, que a maioria dos blogues eram de direita). Nesta altura do campeonato, e utilizando uma carinhosa terminologia esquerdista, não estarei errado se disser que, do lado dos reaças, as coisas vão ficando pretas. Uns desaparecem, outros mantêm um nível de produtividade abaixo do albanês. Facto, aliás, perfeitamente natural. Não faz parte da génese da direita essa forma militante e metódica de arregimentar os outros, essa espécie de incitação explícita permanente, essa capacidade formicídea de «resistência» e «luta» (paradigma: Barnabé). Eu próprio não sei se, daqui a um, três ou cinco meses, estarei a escrever qualquer coisa do género “adeus, camaradas”. Sei, apenas, que o desaparecimento do Flor de Obsessão é um acontecimento triste. Quanto ao resto: esqueçam o que aqui escrevi.

(*) E mais este, este, esta...

domingo, fevereiro 15, 2004

JURO
Juro que voltarei ao assunto das ADM dentro de dias. Não quero passar por "manso". Mentiroso, ainda se tolera. "Não saber o que dizer", também se engole com um copito de água. Agora "manso" é uma injustiça. Digam-me: um direitista que está neste preciso momento a preparar (limpando as ramelas, deglutindo uma torrada manhosa com leite e Cola-Cau, escolhendo uns cd's para a viagem e aconchegando umas fatias de pão e paio na marmita) uma deslocação à capital, com uma lagriminha de saudade da terra no canto do olho, para uma sessão non-stop de cinema (dose tripla, se tudo correr bem) poderá, em algum momento, ser apelidado de "manso"? Não me lixem.

PS: já agora, aonde fica o Corte Inglés? Não, não é pelo cinema. É mesmo pelo Gourmet. Respostas para o 919493410.

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

PENSAMENTO DO DIA
"Todos os homens têm o seu traseiro moral, que mantêm coberto tanto tempo quanto possível com os calções da conveniência."
GEORG CHRISTOPH LICHTENBERG
TAMAGOCHI
Pela manhã, dirijo-me todos os dias para o meu local de trabalho percorrendo uma estrada que me afasta, por breves instantes, da periferia da cidade de Évora. Um caminho encantatório, que nos remete para imaginários bucólicos. A poucas dezenas de metros de um dos bairros periféricos (ele próprio contíguo à muralha da cidade), e como que por magia, encontramo-nos, de repente, rodeados por um campo verdejante, coberto, àquelas horas de uma manhã de Inverno, por um manto diáfano de geada, que lhe proporciona uma imagem de viço e frescura que não nos deixa indiferentes. À nossa volta, observa-se um canavial que acompanha o curso de uma ribeira; algumas azinhagas tomadas de assalto pela mãe natureza; um montado de sobreiros que se estende até onde a vista alcança; um olival mesmo à beira da estrada; uma seara verde. Ou seja, pinceladas que vão compondo a extensa e típica planície alentejana que se nos depara, enfatizada por manhãs de Inverno solarengas e radiosas. Évora tem, também, este encanto: podemos passar de um cenário urbano – onde a azáfama, o burburinho, a pressa e a pressão saturam o quadro - para um cenário pastoril e campestre num abrir e fechar de olhos, como se apenas um véu ou uma ténue cortina separasse realidades tão díspares. Vem isto a propósito do seguinte: não há manhã em que eu não me pergunte “Por quanto tempo?”.
Os primeiros sinais já foram dados. O campo foi já invadido por um "Mercado Abastecedor", perdendo assim, lentamente, uma luta inglória contra os «interesses» e o «progresso». Temo que seja apenas uma questão de tempo até que todo aquele cenário comece a ser invadido por ilhas de «civilização». Asseguram-me que não, que o PDM protege essas ideias anacrónicas e «conservadoras». Como se o ‘pê dê éme’ em Portugal não estivesse, também, sujeito a crónicos «reajustamentos» e «actualizações». É só uma questão de tempo, dizia eu. A «pressão» urbanística, servida, se for esse o caso, pelo pior urbanismo do leste europeu, tem de ser alimentada. Como um tamagochi.

