O MacGuffin: Abril 2004

Terça-feira, Abril 20, 2004

A LINDINHA TAMBÉM TEM UM BLOGUE
Batukada!
SARA: QUERES CASAR COMIGO?
Este blogue é muito, muito giro. E interessante. Apesar de...
APRENDE QUE ELA NÃO VIVE SEMPRE
Há dias, escrevi: “Dershowitz conclui que o assassinato selectivo e orquestrado de judeus...”. Hoje, o Bomba Inteligente, na posta Expressões e palavras a abandonar, escreve: “O substantivo assassinato: porque será que temos de ir buscar ao inglês o nosso assassínio?” Toma lá que é para aprenderes, Mac. Obrigado, Charlie.

PS: já rectifiquei.
MY MAN VALENTIM IS IN DA HOUSE, YO!
No Público:

"Valentim Loureiro, antigo presidente do Boavista, foi detido para interrogatório no âmbito da operação "Apito Dourado" da PJ, juntamente com mais 15 pessoas, no âmbito de uma investigação sobre a existência de tráfico de influências na arbitragem e falseamento de resultados desportivos.

O advogado e antigo presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) disse que acompanhou Valentim Loureiro na qualidade de seu advogado e amigo pessoal, acrescentando que o autarca e dirigente desportivo compareceu na PJ "de livre vontade". "Ele está calmo, tendo em conta as circunstâncias", afirmou Lourenço Pinto, adiantando não ter ficado surpreendido com a operação da PJ: "Na circunstância actual portuguesa, não me surpreende nada", sublinhou.

Segundo o advogado, ainda não é certo se Valentim Loureiro ficará ou não detido. "Não sei se ele vai ficar detido ou não. Sempre que há um processo as pessoas aguardam. Tudo depende do desenrolar normal da justiça. Quando todos os elementos estiverem reunidos, Valentim loureiro será ouvido pelo juiz", disse ainda."

PS: é impressão minha, ou estas operações têm que ter sempre uma designação pirosa?

DESONESTIDADES, SEGUNDA PARTE
O Cruzes Canhoto desafia-me: “[desafio o MacGuffin] a descobrir algum caso em que uma destas instituições não fizesse a distinção entre os dois tipos de assassínios.”

Resposta do MacGuffin: o Cruzes, como leitor de boa literatura, saberá perfeitamente que mais importante do que aquilo que se diz é aquilo que não se diz.

Depois, tem razão o Cruzes quando acusa Dershowitz (que ele apelida carinhosamente de “Derswhovito”) de falta de imaginação. O mesmo mal, aliás, de que eu padeço.

Uma coisa é certa: o Cruzes deixa no ar uma dúvida e uma certeza.

A dúvida, diz respeito à frase “Israel está a ocupar ilegalmente há décadas território palestiniano (a "ínfima" parte de 30%).” Seria bom que se explicasse melhor. Por exemplo, que território é esse que Israel ocupa ilegalmente (qual a sua extensão e localização), e a que se referem os 30%. Pode até ser que as suas contas batam certas com as minhas.

A certeza: no seguimento do “mais importante do que aquilo que se diz é aquilo que não se diz”, sabemos agora que, de futuro, sempre que o Cruzes Canhoto apontar, com o rigor e o poder de documentação que se lhe reconhesse, os excessos, a injustiça e a violência israelitas dirigida aos palestinianos, fará também o favor de enunciar, também no mesmo texto, os excessos, a injustiça e a violência dos palestinianos para com os israelitas.

PS: e o Cruzes volta a ter razão numa coisa: aquele exemplo/comparação com os guardas de Auschwitz, avançado por Dershowitz, não foi muito feliz. Mas nada que se compare com a infelicidade da frase “Sem reparar que os guardas deste "Auschwitz" são de nacionalidade israelita e religião judaica”. Andamos muito saramaguianos, meus amigos...
MAIS UM QUE NÃO LEU O LIVRO
Escreve o João, no seu Terras do Nunca: “Anda aí um argumento no debate iraquiano que me encanita especialmente. A má-fé.
A coisa nasceu no já famoso livro Impasses e resume-se, rodeios à parte, à ideia de que quem critica Bush fá-lo por má-fé. Fica implícito que os outros, os que apoiam Bush e a guerra, estão no debate de boa-fé.
Para este tipo de argumentação só tenho uma resposta: bardamerda.”


Ó João: tens razão quanto ao "bardamerda" para esse tipo de argumentação, mas, rodeios à parte, esse teu post é uma bela merdinha (não te preocupes, acontece o mesmo com algumas das minhas postas). Toda a gente sabe que a má-fé não escolhe idade, género ou campo ideológico. E, de uma vez por todas, o livro não defende que todos os que estiveram contra a intervenção estiveram de má-fé, nem sequer insinua que todos os que estiveram ao lado da intervenção o fizeram de boa-fé.
SHAME ON YOU, MR. MOORE!
Há vaga no Júlio de Matos?


DOIS PEQUENOS COMENTÁRIOS
1. Era para ser em Junho, aquando da transferência do poder para os iraquianos. Depois, só se a ONU não tomasse conta da ocorrência. Agora, é para já. Diz Zapatero que cumpre «promessa eleitoral», aventada há cerca de um ano – como se as promessas eleitorais fossem vitalícias e independentes dos acontecimentos e da evolução do mundo. Pelo meio afirmou que queria retirar a Espanha da fotografia dos Açores, um mimo indirecto a Portugal que não suscitou um décimo da celeuma suscitada pelas «gravíssimas» declarações de Durão Barroso sobre a decisão de Zapatero. Em política, não basta ser. Com este ziguezaguiar, Zapatero revela-se um político fraco e mesquinho. Continua convencido de que ganhou as eleições porque prometeu retirar as tropas, há um ano atrás. E acha que, com esta decisão, já pode dormir descansado. Nem sequer se apercebe que a sua decisão vem, por coincidência, no seguimento do ultimato feito pela al-Qaeda aos países europeus - um ultimato a todos os níveis insultuoso. Em suma, Zapatero esqueceu o que disse, em relação a 30 de Junho, e esqueceu o que disse sobre um futuro papel das Nações Unidas. No meio dos discursos sobre o «direito internacional», Zapatero está-se nas tintas para a resolução 1483 da sua querida ONU. Por último, Zapatero deixa no ar a ideia de desertor (se, daqui a um mês, a ONU voltar ao Iraque, Zapatero mandará regressar as suas tropas?) e de quem está disposto a ceder, em troca de uma paz cuja duração e natureza ninguém conhece. Em poucos dias de mandato, é esta a obra de Zapatero. Temos, por isso, homem.

2. Via Miniscente, deparo com esta preciosidade:

(extracto da entrevista a Omar Bakri Mohammed, “teórico da al-Qaeda”, publicada ontem no Público)
”- Como sabemos que um atentado é realmente da AI-Qaeda?
- É fácil. Em primeiro lugar são sempre operações em grande escala. O texto divino é claro quanto à necessidade de provocar "o máximo dano possível". O operacional tem portanto de certificar-se de que mata o maior número de pessoas que pode matar. Se não o fizer, espera-o o fogo do Inferno. Em segundo lugar, a Al-Qaeda deixa sempre uma impressão digital: uma pista, como um carro com um Corão ou uma cassete, para ser encontrado pela Polícia. Terceiro, os ataques são feitos em dois ou três lugares ao mesmo tempo. Finalmente, a linguagem. Nos comunicados, basta ler uma frase para se reconhecer o seu rigor teórico: não há nenhum sinal de nacionalismo, não se dizem árabes, nem palestinianos, apenas muçulmanos. Falam sempre do martírio, da morte.
- O que pretende a Al-Qaeda?
- O terror. Estão empenhados numa jihad defensiva, contra os que atacaram o Islão. E a longo prazo querem restabelecer o estado islâmico, o califado. E converter o mundo inteiro.”


Acrescenta o Luis: ”Este mártir retórico vive pacificamente em Londres e goza das liberdades concedidas pela democracia. E lá vai dizendo estas barbaridades.”

Numa altura em que Bin Laden, do alto da sua arrogância e do seu fanatismo criminoso, faz saber que se os meninos europeus se portarem bem não levarão tau-taus, seria bom que, a ocidente, deixássemos de lado a tibieza e os paninhos quentes à la Soares. Por uma vez, seria bom que o mundo livre (ou o que resta dele) se aliasse a uma só voz e ripostasse sem misericórdia e contemplações. Os inimigos dos nossos amigos não são nossos inimigos? Somos aliados, ou nem por isso? Parece que «nem por isso». O eixo franco-alemão já ditou a ordem de trabalhos: para se afirmar, a Europa tem de se revelar como «alternativa» aos EUA e evitar, a todo o custo, o «seguidismo». Tem, se necessário, de bater o pé. No limite, ser contra. Com esta estratégia – a qual, para além de ingénua e suicida é, igualmente, reveladora de uma enorme ingratidão - tem-se aberto a porta ao pior cinismo, à mais gritante tibieza e a um populismo de quem já percebeu que esta ideia de ser «alternativa» aos EUA, com direito a «guerrinha de nervos», anima as franjas políticas mais radicais que, com o passar dos anos, se vieram a revelar utilíssimas na conquista de votos ou na feitura de coligações ad hoc.

É perante este cenário que Bin Laden tem o desplante de nos insultar a todos (pelos menos aos que têm memória), dizendo que, como está bem disposto e a vidinha lhe corre bem, poderá vir a poupar os países europeus, embora nunca os EUA e Israel, assim eles se portem bem – leia-se: deixem de pisar solo «muçulmano». O que faz a Europa? O que dizem os membros da aliança atlântica? A maioria cala-se, uns desertam e outros assobiam para o lado. Certo é que todos, à excepção de uns «tontos» e «mentirosos», tentam distanciar-se assepticamente do grande Satã e do texano idiota. Bin Laden aplaude e vê ali um filão inestimável para a sua nova estratégia: dividir para reinar.

É como diz o João: “a «proposta» de Osama é um insulto, sem dúvida. Mas é também o retrato. O nosso retrato. O retrato da insofismável miséria onde fomos afocinhando sem retorno.”
OPINIÃO PÚBLICA
Escreve o Paulo, n’ O Acidental:

“Acabo de ouvir uma bancária de 65 anos no Opinião Pública da SIC a solidarizar-se com o gesto de Zapatero ao mandar retirar as tropas espanholas do Iraque. A senhora, julgo que se chamava Cecília, acrescentava: "posso prever que a Europa se vai superiorizar aos Estados Unidos". Fiquei mais descansado quando, poucos segundos depois, a dona Cecília informava que já tinha visto uma nave espacial e que nós não estamos cá sozinhos.
Mais descansado fiquei com o resultado final da "sondagem" do Opinião Pública: 56 por cento consideram que a deserção de Zapatero foi uma cedência aos terroristas, enquanto 44 por cento dizem que não foi. OK, afinal nem todos andam a ver extraterrestres.”


John Lukacs, de quem ando a ler um delicioso e absolutamente obrigatório “Five Days in London, May 1940” (Yale University Press, 2001), alerta precisamente para a diferença entre “opinião pública” e “sentimento popular”. Escreve Lukacs: “aquilo que é publico não é necessariamente popular, e opinião não é necessariamente a mesma coisa que sentimento. Há muitos exemplos na história, e não menos na história das democracias, em que a opinião pública e o sentimento popular não só são diferentes como frequentemente divergem. No Sec. XIX, a opinião pública era a opinião das classes média e alta, apesar de gradualmente a classe operária se ter tornado uma leitora de jornais e ter passado a votar.” Querem melhor exemplo do que o caso Howard Dean na corrida à candidatura democrata para as eleições norte-americanas?

Outra diferença, escreve Lukacs, é entre conhecimento e compreensão. De acordo com a lógica, a compreensão é não só o resultado do conhecimento, como o seu corolário. Mas, como dizia Pascal, “nós compreendemos mais do que sabemos”. Existem muitos casos em que a compreensão precede o conhecimento. Mais: é a compreensão que conduz ao conhecimento. Lukacs dá como exemplo o período de Maio de 1940, na Grã-Bretanha. Muitos britânicos entendiam e compreendiam coisas sobre as quais não tinham conhecimento (Rumsfeld, anyone?). Ou compreendiam coisas sobre as quais nem sequer queriam pensar, apesar de terem capacidade para o fazer.

Seja como for, e ao contrário do que por aí se apregoa, isto da «opinião pública» não é assim tão certo, e mal vai o político que navegue ao sabor da dita.

Segunda-feira, Abril 19, 2004

INSISTIR NO ERRO
No Cruzes Canhoto insiste-se no erro. De interpretação, entenda-se. Como hoje estou particularmente magnânimo, faço um derradeiro esforço para explicar o meu ponto de vista, repetindo novamente o que escrevi:

“O Cruzes Canhoto é livre de insinuar, ou afirmar, que os judeus (ou certos judeus) são racistas para com os palestinianos. Mas negar, ficar incomodado ou achar hilariante que um judeu relate o contrário, dando como exemplo aquilo que foi um gritante e brutal acto de racismo por parte de um grupo de radicais palestinianos contra um judeu, ou, ainda, que o anti-semitismo é, ele próprio, uma forma de racismo, já me parece um caso de ignorância ou de má-fé.”

