O MacGuffin: Agosto 2009

sábado, agosto 29, 2009

A origem das espécies

O programa eleitoral do PSD foi apresentado. Está mal. Com a sua apresentação, um dos mais sólidos e intelectualmente honestos argumentos socialistas – o de que o PSD não tinha ideias, não tinha a mais pálida ideia do que queria para o país, daí não ter programa (só comparável, note-se, com o potente e seríssimo argumento do «salazarismo») -, deu o toque de finados. Uma chatice. Mas uma chatice que durou horas. À noite, na SIC Notícias, o Sr. Vítor Ramalho, militante do partido socialista, afirmou o óbvio (para ele e para o seu partido): o programa eleitoral do PSD é de uma «vacuidade confrangedora», afirmando-se triste por esse facto. Comungo do aborrecimento e da tristeza do Sr. Vítor Ramalho. O Sr. Vítor Ramalho aguardava, sonhava, suplicava por um programa riquíssimo, repleto de rasgos de génio, propostas revolucionárias e ideias libertadoras. O Sr. Vítor Ramalho desejava, afinal, o bem para o PSD. Todos sabemos que sim. Infelizmente, saiu-lhe a fava. Igualmente conturbado, a resvalar para a irritação (é um homem, de facto, com tendência para a gravidade), o Carlos Abreu Amorim também se mostrou descontente com a Dra. Ferreira Leite (caso, aliás, estranhíssimo). E o nosso Pedro Marques Lopes (presente no estúdio com Vítor Ramalho) também. Aliás, toda a gente o fez, embora, convenhamos, por razões distintas. Vítor Ramalho, ainda assolado pelo fantasma do «neo-liberalismo», que ele não faz a mínima ideia do que é (ninguém, em boa verdade, ainda o explicou convenientemente) mas jura a pés juntos que a besta está mais ou menos moribunda (mérito da crise «internacional»), viu no programa do PSD um regresso da desregulamentação e do assalto dos interesses privados ao erário público. Pedro Marques Lopes, pelo contrário, acha que o programa do PSD ficou muito aquém do desejável no que toca à «desestatização» da economia e da sociedade. Estavam, portanto, os dois, em directo, descontentes com o programa e com a Dra. Manuela Ferreira Leite – uma mulher que desilude todos os dias pelo menos um milhar e meio de portugueses. A SIC Notícias esteve, aliás, muito bem ao ter convidado para o debate um ferrenho e empedernido socialista – que nunca ousou em tempo e lugar algum despir, por um minuto, a jaqueta partidária que o envolve freiraticamente quando é convidado a «analisar» o país e o mundo – e um vero liberal (no bom sentido da palavra, convém dizer, que é termo que constitui anátema em Portugal) que por diversas vezes, nestes últimos meses, demonstrou «desilusão» (chamemos-lhe isso) pelo ideário da actual direcção do PSD. Com uma diferença que importa relevar: o Pedro é um homem que, não renegando o seu posicionamento ideológico, consegue reunir para qualquer debate essa nesga de imparcialidade que tenuemente qualquer pessoa intelectualmente honesta consegue sintetizar, ao passo que Vítor Ramalho faz questão de nunca se desprender do engajamento politico-partidário que o espartilha e que, na hora do discurso, descamba numa vacuidade analítica confrangedora (onde é que eu já ouvi isto?). Seja como for, estiveram todos muito bem. O programa eleitoral do PSD é nulo em rasgos de génio, parco em novidades e tímido no que respeita à concretização do seu inestimável desígnio: acabar com o dirigismo asfixiante do Estado.

Acrescento, apenas, dois ou três pormenores (que, tenho a certeza, não beliscam as desiludidas luminárias). Pela sua natureza, timing e contexto, qualquer programa eleitoral de qualquer partido é mais ou menos previsível. Ninguém em Portugal ousou ou ousará surpreender um só mortal com um programa eleitoral (o que é o programa do PS senão uma paupérrima amálgama que repisa promessas não cumpridas e um socialismo requentado para conquistar as franjas esquerdistas?). No fundo, ninguém, em Portugal, ousará «rasgar» o que quer que seja. Este é um país cuja tradição liberal é ínfima e cuja disposição para a mudança é inerte. É isso mesmo Carlos e Pedro: não se ganham eleições em Portugal dizendo que se vai acabar com as Golden Shares ou que se vai pôr em prática um sistema de protecção social misto (publico-privado) ou que se vai privatizar a Caixa Geral de Depósitos. Cairia o Carmo e a Trindade. Mais: a própria ideia de cortar a direito com o investimento público pode ser fatal. Não se trata do eleitorado ser maioritariamente de esquerda (também o é, de facto). Trata-se simplesmente de vivermos num país onde o ADN dos seus habitantes não comporta uma atmosfera de rarefacção do peso paternalista e dirigista do Estado, no qual o Estado Providencia (apesar de essencial) é uma espécie de altar onde todos vão rezar, pedir amor e protecção – porque, também é verdade, o que o Estado suga da economia e das famílias conduz a essa doentia interdependência. Esperar do programa eleitoral do PSD aquilo que ele não pode dar, dados os condicionalismos históricos, económicos e sociais, e a própria génese do seu povo, é que me parece confrangedor e potencialmente risível.

PS: Este post, publicado igualmente no 31 da Armada, deu lugar a uma discussão com o Pedro Marques Lopes. É seguir a contenda.

Hey there, Mr Morning Sun

Isto era (é) muito bom

sexta-feira, agosto 28, 2009

Outra vez

Dissecando o bloco

Vasco Pulido Valente in Público 28/08/2009

A cabeça de Louçã

Em véspera de eleições, Francisco Louçã deu uma entrevista à revista Sábado em que tenta explicar qual é a "identidade" do Bloco. Primeiro, declara com insistência que o "Bloco" tem, coisa duvidosa, uma "identidade" e, depois, revela que o Bloco é a "esquerda socialista". Que "esquerda socialista"? A que rejeita "um modelo assente na desigualdade social e na exploração" e, ao mesmo tempo, o "modelo da União Soviética" e o "modelo da China". Do "modelo" que fica entre estas duas rejeições, Louçã não fala. O Bloco - explica ele - continua à procura "de uma agenda interveniente" e é isso que, no fundo, o distingue "do PS, do CDS, do PSD e da CDU", que não andam à procura de nada. Mas sobretudo o distingue do PS e do PCP. O Bloco nasceu de "uma exigência profunda" de aggiornamento da esquerda.