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

OOPS... HE DID IT AGAIN
(actualizada e corrigida)
Excelente o comentário do maradona (1,69812 metros, confirmado por junta médica) sobre a resposta do Pedro Mexia à pergunta "Teria apoiado a guerra se soubesse (ou estivesse convencido) de que não existiam ADM?". Eu, que raramente desço abaixo da fasquia da "solidariedade e cumplicidade incondicional" no que respeita às posições do Pedro, desta vez não posso estar com ele. Voltarei ao assunto dentro de alguns dias (work, work, work). Até lá, leiam o maradona. E, já agora, a segunda parte do artigo do José Pacheco Pereira, no Público de hoje. Como o dito ficará indisponível dentro de uma semana, deixo registado o fundamental:

"Voltemos ao princípio. Os políticos, Blair e Bush, queriam ir para a guerra e as informações foram muito importantes para os motivar, foram muito importantes para os legitimar (e agora para os deslegitimar), mas é mais que evidente que o desejo da guerra vem de antes e tem outras razões. Políticas. Que foram expostas muitas vezes com clareza, mas que, por erros de todo o tipo, foram-se deixando enlear e subalternizar na questão das armas de destruição maciça (ADM). Como algumas pessoas na Administração americana preveniram, a cedência às pressões internacionais para o multilateralismo e para dar às Nações Unidas um papel legitimador acabaram por enredar os países mais dispostos à acção numa mono-explicação que requeria suporte factual, que agora se percebe que não existia. As guerras não podem ser conduzidas em comité, muito menos em grande comité, nem em parlamentos de nações.

Havia uma razão maior, de factualidade inquestionável, para o que se passou: o 11 de Setembro. Porque a chave de tudo é o 11 de Setembro. O grande e os pequenos 11 de Setembro, na Argélia, no WTC, nas embaixadas americanas da África Oriental, no USS Cole, nas mortes indianas, no metro de Moscovo, em Bali - uma guerra de terror global na fractura civilizacional do islão com a cristandade e o hinduísmo. Mas não só, na fractura entre as democracias e as autocracias e as ditaduras.

O 11 de Setembro revelava uma nova dimensão do terrorismo, que envolvia nações, grupos e indivíduos. Envolvia novas tecnologias de terror e toda uma série de novas tecnologias estavam (estão) na calha. Tinha um epicentro em parte do mundo muçulmano, tinha um epicentro dentro desse epicentro, o conflito israelo-palestiniano, envolvia nações como a Arábia Saudita, o Afeganistão, o Paquistão, o Irão, a Síria, o Iraque, o Iémen, o Sudão e algumas mais. Envolvia políticas que eram activamente prosseguidas por vários estados: o Afeganistão servia de base a Bin Laden, mas o Iraque estava a tornar-se, junto com a Síria e o Irão, num dos principais desestabilizadores na Palestina.

Toda a panóplia de soluções diplomáticas tinha falhado em tornar a região mais segura. O conflito israelo-palestiniano parecia intratável, porque enquanto os grupos terroristas faziam explodir autocarros, os israelitas retaliavam em espécie. O crescimento do fundamentalismo muçulmano associava-se intimamente com as ditaduras da região. Os europeus e as Nações Unidas estavam mergulhadas numa política de manter a todo o custo o "statu quo". Restava aos americanos esperar outro atentado, a que se contava que reagissem outra vez pontualmente. Os americanos estavam a ser empurrados para um comportamento não muito diferente dos israelitas.

A Administração Bush não aceitou esta passividade e fez uma coisa que já estava há muito esquecida pela passividade europeia e pelo politicamente correcto internacional: resolveu fazer uma política activa, de mudar brutalmente os dados da questão, que implicava acções militares preventivas sobre os estados que ou apoiassem grupos terroristas ou fossem fautores de políticas de desestabilização regionais. Esta política resultou parcialmente na Síria e na Líbia, mas a sua prova dos nove teria de ser o Iraque. Por várias razões, o Iraque era o único país que tinha os meios e os recursos para prosseguir as políticas antiamericanas mais agressivas na região. Era também um país que se sabia disposto a tudo e com tradição de beligerância, um pária internacional que violava as resoluções das Nações Unidas todos os dias.

Estas eram as razões últimas da política americana e elas têm consistência. O que resta saber, e o episódio das ADM não é de bom augúrio, é se, sendo esta uma política arriscada, ousada e difícil, os americanos e os seus aliados tinham a capacidade militar e política para a levar a bom termo. Porque não é uma política de canhoneira, dão-se uns tiros e vão-se embora os barcos. Exige acções a longo prazo, persistência e tem custos económicos e humanos consideráveis.

Ora, dito isto, preto no branco, eu partilho das razões por que Bush e Blair quiseram ir para a guerra, antes sequer de encontrarem o enganoso pretexto e legitimação nas AMD, e teria preferido que eles tivessem ficado pelas declarações de guerra do pós-11 de Setembro, que tinham uma clareza linear e disseram isto tudo: estamos em guerra e vamos onde for preciso para nos defendermos.