Eu nem sequer vou entrar em discussão sobre a veracidade das notícias que constam no ‘post’ do Cruzes. A questão é outra (e desculpem o narcisismo da repetição): “negar, ficar incomodado ou achar hilariante que um judeu relate o contrário, dando como exemplo aquilo que foi um gritante e brutal acto de racismo por parte de um grupo de radicais palestinianos contra um judeu, ou, ainda, que o anti-semitismo é, ele próprio, uma forma de racismo, já me parece um caso de ignorância ou de má-fé”. O que eu critiquei foi a forma sobranceira como o Cruzes Canhoto considerou "hilariante" (subgénero “absurda”) a insinuação de que os árabes mais radicais e os grupos terroristas palestinianos são racistas em relação aos judeus. Isso, meus caros, é notório e já vem de longe.

Dito de outra forma: Alan Dershowitz é ou não livre, e tem ou não tem razão, em relatar actos de racismo e violência gratuita de palestinianos contra civis inocentes israelitas? Por muito que custe ao Cruzes Canhoto, eu acho que sim e que sim. Pura e simplesmente porque as notícias e os factos não se anulam uns aos outros. O relato de uns não nega automaticamente a existência de outros de sinal contrário. Achar hilariante que Dershowitz o faça é, desculpem a franqueza (ou será fraqueza?), intelectualmente desonesto.

Perceberam agora? Obrigado.
RECOMENDAÇÕES (APONTA AÍ, RICARDO!)

The Dining Rooms “Tre”




Forss “Soulhack”




Boozoo Bajou Remixes


Sábado, Abril 17, 2004

SAUDADES
A querida Ana falou no "bom velho gang do Pastilhas". E eu senti umas saudades...

PS: E parabéns!!!
BRASIL
O Francisco conta-me que viu o Isaiah Berlin em tradução local na lista dos mais vendidos na Livraria Civilização Brasileira, em Salvador. Em Portugal, traduziu-se unicamente "The Proper Study of Mankind", que resultou em dois volumes intítulados "A Busca do Ideal" e "A Apoteose de Vontade Romântica" (editorial Bizâncio, colecção Leviatã, dir. João Carlos Espada, trad. Teresa Curvelo). Há dias vi um deles à venda numa feira do livro, animada por «fundos de catálogo», por 3 euros. Não creio que alguma vez tenha constado na lista dos mais vendidos.
IRONIA, A FINA

racismo. [de raça + ismo] S. m. 1. Tendência do pensamento, ou modo de pensar em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas. 2. Qualquer teoria que afirma ou se baseia na hipótese da validade cientifica do conceito de raça e da pertinência deste para o estudo dos fenómenos humanos; 3. Qualquer teoria ou doutrina que considera que as características culturais humanas são determinadas hereditariamente, pressupondo a existência de algum tipo de correlação entre as características ditas «raciais» (isto é, físicas e morfológicas) e aquelas culturais (inclusive atributos mentais, morais, etc.) dos indivíduos, grupos sociais ou populações. 4. P. Ext. Qualquer doutrina que sustenta a superioridade biológica, cultural e/ou moral de determinada raça, ou de determinada população, povo ou grupo social considerado como raça. 5. Qualidade ou sentimento de indivíduo racista; esp., atitude preconceituosa ou descriminatória em relação a indivíduo(s) considerado(s) de outra raça.

No Cruzes Canhoto, como aqui, no Contra, a ironia é «muito lá de casa». Ainda bem. Repare-se no “[o MacGuffin] Mostrando mais uma vez o seu impecável sentido de humor “… dirigido a moi même. A razão? Simples: foi aqui transcrito o artigo de um senhor chamado Alan M. Dershowitz (um judeu), onde se relatava o assassinato premeditado e cirúrgico de um judeu, enquanto fazia jogging, pelas brigadas de Al-Aqsa, só porque esse jovem era judeu (como refere Dershowitz, a Al-Aqsa “sent the assassin to murder a Jew – any Jew, so long as he was a Jew”). Dershowitz conclui que o assassínio selectivo e orquestrado de judeus apenas pelo simples facto de serem judeus - levado a cabo por “terroristas palestinianos” (Dershowitz refere-se, mais do que uma vez, aos “terroristas” e ao “terrorrismo” palestiniano, e não aos palestinianos em geral) - é um claro acto de racismo.

É óbvio que uma afirmação destas cai profundamente mal em certos sectores da esquerda (e, provavelmente, da direita) porque os desfavorecidos, os pobres e os oprimidos –numa palavra: os fracos – nunca poderão ser racistas. Mais: o «racismo» não encaixa na temática das «causas» do terrorismo, porque as «causas» explicam tudo e tudo justificam. Daí a fina ironia aliada à latente «indignação».

E, neste caso, quais são as «causas»? A opressão sionista, a ocupação de uma ínfima parte da Cisjordânia por colonatos israelitas, o horrendo muro e as políticas de «segregação» israelitas. O facto de haver, nos países árabes, legislação que descrimina judeus (na Jordânia, por exemplo, existe um preceito legal que nega cidadania a “qualquer judeu”); o facto de, nesses mesmos países, se ensinar às crianças que os judeus são uma raça “a abater”; o facto de circular nos meios árabes o boato de que os judeus utilizam o sangue do sacrifício de bebés para cozinhar bolinhos; o facto de o Mein Kampf e os Protocolos (livros que, como se sabe, não incitam nada a sentimentos racistas) venderem que nem papo-secos no seio de certas franjas da sociedade árabe e nalgumas comunidades muçulmanas na Europa; nada disso impressiona a malta do Cruzes Canhoto.

Convém, por isso, dizer o seguinte: o Cruzes Canhoto é livre de insinuar, ou afirmar, que os judeus (ou certos judeus) são racistas para com os palestinianos. Mas negar, ficar incomodado ou achar hilariante que um judeu relate o contrário, dando como exemplo aquilo que foi um gritante e brutal acto de racismo por parte de um grupo de radicais palestinianos contra um judeu, ou, ainda, que o anti-semitismo é, ele próprio, uma forma de racismo, já me parece um caso de ignorância ou de má-fé. Mas quem sou eu...

Quinta-feira, Abril 15, 2004

NOTICIA ABSOLUTAMENTE FANTÁSTICA
O homem está de regresso.

Weeeeeeeeeeeeeeeee!

Quarta-feira, Abril 14, 2004

DO TERRORISMO E DO QUE NUNCA SE OUVE FALAR

The Palestinians' Genocide Campaign
por Alan M. Dershowitz
”Recently, a young student at the Hebrew University was gunned down while jogging through a mixed neighborhood of Jews and Arabs in north Jerusalem. The Aksa Martyrs Brigade, a wholly-owned subsidiary of Yasser Arafat's Fatah movement, joyously claimed credit for the killing yet another innocent Jew.
When it was later learned that the jogger was a Jerusalem Arab and not a Jew, al-Aksa quickly apologized to the family, calling it an accident.
But the killing of the innocent young jogger was not an accident; the murderer had deliberately taken aim at his head and midsection, intending to end his life. The only thing accidental about the murder was the religion of the victim. Al-Aksa had sent the assassin to murder a Jew – any Jew, so long as he was a Jew.
This is racism, pure and simple. And despite efforts by supporters of Palestinian terrorism to justify the murder of innocent civilians as national liberation or by any other euphemism, this case proves that the Palestinian terrorists' targeting of Jews and only Jews – as many as possible – is little different in intent from other forms of lethal or exterminatory anti-Jewish murders. (I don't use the term anti-Semitic only because some Arabs claim that because they too are Semites, they can't be anti-Semitic.)

Obviously the numbers are different, because Israel is capable of defending its Jewish citizens, but if it were not, the goal of Palestinian terrorist groups would not be very different from that of previous groups intent on murdering as many Jews as possible.
The Web sites of various Palestinian terrorist groups proclaim – usually only in English and almost never in Arabic – that they have no quarrel with the Jews, only with the Zionists. Yet they target every Jew, regardless of his or her individual political views, and they apologize when they accidentally kill a non-Jew, regardless of his political views. The racist acts of these terrorist groups speak louder than their sanitized English-only anti-Zionist Web sites.
YET THE international community – including the UN, the Vatican, and the European Union – claims to see no difference between Palestinian terrorists who target random Jewish civilians and the Israel Defense Forces that target specific mass murderers, such as Ahmed Yassin. It's all part of a "cycle of violence" in which both sides are morally equivalent, according to the double standard consistently applied against Israel by people who should know better.
The preventive killing of the mass murderer Sheikh Yassin received much more negative attention from the moral leaders of these organizations than did the racist attack that accidentally killed the young Arab. This failure – or refusal – to distinguish murder based on religious affiliation from preventive self-defense based on past and future murderous acts is the height of immorality. It would be as if the soldiers who killed Auschwitz guards in the process of liberating the inmates were deemed morally equivalent to the Auschwitz murderers.

It should not be surprising that Palestinian terrorists employ racist criteria in selecting their civilian targets, since the entire goal of Palestinian terrorism is racist to its core. It seeks to deny the Jewish people the right to self-determination. Under their version of Islamic law, it is impermissible for Jews to govern any land that was once under Muslim control, and it is equally impermissible for a Jewish majority to govern a Muslim minority, namely Israeli Arabs.
The time has come for the international community to listen to what Palestinian terrorists say to their own people: that this is a racist struggle to ethnically cleanse all of Palestine, which includes Israel, of all Jews (except, they say, those Jews who lived there before 1917 and are willing to remain as a minority in a Muslim land).

The civilian targets are selected on a racist basis – all Jews are fair game, and if a non-Jew is killed, that is an unfortunate accident.
The terrorist killing of the young Jerusalem Arab student, coupled with the apology when it was learned he was not Jewish, was not only a tragedy for his family (which lost another member to a terrorist attack years earlier), but it is also a revealing episode in the history of Palestinian terrorism. All who hate racism should condemn the selective morality under which a deliberate Jewish civilian death is applauded and a deliberate Arab civilian death is regretted.
All deliberate targeting of non-combatants must be equally condemned. And the deliberate targeting of civilians based on their religion is to be especially condemned.”

in Jerusalem Post, 14-04-2004
REVISTA AOS BLOGUES
Rua da Judiaria: o Nuno casou-se. Felicidades aos noivos. E, by the way, a noiva estava linda.

Desesperada Esperança: compreendo o problema do Bruno. Servirá de consolo dizer-lhe que, em mais de cinco anos, a Spectator chegou atrasada à minha caixa postal em apenas duas ocasiões?

Homem a Dias: este bom homem não bloga há mais de 6 dias (uma eternidade inqualificável). Caso ele não dê sinais de vida nas próximas 24 horas, terei de reportar o caso às autoridades.

Dicionário do Diabo: voltou ao activo. E a falar de política. Até que enfim!

João Pereira Coutinho: o cronista do Expresso (arghh!!, nunca esperei dizer isto) também está de regresso. A coisa, finalmente, compõe-se.

The Hidden Persuader: mais um blogue interessante. Sobre "marketing, branding e afins".

Terça-feira, Abril 13, 2004

EU ADORO INSÓNIAS
Esta madrugada, lá terá que ser.


NABOKOV, VLADIMIR
"I was appealing to flesh, and the corruption of flesh, to refute and defeat the possible persistence of discarnate life. Alas, these conjurations only enhanced my fear of Cynthia’s phantom. Atavistic peace came with dawn, and when I slipped into sleep the sun through the tawny window shades penetrated a dream that somehow was full of Cynthia.
This was disappointing. Secure in the fortress of daylight, I said to myself that I expected more. She, a painter of glassy-bright minutiae – and now so vague! I lay in bed, thinking my dream over and listening to the sparrows outside: Who knows, if recorded and then run backward, those bird sounds might not become human speech, voiced words, just as the latter become a twitter when reversed? I set myself to reread my dream – trying hard to unravel something Cynthia-like in it, something strange and suggestive that must be there.
I could isolate, consciously, little. Everything seemed blurred, yellow-clouded, yielding nothing tangible. Her inept acrostics, maudlin evasions, theopathies – every recollection formed ripples of mysterious meaning. Everything seemed yellowly blurred, illusive, lost.”