Louçã não sabe - ou talvez prefira não dizer - como vai (em democracia) acabar com a "desigualdade social" e a "exploração". Nacionalizando os meios de produção, à boa maneira chinesa e soviética? Ou alargando o Estado providência até ao (curto) limite do possível? Por enquanto, só sabe - e só diz - que "há um fracasso do regime económico" porque "há um fracasso do regime político". E, surpreendentemente, também acha que a "elite que nos governa", uma elite "tentacular" e degenerada, é a grande responsável por esse "problema estrutural". A propósito, cita Antero (que, de certeza, não leu ou percebeu), sem lhe ocorrer que subscreve, em nome do Bloco, uma das mais reaccionárias teorias sobre o atraso do país. Claro que o Bloco, coitado, se julga a nova elite.

O resto são as banalidades do costume: a falta de "um projecto nacional", a "divergência da Europa", o orçamento-zero, o "diálogo" com Manuel Alegre, as vantagens do debate na Internet, as coligações (particularmente com o PS), a "palavra-chave" da campanha" ("responsabilidade"?), a renovação urbana, o desemprego, os serviços de informação, o BCP, o TGV, o aeroporto de Lisboa e por aí fora até à proverbial "ganância" do capitalismo. O Bloco é um buraco, um vazio, um intervalo. Ou, mais precisamente, é o refúgio de quem não quer votar PC ou já não quer votar PS e por qualquer razão, sentimental ou outra, detesta a direita. Tirando o palavreado e a pretensão de virtude, não existe. O que não impede que a 27 de Setembro seja capaz de acabar com Sócrates. Como ele, aliás, merece.

terça-feira, agosto 25, 2009

Selma, a ovelha

Sério candidato a livro infantil do ano publicado em Portugal.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Tenham medo, tenham muito medo

"Não se percebe como pessoas inteligentes alinham na táctica do desespero e na ideia de que o caos virá se não formos para o poder. Votem PS ou virá o caos. Votem PS ou virá a barbárie a rodos, queimarão Garcia d'Orta em efígie e irão perseguir -- pela rua fora, empunhando o látego da moral -- os adúlteros e o sexo antes do casamento. Votem em Sócrates ou Portugal regressará a Alfarrobeira, virá a forca com os apaniguados de D. Miguel, os rios deixarão de desaguar no Atlântico e as criancinhas deixarão de saber manejar os Magalhães. Votem Sócrates ou Portugal voltará a albardar-se no pronto a vestir da Saville Road de Sta. Comba Dão, trajando de colete e lenço tabaqueiro e de xaile negro na cabeça. Ou Sócrates é eleito ou eles virão para destruir os livros das bibliotecas. Ou nós somos chamados à unção, ou desaparecerão os restaurantes civilizados, os carros eléctricos e os bares do Bairro Alto abertos até às três. E vós, que votais à nossa esquerda, pensai bem se quereis a Pátria a resfolegar de insegurança ou, pelo contrário, a dar vivas ao cartão único (símbolo máximo de civilização e de modernidade), ao inglês técnico, aos losangos desenhados a computador, aos PIN e ao teleponto. A qualidade da liamba piorará a olhos vistos. Ressuscitará o Verde Gaio. O Algarve será entregue aos marroquinos e vai passar a ensinar-se o criacionismo nas escolas. Vai ser um tempo terrível e desenhar-se-á o caminho do exílio. Iremos para Londres, como os emigrados de oitocentos, defender a Carta. Tende medo. Mas o que deu a esta gente?"

Francisco José Viegas, no sítio do costume.

Isto muito bem explicadinho

Este gajo vai ter que nos explicar de forma paciente e mais ou menos elaborada como é possível: a) estar em Santiago do Cacém; b) ter como destino (intermédio) o Cercal; c) ir quase parar a Alvalade; d) ter que inverter a marcha em S. Domingos. Só há uma explicação possível e aceitável: elevado índice de pinanço em Serro Gordo e Foros de Cadouços.

sábado, agosto 22, 2009

Ah pois

Nada que o investimento público não resolva

"Se não aparecerem mulheres, importam-se, que é em Portugal para tudo recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, industrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos da alfândega: e é em segunda-mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas... Nós julgamo-nos civilizados como os negros de S. Tomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão... Isto é uma choldra torpe."

João da Ega in Os Maias de Eça de Queiroz (Edições Livros do Brasil, páginas 109-110)

Como eu o compreendo

Li que Bill Gates está farto do Facebook. Eu tenho uma página no Facebook. Ainda tento, teimoso que nem um moleque, perceber para que serve. Sobre o Twitter, não falo. Dizem que é uma espécie de câmara de ressonância para bocas, soundbites e fofoquice de plumitivos e intelectuais (passe a redundância). Mas eu não acredito em tudo o que me dizem, claro.

A pedido de várias famílias

Pop pop pop





Not all of us, Lloyd

Imperdoável

No meu post sobre a gata Didas, por lapso (não perdoável) não referi o blogue da minha amiga Ana, dedicado ao gato Chat Gris, com a ocasional presença do amigo e cão Matisse.

sexta-feira, agosto 21, 2009

A Manuela Ferreira Leite está lixada

Depois das listas, das gafes (mais ninguém em Portugal comete gafes), da falta de programa, chegou a vez da cor (e, mais abrangentemente, da «imagem»). João Marcelino, um homem que se veste habitualmente de preto, quis discutir a putativa mensagem subliminar de Manuela Ferreira Leite por esta se ter vestido de branco. O que quereria dizer «aquele branco»? Que está imaculada? Que a política da verdade é nívea? Meus amigos: já chegámos aqui, percebem? Está tudo dito.

terça-feira, agosto 18, 2009

O Sr. Gross pediu

15 filmes que nunca esqueço? A reflexão tem de ser rápida, caso contrário não respondo. Aqui vai (ordem aleatória):

- Aurora do Sr. Murnau

- Young Mr Lincoln do Sr. Ford

- Rear Window do Sr. Hitchcock

- M do Sr. Lang

- Bitter Victory do Sr. Ray

- The Searchers, outra vez o Sr. Ford

- The Man Who Shot Liberty Valance, novamente o Sr. Ford

- Shadow of a Doubt do Sr. Hitchcock (outra vez)

- Mr Smith Goes to Washington do Sr. Capra

- My Fair Lady do Sr. Cukor

- How Green Was My Valley do Sr. Ford

- The Apartment do Sr. Wilder

- Hanna And Her Sisters do Sr. Allen

- The Seven Year Itch do Sr. Wilder

- Miller’s Crossing dos manos Coen

Pronto, agora que deixei de fora o Eastwood, o Fellini, o Truffaut, o Johnny Guitar, etc. etc. vou ali afogar as mágoas.

sexta-feira, agosto 14, 2009

When the cool of the pond makes you drop down on it



That summer feeling (3X)