Na história do futuro o que julgará esta política é saber se a resposta global ao terrorismo teve ou não eficácia a longo prazo, se uma política activa, de resposta preventiva ao terrorismo, o travou, adiou ou minimizou como ameaça.

Falando agora por mim. Lamento, e lamento muito, todos estes enganos à volta das ADM, em que quem defendeu a guerra participou. O preço que se paga e o que se pagará pode até ser muito mais perigoso do que se não se tivesse feito nada. Se Bush e Blair forem derrotados, se uma retirada do Iraque for feita às pressas e atabalhoadamente, se for impossível prosseguir políticas afirmativas (direi mais, agressivas) contra o terrorismo, o mundo ficará muito mais perigoso. No meio de uma enorme confusão política, num mundo sem liderança democrática, com um defensismo hipócrita a rezar para que os atentados aconteçam na casa do vizinho e não na minha, só se tem que esperar pelo primeiro grande atentado para começar tudo de novo numa conjuntura mil vezes pior. O ovo da serpente que se está a chocar nestas terras continua lá, a crescer."

ESTUPIDEZ
Pelo Aviz fico a saber que, num esforço de normalização e, presumo eu, actualização doutrinária, a Microsoft passou a considerar a estrela de David como um «unacceptable symbol», tal como a suástica nazi. A Microsoft parece finalmente rendida aos encantos laudatórios e propagandistas de uma crescente franja da opinião pública mundial, liderada por génios como o Sr. Saramago, que considera perfeitamente aceitável e fundamentada a ideia de que a estrela de David se pode equivaler à suástica nazi, em termos de representação simbólica da praxis de determinado grupo, etnia, raça ou povo. Pelo vistos, as equivalências voltam a estar na moda.
Partindo desse pressuposto (de não se tratar de um lamentável lapso microsoftiano), a insinuação não é apenas estúpida: é atroz e criminosa. Mas não é de estranhar. A ser verdadeiro, este episódio é apenas mais um a juntar ao role de sinais indicadores de que o anti-semitismo (hoje em dia apelidado eufemisticamente de «anti-sionismo») voltou a reacender-se. Só os mais ingénuos ou politicamente engajados tentam contar outra história, que passa ou pela insinuação de que os judeus têm a mania da perseguição, ou pela ideia de que Israel recebe o que merece da justa, equilibrada e equidistante opinião pública mundial. Nota-se.

Os protestos podem ser enviados para o endereço clientes@microsoft.com ou através do Costumer Support do site da Microsoft.


TEMPOS MODERNOS


"Hi, it's me. I'm on the stairs"




"We met on the Internet. These are our kids: Control, Alt and Delete"

in The Spectator

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

TSS, TSS...
A Charlotte coloca no ar a seguinte questão: "desde quando é que uma guerra se justifica por uma razão?". Cara Charlotte: nesta altura do campeonato, essas coisas já não se perguntam. Vá lá, repete comigo: f-o-i (espaço) t-u-d-o (espaço) u-m-a (espaço) m-e-n-t-i-r-a (espaço) u-m-a (espaço) i-l-e-g-a-l-i-d-a-d-e (espaço) e (espaço) u-m-a (espaço) v-e-r-g-o-n-h-a. Não convém contrariar os sábios e os indefectíveis da objectividade.
ESTAMOS SALVOS: MR. MERRITT ESTÁ DE VOLTA
Via Babugem.
IRRECONHECÍVEL
Abro o Público de hoje e constato que Eduardo Prado Coelho fez uma plástica que o deixou irreconhecível. Confesso, contudo, que já estou com saudades do avozinho de barbas grisalhas.
OS BURROS E OS INTELIGENTES
Apreciei a resposta do JMF à minha posta sobre a questão das opções estéticas observadas à luz das tendências ideológicas. Se percebi bem, JMF acaba a penitenciar-se (será?) pelo facto de, também ele, no passado, ter feito uso de um preconceito na assumpção do que seriam os gostos da «direita», embora acabe por não excluir a existência de manifestações culturais ideologicamente engajadas. Como diria o nosso amigo Cláudio: fair enough. Mas JMF refere um ponto que, de há uns tempos a esta parte, está presente na análise que certos esquerdistas fazem dos campos ideológicos. Refiro-me à utilização do termo «direita inteligente» (a par de outros, como «neo-conservadores», «nova direita», etc.). Segundo a esquerda (sempre useira e vezeira em julgar e catalogar os outros), parece que existe por aí uma nova categoria de homens que, em oposição à normal e clássica condição de «néscios», conseguiram alcançar o estatuto de «inteligentes». Porquê? Por força de uma espécie de degeneração que os levou, segundo o paleio esquerdista, a assumir descomplexadamente as opções estéticas da boa da esquerda. Perguntarão alguns: da «esquerda inteligente»? Não: da esquerda. Como todos já deveriam saber, a esquerda comprou, algures no tempo, a patente da clarividência e da sagacidade culturais. As escrituras, guardadas em parte incerta, não deixam margem para dúvidas: 1) a esquerda é, por definição, culturalmente correcta; 2) a escolha da «boa» cultura é uma divisa apriorística à esquerda; 3) antropológica e idiossincraticamente, os mais diversos e proeminentes fazedores da «boa cultura» estão à esquerda e com a esquerda. A direita? Bom, a direita é, no fundo, o albergue dos insensíveis, dos ignaros e foleiros que, só por azar ou distracção – numa palavra: excepção – descobrem a luz. Os que têm a boa ventura de a descobrir (à luz, entenda-se) são apelidados de «inteligentes». Os outros… Bem, eu nem me atrevo a falar. Faço minhas as palavras do Dr. Fernando 'foi-você-que-pediu-um-estereótipo-carregadinho-de-má-fé' Rosas: "engomadinhos e pomposos nesse estilo de compromisso entre o vendedor de Alfa Romeos e o estagiário pretensioso de firma chique de advogados, com o seu convencionalismo postiço". Ámen.