The Vane Sisters in Collected Stories
HOBBES, THOMAS
“Diz-se que um Estado foi instituído quando uma multidão de homens concordam e pactuam, cada um com cada um dos outros, que a qualquer homem ou assembleia de homens a quem seja atribuído pela maioria o direito de representar a pessoa de todos eles (ou seja, de ser o seu representante), todos sem excepção, tanto os que votaram a favor dele como os que votaram contra ele, deverão autorizar todos os actos e decisões desse homem ou assembleia de homens, tal como se fossem os seus próprios actos e decisões, a fim de viverem em paz uns com os outros e serem protegidos dos restantes homens.
É desta instituição do Estado que derivam todos os direitos e faculdades daquele ou daqueles a quem o poder soberano é conferido, mediante o consentimento do povo reunido…

Mas poderia aqui objectar-se que a condição de súbdito é muito miserável, pois se encontra sujeita aos apetites e paixões irregulares daquele ou daqueles que detêm nas suas mãos poder tão ilimitado. Geralmente os que vivem sob um monarca pensam que isso é culpa da monarquia, e os que vivem sob o governo de uma democracia, ou de outra assembleia soberana, atribuem todos os inconvenientes a essa forma de governo. Ora, o poder é sempre o mesmo, sob todas as formas, se estas forem suficientemente perfeitas para proteger os súbditos. E isto sem levar em conta que a condição do homem nunca pode deixar de ter uma ou outra incomodidade, e que a maior que é possível cair sobre o povo em geral, em qualquer forma de governo, é de pouca monta quando comparada com as misérias e horríveis calamidades que acompanham a guerra civil, ou aquela condição dissoluta de homens sem senhor, sem sujeição às leis e a um poder coercitivo capaz de atar as suas mãos, impedindo a rapina e a vingança. E também sem levar em conta que o que mais impulsiona os soberanos ou governantes não é qualquer prazer ou vantagem que esperem recolher do prejuízo ou debilitamento causado aos seus súbditos, em cujo vigor consiste a sua própria força e glória, e sim a obstinação daqueles que, contribuindo de má vontade para a sua própria defesa, tornam necessário que os seus governantes deles arranquem tudo o que podem em tempo de paz, a fim de obterem os meios para resistir ou vencer aos seus inimigos, em qualquer emergência ou súbita necessidade. Porque todos os homens são dotados por natureza de grandes lentes de aumento (ou seja, as paixões e o amor de si), através das quais todo o pequeno pagamento aparece como um imenso fardo; mas são destituídos daquelas lentes prospectivas (a saber, a ciência moral e civil) que permitem ver de longe as misérias que os ameaçam, e que sem tais pagamentos não podem ser evitadas.”

in Leviatã 1651
PÔSTÁCLARO!

Segunda-feira, Abril 12, 2004

EU NÃO DIZIA?
...que ia valer a pena? O Paulo Pinto Mascarenhas fez o favor de traduzir um excerto de um artigo do sempre interessante e perspicaz Mark Steyn, na Spectator de sempre:

(10 razões adiantadas por Steyn para celebrar a intervenção das forças aliadas)

1) Saddam Hussein está na prisão, os filhos dele estão no "paraíso" e, das 52 cartas do baralho, todas, à excepção de nove, estão num ou noutro dos citados endereços.

2) As baixas na coligação em Fevereiro foram as mais baixas desde que a guerra começou.

3) Os ataques aos pipelines de petróleo no Iraque caíram em cerca de 75 por cento desde o passado Outono.

4) O fornecimento de água potável de antes da guerra - 12.9 milhões de litros - foi duplicado.

5) As cidades históricas a sul do Iraque, desvastadas por Saddam, estão a ser recuperadas, e dezenas de milhar de árabes regressaram às suas antigas casas.

6) Financiamento à saúde pública é 25 vezes maior do que no ano passado e as taxas de imunização infantil cresceram 25 por cento.

7) O único porto internacional iraquiano foi modernizado e pode agora receber grandes navios sem ter de esperar pelas marés. Há 100 vezes mais partidas diárias de aviões comerciais do que antes da guerra.

8) Frequência escolar subiu dez por cento em relação ao que era há um ano.

9) Apesar de, precisamente antes do início da guerra, Saddam Hussein ter libertado das prisões tudo o que era bandido, as autoridades reportam que o crime em Basra caiu cerca de 70 por cento.

10) A constituição interina no Iraque é a mais liberal do Mundo Árabe.

E o Paulo remata: "Satisfeitos? Ninguém está, mas alguma coisa já se fez." Contra tanta adversidade.
MAIS UMA VEZ, A MÁ-FÉ
Daniel Oliveira fez questão de comentar a minha alfinetada. Muito bem. Esclareceu alguns pontos (afirmando coisas que já tinha afirmado “milhares de vezes”), baralhou outros e, infelizmente, voltou à má-fé. Convém, por isso, comentar o comentário.

Daniel escreve que, entre outras coisas, eu:

1) “acreditei na existência de ADM’s”. Sim, acreditei. Hoje é muito fácil, retrospectivamente, dizer que não, que não havia uma só arma de destruição em massa. Mas tive sempre o cuidado de dizer que não achava as ADM’s o casus belli da intervenção;

2) “ defendi que democracia se podia implantar à bomba”. Lá está, mais uma vez, a má-fé: “a democracia implantada à bomba”. O slogan dramático, a tirada incisiva, a boca definitiva. Palmas, Daniel. Foi isso mesmo que eu quis: “a democracia implantada à bomba”. “P: MacGuffin, diga-nos, como é que quer que a democracia seja implantada no Iraque?”, “R: Ora.. deixa cá ver... já sei: à bomba”. É claro que retirar do poder um dos mais sanguinolentos ditadores do Sec. XX poderia ter sido feito com um convite, seguido de almoço de confraternização. E é claro que eu nunca escrevi isto, no resumo que fiz do ano 2003: “Não creio que o povo iraquiano e os seus potenciais e actuais representantes sejam particularmente estúpidos ou totalmente idiotas. Observá-los como um bando de «bárbaros» incapazes de evolução e de reorganização é sinal de arrogância e de comodismo retórico. Bem como de falta de conhecimento. Em boa parte do Curdistão, nas chamadas «zonas de exclusão aérea», sob controlo anglo-americano, foi possível, desde 1991, criar um sistema multi-partidário baseado em instituições que nos remetem para o sistema democrático as we know it(...). É óbvio que ninguém espera uma adaptação fidedigna de um modelo de organização política de tipo ocidental. Ninguém está à espera, nem sequer é essa a expectativa de quem está directamente envolvido no Iraque pós-guerra, de assistir a uma mimetização de sistemas e instituições (...). Entre o sistema ditatorial e despótico de Saddam e o modelo liberal ocidental vai uma enorme distância (...). Se assim é, existe um vasto leque de opções que poderão servir o povo iraquiano de uma forma como nunca o regime de Saddam o serviu, sem ser necessário entrar em histerismo quanto à perfeição e tipologia do sistema a implementar.” Para o Daniel, nada disto interessa. Mesmo que eu o tenha escrito e insinuado “milhares de vezes”.

De seguida, novamente o estilo Daniel Oliveira: “As coisas não aconteceram como ele esperava. De quem é a culpa? Nossa. Evidente, não é?”. Não, não é nada evidente. Só a má-fé pode levar Daniel a escrever isto. Nunca culpei o Daniel, ou o Barnabé, de nada. Mais uma vez uma insinuação mendaz e demagoga.

Daniel prossegue: “tenta colar-nos às forças xiitas”. Primeiro: eu escrevi “grupo radical xiita”. Ou seja, um “grupo”, uma “facção” e não “forças xiitas”. Entendo, se calhar ao contrário do Daniel, que aquele grupo não representa a totalidade dos xiitas, e muito menos o povo iraquiano. Segundo: não colei o Barnabé ou o Daniel às forças xiitas. Isso seria absurdo. Lá está: a má-fé, mais uma vez.

Outra nota do Daniel: “a culpa do que aconteceu em Madrid foi da Al Qaeda e contestei a distribuição de culpas para fora desta rede de organizações. Ao fingir que não, MacGuffin dá mais um exemplo de má-fé. Seja como for, comparar o que está a acontecer em Fallujah com o que aconteceu em Madrid, isso sim, é que me parece de um relativismo moral insuportável.” Insuportável não será o facto de Daniel, mais uma vez, insinuar que eu fiz uma comparação que não existiu? Daniel Oliveira não percebeu o que eu quis dizer, ou não quis perceber. Eu não comparei as causas e as razões que estão por detrás dos acontecimentos de Fallujah com o 11 de Março. São coisas distintas. O que eu contestei foi a forma como, a ocidente, se tenta escamotear a culpa de uns, transferindo-a para as costas de outros. O que eu critiquei foi a forma como, no 11 de Setembro, no 11 de Março e agora no Iraque se tenta inverter a razão das coisas, via relativismo moral, como se os culpados fossem as vitimas e vice-versa. Por muito que custe ao Daniel Oliveira, é isso que transparece das suas múltiplas crónicas sobre o assunto, em que Daniel enumera os revezes da coligação como se estivesse a provar e a amplificar "uma lição", uma espécie de "tomem lá que é para aprenderem". Dito de outra forma, seria impossível ver o Daniel a enumerar os avanços e o que de bom se construiu no Iraque.

A população iraquiana e as forças da coligação estão a ser vitimas da rebelião de um grupo de radicais xiitas que entenderam, desleal e perfidamente, desestabilizar a situação interna do seu país, agora que se estava a construir uma solução mais uma menos consensual sobre o futuro do Iraque. Infelizmente, não resta à coligação outro remédio senão lutar para neutralizar essa rebelião. Provavelmente, Daniel Oliveira esperaria que os EUA dessem a outra face e saíssem acabrunhados do Iraque.

O que nos remete para a sua última declaração: ele acha que a solução de “estabilização” passa pela retirada dos “mentirosos”, substituindo as forças da coligação por forças da ONU que sejam vistas pelos iraquianos como “forças de paz”. Santa ingenuidade! Forças da ONU? Quais forças da ONU? Vistas como forças de paz? Sérgio Vieira de Mello: dir-lhe-á alguma coisa? Certamente não dirá muito aos grupelhos radicais e aos terroristas que tentam incendiar agora, como no passado, o Iraque. Ah, pois: se os mentirosos para lá não tivessem ido...

Domingo, Abril 11, 2004

BARRETO, ANTÓNIO
"Sou de esquerda, detesto viver na desigualdade, abomino os privilégios de condição e desejo que as sociedades evoluam no sentido do aumento do poder dos que o não têm e da diminuição ou da contenção dos que o têm em excesso. Não tenho muito respeito pela direita portuguesa, que tão pouco contribuiu, no século XX, para a liberdade dos portugueses. Nem qualquer fascínio pelos ricos e poderosos nacionais, em cujos patéticos exemplos de sofreguidão, subserviência e autismo não é possível fundar um esforço de desenvolvimento. Mas não me reconheço nas políticas ditas de esquerda em vigor no meu país. Não partilho a sua agressividade boçal, nem a sua arrogância própria dos "moralmente superiores" e dos "intelectualmente dotados". Não me revejo na sua dúplice atitude ou na sua complacência criminosa diante da violência e do terrorismo. Não aceito a sua permanente vontade de gastar o que não se produz e distribuir o que não se poupou e lamento a sua confrangedora irresponsabilidade. Não me identifico com a sua viciosa propensão a recompensar a facilidade, a mediocridade e a aldrabice. Nem adopto a facilidade com que despreza o mérito ou é capaz de deixar entre parêntesis os direitos individuais. O que não me transforma em homem de direita."
BARRETO, ANTÓNIO
"Sou ocidental, considero que a dita civilização do mesmo nome é a principal obreira, nos tempos modernos, da liberdade e da dignidade do indivíduo, sendo também a que, nos últimos séculos, mais contribuiu para o desenvolvimento da cultura e das ciências. Penso também que, mau grado horrores recentes conhecidos, pertencem a essa área do mundo praticamente todos os exemplos de vida decente. Sei que esta civilização está sob ameaça séria, dos seus próprios defeitos, com certeza, mas sobretudo dos seus inimigos, que a querem simplesmente destruir e conquistar. Por isso estimo, há alguns anos, que muitos desses inimigos, nomeadamente os gangs milionários dos produtores e dos distribuidores de petróleo e de droga, assim como os ditadores cleptocratas, muitos deles socorrendo-se do fanatismo islâmico, estão a precisar de uma lição, tanto em termos políticos como militares e económicos. E sou de opinião que as organizações terroristas, islâmicas ou não, devem ser combatidas com todos os meios, sem misericórdia nem complacência. Mas não me revejo na campanha americana no Próximo Oriente, da Palestina ao Iraque, nos desastres provocados e na incompetência política manifesta. Nem na hipoteca israelita da política americana. Nem na inútil passividade das Nações Unidas. Nem na covarde chantagem de alguns países europeus, como a França e a Alemanha. E receio os resultados da catástrofe em curso: ao contrário do Vietname, onde só os americanos perderam, com o Iraque, Israel e a Palestina, entre outros, perderemos todos, especialmente os ocidentais. Espero que se ponha um termo à política belicosa do Estado de Israel e se crie um Estado independente da Palestina. Como desejo que os americanos, com a colaboração dos Estados ocidentais e europeus, corrijam radicalmente as suas estratégias actuais, vençam as guerras contra o terrorismo e derrotem os Estados, os partidos e os movimentos que, sobretudo no universo islâmico, põem em perigo o ocidente e impedem a paz no mundo. O que não faz de mim um agente dos americanos, muito menos anti-americano ou anti-ocidental.