When there's things to do not because you gotta
When you run for love not because you oughta
When you trust your friends with no reason notta
The joy I've named shall not be tamed

And that summer feeling is gonna haunt you one day in your life

When the cool of the pond makes you drop down on it
When the smell of the lawn makes you flop down on it
When the teenage car gets the cop down on it
That time is here for one more year

And that summer feeling is gonna haunt you one day in your life

If you've forgotten what I'm naming
You're gonna long to reclaim it one day
Because that summer feeling is gonna haunt you one day in your life
And if you wait until your older
A sad resentment will smolder one day
And then that summer feeling is gonna haunt you
And that summer feeling's gonna taunt you
And then that summer feeling is gonna hurt you one day in your life

When even fourth grade starts looking good
Which you hated
And first grade's looking good too
Overrated
And you boys long for some little girl that you dated
Do you long for her or for the way you were?
That summer feeling is gonna haunt you the rest of your life

When the Oldsmobile has got the top down on it
When the catamaran has got the drop down on it
When the flat of the land has got the crop down on it
Some things look good before and some things never were
But that summer feeling is gonna haunt you one day in your life

Well when your friends are in town and they got time for you
When you and them are hanging around and they don't ignore you
When you say what you will
And they still adore you
If thats not appealing, its that summer feeling
That summer feeling is gonna haunt you one day in your life

Its gonna haunt you
Its gonna taunt you
You're gonna want this feeling inside one more time
Its gonna haunt you
Its gonna taunt you
You're gonna want this feeling inside one more time

When you're hangin around the park with the water fountain
And there's the little girl with the dirty ankles
But she's on the swings where all the dust is kickin up
And you remember the ankle locket
And the way she flirted with you
For all this time how come?
Well that summer feeling is gonna haunt you one day in your life

You'll throw away everything for it (2X)

When the playground that just was all dirt comes hauntin
And that little girl that called you a flirt
Memory comes tauntin
You pick these things apart they're not that appealin
You put them together and you'll get a certain feeling
That summer feeling is gonna haunt you one day in your life

Tenho a certeza que, perante isto, o Carlos Abreu Amorim vai voltar a utilizar o advérbio de modo "volitivamente"

Vasco Pulido Valente in Público 14.08.2009

O ponto principal

Tem havido por aí um clamor de virgem ofendida e metros de pseudocomentário pericial por causa das "listas" do PSD. Portugal é um país sem memória. Marques Mendes (pessoa que, de resto, muito estimo) já retirou o patrocínio do partido a candidatos que estavam a contas com a justiça: Valentim Loureiro e o homem de Oeiras. Mas foi forçado a abrir uma excepção em Leiria. A regra da moralidade começou logo por não ser uma regra. E Marques Mendes, depois de alguma angústia bem merecida, acabou por reconhecer que, no fundo, não tinha aplicado um critério moral, tinha aplicado um critério político. Por outras palavras, tinha calculado que a moralidade lhe traria prestígio e, evidentemente, votos. Talvez não se enganasse. Só que não tornou o PSD num exemplo de virtude cívica, como pretendia, e meteu-se em sarilhos com que não sonhava.

Há um erro essencial em transformar um chefe de partido no árbitro da honestidade dos militantes. Manuela Ferreira Leite deixou essa função aos tribunais (que por enquanto não desapareceram) e tratou legitimamente de "fazer" o grupo parlamentar que lhe convinha. Os protestos do PSD vieram de quem deviam vir e não impressionaram ninguém. E, fora dele, só os mais cegos fiéis de Sócrates, como infelizmente o renascido dr. Soares, resolveram achar que ela se dera um tiro no pé. Não deu. Nem quando recusou o papel de juiz. Nem quando correu com Pedro Passos Coelho e com a respectiva comitiva. Tolerar (e desculpar) um cavalheiro que pública e constantemente se ofereceu como substituto dela era com certeza a melhor maneira de promover a crónica indisciplina do PSD e, em última análise, a desconfiança do eleitorado.

Uma ou outra boa alma também se aplicou a criticar o "quero, posso e mando" de Ferreira Leite. Esses democratas de ocasião chegaram presumivelmente anteontem da Lua e perderam portanto o embaraçante espectáculo do PSD, desde que Marques Mendes saiu. Sem uma autoridade fixa e até, eventualmente, brutal, o partido deslizaria outra vez para a "federação de câmaras" (à mistura com algumas "distritais"), que dia a dia se afundava na intriga e na irrelevância. As "listas" de Manuela, embora longe da perfeição, não a entregam à pasmosa irresponsabilidade dos "notáveis" e, num tempo de crise, isso é sem dúvida o ponto principal.

quinta-feira, agosto 13, 2009

Let Her Go Into The Darkness

terça-feira, agosto 11, 2009

Raul Solnado (1929-2009)

sábado, agosto 08, 2009

Da estupidez e da notória fragilidade de uma democracia com 35 anos

Miguel Esteves Cardoso in Público 08.08.2009

Posso escrever isto?

No editorial de ontem, José Manuel Fernandes anunciou que o PÚBLICO vai desobedecer à directiva da ERC que quer calar os comentadores que são candidatos eleitorais. Também a confederação das empresas de comunicação considerou "inaceitável" essa mesma directiva.

É sempre mau quando alguém quer que outros não escrevam. Ou que não se possa publicar o que escrevem. É censura. Discutir as circunstâncias é cair na armadilha de avaliar o que deve ou não deve ser censurado.

É estranho que uma entidade que se diz de comunicação social se dedique tão intensamente a restringir a comunicação social. Faz medo. Se a ERC determinasse que todos os candidatos eleitorais deveriam ter uma coluna nos jornais a estupidez seria a mesma, mas, apesar de tudo, faria menos medo. É impedir que se escreva, e impedir que se publique que faz medo. Para que servem então os directores de jornais e os tribunais, para não falar dos próprios comentadores, que têm o direito de decidir como se vão comportar no que escrevem?

Leva um bocadinho de tempo a perceber o que é a liberdade de expressão e Portugal só a tem há 35 anos. Ainda subsiste a ideia que "há coisas que se escrevem" e "coisas que não se escrevem". Ainda subsiste a noção que é bom que haja outros escribas, moralmente melhores do que nós, que nos digam o que (e quando) devemos ou não escrever. A liberdade, neste caso, é não ligar ao que diz a ERC. Se ainda ligamos, é porque também nós ainda não estamos inteiramente livres.