terça-feira, fevereiro 03, 2004

FOI VOCÊ QUE PEDIU UM EXERCÍCIO DE UMBIGUISMO?
1. cumplicidade s. f. qualidade de quem é cúmplice; auxílio prestado à realização de um crime, que não envolve uma participação activa no mesmo; compreensão profunda, por vezes não expressa, entre duas pessoas (De cúmplice+-idade). Fica assim expressada, caro Ricardo.

2. Futebol. Querem aprender alguma coisa? Cliquem aqui.
SÓ MAIS UMA COISA
Agora que já toda a gente considerou como provadas a malignidade e cretinice do Sr. Bush e do Sr. Blair (a TVI, por exemplo, faz questão de salientar a “mentira” como facto insofismável), tenho todo o gosto em transcrever dois artigos de opinião sobre o assunto que, desgraçadamente, tentam, em vão, explicar algumas coisas, para além das «certezas absolutas». É óbvio que o seu conteúdo em nada mudará a posição da esclarecida opinião pública mundial, que já tratou de apontar o polegar para baixo. O juiz decidiu, está decidido – ainda para mais quando um dos acusados é um declarado «pulha pidesco» (refiro-me ao texano). A transcrição destes dois textos destina-se, por isso, apenas àquela minoria de idiotas que resiste em alinhar pela imensa maioria dos que têm, não só agora como desde sempre, a certeza absoluta de tudo. Ou seja, estes dois textos destinam-se a quem ainda pretende perceber o que aconteceu. E como aconteceu. Aos que já tudo perceberam e tudo sabem, fica o meu conselho: passem à frente.