Sou europeu, fujo de todos os reflexos patrióticos, abomino o nacionalismo como chaga maior da idade contemporânea e vejo a integração europeia não só como uma possível obra-prima da política internacional, mas também como uma imperiosa necessidade para o desenvolvimento e a segurança do meu país. Mas não me identifico com a obsessão integradora e federalista da maioria dos dirigentes europeus, com a voracidade dos dirigentes das grandes potências europeias e seus apetites de dominar esta comunidade de Estados e nações e capazes de, por um desenho abstracto e artificial, pôr em causa a União. Não me revejo no frenesim unificador dos europeus ou na destruição da diversidade, traço maior da política e da cultura europeias. Nem me reconheço na hipocrisia suicida de grande parte dos políticos europeus que, perante o terrorismo e as ameaças contra o mundo ocidental, escolheram a complacência e a cedência como estratégia da sua eventual salvaguarda. Considero-os, europeus de direita e de esquerda, tão responsáveis quanto os americanos na catástrofe iraquiana e no impasse palestino e israelita. O que não faz de mim um anti-europeu."

DA DEMOCRACIA NA AMÉRICA
No último número da The Atlantic, sob o título "The Nation in Numbers - On The Money Trail", surge um artigo onde se analisa a proveniência dos donativos para as campanhas eleitorais dos candidatos democratas e republicano. No mesmo artigo, são apresentados dois mapas - um de Manhattan e outro dos EUA - onde se pode ver a distribuição espacial dos donativos de cada partido. Mais à frente, aparece um quadro com o top-ten dos contribuintes/doadores ("corporate and personal contributions of each institution") de cada candidato. Podemos ver, por exemplo, que a Enron Corp. foi a empresa de onde veio a maior contribuição para a campanha de Bush ($602.625); que John Edwards recebeu da Shangri-La Entertainment a módica quantia de $907.000; que o maior contribuinte para a campanha de Howard Dean foi a Time Warner ($73.636); que a Goldman Sachs Group contribuiu para todos os candidatos, à excepção de Al Sharpton; que John Kerry encontrou na Mintz, Levin, Cohn, Ferris, Glovsky and Popeo o seu maior contribuinte ($232.736) e que a maior contribuição da Harvard University foi para Kerry ($124.250 contra os $35.276 de Dean); e por aí fora. Todos os pormenores aqui.

E em Portugal? Talvez o Dr. Soares nos possa esclarecer sobre a diferença entre a nossa democracia e a plutocracia norte-americana ("plutocracia" que, como lembrou o Alberto, é o regime dominado pelo cão do Mickey).
ACIDENTALMENTE
Encontro (via um dos meus amigos que não me conhece) o blogue do Paulo Pinto Mascarenhas: O Acidental. Do que eu conheço do Paulo Pinto Mascarenhas, vai valer a pena seguir o blogue do Paulo Pinto Mascarenhas. Que se chama O Acidental.

Sábado, Abril 10, 2004

LARKIN

In times when nothing stood
but worsened, or grew strange,
there was one constant good:
she did not change.

2 March 1978


YOU MUST BELIEVE IN SPRING
Há discos assim, que nos encostam e nos «derrotam». Discos que nos empurram para fora do nosso comezinho e eufórico limbo existencial. Discos que nos devolvem sentimentos e sensibilidades “source inexhausted of all that’s precious in our joys, or costly in our sorrows”, como escreveu Laurence Sterne. Discos cuja melancolia se pega irremediavelmente. Discos de Outono no começo da Primavera. You Must Belive In Spring é Bill Evans no seu melhor. Um disco de intimidades e de grandes composições. “Like all great art, this music provokes a spectrum of emotions”, escreve Francis Davis. Ponto final.


A MÁ-FÉ SEGUNDO DANIEL OLIVEIRA
Na última edição do É a Cultura, Estúpido!, Daniel Oliveira, do alto do seu moralismo e da sua proverbial clarividência, deu a todos os presentes uma lição sobre o que é a má-fé. Alegou o Daniel que Fernando Gil e Paulo Tunhas, no livro Impasses, ao acusarem certos detractores da intervenção americana no Iraque de agirem de má-fé, foram eles próprios usuários dessa má-fé – argumento cuja originalidade a todos deixou boquiabertos.

É o mesmo Daniel Oliveira que, agora, de há uma semana a esta parte, tem tido sérias dificuldades em esconder a sua satisfação por putativamente ter arranjando mais uns quantos argumentos de peso que provam, à saciedade, o desnorte dos norte-americanos no Iraque e a falência da intervenção. Temos assistido, no Barnabé, ao Daniel em todo o seu esplendor: cascando nos norte-americanos e amplificando o revés da coligação, em jeito de I told you so cassandriano, naquele que é já conhecido como o Oráculo de Oliveira.

Que o exército da coligação esteja a braços com um grupo radical xiita, cujos meios e estratégia são dos mais atrozes, canalhas e desleais, contrários ao bem estar da população; que a coligação esteja em fase decrescente para entregar o poder aos iraquianos e esteja a trabalhar, com estes, no sentido de fazer do Iraque um país minimamente organizado; que o pior que poderia acontecer ao Iraque seria a retirada das forças da coligação; e que, finalmente, o Iraque não virou, de um dia para o outro, um caos; nada disso excita ou comove o bom do Daniel. Não senhor. Ao Daniel importa, sobretudo, confirmar a «mentira» e o mau resultado da «mentira». Daí o regozijo latente, o gozo interior, as boquinhas supostamente incisivas e fulminantes, agora que os «gajos se estão a tramar». É que, para o Daniel, nada disto teria acontecido não fosse a teimosia e a «mentira» americanas. Para o Daniel, a culpa do que se está a passar não é dos radicais xiitas, tal como a culpa dos atentados de Madrid ou do 11 de Setembro não foi da Al Qaeda. A responsabilidade é, como sempre, dos EUA. São eles a causa de todos os males. Daí que nunca veremos o Daniel a torcer para que a coligação neutralize ou aniquile os radicais, mesmo que isso signifique um salto positivo para a estabilização do Iraque. Porque, de todas as soluções de «estabilização», o Daniel preferirá sempre, de longe, a retirada dos «mentirosos». De rabinho entre as pernas.

É caso para perguntar: quem é que falou em má-fé?

O “R” DA DISCÓRDIA
Sobre a polémica (vivemos no pais das «polémicas») do “r”, pouco há a acrescentar ao que Vasco Pulido Valente escreveu (crónica que mais à frente reproduzo). Mas não resisto a comentá-la.

Em primeiro lugar, há que dizê-lo: o cartaz não é inocente. E, hey, ainda bem! É, se quiserem, uma «provocação» (saudável, em meu entender). Mas daí até constituir uma tentativa de «revisionismo histórico», uma «ofensa à memória de Abril» ou coisa que o valha, vai uma grande distância, como já por aí vi insinuado ou escrito. Nesse sentido, não deixa de ser espantosa a forma absolutamente patética como gente supostamente aberta, plural, progressista e vanguardista (porque «nova» e não só) encheu a boca de indignação e a cabeça de macaquinhos só porque, vejam bem, alguém se lembrou de produzir um cartaz sobre o 25 de Abril onde a palavra “revolução” deu lugar à palavra “evolução”. Na ânsia de manter presentes a chama e a memória da “revolução” – que eles acham ter dado inicio ao fim de todo o arcaísmo e reaccionarismo – nem sequer enxergam que a sua postura e reacção é, ela própria, uma fonte inesgotável de reaccionarismo. Tão patética, e perigosa, é a nostalgia do 24 de Abril como é o saudosismo bacoco, ressabiado e impregnado de toda a tralha «revolucionária» dos que, agora, ainda juram que "Abril está por cumprir!"

O cartaz é feliz, para além de esteticamente aprazível. E é feliz porque, não desvalorizando ou esquecendo “Abril”, transmite uma ideia de continuidade na prossecução de algo que se iniciou há trinta anos – ou seja, da ideia da liberdade, do pluralismo, da democracia, de um Estado de Direito e por aí fora. Daí a inclusão da referência “30 anos” em conjunto com a frase “Abril é evolução”. Porque é disso mesmo que se trata: de evoluirmos e caminharmos. Ao fim ao cabo, de celebramos o 26 de Abril e de não nos determos somente no 25 de Abril. Porque a «revolução» não foi um fim, mas um meio.

De uma vez por todas, é bom que a esquerda mais empedernida e a esquerda chic que receia perder as suas referências e é assolada por pesadelos nos quais é confundida com os «outros», perceba uma coisa banal: há 30 anos, Abril foi “r” de “revolução”. Hoje, como há já muito anos, já não o é. Ponto final.

Não peço para esquecer. Peço apenas uma coisa: viremos a página e olhemos em frente. Os "amanhãs que cantam" são hoje. E agora, a crónica do VPV.

O 'r'
por Vasco Pulido Valente
“Parece que este ano o «25 de Abril» passou oficialmente de «revolução» a «evolução». A Esquerda, como lhe compete, ficou indignada. O dr. Ferro já lamentou com amargura o sumiço do «R». E Miguel Portas também veio protestar, em nome do «Bloco», da «inteligência» e da «memória». O que ele diz merece um comentário, porque representa muito bem o espírito do tempo. A grande «festa» de '74 e '75, como lhe chamavam, ainda o comove. Foi a «história» da vida dele, foram dias de «paixão». O momento incomparável em que, militante do PC, arranjou maneira de pregar a Portugal (ao Portugal «reaccionário») um «susto de morte». Hoje, coitado, não assusta ninguém. Nessa altura, ia «superar um sistema social, o do capitalismo», e aprendeu a mudar o mundo «nas praças, nas ruas, nas salas», por toda a parte onde as «pessoas decidiam», «mil vezes mal», mas com o sobre-humano prazer da sua humanidade. E querem agora «domesticar» e «amansar» essa epifania? Não, Miguel Portas não consentirá. Até porque este místico ignorou a realidade do PREC e não se interessa pelo «resultado» final do exercício. Os mortais, que não comungavam com as «massas», não podem desgraçadamente ver as coisas com o mesmo deleite. O trabalho deles teve de ser o de salvar, a pouco a pouco, alguma coisa de um país desfeito. Primeiro, a democracia a que «revolução» trouxe uma torpe tutela militar, que só acabou, e a muito custo, em '82. E, segundo, a economia: uma economia deformada e sufocada pelo sector público, que nos condenava ao subdesenvolvimento e à miséria. Para Miguel Portas, nada disto evidentemente conta. E como contaria ao pé do seu próprio, intransmissível êxtase? Não «acorda» ele sempre com a «esperança» que o Céu revolucionário lhe permita repetir a façanha?”

in Diário de Notícias


AINDA SARAMAGO
A propósito de duas missivas de dois leitores:

1. O meu post sobre Saramago (“O Retrato de um anti-democrata”) não tem que ver com o livro Ensaio Sobre a Lucidez. Não li o livro, nem o pretendo fazer. O estilo Saramago não é a minha cup of tea. E seria hipócrita da minha parte não o dizer com receio que entendessem esse «gosto» como uma manifestação de preconceito político. Repito: sobre o livro, nada tenho a dizer. Já sobre o aparato e o circo que rodearam o lançamento do livro, e as opiniões de Saramago sobre a sociedade portuguesa, o país e o mundo, julgo ter direito a dar a minha opinião;

2. O voto em branco e o abstencionismo não me fazem qualquer tipo de confusão. Eu próprio já votei em branco e tenho sido um abstencionista militante. Cada um é livre de votar onde quiser, ou simplesmente de não votar (e não votar é, também, “exercer a cidadania”). Não foi isto que esteve em causa. O que está e esteve em causa, é coisa bem diferente: por um lado, o exercício de instigação, por parte de Saramago, ao voto em branco - pretensão e tentativa que, em público, considero de uma arrogância a toda a prova. Por outro lado, o aproveitamento que Saramago faz do acto comercial de lançamento de um livro seu, aliando-lhe a questão do voto em branco para pôr em causa a democracia tout court, como se ela não funcionasse satisfatória e plenamente ou a ela se pudessem assacar todo o tipo de responsabilidades, inclusivamente aquelas que não são da sua lavra. Dado o seu passado e as suas opções políticas, Saramago não tem autoridade moral para falar sobre a democracia. Não só porque não a percebe como tem imensa dificuldade em aceitar que o povo, livremente, em consciência, pode votar em forças políticas que Saramago deplora. No fundo, o que ele queria era o regresso ao velho sonho: um grupo de iluminados, notáveis e sábios que decidisse o que seria bom para o povinho. Ou seja, o caminho para a subversão e radicalização do conceito de 'liberdade positiva' que Isaiah Berlin tão bem explicou.

Sexta-feira, Abril 09, 2004

DESCUBRA A CONTRADIÇÃO

“Pelo Socialismo! Pelo Comunismo!
Pela justiça social! Pelo emprego digno!”