Felis catus

A gata Didas (ver foto) é, como todos os gatos, inescrutável (para além de linda). A deliciosa petulância da Didas (na realidade o nome dela é Sophia, como a poetisa), aliada à quase indolente languidez com que, por vezes, se arrasta pela casa, e à notabilíssima agilidade com que se empoleira, sem derrubar rigorosamente nada, nos sítios mais improváveis, atiram-me invariavelmente para um sentimento que mistura admiração, un petit peu de embirração e uma dose assinalável de amor desmedido. Explico: nunca, até há três anos atrás, tinha gostado, se calhar por nunca ter privado comme il faut, de gatos. Sempre fui um rapaz de cães. Tenho, aliás, um cão (ou melhor, o cão é da minha filha): um cocker spaniel inglês (a raça mais divertida, passada e dono-dependente que conheci até hoje) que, todos os dias, faz questão de me dizer, por palavras e gestos próprios a revelar uma ansiedade tocante, “desculpa, dono, desculpa, mas terei sido há minutos atrás suficientemente meloso e adulador?”. Amar um cão de forma absoluta é uma coisa tão directa e simples (só o olhar de um cão deixa qualquer um, incluindo o José Saramago, estarrecido) que pouco ou nada há a dizer. Nos gatos, a questão é bem mais complexa e, por isso, interessante. Se eu quisesse definir o que é um gato em poucas palavras, descreveria o que invariavelmente encontro sempre que, todos os dias, faça chuva ou faça sol, tenha ou não o Carlos Abreu Amorim achado que não houve renovação nas listas do PSD, chego a casa com a minha mulher: num primeiro instante, tenho o focinho da Didas colado à porta como que a dizer “ena, ena, chegaram!”; dois segundos depois (às vezes menos), está dada a meia-volta (uma meia-volta à Rita Hayworth em Gilda), dando-se início a um suposto afastamento (treta, claro): é a fase do “Eh pá, não julguem que eu estava para aqui ansiosa por vos ver chegar mas, por favor, não deixem de reparar em mim e sim eu estou a morrer de saudades mas não me venham com as lamechices do costume porque eu estive sozinha e abandonada várias horas e por isso vocês merecem desprezo mas não se zanguem comigo porque está na hora de me pegarem ao colo mas não por muito tempo que eu gosto muito pouco de confianças mas sim por favor agarrem-me como é habitual seus humanozecos”; depois, a minha mulher pega-lhe ao colo: é a fase das festas que conduz a um ronronar que, poucos segundos depois, atinge decibéis leoninos; ao fim de dois minutos (nunca mais do que isso, que estamos na presença de um animal rigoroso), a Didas protesta e quer voltar para o chão. É isto, mais as maluqueiras recorrentes (as corridas desenfreadas out of the blue, o fascínio pelo desembainhar do fio dental, a absoluta imprudência face a qualquer buraco ou novidade) e aquele absoluto e contagiante apego ao sono e à paz, de preferência junto dos donos (mais da dona, que ela ama incondicionalmente) numa qualquer superfície amolfadada, que faz de um gato (no meu caso uma gata) um animal deliciosamente provocador. De resto, ou por tudo isto, nada me dá mais gozo do que chateá-la porque, let’s face it, há qualquer coisa naquela altivez que está sempre a pedir problemas. Eu, pela minha parte, ando sempre com as mãos e os braços arranhados. Ela, por seu lado, aguarda ansiosamente o pagode e o jogo do toca e foge. Entendemo-nos na perfeição.



PS: Sobre gatos, é imprescindível ler a crónica de Miguel Esteves Cardoso, no Público, do dia 7 de Agosto ("Ronrom assassino") e, claro, o relato intermitente das aventuras do gato Varandas (esse aristocrata meio alucinado) que vai conferindo à Charlotte o sublime privilégio da sua companhia.

Lembrar aquele senhor que se parecia com o Lincoln

A propósito do que se está a passar no Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, é bom lembrar o paciente Nascimento Rodrigues:

"O PS já ocupa todos os altos cargos públicos, faz lembrar o Zeca Afonso: 'eles comem tudo'".

Nascimento Rodrigues, ex-provedor de Justiça, "Visão", 19-03-2009


Memórias

O MacGuffin, aos 13 anos. O polo era Mike Davis. Um proto beto, portanto.

Casting

O outro Barbosa (Bocage), também tinha um penteado assim.

Ainda a renovação

Carlos Abreu Amorim, Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Ramos (cada um no seu estilo e por razões distintas) falam da suposta «falta de renovação nas listas do PSD» (frase que já foi institucionalizada e é agora insofismável) como se uma agremiação de renovadores estivesse ali, à disposição da líder, pronta a servir gloriosamente o país, e que esta, por pirraça e amiguismo, recusa cuidar, ou, por estupidez, notar. Seria, também, interessante discutir até que ponto os supostos ou elencáveis «renovadores» (que ainda ninguém disse quem são) estavam disponíveis na hora do convite. Esta gente fala como se nos partidos, em Portugal – sobretudo os do «centrão» - fizesse fila um bando de bravos e fantásticos «renovadores», aguardando a ordem do chefe para se caucionarem ao partido e à vida política - e, com isso, servirem o povo até à glória final. Vivemos tempos em que, como diz a vox populi (e eu acredito sempre na vox populi), os melhores fugiram do bordel, não fossem acabar queimados «lá dentro». É demasiado óbvio para o referir mas, perante a celeuma e a desilusão, é bom recordar que as listas – todas as listas – são sempre as «possíveis» e não as «ideais» ou as que cada um desejava na sua cabecinha. Não vejo onde é que as actuais listas do PSD diferem, em qualidade ou nível de «renovação» (para pior, entenda-se), das do PS ou do próprio PSD, de há quatro, sete ou dez anos atrás (e com isto não pretendo sonegar a recorrente baixa qualidade das listas).

De resto, compor listas eleitorais, actualmente, não será propriamente pêra doce: entre separar o trigo do joio, aceitar resignadamente recusas e desilusões, gerir pressões, amansar as «bases», acalentar lealdades e incutir um pingo de coesão ao bando, é empresa complexa e árdua. Eles fariam melhor? Estou certo que sim. Mas pagava para ver.

sexta-feira, agosto 07, 2009

Eles anden'aí

Num comentário a este post, sobre o meu artigo no 31 da Armada (também publicado aqui), um tal de AAA escreveu isto:

Quem tem mais respeito por Kim Il que, recorde-se, deixou (deixa?) morrer à fome centenas de milhar de coreanos por não aceitar ajuda externa merece algum respeito?
E um fulano que nutre respeito por ele merece ser lido?

Não há gente mais divertida que os idiotas da objectividade.


Aposto que foi no Gambrinus

Entrevista de Vasco Pulido Valente ao i

Vais para a Madeira fazer o quê?
Descansar três semanas. Dormir, ler e nadar um bocadinho.