O Que Realmente Diz o Relatório Kay
Por CHARLES KRAUTHAMMER
in Público, 2 de Fevereiro de 2004
“Antes que comece a grande caça aos bodes expiatórios, vale a pena olhar para o que David Kay realmente disse sobre as armas de destruição maciça (ADM) no Iraque.
Primeiro, e largamente anunciado, ele não encontrou "grandes depósitos de armas de destruição maciça recentemente produzidas". Mas encontrou, tal como tinha reportado no passado mês de Outubro, actividades relacionadas com a produção de ADM e uma actividade importante de investigação e desenvolvimento de mísseis ilegais ("activa até aos últimos dias do regime") destinados a transportarem um produto tão venenoso como o rícino (o tipo de veneno que a polícia londrina descobriu o ano passado na posse de uma célula terrorista). Também descobriu "centenas de casos" de actividades proibidas pelas sucessivas resoluções das Nações Unidas.
Trata-se de descobertas importantes, mesmo que fiquem muito longe daquelas que a Administração dizia existirem em Março de 2003. Mesmo assim, David Kay forneceu-nos as mais detalhadas e credíveis explicações para entendermos por que motivos os serviços secretos dos Estados Unidos - e, também, as informações dos inspectores das Nações Unidas e das outras agências de espionagem ocidentais - avaliaram mal o que o Iraque realmente possuía.
O que se terá passado foi uma mistura de "bluff", jogos de enganos e corrupção que atingiu uma dimensão que mesmo os mais imaginativos seriam capazes de prever. David Kay descobriu que um Saddam cada vez mais errático tinha chamado à sua direcção directa os programas de desenvolvimento de ADM. Mas como não existia qualquer sistema de verificação do que realmente estava a ser feito no terreno, os cientistas iraquianos exageravam ou efabulavam sobre aquilo que estavam a fazer e, ao fazê-lo, escapavam à repressão ao mesmo tempo que obtinham financiamentos quase ilimitados.
Os cientistas enganavam Saddam, Saddam enganava o Mundo. Os iraquianos enganavam-se todos uns aos outros. Os comandantes da Guarda Republicana Especial não tinham ADM, mas revelaram aos investigadores que estavam convencidos que ou comandantes das outras unidades as possuíam. Era todo um sistema interno de desinformação de que o mundo exterior e os serviços de informações nunca se aperceberam.
O Congresso dos Estados Unidos precisa de investigar e descobrir, utilizando todos os meios, por que motivos os serviços secretos falharam de forma tão dramática e não tinham qualquer indicação sobre o que realmente se estava a passar. Contudo David Kay desmente as acusações feitas pelos democratas de que o Presidente Bush manipulou os relatórios. "Todos os analistas com que falei disseram-me que nunca se sentiram pressionados no que diz respeito às ADM", disse David Kay. "Todos acreditavam que o Iraque possuía armas de destruição maciça".
Incluindo a Administração Clinton. Em 1998 Clinton proclamou com grande alarme e confiança que o Iraque possuía gigantescas reservas de armas químicas e biológicas e que, "um dia, mais tarde ou mais cedo, garanto-vos, utilizará esse seu arsenal".
O falhanço dos serviços secretos é realmente espectacular, mas as suas razões são prosaicas. Quando os inspectores das Nações Unidas deixaram o país em 1998 assumiram que as reservas de armas proibidas que não tinham descoberto existiam realmente. De resto, que outra coisa poderiam assumir quando Saddam os acabara de expulsar? Que, em contrapartida, Saddam as tivesse destruído e tivesse mantido secreta essa destruição à agência que poderia dar-lhe razão permitir o levantamento das sanções era totalmente ilógico.
O secretário de Estado Colin Powell coloca correctamente a questão quando defende que este simples facto - o mistério sobre o destino das armas e sobre a sua possível destruição - só por si sustentaria a legalidade da intervenção militar uma vez que o cessar-fogo estabelecido em 1991 obrigava taxativamente o Iraque a provar que tinha procedido ao seu desarmamento. E que o Iraque falhou de forma obstinada e repetida a proceder a essa demonstração.
Mas para além da questão legal há também a questão da segurança. Todos tendem a esquecer que quando a Administração Bush chegou à Casa Branca se vivia no Iraque uma situação de elevada instabilidade. Milhares de iraquianos morriam devido à forma como o regime desviava o dinheiro que o país podia receber no quadro das sanções das Nações Unidas. A política de contenção exigia a manutenção na Arábia Saudita de importantes contingentes de tropas americanas "infiéis" - exactamente a razão número um invocada por Osama Bin Laden para a sua declaração de guerra aos Estados Unidos. Nas zonas de exclusão aérea decorria uma espécie de guerra de baixa intensidade e assegurar o embargo era caro e perigoso (os marinheiros americanos que morreram no USS Cole estavam em missão de garantir o embargo).
Até que se tornou claro que a Administração Bush estava determinada a agir, que ameaçou desencadear a guerra e deslocou tropas para o Kuwait, a realidade é que as Nações Unidas estavam a gradualmente relaxar o sistema de sanções e a evoluir para o seu levantamento definitivo, situação que teria permitido o imediato recomeço dos programas de desenvolvimento de armas tão desejado por Saddam Hussein.
A Administração Bush inverteu esta deriva ao ameaçar que iria para a guerra se fosse necessário. Só que essa posição agressiva era impossível de manter indefinidamente. Um regime de inspecções, embargos, sanções, zonas de exclusão aérea e milhares de soldados concentrados no Kuwait era impossível de manter. Os Estados Unidos podiam retirar e permitir que Saddam ficasse com as mãos livres - ou ir para a guerra e removê-lo do poder. Essas eram as únicas duas alternativas.
De acordo com as circunstâncias, e tendo em consideração que todos os serviços secretos do mundo acreditavam que Saddam possuía ADM, o Presidente Bush fez a única escolha possível.”