(cartaz da Juventude Comunista Portuguesa)

LEITURAS
Sobre o problema dos refugiados do conflito israelo-árabe, surge agora, revista, a obra de Benny Morris The Birth Of The Palestinian Refugee Problem Revisited (Cambridge, 2004).
Até à data, foram vários os livros que se debruçaram sobre o conflito israelo-palestiniano, em geral, e sobre o problema dos refugiados, em particular. Mas o resultado dessas tentativas de percepção do problema raramente conseguiram descolar do posicionamento engajado, parcial, comprometido dos seus autores, com uma ou outra ‘causa’. Não quero com isto dizer que, na sua maioria, tenha havido má-fé, falta de rigor ou desonestidade intelectual por parte desses autores, até porque não conheço todos os livros. O que me é dado a perceber é que têm sido poucas as obras onde se tenha tentado fazer uma abordagem relativamente limpa de tendências ideológicas, politicas, e onde realmente se tenha tentado mostrar o necessário, embora difícil, distanciamento emocional. Não é, contudo, de estranhar. O conflito israelo-palestiniano é dos que, à distância, mais paixões e ódios tem desencadeado, os quais se vão juntando à amálgama de ódio, insanidade e profundo ressentimento que vai soterrando o dia-a-dia dos seus protagonistas. Eu próprio confesso aquilo que os leitores mais ou menos atentos deste blogue sabem: tenho sido, e muito dificilmente deixarei de ser, tendencialmente pró-Israel.

Dito isto, convém explicar uma coisa: o ser-se 'pró-qualquer-coisa' não invalida o reconhecimento de culpas de parte a parte. Não invalida que, aqui e acolá, não se reconheça que a contenda já evoluiu para um estágio em que falar de “bons” e “maus” não faz sentido. A minha posição de apoio à «causa» israelita (que não se baseia somente na memória do Holocausto) nunca me impediu de verificar que, ao longo dos anos, foram cometidos erros, excessos e crimes contra o outro lado da «barricada». E que nem sempre as coisas, para não dizer raramente, foram, e são, a preto e branco.

A obra de Benny Morris arruma-se, em minha opinião, na prateleira dos estudiosos que tentaram observar o conflito de forma fria, distanciada e imparcial. Sinal claro disso foi o facto de, aquando da sua primeira edição, ter sido apontado pela OLP como pura «propaganda sionista», ao mesmo tempo que, do lado dos israelitas, o autor era apontado como um «apoiante da OLP». A tese, para muitos ambígua, que Morris constrói ao longo das mais de seiscentas páginas dedicadas ao problema dos refugiados palestinianos, confirma aquilo que eu sempre pensei sobre o assunto: o problema dos refugiados não teve uma única causa, nem um único culpado.

Sobre a «culpa», lembro o que afirmava Edward Said em 2000, numa entrevista ao jornal Há’aretz: “A guerra de 1948 foi uma guerra de expropriação. O que aconteceu em 1948 não foi mais do que a destruição da sociedade palestiniana, a sua substituição por outra e a expulsão dos que eram indesejados. Ou seja, aqueles que estavam no caminho. É difícil para mim afirmar que a responsabilidades esteja toda apenas de um lado. Mas a grande fatia de responsabilidade pelo despovoamento e consequente destruição das cidades cabe em definitivo aos judeus-sionistas. Os palestinianos foram apenas culpados por estarem lá.” E lembro o que disse Noam Chomsky em 2002, numa palestra em Harvard: “Durante a guerra, entre 1947 e 1948 os israelitas iniciaram um trabalho de limpeza étnica. (…) Benny Morris demonstrou que a população árabe foi conduzida a sair pelos israelitas.” Como deverão calcular, o que é interessante na obra de Morris é o facto de ele ter recusado esta visão monolítica e comprometida do problema, com culpados de um lado, e vitimas do outro. Ao contrário do que o idiota do Chomsky afirma (e desculpem se ofendo alguém), Morris não demonstrou nada disso. O livro desmistifica, desde logo, a ideia de que os judeus, a partir de 1947, encetaram a expulsão sistemática e sumária dos palestinianos, criando automática e exclusivamente o problema dos refugiados. As coisas não se passaram assim, de forma tão simples.

Sabemos, em primeiro lugar, uma coisa: a abordagem agressiva e belicista dos árabes, face a Israel, ajudou à criação do problema dos refugiados via guerra. Quem quis a guerra foram os árabes, não Israel. Se há coisa que Morris demonstra (ele que é um historiador da velha guarda, que acredita mais no poder dos documentos do que no poder das palavras de quem, cinquenta e tal anos depois, aceita testemunhar) é esta: o êxodo palestiniano não se deveu a uma estratégia ou a um masterplan sionista. As causas variaram no espaço e no tempo, ligadas a uma multiplicidade de factores sociais, económicos e militares. Na maior parte dos casos, não houve coerção nem foram emanadas ordens directas nesse sentido, por parte dos responsáveis israelitas. Parte do êxodo é explicado pelo natural receio da guerra, que levou a população civil a afastar-se da linha de combate. E há que reconhecer, de uma vez por todas, que a falta de consistência e de coesão «nacionais» por parte dos lideres árabes (para já não falar no posterior e ainda hoje presente desprezo, deste lideres, em relação aos refugiados), aliada a uma total falta de entreajuda e de solidariedade para com as populações civis que decidiram deslocar-se para as zonas sob controlo árabe, pesaram muito no problema dos refugiados.

Por outro lado, o livro de Morris não poupa o comportamento israelita, com as insinuações e as supostas provas de que, nalguns casos, houve uma política pró-“transferência” (se necessária compulsiva) da população palestiniana e que, por arrastamento, foram cometidos excessos por parte dos militares e das suas cadeias de comando. Mas Morris é perfeito em acentuar o tal carácter «ambíguo» da sua obra, afirmando, também, que os árabes foram useiros e vezeiros em cometer brutalidades gratuitas, como as relatadas durante a conquista de Kfar Etzion por parte dos árabes, em que 120 judeus civis foram massacrados após se terem entregue pacificamente. Quanto à estratégia árabe, escreve Morris: “In some areas Arab commanders ordered the villagers [palestinians] to evacuate to clear the ground for military purposes or to prevent surrender. More than half a dozen villages were abandoned during these months as a result of such orders. Elsewhere, in East Jerusalem and in many villages around the country, the [Arab] commanders order women, old people, and children to be sent away to be out of harm’s way. Indeed, psychological preparation for the removal of dependents from the battlefield had begun in 1946-1947, when the AHC and the Arab League had periodically endorsed such a move when contemplating the future war in Palestine.”

Chamem-lhe «ambiguo» ou pró-qualquer-coisa. Na minha opinião, o livro de Morris é muito interessante e representa uma importante contribuição para a compreensão do problema dos refugiados.


QUANDO O ÓBVIO DE TÃO ÓBVIO DEIXOU DE O SER
"Muitas vezes esbarramos, tropeçamos no óbvio. Pedimos desculpa e passamos adiante, sem desconfiar de que o óbvio é o óbvio. Só o profeta, com a sua espantosa vidência, olha o óbvio e diz: - "Ali está o óbvio".*

O meu amigo Luis entendeu glosar um texto de John Kekes, não sem antes me pedir para “não levar a mal”. Caro Luis: por que carga de água é que haveria de levar a mal?!? Ainda assim, permites-me que diga duas ou três coisinhas, todas elas óbvias, todas elas banais.

A primeira, é esta: chegámos a um estado civilizacional em que o que era suposto ser óbvio, pacífico e adquirido já não o é. Quando Kekes escreve “professors [should] concentrate on their professional obligation of teaching and research; [should] have and are recognized to have substantially more knowledge and experience in some subject-matter than their students”, parece-me a mim, dado o comportamento, a qualidade e o output do nosso ensino, uma afirmação que, de tão importante e essencial (e, se calhar, por isso mesmo), só tem de ser martelada vezes e vezes sem conta.

Para ti, a afirmação “professors [should] concentrate on their professional obligation of teaching and research; [should] have and are recognized to have substantially more knowledge and experience in some subject-matter than their students”, é óbvia, banal ou, até, prosaica, logo passível de provocar «constrangimentos» ou causar «enfados». Tudo bem. Mas eu pergunto: tu, que conheces minimamente os meandros da nossa «academia», acharás totalmente desnecessário, descartável ou impertinente, de tão óbvio, afirmar, ou lembrar, que os professores se devem concentrar nas suas obrigações profissionais, de ensino e de investigação, e que eles próprios devem ter um conhecimento e uma experiência substancialmente superiores aos seus alunos? Lembrar o óbvio pode ser utilíssimo...

Depois, o que é óbvio para ti, poderá não ser óbvio para outros, em igual ou diferente contexto. Dito de outra forma, o que para ti é teoricamente óbvio, poderá não o ser na prática, o que, só por isso, poderá justificar uma espécie de reset e back to basics, que ajude o (re)enfoque sobre o que é essencial e muitas vezes se encontra soterrado pelo acessório e pelo transitório. De resto, sobre o “óbvio ululante”, Nelson Rodrigues* explicou tudo. Autor que, suponho, conheces.

Finalmente, quando afirmei que “John Kekes é um dos mais lúcidos e importantes filósofos da actualidade”, a afirmação não teve por base apenas um excerto ou um pequeno texto publicado num jornal, nem sequer pretendi arrolar provas da putativa «importância» e «lucidez» do filósofo através desse texto. Até porque, hoje em dia, por razões conhecidas, a palavra “lucidez” seguiu já o caminho da subversão e da banalização.

Quarta-feira, Abril 07, 2004

NÃO SEI, NÃO SEI...
A Ana, atenciosamente, informa-nos (a mim e ao camarada Bruno) que a ninfeta "will be the face of a new Calvin Klein fragrance that will hit the market in the fall. Shooting on the print and television ads will begin next month."

Nham, nham...

INSISTO
Sobre o terrorismo, o Fernando insiste em defender a tese do «albergue espanhol». Só assim se explica a referência, agora, às milícias xiitas. Pede, ainda, compreensão para, preventivamente, minorar o terrorismo. E, en passant, aproveita para referir que o fenómeno do terrorismo não passa de um epifenómeno, com epicentro na forma como os «invasores» (para não lhe chamar «bárbaros») invadem (passe o pleonasmo) a seara alheia, defendendo, valho-nos Deus!, «interesses» puramente económicos. A tese é velha, mas eu relembro-a: há décadas (séculos?) que o Ocidente colocou a nação islâmica a pão e água, sugando-lhe, ao mesmo tempo, os seus mais preciosos recursos (nomeadamente o pitróleo). A par disto, o Ocidente, e mais concretamente a nação Imperial, tem vindo a infligir duros golpes na auto-estima dos árabes e dos muçulmanos espalhados pelo mundo, razão mais do que suficiente para explicar o fundamentalismo islâmico. Em traços gerais, presumo, se calhar de forma “tonta”, ser esta tese do Fernando.

Tudo bem. Se o Fernando acha que todo o terrorismo tem a mesma matriz e o mesmo core business, isso é lá com ele. Se ele acha que o Sr. Laden guarda no cofre, algures num deserto, “a” procuração que o colocou como defensor oficioso («defensor», claro, e não agressor) do Islão ofendido, invadido e explorado pela nação imperial, repito: faça-lhe bom proveito.

Eu, pela parte que me toca, não pretendo acalentar mais uma infinita discussão, até porque já escrevi dezenas de vezes sobre o assunto e já tentei explicar e «compreender» o terrorismo do Sr. Laden. À minha maneira, claro, a qual, admito, possa ficar ainda muito aquém das banalidades a que remetem as «compreensões» e as «justificações» levadas a cabo por iluminados plumitivos e pelas eminências pardas de serviço (e não, não estou a equivaler «justificação» com «conivência»). Recorro, apenas, para não pensarem que fujo com o traseiro à seringa e para evitar teores mais elevados de jactância numa posta já por si enlevada desse espírito, recorro, dizia, ao que escrevi neste blogue há uns meses atrás. Bin Laden pode ser a face de tudo, mas não é, certamente, a face da revolta dos milhões de muçulmanos que vivem, ainda hoje, num obscurantismo que lembra o pior da Idade Média. É sabido que, no seio das populações, quando estão reunidas as condições para se exprimirem livremente e sem receios, existe mais simpatia pelo Ocidente e pelo grande Satã do que alguma vez os críticos dos EUA poderão imaginar (cf. a mais recente sondagem realizada pela BBC/Oxford em terras iraquianas). É altura de perceber que o Ocidente (latu sensu) não anda em cruzada por terras muçulmanas. Não anda a humilhar ninguém. O Ocidente não tem nenhuma contenda com o Islão. É a Ocidente que existe tolerância, multi-culturalismo e liberdade de culto. Convinha explicar que os maiores culpados pelo infortúnio dos povos do médio oriente continuarão a actuar num limbo de impunidade sempre que a intelligentsia ocidental fizer questão de revisitar uma má consciência exacerbada, aliada a uma luta ideológica (onde se inclui o anti-americanismo). Os maiores culpados (não os únicos, mas os maiores) são os dirigentes e orquestradores político-religiosos. São os mullahs e os ayatollas; são aos dirigentes políticos do médio-oriente mentalmente mais empedernidos e tirânicos. Lembro apenas este facto: os 22 Estados da Liga Árabe são os mais oligárquicos do mundo. São estes responsáveis (políticos, religiosos e respectivos conselheiros) que adoram incendiar as populações contra terceiros; são estes que estimulam o ódio e o levam até às últimas consequências; são estes que sugam a riqueza do seu país para sustentar a sua pesada oligarquia; são estes que anestesiam a consciência crítica do seu povo face às suas responsabilidades e às suas políticas, através da criação de papões ocidentais e de um clima onde as liberdades de expressão, de imprensa, religiosa e política não têm lugar. Até porque, se bem me lembro, o 11 de Setembro aconteceu antes do Afeganistão e do Iraque...