Deitas-te tarde e acordas cedo ou vice-versa?
Não me deito excessivamente tarde, nem acordo excessivamente cedo. Acordo a tempo de ir para a piscina por volta do meio-dia, estou lá até às três da tarde e depois durmo uma sesta. O hotel tem uma varanda muito bonita e gosto de ler na varanda enquanto bebo um copo. Tudo isto tudo com a Constança [Cunha e Sá], claro. Às vezes ela aparece logo, outras não aparece...

Quando ela desaparece, normalmente desaparece para onde?
Ela normalmente fica mais tempo na piscina e nada no mar, que é uma coisa que eu ainda não fiz, acho que na minha idade já é um bocado problemático.

Adriano, nas suas Memórias, diz que os 60 anos são "a idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite". Achas que isso é mesmo assim?
Eu não olhei exactamente aos 60 anos, foi um bocadinho mais tarde. Tive um problema de saúde, fiz uma série de operações e aí coloquei a questão.

E mudaste alguma coisa?
Estou um bocado mais desinteressado, um bocado mais prudente, mas também mais afastado das outras pessoas.

Mais isolado?
Não, "isolado" tem sempre o ar de ser imposto. Vivo um bocadinho mais para mim.

Isso é um exercício de egoísmo ou de introspecção e interioridade?
Eu não classifico as coisas assim: se são um exercício ou não. É mais aquilo para que tendo agora. Leio mais do que lia...

Para quem gosta de ler, isso é um privilégio.
É um privilégio, mas também é uma tendência natural. Entretenho-me mais sozinho, dou-me com menos pessoas.

Ficaste ainda mais selectivo?
Por um lado, alguns dos meus amigos morreram, o João Paulo Amorim, o João Bénard da Costa; por outro lado, a maior parte dos meus amigos tem a minha idade e a partir de uma certa altura, quanto mais a pessoa envelhece, mais a vida se complica. A disponibilidade física é menor, já não se fazem grandes noitadas...

Faz-te muita falta o João Paulo Amorim?
[silêncio] Faz-me muita falta. O João Paulo foi uma espécie de porto de abrigo nos últimos 30 anos da minha vida. Quando tinha grandes problemas na vida, ou grandes depressões, quando as coisas me corriam mal, ia passar uns dias ao Algarve com ele.

E o João Bénard da Costa, faz-te falta?
Muita, claro. Era um homem maravilhoso. Conhecia-o há 50 anos e era para mim, um "metro", uma referência, uma medida.

Uma medida de quê, de grandeza na vida?
Para mim era uma medida intelectual, uma medida emocional.

Sendo ele desmedido, era uma medida muito grande.
A opinião dele era uma medida. A opinião dele sobre mim. Não sei se tinha um coração desmedido, mas sei que tinha um grande talento para a amizade. Há pessoas que não têm talento para a amizade, mas ele tinha. Nunca me zanguei com o João.

Nunca na vida?
Nunca. De todos os meus amigos, foi a única pessoa com quem nunca me zanguei, não estivemos zangados nem um minuto.

De quem é o mérito?
Dele, com certeza. Já me zanguei com praticamente todos os outros.

Isso, na tua memória, dá um acrescento de ternura à pessoa dele?
Não sei se dá um acrescento de ternura. Tu pões as coisas de uma maneira que eu nunca poria...[sorriso]. Faz-me falta aquele entendimento que eu tinha com ele, que era muito íntimo e, ao mesmo tempo, muito tranquilo e muito seguro.

Voltando às férias na Madeira com a Constança: nada vos distrai ali, presumo.
Fazemos exactamente o que queremos, não há distracções, não há aquela coisa das férias em que se vai jantar aqui, almoçar ali; em que se vai para a praia ou se vem da praia.

O amor assim vivido nessa rotina, em que parece que nada se passa, mas tudo se passa, assenta-vos bem?
[sorriso] Sou casado com a Constança e é evidente que é amor, mas não estou habituado a que me perguntem essas coisas. Ela gosta muito daquilo, eu também, de maneira que corre sempre bem e depois, como não temos fricções externas, ainda corre melhor. Não há aqueles atritos que existem sempre nessas grandes viagens, como saber onde param as malas, se está a chover e não podemos ir à rua, se ela prefere isto e eu aquilo...

Chateia-te a idade que tens?
Por um lado dá-me uma grande tranquilidade, porque não gosto muito deste mundo e suponho que isso sucede a todos os velhos, não gosto muito deste mundo normativo em que vivemos. A classe média, principalmente no Ocidente, não é uma coisa pela qual eu tenha grande simpatia. Estas preocupações com o corpo e todas as proibições que vêm associadas, como não fumar, são para mim uma espécie de ditadura do politicamente correcto. A esquerda fala muito do pensamento único, mas há outra espécie de pensamento único que é o politicamente correcto: a pessoa não pode ser machista, não pode ser racista, não pode ser xenófoba...

Não ser xenófobo é mais do que ser politicamente correcto.
Sim, e detesto as pessoas que são. Isto é difícil de explicar mas execro a xenofobia, execro os xenófobos, acho os preconceitos sexuais a coisa mais repugnante do mundo, mas não gosto que isso me seja imposto.

Ou seja, também execras o moralismo?
Não gosto desta imposição de uma ideologia. Por duas razões: primeiro, porque parece que sou assim não por escolha livre, mas porque a ortodoxia dominante me obriga, e isso é uma coisa muito desagradável. Gosto de me sentir livre nas minhas escolhas, mesmo que elas coincidam com uma ortodoxia qualquer; em segundo lugar, porque desconfio que a maioria das pessoas que diz que tem a mesma opinião que eu sobre esse assunto não a tem na verdade. Tem é medo de dizer as opiniões que de facto tem. Toda a imposição cria uma hipocrisia mais ou menos institucionalizada, e isso irrita-me muito.

Dás-te mal com isso?
Dou-me mal se não percebo quando estão a falar comigo sobre certos assuntos. Ou quando leio ou vejo, na TV, certas opiniões. Nunca sei se aquele fulano pensa mesmo aquilo ou se está ali na linha do "agora pensa-se assim, amanhã pensa-se assado."

És um homem experiente, sabes sempre quando estão ou não a ser verdadeiros contigo.
A partir dos 12 anos percebi que as pessoas mudavam de opinião conforme sopravam os ventos. Acho que vivemos numa sociedade hipócrita, numa sociedade excessivamente arrolada, numa sociedade muito mesquinha. A actividade intelectual não é valorizada.