The alternative to war was simple: defeat
Por MARK STEYN
in The Daily Telegraph, 3 de Fevereiro de 2004
“(…) For all the self-puffery about fearless truth-seeking, that non-act of Dyke's is the central act of this drama. Why bother checking the story when it fits not only your own general assumptions but those of everyone you meet at dinner parties? Last June, I quoted Peter Worthington, the Canadian columnist and veteran of the Second World War and Korea, who likes to say that there's no such thing as an unpopular won war, and I noted that British public opinion seemed weirdly determined to make their Iraq victory an exception to that rule. And so it's proved. If I understand correctly, the people seem inclined to accept Lord Hutton's findings on the very narrow, technical, legalistic point of whether Mr Blair personally clubbed Dr Kelly over the head, dragged him out of the house and killed him, but they're furious that the good Lord declined to broaden his remit to the wider "underlying" issues, such as whether everyone's sick of Blair and, let's face it, his sucking up to that warmongering moron Bush is the final straw.
I certainly wouldn't want to live under New Labour, but, even so, with so many other available cudgels with which to beat Blair, I would caution against using the notion that he "misled" Britain into war, tempting though the scenario evidently is for Michael Howard. As things stand, it seems unlikely that WMD will be found in Iraq. Doesn't bother me. In these pages a few days after 9/11, I stated that I was in favour of whacking Saddam pour encourager les autres. There was no sharper way to draw a distinction between the new geopolitical landscape and the September 10 world than by removing a man who symbolised the weakness and irresolution of "multilateralism". He was left in power back in 1991 in order, as Colin Powell airily conceded in his memoirs, to keep the UN coalition intact. Lesson number one: don't form coalitions with people who don't share your war aims.
If the Gulf war was a cautionary tale in the defects of unbounded multilateralism, the Iraq war is a lesson in the defects of even the most circumscribed coalition. The Americans settled on WMD as the preferred casus belli because it was the one Blair could go along with: as one of his Cabinet ministers told me, they were advised that a simple policy of regime change - the Clinton/Bush line - would have been illegal. So they plumped for WMD. American and British intelligence were convinced Saddam had 'em, as were the French and Germans. Saddam thought he had 'em. So did his generals. It's believed that they were ordered to be used against the Americans as they galloped up to Baghdad from Kuwait. But when Saddam got there, the cupboard was bare. Strange, but apparently true. Anyone who's really fearless in his search for the truth can read David Kay's conclusions: it's a much more interesting story than "Blair lied!"
So Saddam didn't have WMD. Conversely, Colonel Gaddafi did. And hands up anyone who knew he did until he announced he was chucking it in. The only way you can be absolutely certain your intelligence about a dictator's weapons is accurate is when you look out the window and see a big mushroom cloud over Birmingham. More to the point, it's in alliances of convenience between the dictatorships and freelance groups that the true horrors lie - and for that you don't need big stockpiles, just a vial or two of this or that. You can try and stop it day by day at the gate at Heathrow, but, even if you succeed, you'll bankrupt the world's airlines.
The Left is remarkably nonchalant about these new terrors. When nuclear weapons were an elite club of five relatively sane world powers, the Left was convinced the planet was about to go ka-boom any minute, and the handful of us who survived would be walking in a nuclear winter wonderland. Now anyone with a few thousand bucks and an unlisted number in Islamabad in his Rolodex can get a nuke, and the Left couldn't care less.
The Right should know better. If he wants, Mr Howard can have some sport with Mr Blair. But, if he aids the perception that Blair took Britain to war under false pretences, the Tories will do the country a grave disservice. One day Mr Howard might be prime minister and, chances are, in the murky world that lies ahead, he'll have to commit British forces on far less hard evidence than existed vis à vis Saddam. Conservatives shouldn't assist the Western world's self-loathing fringe in imposing a burden of proof that can never be met. The alternative to pre-emption is defeat. If you want a real "underlying issue", that's it.”

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

O JOÃO TEM TODA A RAZÃO

Aubade
I work all day, and get half-drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see what's really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.

The mind blanks at the glare. Not in remorse
- The good not done, the love not given, time
Torn off unused - nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never,
But at the total emptiness for ever,
The sure extiction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel
, not seeing
That this is what we fear - no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anaesthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,
A small unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is not good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can't escape,
Yet can't accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offives, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.

Philip Larkin
in Times Literary Supplement, 23 de Dezembro de 1977
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