Terça-feira, Abril 06, 2004

CONFESSO
No Elogio da Loucura, escreve, a certa altura, Erasmo: “Fui para vós, uma Primavera. Tal como após o Inverno áspero surge o formoso sol que devolve à terra o rosto dourado, e reverdece toda a natura com outra mocidade, assim se transformou, logo que me vou, o vosso vulto triste. Com a minha aparição logo obtive o que os bons oradores não conseguem pelos longos discursos meditativos; expulsar das almas o tédio vil.” Comigo passa-se precisamente o contrário. Sou aquilo a que se pode chamar de ‘anti-Erasmo’.

Segunda-feira, Abril 05, 2004

ENTRETANTO…
FBR, no Jardim À Beira Mar Plantado (um blogue em que, através de Goethe, se evoca a luta "contra a ignorância"), acusou a minha prosa de “tonta”, não sem antes lançar-me o epíteto de “iluminado” (fina, a ironia).

Não colocando em causa a douta opinião do Dr. Soares e do Dr. Vasconcelos, e muito menos a iluminada (sem ironia) prosa do blogue de FBR – agradeço, desde já, o link ao Contra – faço apenas dois pequenos reparos, seguidos de uma pergunta e de um humilde conselho:

1) O mundo árabe (generalização) é uma coisa, a Al Qaeda (particularidade) é outra;
2) A minha crítica não foi dirigida ao “diálogo com o mundo árabe” (isso seria um disparate), mas sim ao “diálogo com a Al Qaeda” (que eu continuo a achar impossível e improvável);

A pergunta: quem é que está "a tomar a parte pelo todo e a brincar com o fogo"?

Agora, o conselho: leiam o que está escrito e não o que vocês pensam que está escrito.

Obrigado. E cumprimentos.
PUB II
Encontro na FNAC esta absoluta obra-prima. Compro-a sem ler mais nada. Já em casa descubro uma versão impecavelmente restaurada do filme, uma entrevista de Lang ao Peter Bogdanovich e um documentário sobre o realizador alemão. E questiono-me: alguém consegue viver sem DVD’s?


PUB I
Quando é que o Banco Espírito Santo se deixa de rodeios (com a história do “já falaste com o teu pai?”) e avança com o slogan definitivo, que toda a gente espera ouvir: “um empréstimo feito pelo filho, em nome do pai, no Espírito Santo”?
JOHN KEKES
Sigam este link e descubram um dos mais lúcidos e importantes filósofos da actualidade, desta vez denunciando a promiscuidade entre o ensino e a prossecução de um ideal político-ideológico, subordinando aquele a este.

Eis um excerto:

“The professional obligation of professors is to teach their subjects and expand their fund of truths to the best of their knowledge. That is their job and their justification for receiving the benefits they enjoy. But many of them – especially in the social sciences and the humanities – have come to subordinate teaching and research to a political ideal. Their supposed justification is that the ideal is now more important than teaching and research, and this entitles them to violate their professional obligation if it conflicts with their political ideal. The ideal in question happens to be that of the liberal left. It calls for an egalitarian society without hierarchies and authorities that perpetuate significant differences in wealth, status, power, and life prospects. My concern, however, is not with the nature of the ideal, but with the serious consequences of subordinating teaching and research to any political ideal. Higher education is now deeply compromised because the chief preoccupation of many professors is with making universities and colleges, and through them society as a whole, conform more and more closely to their political ideal. This damages higher education regardless of the nature of the political ideal to which the pursuit of the truth is subordinated.
The professors who become self-appointed political activists know that their society funds higher education in the expectation that they will teach the truth and expand its scope. In order to assure that the money supporting their activities will continue to flow, they present a false picture of what they are doing. But they manipulate the truth in good conscience because they feel justified by the ideal they in fact pursue and have no compunction about falsification when it serves their political purpose. I shall argue in what follows that this is an accurate description of the prevailing state of affairs and a major cause of the deplorable state of North American higher education.
There are, of course, great differences among professors in how much of their activities is or should be devoted to teaching and how much to research. It is clear, however, that the primary obligation of professors includes both, although there is legitimate variation in the appropriate ratio between them. But the fact remains that professors fail in their obligation if they do not teach what research indicates there is most reason to believe to be true. Professors also have the secondary obligation to take part in the administration of their institution. This involves allocating resources, designing curriculum, hiring, tenuring, promoting, and terminating faculty members, setting academic standards, as well as coordinating, planning, scheduling, and resolving conflicts; tasks that must be done in any complex organization. Although administration is important, it remains a secondary obligation because it is only a means – albeit necessary – to teaching and research.”


PS: e, já agora, avancem para este outro, sobre “A Absurdidade do Igualitarismo”.

Sexta-feira, Abril 02, 2004

PARABÉNS
à bébé!!


O RETRATO DE UM ANTI-DEMOCRATA
O Sr. José Saramago, político de renome internacional (ganhou, se bem se lembram, um Nobel), fez questão de se notar na lista de candidatos do Partido Comunista Português às eleições europeias, ao mesmo tempo que lançava o seu mais recente opúsculo. Decidiu, entretanto (pura coincidência), aconselhar a ralé a «votar em branco» porque a democracia está falida. O Sr. Saramago entende-se, portanto, desencantado com a democracia e sustenta que há que descartar ou «reformar» o actual «sistema».

Há, desde logo, algo de hilariante no gesto: o candidato de um partido apela não ao voto no partido que representa, mas antes ao voto em branco. Em segundo lugar, o Sr. Saramago pretende corroer o sistema democrático utilizando, para o efeito, a liberdade de expressão e de voto que esse mesmo sistema lhe proporciona – facto que revela a sua imensa gratidão e lealdade para com o ideário democrático. Finalmente, o cidadão Saramago não apela ao voto em branco porque os candidatos são fracos, porque os programas partidários são paupérrimos, porque a construção europeia está a ser mal conduzida ou porque lhe dói a unha do pé. Não senhor. O Sr. Saramago pretende ir logo ao âmago da questão, ao pai de todos os alvos: a própria democracia. A origem de todos os males.

Quem não o sabia pode agora perceber: o Sr. Saramago nunca foi um democrata. Sob a capa da sofisticação intelectual e da altivez, foi sempre um anti-democrata convicto. O Sr. Saramago continua a viver angustiado com um mundo que o não compreende. Com um mundo de gente estúpida que não entende a sua mensagem e a sua ideologia. Com um sistema que teima em não colocar nos píncaros ou no púlpito do poder o seu partido e o seu modelo de sociedade. O Sr. Saramago detesta o mundo em que vive e, por arrastamento, a essência da democracia – aquela que, incompreensivelmente para o Sr. Saramago, lhe pregou a mais terrível das partidas: conseguir provar que o seu modelo estava errado e que a sua ideologia jamais vingará em sociedades livres e democráticas.

Desenganem-se, por isso, aqueles que olham para Saramago e vêem nele um homem moderado, sensato, democrata e intelectualmente honesto. Este Saramago é o mesmo Saramago das purgas e dos saneamentos nos idos 70. É o Saramago amigo de déspotas e conivente com as ditaduras do seu clube ideológico. É o Saramago que misturou Portugal e os portugueses com as briguinhas e os ódios de estimação que manteve, e mantém, com os governantes. É o Saramago que durante décadas - antes da democracia, da liberdade de expressão e da livre circulação de informação permitirem escancarar a céu aberto a sua verdadeira natureza – pintou em tons de rosa aquilo que era lúgubre, sombrio e atroz: o comunismo.


UM CHÁ COM O SR. LADEN À LAPA
Anda meio mundo (à esquerda) a tentar suavizar ou a «contextualizar» as afirmações proferidas por sua eminência Soares, relativamente ao suposto diálogo com a Al-Qaeda do Sr. Laden. O próprio Mário Soares tentou explicar a barbaridade e a idiotice que Mário Soares havia proferido uns dias antes sobre o assunto. Pelos vistos, explicou Mário Soares, a coisa não foi bem interpretada. O que ele quis dizer foi uma coisa tremendamente diferente: há que tentar «compreender», «avaliar» e «dissecar» as pretensões do Sr. Laden, para ver o que elas poderão dar.

Para já, este episódio ficará para história pelo seguinte: o Mário Soares que considera Bush um perigo mundial e um ser humano ignaro para além de qualquer compreensão e diálogo; o Mário Soares que acha que a América é governada por um governo de extrema-direita; é o mesmo Mário Soares que coloca em hipótese vir a compreender as pretensões do Sr. Laden. Não é bem dialogar, mas andará lá perto (como também defendeu Villaverde Cabral). “Ok, vamos lá perceber o que eles querem para que eles não matem mais ninguém”.

Ao Dr. Soares ainda não lhe terá ocorrido este simples e brutal facto: ainda que fosse moralmente possível dialogar com gente que mata em nome de uma ideologia, de um pedaço de terra ou de um credo religioso (não é!), a Al-Qaeda do Sr. Laden não tem um objectivo claro, um propósito específico e limitado para as suas acções. Não tem, pura e simplesmente, uma «moeda de troca». O Sr. Laden e a sua Al-Qaeda serão sempre incapazes de justificar a matança e a barbárie, não só porque ela jamais se poderá justificar como, também, porque não há nada de concreto (leia-se “negociável”) a reivindicar. O discurso da Al-Qaeda é um discurso fundamentalista, errante, difuso, animado pela ideia de um grande Islão contra um Ocidente «infiel» e contra Israel. Alguém conhece, de facto, alguma reivindicação concreta, tangível e material da Al-Qaeda? Não é possível dialogar com o Sr. Laden. Deixemo-nos de tretas e de paninhos quentes.

Quinta-feira, Abril 01, 2004

ATÉ SEMPRE?
"Até sempre!". "Até sempre" uma ova!! Atreve-te Charlie, atreve-te...
MANTEIGA & COMPOTA DE MORANGO
Ontem, um bom amigo (que eu muito estimo) colocou-me a par dos benefícios da conjugação da manteiga com a compota de morango (ou outra qualquer) sobre fatias de pão torrado. Como homem da província (pré-renascentista e meio labrego) registei e assimilei. E dou graças a Deus por ter amigos assim.
1 DE ABRIL DE 1933
A Alemanha oficializava a perseguição aos judeus.

Segunda-feira, Março 29, 2004

APONTAI, LEITORES


E AO PRIMEIRO DIA DA SEMANA (ONTEM)…
ressuscitou. Aleluia!

Sábado, Março 27, 2004

NÓS ESPERAMOS
Por enquanto, temos assistido apenas a acertos no template. Este último está melhor, embora a primeira versão fosse a melhor de todas (aquela que praticamente passou despercebida). Mas a malta espera. Porque esperar é uma virtude. Olaré.
in HOMEM A DIAS
"Eu tenho um Saramago no quintal. Chama-se Ernesto, é um cágado de trinta centímetros e é tão parecido com o escritor que todas as manhãs me assusto ao vê-lo. Para Nobel, ao Ernesto só faltam os óculos, uma carreira literária derivativa e a capacidade de proferir maluquices sempre que lhe apontam um microfone (eu sei, porque já lhe apontei vários e a resposta é sempre um sábio silêncio).
Gosto muito do Ernesto, o que não significa que não goste do próprio Saramago. Gosto sim. Acho giro que uma relíquia estalinista mantenha, em 2004, as capacidades da locomoção e da fala: o Homem de Lindow, por exemplo, é mais velho, mas não sai do Museu Britânico e é sujeito com quem se torna puxado manter uma conversa decente.
Claro que Saramago também não diz coisa com coisa, mas, ocasionalmente, faz-nos pensar, pensar de facto. Quando ele diz "a democracia ocidental está ferida de morte.", nós pensamos "o homem é parvo". Quando ele pede "uma revolução das consciências", nós pensamos "o homem é doido." Quando ele garante que vivemos numa "plutocracia", que como todos sabem é um regime dominado pelo cão do Mickey, eu penso que é altura de oferecer um computador ao Ernesto e esperar pela respectiva obra. Não que o Ernesto não tenha já obrado - a Caminho é que ainda não publicou."
(ainda não parei de rir)

Sexta-feira, Março 26, 2004

OS DEZ MANDAMENTOS...
para o feitiço de Scarlett Johansson.

Quinta-feira, Março 25, 2004

NA MINHA SCARLETT NINGUÉM TOCA
Reparo que a mãe de todas as questões continua a ser discutida: deverá a doce Scarlett despir a roupinha no próximo filme? Agora foi a vez da bombinha Charlie tocar no assunto, como só ela o sabe fazer. Junta-se assim à plêiade dos machos - constituída pelo Cruzes Canhoto, Terras do Nunca, Desesperada Esperança, Cibertúlia, Golpes de Vista e moi même – que, babados, discutem a possibilidade de ver a ninfeta como Deus a mandou ao mundo.