Para além do que lês nos livros, procuras alguma coisa que te transcenda?
Sim. A arte transcende-me. Hoje em dia, sobretudo a literatura e o cinema. Em parte também a arquitectura e a pintura. Certa história é também arte. Eu preciso de arte para viver.

Para ti há qualquer coisa de sagrado na criação artística?
Não diria sagrado.

Dirias fascínio ou exaltação?
Não sei. Sei que tenho uma necessidade, mas nunca tentei pôr uma etiqueta e, por isso, não sei se será do transcendente, disto ou daquilo. É uma necessidade, ponto.

Tens um grande prazer na arte?
Sim, o grande prazer que tenho na arte, como até certo ponto na filosofia, é estar perante um objecto ou uma criação que jamais imaginaria ou conseguiria fazer. É uma coisa que me excede, e excede as minhas possibilidades de imaginação. Mesmo que passasse mil anos sentado numa cadeira a tentar imaginar aquilo, não conseguia.

Estás a falar de um quadro, de uma pintura?
Estou a falar de um quadro, de um romance, de um filme, de uma cena de um filme, de um diálogo de um romance ou de um pormenor de um quadro. São coisas que estão completamente para lá de mim e do que a minha cabeça podia dar. Quando são bons, como é evidente. Há por aí muitos romances que eu era capaz de escrever se me sentasse aplicadamente a uma mesa.

Tais como?
Muitos. Assim como era capaz de escrever muitos livros de história que por aí se escrevem.

Na literatura, na pintura, na arquitectura, no cinema valorizas as coisas que nunca te passariam pela cabeça, é isso?
Sim, há um campo que eles me revelam, que é real e está para lá de todo o meu horizonte. Repara que o meu horizonte foi crescendo à medida em que fui lendo e o fui alargando.

Isso é estimulante, para ti?
É, acima de tudo, uma coisa reconfortante, porque as pessoas que vivem no limite da sua cabeça são sempre pessoas pequenas, pessoas medíocres. Como dizia o Vítor Cunha Rego, outro dos meus grandes amigos que morreu, é preciso que as pessoas tenham noção da sua posição no mundo.

A arte dá-te essa noção da tua dimensão?
Sim, faz-me sentir mais pequeno, aliás como toda a gente se sente perante o que é exaltante. A arte dá-me a noção dos meus limites - não de todos, certamente - mas diz-me que há mais "coisas entre o céu e a terra do que sonha a minha vã filosofia". Isto é uma citação.

É uma citação de Horácio?
Sim, é. É fundamental para o meu equilíbrio ter sempre próximo alguma coisa que me mostre que sou uma pessoa média, porque senão podia estar convencido de que era uma grande pessoa e não há desastre maior do que esse.

Tu não estás convencido de que és uma grande pessoa?
Não, não estou.

A maneira como escreves e como criticas os outros dá essa margem de erro na leitura da tua pessoa e muitos acreditam que te achas acima da média e da crítica.
Isso é um disparate completo.

Não tens qualquer presunção de superioridade?
Não. Fazem essa leitura só porque não estão a ver o objecto que eu critico.

Tens consciência de que as pessoas admiram a tua escrita, mas podem odiar a tua pessoa?
Sim, está bem, mas eu tenho de manter a consciência do valor disso, que é pequeno. Mas repara que também não me quero diminuir. Como disse no outro dia numa entrevista, eu tenho uma vozita, mas é apenas uma vozita.

Quem é que achas que tem uma voz grande neste país?
Neste momento? Ninguém!

E vozes pequenas, como a tua?
Não quero estar a fazer tabelas, mas acho que neste momento não há uma grande voz portuguesa.

Qual foi a última que houve?
Deixa-me pensar bem? talvez tenha sido o Sena.

Uma voz grande, mas também magoada?
Era, mas não faz dele menor. Não vou agora fazer uma análise do Jorge de Sena, mas se tivesse de escolher alguém, escolhia-o. E antes dele o Henrique Pousão.

Gostas do teu nome?
Não gosto nada. Detesto o nome Vasco, é pretensioso. Quando nasci os meus pais eram comunistas. Quiseram dar aos filhos nomes populares e acharam, erradamente, que Vasco era um nome popular. Joaquim sim, seria um nome popular.

De que nomes gostas?
Gosto de nomes simples e, particularmente, de nomes bíblicos.

Como é que gostavas de te chamar?
Pedro. É um nome bíblico universal.

Pulido Valente é o nome da tua mãe. O teu pai não levou a mal?
Não me importava nada de ter usado o nome do meu pai se ele me tivesse posto um nome cristão. Pedro Correia Guedes era perfeitamente aceitável. Agora Vasco Correia Guedes, não! Faz uma cacofonia, tem uma data de sibilantes, nem pensar!

Mas, insisto, o teu pai não te levou a mal?
Um bocadinho, sim. Mas depois reconciliou-se porque acabei por explicar-lhe que não podia usar um nome que ofendia o meu ouvido [risos].

Gostas do que fazes às sextas na TVI? Vês--te?
Nunca me vejo em televisão!

Não gostas da tua imagem?
Não gosto da minha imagem de certeza. Seria louco se gostasse.

Mas isso não te impede de te expores na televisão.
Não tenho uma vaidade a esse ponto, mas há outros problemas para além da imagem. Eu não falo bem.

Sabias isso?
Não, não sabia. Fui instruído agora. As pessoas explicaram-me que não falo nada bem.

O que é que as pessoas te dizem?
Que não articulo bem as palavras. Mas também não fui treinado para isso.

És muito crítico e muito duro com os outros. Porque é que estás sempre maldisposto?
Tenho um ar maldisposto? Às vezes estou maldisposto, mas acho que não tenho um ar sempre maldisposto.

A maior parte das pessoas acha que sim, mas pelos vistos tu achas que não?
Eu tenho consciência de que estou em choque com muitos dos costumes portugueses. Por exemplo, o costume de não cumprir as obrigações à risca, os costume de chegar tarde; os costume de se fazerem mal coisas que é suposto fazer bem; o costume de não ser consciencioso; etc., etc. tudo isto vai das universidades à gestão dos bancos.

A complacência portuguesa enerva-te?
Enerva-me profundamente e fiz sempre tudo na minha vida pessoal para não ser complacente. Quando me dizem que é às sete horas, garanto que estou lá às sete horas, até porque a minha cabeça regista 6h45; se me dizem para entregar um artigo dia 30, eu entrego, porque a minha cabeça regista dia 20, e por aí adiante. Eu cumpro as regras e tenho o direito de ficar irritado, mas ninguém em Portugal reage a estas coisas.