Escreve o Cruzes: “Mesmo a teoria do "quanto mais coberta mais misteriosa" não me convence. Afinal, isso torna as varinas da Nazaré com sete saias e meias de lã verdadeiras ejaculações ambulantes. E não consigo imaginar o JMF e o MacGuffin cheios de ardores perante catequistas de meia-idade com saias rodadas até aos tornozelos e pullovers XL.” Ora, Cruzes, entre a nudez e as “sete saias e meias de lã” vai uma distância sensivelmente igual à diferença entre a qualidade literária do Manuel Arouca e a do Philip Roth. E estou-me nas tintas para o facto da Scarlett Johansson ser uma actriz em que a sua função “é emprestar o corpo a personagens”, blá, blá, blá. Que se lixe essa objectividade. Na mais despida das épocas (olha aí, o Nelson outra vez…), i. e., na era das Britney Spears, das Cristinas Aguileras e de outras sirigaitas de mamócas ao leu e em pose recorrente de cio, já seria uma bênção se poupassem algumas das mais lindas mulheres do mundo (e Scarlett é-o, sem dúvida) ao sacrilégio que por aí as banaliza. Há lá coisa mais sensual do que as cenas da Scarlett ao piano no Barbeiro, sem que se chegue a ver pouco mais de 6.400 cm2 de pele (o equivalente a dois bracitos)?

Esta troca de ideias, fez-me lembrar o Disponível Para Amar, esse sublime filme de Wong Kar-Wai. Suponho que todos (à excepção do meu amigo maradona) o tenham visto. E suponho que todos sejam unânimes em afirmar que Disponível Para Amar é um filme tremendamente sensual, onde se assiste a uma dança constante de poses e silhuetas, em que a sugestão bate aos pontos a exposição. Toda a sensualidade que escorre, contida mas generosa, em cada cena é servida sem que, uma única vez, se vislumbre um corpo nu. Brindo a isso.

Acresce, ainda, um ponto: a minha Scarlett Johansson é, acima de tudo, a imagem que construí da Scarlett Johansson. Pouco me importa a Scarlett real e inatingível, i. e., a Scarlett provavelmente com alguma celulite, de anca larga e barriguinha excessivamente proeminente (sim porque, estou com Maria de Medeiros em Pulp Fiction: existe um nível de protuberância que é bem-vindo e desejável no que à tummy diz respeito) e com a boca a saber a papeis de música pela manhã. Provavelmente o encanto estilhaçar-se-ia. Ou não. Não sei, nem quero saber. E não, não tenho medo de mulheres nuas.


Quarta-feira, Março 24, 2004

CONCURSO: A MINHA É A MAIOR QUE A TUA
Igualmente, JMF. Quando passar pelo enterior desquecido e ostracizado, disponha de uma prateleira recheada de "obsessões". E aposto que a minha (prateleira) é maior que a sua.
BESTIAIS
(só para apreciadores de rap)
No MacGuffin’s Car CD Station ouve-se, esta semana, Ill Communication (Capitol Records, 1994), o mais perfeito álbum dos Beastie Boys (o único que consigo revisitar sempre com prazer). Afirmação, aliás, que não aceita nem admite a mais leve contestação. Um caleidoscópio onde o rap, o punk, o break (neck) beat e, sobretudo, o funk se entrecruzam com uma quantidade impressionante de samples e keyboards de chorar por mais. Uma espécie de joint-venture produtora de vagas de epilepsia. Oiça-se a sequência Get it Together (com Q-Tip), Sabrosa, The Update, Futterman’s Rule e Allright Hear This. Cool as…


NOTÍCIAS DE UM DÉSPOTA, NO PÚBLICO
Sobre as movimentações do Sr. Eduardo dos Santos, infelizmente nada de novo:

“Um relatório da Global Witness, que hoje é divulgado por esta organização não governamental com sede em Londres, apresenta novas provas sobre os esquemas ilícitos, que em Angola permitiram que a compra de armas, a negociação da redução da dívida à Rússia e o recurso a empréstimos com garantia de petróleo resultassem em avultadas transferências para contas bancárias privadas.
Segundo o documento, os beneficiários são altos dirigentes angolanos e russos, para além de pessoas que, a título individual, ou em nome de empresas, como a petrolífera francesa Elf Aquitaine (depois da aquisição pela TotalFina, transformada em Total), tornaram possíveis essas lucrativas operações.
A Global Witness aponta directamente figuras próximas de José Eduardo dos Santos - Elísio de Figueiredo, ex-embaixador em Paris, ou José Leitão, ex-chefe da Casa Civil - e o próprio Presidente da República de Angola, como tendo recebido dezenas de milhões de dólares em contas na Suíça, no Luxemburgo, algumas depois transferidas para instituições "off-shore" nas ilhas Caimão, um paraíso fiscal nas Caraíbas. O empresário de origem russa, Arkadi Gaidamak, e o homem de negócios francês Pierre Falcone, beneficiaram de elevadas somas de comissões.
"Este documento realça e confirma a quantidade de dinheiro que esteve envolvido, numa altura em que se sabe que ele [Falcone] não terá que responder judicialmente por isso", explicou ao PÚBLICO, Sarah Wykes, da Global Witness.
Pierre Falcone e Arkadi Gaidamak são ambos alvos de um mandado de captura internacional. O primeiro goza de uma imunidade diplomática desde que Luanda o nomeou representante de Angola na UNESCO em Paris, no ano passado. Arkadi Gaidamak recusou-se a comparecer perante o juiz Courroye que conduz a investigação do Angolagate em França.
Depois dos relatórios, "A Crude Awakening" (em 1999), e "All the President's Men" (em 2002), este novo documento "Time for Transparency" debruça-se sobre vários países. Além de Angola, o Congo-Brazzaville, a Guiné Equatorial, o Cazaquistão, e Nauru (no Pacífico Sul) têm em comum o facto das contas do petróleo encobrirem operações financeiras ilícitas, que ascendem a milhares de milhões de dólares.
Sobre o exemplo angolano, porém, a Global Witness realça: "Não há exemplo mais severo dos efeitos devastadores do desvio de receitas e da corrupção estatal do que o de Angola, onde uma em cada quatro crianças não viverá até aos cinco anos".
O objectivo do relatório não é desencadear uma investigação judicial, mas sim "motivar mudanças nas políticas governamentais, tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento", esclarece Sarah Wykes. "Mas obviamente se as autoridades [que têm essa competência] considerarem que há matéria criminal, então compete-lhes a elas investigar".
Este documento surge numa altura em que o Governo de Angola tenta uma aproximação ao Fundo Monetário Internacional (FMI), e se esforça por apresentar, a nível internacional, uma nova imagem de credibilidade e transparência.
E é publicado depois de em Janeiro último, o relatório de outra ONG internacional, a Human Rights Watch (HRW), ter comprovado o desaparecimento de quatro mil milhões dólares, das contas do Estado angolano, entre 1997 e 2002. Também com base em dados do FMI, a Global Witness vai mais longe e conclui que o desaparecimento de fundos eleva-se, em média, a 1,7 mil milhões de dólares por ano entre 1997 e 2001. O valor superior deve-se ao facto da organização somar às discrepâncias verificadas nas contas as despesas extra-orçamentais.
O receio da organização é que as mesmas estruturas instaladas para pilhar os recursos do Estado, durante a guerra, continuem em prática, não havendo por isso garantias de transparência no processo de reconstrução, considera o relatório, que realça ainda o facto de não haver ainda data para as eleições.
Além disso, tendo em conta os esquemas conhecidos em torno da negociação para a redução da dívida à Rússia, a organização considera preocupante a falta de informação sobre a negociação mais recente da reestruturação da dívida de Angola a Portugal, embora sem apresentar dados objectivos.
Algumas das somas transaccionadas no âmbito da negociação da dívida à Rússia, estão depositadas em bancos "off-shore" nas ilhas Caimão, onde continuaram a entrar somas relativas a recentes empréstimos, contraídos por Luanda depois do fim da guerra, segundo o relatório.
Esses empréstimos - com garantias de petróleo - são prejudiciais para o interesse nacional, por favorecerem práticas ilícitas mas também pelos elevados juros praticados em troca da disponibilização imediata do dinheiro. Essa era uma prática corrente durante o conflito e servia para a compra de armamento. Mas mesmo com a paz instalada, a Global Witness receia que os "mecanismos de desfalque enraizados durante a guerra sejam simplesmente redireccionados para lucrar com a reconstrução do país".
Ao contrário do que é recomendado pelo FMI, "o Futungo [de Belas] continua a contrair empréstimos garantidos com petróleo, e o rendimento petrolífero do país permanece totalmente não transparente".
Em 2003, o Governo angolano contraiu um novo empréstimo, de bancos estrangeiros (como a BNP Paribas ou a Société Générale) garantido por petróleo, através das ilhas de Caimão e que, dessa vez gerou mais de mil milhões de dólares. "Foi até agora o maior empréstimo de Angola", lê-se no relatório que realça ainda a possibilidade de estar a ser utilizada uma estrutura pouco transparente numa companhia "off-shore".
E conclui: "Dados os enormes valores que já desapareceram das contas do Governo, o uso de uma estrutura não transparente e tão complexa para gerir um empréstimo desta dimensão é claramente razão para grande inquietação".
PRONTO: NASCEU
O que pode resultar de um blogue que reúne o Pedro Mexia, o Pedro Lomba e o Francisco José Viegas? Arrisco uma resposta: excelência. Confirmem aqui.
APÓS MOTIM SEGUIDO DE SUÍCIDIO
Recebo, do meu amigo maradona (o link não está a funcionar), a seguinte missiva:

“Peço desculpa pela intromissão. O meu blogue suicidou-se e estava em pulgas por ofender o senhor Carlos Queiroz. Sei que abuso da boa vontade, mas, porra, quem é que aguenta?”

Não abusas nada. E sim, quem é que aguenta? Aqui vai o texto. Na íntegra.
(nota: o homem está mesmo zangado, pelo que desculpem alguns excessos de linguagem…)

O Carlos Queiroz é um Boi
por maradona
“As pessoas não gostam de desporto. Uma absurda maioria de dirigentes desportivos, de desportistas, de técnicos, de jornalistas desportivos, da corja fedenta a que chamamos habitualmente ‘adeptos do desporto’, não sabe viver fora do mundo mesquinho e aviltante da vitória e da derrota, do perder e do ganhar.

Porque não percebem nem retiram do espectáculo desportivo nada mais que a mesma miserável contabilidade invejosa com que estão habituados a bolinar pela própria vida – o carro do vizinho, o gabinete do colega, a tiragem do livro do rival, o Porto, o blogue daquele gajo com as sobrancelhas coladas -, limitam-se a absorver, a julgar, a pensar e a comentar apenas - e só - a estatística; não a arte, a excelência ou o eventual génio de um praticante.

Estou habituadíssimo a ver humilhado o meu amor pelo desporto, muito em particular o meu fanatismo pelo futebol. Recalco até ao máximo humanamente possível a escandalosa e brutal leviandade com que todos os dias vejo tratado pela comunicação social qualquer caralho de jogo. Mas não consigo que me parem os dedos quando a traição vem de alguém que dirige tecnicamente a actual equipa do Real Madrid.

Esse auroque que dá pelo nome de Carlos Queiroz decidiu vir dizer que a política de contratações do Real Madrid “não é a mais adequada” e que, por isso, terá que ser “reajustada”. Filho de um comboio de putas! Deus me cegue se não tiro a carta de pesados e lhe passo uma roda pelos miolos. O que vale é que o Valdano já o colocou no lugar dele, ou seja, a cargo do sistema de co-incineração lá do sitio.

Parece não estar contente com o que tem: o segundo melhor guarda redes do mundo, o melhor defesa esquerdo do mundo, o melhor médio centro do mundo de sempre (que é o actual - e no futuro longínquo - melhor jogador do mundo e um dos três melhores de sempre da história do futebol), o melhor tiro/passe de pé direito do mundo, o melhor avançado do mundo e quarto melhor jogador de todos os tempos, o melhor jogador espanhol, o melhor central espanhol, o melhor defesa direito espanhol, o melhor jogador português e ex-melhor do mundo. Aliás, há seis ou sete anos que o melhor jogador do mundo pela FIFA é um jogador do Real Madrid.

[Esqueçamos os campeonatos e taças de Espanha (em número de três), as Ligas dos Campeões (em número de duas), as super-taças (em número de duas), as super taças europeias (em número de uma), as Taças Intercontinentais (em número de uma), tudo em monte perfazendo 9 títulos nos últimos quatro anos, sendo que o resto são quase finais. Sim, enterremos esta ninharia toda.]

Mesmo esquecendo os parêntesis rectos, o conjunto restante parece não ser suficiente para o senhor Carlos Queirós estar contente e pensar que reúne as condições para fazer um bom trabalho. E como não é suficiente para o senhor Carlos Queirós estar satisfeito, decorre que a política de contratações tem que ser alterada, presumivelmente para que nunca mais se volte a juntar tanto bom jogador na mesma equipa.

A quantidade de alarvidades que todos os dias se diz sobre o plantel do Real Madrid e sobre a forma como foi construído não tem paralelo. No essencial, não me aborrecem. A burrice raramente me chateia, tendo há muito perdido a esperança de ver apreciado e valorizado - independentemente da aleatoriedade de um resultado - a arte de um gesto humano excepcionalmente bem feito ou a beleza atingida por um colectivo de foras-de-série.