Quando criticas o Sócrates, a Ferreira Leite, ou o Portas, por exemplo, é sempre e só porque achas que estão a ser inconsequentes?
Isto é como se eles fossem médicos. Os médicos têm de saber que o fígado está à direita e não está à esquerda, têm de saber exactamente o sítio onde está a vesícula?

Achas que são muitas vezes maus médicos?
Acho que sim, que às vezes são maus políticos.

Em tua opinião quem faz a melhor e a pior política?
Isso é difícil dizer porque depende dos objectivos que cada pessoa tem. Ficando só pelos que aspiram a ter responsabilidades no país, acho que neste momento o nível dos políticos é muito baixo.

Mas tu votas?
Raramente. Esta certeza faz-me não votar. Não voto por falta de confiança.

Tu e o Miguel Sousa Tavares chegaram a fazer as pazes?
Fizemos as pazes, aquilo foi um absurdo. Toda aquela história foi desde o princípio absurda. Foi uma série de mal entendidos, eu não queria escrever nada sobre o romance dele, não me tinha passado pela cabeça, e acabei por ser forçado a fazê-lo. E até gostava de dizer isto: é uma coisa de que não me orgulho e gosto que a coisa fique limpa.

Alfred

Charlotte: os diálogos são, de facto, fabulosos. Aliás, poder-se-ia dizer que em Hitchcock houve sempre duas coisas (para além de tantas outras…) que funcionaram de forma impecável: diálogos e silêncios. Em relação aos diálogos, coloquei, em tempos, excertos de duas conversas absolutamente divinais: entre o Sr. Thornhill e a Miss Eve e entre o Sr. Jefferies e a Sra. Dona Stella (a Thelma Ritter é de estalo). E já que falas nisso, é verdade que Hitchcock sempre apreciou revelar para a plateia o assassino e deixar na ignorância as restantes personagens. Acho que foi ao Truffaut que ele referiu que essa opção acabava por espicaçar o suspense: uma coisa é estarmos na dúvida - whodunnit - outra é sabermos que o pulha anda ali à solta e nós – informados – nada podemos fazer para avisar os coitados que estão à mercê do dito. Sorte a tua com esse clube de vídeo: na província há um apego cego à «contemporaneidade» que deixa de fora qualquer filme realizado há mais de cinco anos. E essa sessão dupla: quem é que disse que a RTP era desprezível, hã? (se calhar fui eu, que tenho uma propensão para declarações absurdamente definitivas). Votos de boas sessões (com o Hitchcock estão garantidas).

É que nem vale a pena desmentir

O Carlos Abreu Amorim (olá, Carlos, desde há pouco), para consubstanciar o drama da não-renovação, volta-se para Marcelo Rebelo de Sousa:

Marcelo Rebelo de Sousa classifica as listas de candidatos a deputados do PSD como uma “inesperada desilusão“, sem a “abertura interna de Sá Carneiro, Cavaco ou Barroso“.
O ex-líder do PSD criticou, ainda, a actual direcção por “Em vez de apresentarem uma lista para os eleitores de Lisboa, decidiram aproveitar para fazer política interna. Para satisfazer a tribo, para acertar contas, para pagar favores, para colocar os amigos“.

Começo a pensar que estou errado. É uma coisa, de facto, estapafúrdia e inédita compor listas eleitorais para satisfazer a tribo, acertar contas, pagar favores, colocar amigos. Onde é que estava com a cabeça. Aconteceu agora e para aí uma ou duas vezes nos últimos trinta anos. Trata-se, aliás, de uma tendência nova, que colide com a nobre arte da política, conforme nos explicou Maquiavel. Maquiavel é, aliás, autor querido de Marcelo Rebelo de Sousa e, presumo, Carlos Abreu Amorim. Tudo gente séria, infalível, inabalável, sempre a pensar no common good. Marcelo, por exemplo, jamais ousaria criar listas eleitorais para fazer política interna. Em francês, jamé.

A ler

I can't get no renovation

O Carlos Abreu Amorim (olá, Carlos, há quanto tempo, hã?), insiste na tese da «falta de renovação». Não houve «renovação». Drama. Horror. Renovação, renovação, renovação. Nunca se ouviu falar tanto em renovação em sede de listas eleitorais. Especialmente da boca de quem nunca foi à bola (peço desculpa pela expressão) com Manuela Ferreira Leite. Parece quase depreender-se que o PS, ao ter enfiado nas listas uma actriz ligada à «cóltura» e um defensor de uma causa «fracturante», foi exemplar no que respeita à «renovação». Desde quando é que, em si mesma, a «renovação» é sinónimo de melhoria ou, para utilizar um termo terno e popular, «mais-valia»? Ai fulano e beltrano vêm do tempo do reinado do Prof. Cavaco Silva (há 200 anos atrás)? Retrógrados, velhos do Restelo, gente gasta, cheirinho a mofo, carcaças. A sério, expliquem-me lá onde e quando é que se provou a suposta infalibilidade e o putativo carácter sacrossanto da «renovação»? E, já agora, de caminho, sejam magnânimos e expliquem à ralé e à Dra. Manuela Ferreira Leite o que é que entendem por «renovação» e o que é que vos satisfaria. Não queremos cá gente aborrecida.

Já estão a abusar

Luís Campos e Cunha escreveu hoje, no Público, um artigo onde, ao quinto parágrafo, se pode ler o seguinte:

Socialmente, o golfe é visto com horror, como Saramago chamou à atenção. O que permite não haver muita gente disposta a tal infâmia. Permite aos praticantes golfistas estarem no campo sem ouvir os festejos do Futebol Clube do Porto, já que do barulho de festejos do Benfica e do Sporting estamos bem livres há muito tempo.

Segundo a mais recente doutrina do jornal, é agora de esperar que o provedor do Público, com indesejada consternação mas férrea determinação, venha a declarar que «não é curial» que o jornal publique um artigo onde se fala de futebol escrito por alguém que assume a priori a sua aversão a este desporto (ainda por cima sendo o articulista amante desse desporto burguês e avesso a aglutinações chamado golfe). Caso haja queixas de adeptos do futebol, é também provável que Nuno Pacheco venha a terreno pedir desculpas. Há que «federar», meus amigos.

PS: No editorial de hoje, José Manuel Fernandes crítica a posição da ERC (provavelmente a mais cretina e patética das entidades reguladoras alguma vez criada em Portugal), afirmando que o Público não pedirá a nenhum dos seus colunistas que venham a ser candidatos, para deixarem de escrever. Muito bem.

quinta-feira, agosto 06, 2009

Neste caso, «federar» vem de «fede», não é?