Mas quando quem fala é alguém que pode influenciar decisivamente o bonito caminho que o Jorge Valdano vem trilhando com aquele clube, um caminho que obedece à mais maravilhosa filosofia desportiva alguma vez REALmente posta em prática, então talvez seja a hora de estrepitar aqui do cantinho, depois do cherne grelhado com azeite de Moura (pior que o do ano anterior, diria eu).

O mais ridículo de tudo, o que revela a mais atroz estupidez de uma mente, naquilo que se pode considerar o maior afloramento além fronteiras da tacanhez portuguesa, é que eles têm tido resultados desportivos, como (escusadamente, aliás) demonstrei atrás.

Mas mesmo que não tivessem, oiçam bem, mesmo que não tivessem tido o melhor conjunto de resultados desportivos desde o Milão de Sacchi e Capelo, caralhos me fodam, será que não valeria a pena ficar em terceiro na Liga Espanhola, não passar dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, ser eliminado pelo Badajoz da Taça do Rei, mas ter na frente uma bola a circular de um Zidane para um Raul, de um Raul para trás para um Roberto Carlos, deste para o Beckham, do Beckham, num passe de 190 metros com 6 ângulos de 90 graus, para o Ronaldo, e depois, em maravilhoso culminar, assistir a uma correria do gordo com oito pessoas magras em pânico atrás dele? Vão apanhar no cu!

Será que não é evidente o suficiente que nunca se trocou a bola assim antes? Que nunca se jogou do meio-campo para a frente com tanta excelência? Que aquilo é arte pura? Que para ver metade dos gestos técnicos perfeitos que acontecem em meia parte de um mau jogo do Real Madrid é necessário condensar uma jornada inteira de qualquer campeonato europeu (ou toda a história do futebol português, no nosso caso?).

Não! Pelos vistos isto não é suficiente. Perante o mínimo insucesso (Deus me salve de assistir às reacções de um eventual insucesso total), aproveitam todos para arrotar um de pelo menos dois peidos:

1) ou dizem que a equipa não tem um banco à altura - valha-me um Deus qualquer!....!... gostaria muito que me explicassem, e o artiodáctilo do Carlos Queirós em particular, como é que se arranja um banco que esteja à altura de um Zidane ou de um Ronaldo... é preciso lembrar que se o Real Madrid tivesse todos os jogadores do mundo no banco, e uma vez que em campo jogasse o Zidane e o Ronaldo, esse banco seria sempre “desequilibrado”?
2) ou apelidam a defesa de “buraco” – socorro, preciso de ajuda..!.....!... será que não percebem que não existe defesa no mundo que não seja um buraco se a mesma for constituída apenas por cinco elementos? Não vêm que para desfrutarmos na frente de tanto génio junto temos que abdicar de qualquer coisa cá atrás, que no mundo não existe um conjunto infinito de opções, como diz o Kissinger? Querem pôr o Ronaldo a marcar em cima, é, palhaços? Ou talvez, não sei, deixar o Ronaldo no banco e contratar o Gatuso para fazer marcações serradas.

Minhas grandessíssimas mulas: do que é que se lembram com mais saudades: do Brasil ofensivo e criativo de 82, ou da grande traição de 94? Qual deles é que ganhou, e qual deles é que ficou pelos quartos?

Mas mais importante que isso, mais importante porque falamos do desenho de uma política desportiva alternativa - que não seja cobarde como as são todas hoje em dia - , não será evidente para todos que o Real Madrid se sujeitou voluntariamente, para beneficio de todos nós - e risco exclusivo próprio -, a uma política de equilibrista de arame, na qual se substituiu a habitual rede pára-quedas por um caldeirão de azeite a ferver (queriam defesas, não era?), que se resume no seguinte: tendo dez milhões de contos para gastar por ano, então gaste-se os 10 milhões de contos por ano num único, mas grande, muito grande, jogador.

Existirá idealismo ou utopia mais bonitos que estes, um idealismo e uma utopia cujas (eventuais) consequências negativas só afectarão quem os pratica, mas cujos (certos) benefícios se dispersarão pela terra inteira, como um raio de luz numa manhã de orvalho....

Esta estratégia assenta numa premissa la paliciana, mas da qual se retira um corolário corajoso, genial e inaudito: se é verdade que o futebol é um jogo de resultado incerto, então mais vale arriscar a derrota, jogando bem e atractivamente, do que a vitória, jogando mal e sem génio.

Todas as outras equipas mundiais são geridas sobrepondo a estatística probabilística à estética: como quem defende melhor que ataca tem mais hipóteses de ganhar do que quem ataca bem mas defende mal, opta-se por construir planteis, como é vulgo dizer-se, de “trás para a frente”. O mal que isso fez e faz ao futebol está em exibição todas as semanas em Itália, na Alemanha, em Portugal (excepção feita ao Porto), um pouco por todo o lado; mesmo em Espanha, no futebol mais aberto de todos, mais de metade das equipas pensa assim (como o esforçadinho Valência).

Meus amigos: no desejo de vitória deste Real Madrid (ou, no máximo, do Arsenal), não está só o meu fanatismo clubístico (aliás, bastante variável: quando o Figo jogava à bola era fanático do Barcelona), está também o desejo de que se propague pelo mundo uma determinada filosofia do futebol, aquela que mais hipóteses tem de fazer proliferar os Zidanes sobre os Gatusos, os Ronaldos sobre os Makeleles, os Pedro Barbosas sobre os Tingas.

Não perceberão vocês, minhas cavalgaduras, que está na vossa (nossa) mão transformar aquele caldeirão de azeite a ferver em palmas ao seu heroísmo, para o caso de queda desamparada? Que só assim, proporcionando-lhes uma boa cama para continuarem a fazer aquilo que manifestamente ninguém faz melhor, é que esta experiência poderá ter seguidores?

E reparem: esta cama é tanto mais importante agora quanto se verifica que o Real Madrid tem no seu comando técnico uma junta de bois decidida a ajeitar o caldeirão de azeite a ver se não a equipa o não falha na queda.

O senhor Carlos Queiroz, certamente coadjuvado por essa estrela do firmamento (a começar pelo nome) que é o José Peseiro, já nos informaram a quem devemos atribuir as culpas em caso de falhanço. Não há sorte ou ao azar de um jogo, não a uma época menos conseguida (que também as há), não ao facto de que o jogo da época de cada equipa que joga contra o Real Madrid é esse jogo contra o Real Madrid, não ao facto de Arsenal e Milão terem também grandes equipas, não à sua eventual menos feliz direcção técnica; não, não e não:

A culpada é, já sabemos, a “política de contratações”, responsável, entre outras desvantagens competitivas, por ter reunido na mesma equipa a maior quantidade de jogadores extra do mundo. Olhem: se a seguir ao velho paralítico de cadeiras de rodas tiver que ir outro...”

OLHA, OLHA...
O JMF também lê, e, suponho, aprecia Nelson Rodrigues. Quem diria? E espero que tenha lido todo o Nelson para além de "Flor de Obsessão". Por exemplo, e ainda a propósito de nudez, leia-se "A Cabra Vadia", página 18:

"O biquini tem a idade do impudor, que podemos estimar em para mais de, sei lá, 40 mil anos. Digo 40 mil anos, como poderia dizer milhões. Bastam os 40 mil. O impudor era certo, natural, consagrado, na mulher pré-histórica. Mas, quando a mulher se tornou um ser histórico, o pudor foi a sua primeira atitude, o seu primeiro gesto. Mesmo as mais degradadas preservaram um mínimo de pudor. E eis que, de repente, em nossos dias, há todo um movimento regressivo. Aí está o biquíni"




etc. etc...

Terça-feira, Março 23, 2004

NELSON RODRIGUES E A PERSPECTIVA DE UMA SCARLETT
JOHANSSON COMO DEUS A MANDOU AO MUNDO


"No tempo em que que a nudez tinha mistério, tinha suspense, era um dos mais altos bens da mulher. Mesmo a mulher mais destituída de encantos tinha essa nudez latente debaixo do seu vestido. E isso era fascinante. Uma pobre-diaba vestida era salva, não pelo gongo, mas por uma possibilidade de nudez."

"A nudez feminina perdeu todo o suspense e todo o mistério. Vivemos a mais despida das épocas."

"Como é triste o nu que ninguém pediu, que ninguém quer ver, que não espanta ninguém."

NELSON RODRIGUES
E COMO NÃO HÁ DUAS SEM TRÊS...
Pergunta, ainda, JMF:

"Está uma carrinha branca estacionada na rua, o condutor dentro, vidro do seu lado aberto, de onde sai uma claríssima canção árabe. Aviso a polícia? Ou a TVI?"

Caro JMF: nem uma coisa, nem outra. Pões um cd do Oldham a tocar de forma a abafares a seca da canção árabe.
O SONDADO RESPONDE
Pergunta o caro JMF:

“Scarlett Johansson deve, ou não, pôr-se nuínha no próximo filme?”

A minha resposta: não. Nestas coisas (como em quase todas) sou terrivelmente Nelson Rodrigueano.
AS SONDAGENS NO TERRAS DO NUNCA
JMF arrisca uma sondagem "manipulada":

"Se nos próximas dias houver um atentado de grandes dimensões da Al-Qaeda nos EUA ou na Europa, quem devemos culpar?
a) Zé Luis Zapatero;
b) Ariel Sharon."


Não, caro JMF. Devemos culpar os terroristas que perpetrarem o atentado. Neste caso a Al-Qaeda. Ou não?

Segunda-feira, Março 22, 2004

TODOS QUANTOS SE SERVIREM DA ESPADA, À ESPADA MORRERÃO*
(* mil perdões ao Pedro, mas ocorreu-me o mesmo título)
Eu sei que foi um ataque surpresa e brutal; sei que foi morto um ser humano que vivia numa cadeira de rodas; sei também que esta acção poderá incendiar uma região já de si abrasiva; sei que muitos o apelidavam (eufemisticamente) de «líder espiritual»; sei que é uma acção contrária ao espírito de um Estado de Direito. Eu sei isso tudo. Mas, por favor, não me peçam para sentir pena. Ou para condenar. Desculpem. Qualquer coisinha.

Domingo, Março 21, 2004

CITAÇÃO
"We love peace, as we abhor pusillaminity; but not peace at any price. There is a peace more destructive of the manhood of living man than war is destructive of his material body. Chains are worse than bayonets."

DOUGLAS JERROLD
AMÉN
(post inspirado na campanha televisiva de recrutamento da GNR)
Jovem!: se tens mais de dezoito anos e tens as vacinas em dia, se és robusto e levemente pachola, se não tens nada para fazer e a carreira na Guarda Nacional Republicana não te excita, se procuras um meio para exercitares a tua latente demagogia e aprecias os unanimismos inconsequentes, se és adepto dos slogans gratuitos e se desejas gritar as maiores banalidades e aquilo que ninguém em teoria e na posse das mais elementares faculdades mentais pode contestar (por exemplo “a paz”), se queres juntar-te a meia dúzia de iluminados que presunçosamente se julgam os donos da bondade e do altruísmo e, finalmente, se sonhas um dia poder andar de braço dado com os gurus, junta-te a nós em mais uma Manif contra a guerra e contra o terrorismo (o de Estado, evidentemente).
E AGORA UMA AVENIDA
O catálogo
por Vasco Pulido Valente
in Diário de Notícias 20-03-2004
"As reacções ao 11 de Março esgotaram o catálogo da idiotia, da irrelevância, da vaidade e do mais torpe sentimentalismo indígena. Houve de tudo. Primeiro, os que se descobriram e se declararam em «guerra total», quando manifestamente a «Europa» se propõe ficar pelo reforço da polícia (e da «vigilância»), um gesto defensivo sem consequência. Segundo, os que pretendem já negociar, como o dr. Mário Soares, sem se darem ao trabalho de esclarecer com quem (com Estados muçulmanos, com a Al-Qaeda, com grupos terroristas que não reconhecem qualquer autoridade?) e o quê (a nossa segurança contra a existência de Israel, a livre imigração, ajuda, vassalagem?). Terceiro, os que ainda querem «combater» as «causas sociais» do terrorismo (a miséria, o atraso, a humilhação), desde que não seja à custa do seu bolso. Quarto (e ao contrário do anterior), os filósofos da «guerra de civilizações», que falam em «valores» e não falam da riqueza ocidental, cercada por um mundo em ruínas. Quinto, os que se especializaram em «civilização islâmica» e sabem distinguir entre a «boa» (que acabou no século XIV) e a «má», que prudentemente nunca mencionam. Sexto, os que de repente se tornaram teólogos para pontificar sobre o que o Corão permite ou não permite. Sétimo, os que discutem a guerra do Iraque, como se a guerra no Iraque (infelizmente consumada) continuasse a ser o problema. Oitavo, os jornalistas que se atiram a Aznar, porque julgam que o triste fim do homem afirma o seu poder corporativo. Nono, os que se atiram a Aznar, na falta de se atirarem a Barroso. E décimo, as repelentes criaturas que vieram exibir a sua «dor», como se a «dor» do sr. B ou do sr. Z interessasse a alguém. O 11 de Março mostrou Portugal no seu pior. Como sempre."
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