À hora a que escrevo este post, ainda tento perceber o que quis Joaquim Viera dizer quando escreveu que o Público «ambiciona claramente ter uma função federadora em relação à população portuguesa». Antes, também escreveu que «não é curial que o jornal envie para criticar um espectáculo quem a priori assume a sua aversão aos artistas». Isto tudo num artigo que corrobora um insano e inacreditável pedido de desculpas de um editorial do mesmo jornal. Chávez é bem capaz de vir a interessar-se por Joaquim Vieira. A “Lei do dos Delitos Mediáticos” ainda vai a tempo de ser afinada antes da promulgação, não falhe a mesma algum alcance não previsto.



Adenda: Pode depreender-se do texto de Joaquim Viera que este acha mais curial o envio de quem a priori assume uma simpatia por um artista, escritor, político, etc. (a não ser que Joaquim Vieira ainda acredite no Pai Natal e na imparcialidade de toda e qualquer crítica). Muito longe vai o tempo em que «criticar» + «jornalismo» eram sinónimos de «inconformismo», «acutilância» e «crítica» no sentido polemicista do termo. Não: agora há que tentar «federar», que é como quem diz «reunir consensos», «promover aproximações», trabalhar para a «coesão» e «concórdia» dos homens e das espécies. We are definitely fucked up.

Um democrata, portanto

O Francisco escreveu aqui sobre "A Lei dos Delitos Mediáticos", que está prestes a ser aprovada na Venezuela - essa terra onde governa um democrata dos que o Dr. Mário Soares admira e a quem o Eng. Sócrates gosta de embustear com uns Magalhães. Esta lei é, diga-se, filha ou neta ou prima de uma famosa lei que Fidel Castro promulgou em 1978, na qual se instituía a figura da “perigosidade pré-delituosa”: qualquer cubano, a partir de então, poderia ser preso desde que as autoridades considerassem que o indivíduo representava um perigo para a segurança do Estado (mesmo que, ou sobretudo, ele não tivesse praticado qualquer acto nesse sentido). Chávez está a perder qualidades, no que respeita ao carácter inovador das suas leis. Mas também é bom que se diga que recorre à melhor das fontes, na esperança de que seja tão amado a ocidente como tem sido Fidel, esse símbolo da resistência ao imperialismo americano.

Foi sorte, foi sorte

A embirração, vá lá, o asco que tenho pelo projecto musical Amália Hoje (aquele do “se uma gaivota viesse” ou o raio que a parta), só é comparável ao asco, vá lá, à embirração que tenho pelos The Gift. Quis a fortuna que os responsáveis de um nada têm que ver com os membros de outro, caso contrário ainda para aí diriam que as minhas opiniões são preconceituosas e têm por base argumentos irracionais e assim.

Sem sombra de dúvida

A Charlotte anda a redescobrir (ou a descobrir) os Hitchcock. Quase todos. Faz muitíssimo bem. Dificilmente se poderá encontrar empresa mais adequada para passar em grande o estio, longe da maralha e do banzé que, por estes dias, rumou para os Algarves. Gostaria, contudo, de fazer um pequeno reparo: Frenzy e Shadow of a Doubt não podem nunca, jamais, ter a mesma pontuação, mesmo que se diga que um é mais nove que outro, por via ou não de umas maminhas (um maroto, este Hitchcock). Shadow of a Doubt é portentoso. O próprio Hitchcock mais do que uma vez se referiu a este filme como um dos seus preferidos. O suspense da descoberta do segredo do uncle Charlie (uma espécie de alegoria para a perda da inocência), levado à cena pela constante intermitência entre os dois Charlies (o excelente Cotten e a não menos brilhante Teresa Wright), foi um dos momentos altos de toda a filmografia Hitcockiana. Dos menos conhecidos, recomendava-lhe Lifeboat (sobre o qual em tempos escrevi umas insignificâncias), realizado um ano após Shadow of a Doubt, e, obviamente, essa deliciosa comédia, tão inglesa sem o ser, chamada The Trouble With Harry (ainda estou para saber onde é este rapaz soube que o Dr. Greenbow estava a ler um soneto de Shakespeare quando tropeçou no Sr. Harry).

[Escolhas] sectárias? Et pour cause! (*)

Declaração de interesse: tenho mais respeito por Kim Jong-Il do que por Pedro Passos Coelho. Aquele é um pequeno ser humano amarelo – not my cup of tea no que respeita a cores mas, segundo dizem, os gostos não se discutem – que sabe com relativa convicção e coerência o que quer e que tem uma noção muita clara do seu lugar no mundo (ainda recentemente recebeu a visita do Sr. Clinton, que lhe entregou um bilhetinho de Obama onde se podia ler “You tiny little piece of shit: either you release the journalists or you will finaly taste the luxurious flavour of your own plutonium”, ao que ele voltou a compreender na perfeição qual é a sua posição no mundo). Este – Passos Coelho – pensa saber o que quer para o país (na realidade não sabe, nem nunca ousou anunciar o que quer que fosse de relevante ou mais ou menos coerente para além do pauperismo inerente a meia dúzia de banalidades «liberais» apreendidas nas universidades de Verão, ao longo de anos de militância como jotinha) e tem uma noção de si próprio tão desajustada e divertida (é divertida aquela pose de diplomata com voz de James-Mason-da-linha) como a de Manuel Monteiro quando anunciava a refundação do sistema democrático com o projecto da Nova Democracia.

No meio das manifestações enfáticas, de indignação e quase revolta ou desmaio, em relação às escolhas de Manuela Ferreira Leite, espantam-me, ou melhor, despertam-me uma certa curiosidade (já nada me espanta, hoje em dia) as do pessoal próximo do PSD (por militância, simpatia ou proximidade ideológica). As reacções da esquerda são mais ou menos previsíveis. Entre o clamor ruborizado e robespierriano de Francisco Louçã (os ricos, meu Deus, os ricos!) e a reacção intelectualmente honesta dos justos e progressistas SIMplexos, nada de novo.

Envergando a camisola amarela do pelotão das reacções «menos positivas», encontra-se a reacção face à exclusão de Pedro Passos Coelho, seguida do putativo regresso dos cavaquistas (as supostas «velhas carcaças», portanto).

Quanto ao tenebroso regresso dos cavaquistas, Manuela Ferreira Leite enveredou pela escolha de gente que conhece e que, sejamos minimamente honestos, não envergonha ninguém do ponto de vista «técnico». Em relação a Pedro Passos Coelho, desculpar-me-ão a franqueza mas há uma pergunta que se impõe: estavam à espera do quê? Desde que Manuela Ferreira Leite ganhou as eleições no PSD, houve dois destacados antagonistas que, durante meses, pavonearam o seu mal disfarçado incómodo perante o resultado das mesmas, a tal ponto que transformaram Pedro Santana Lopes num aristocrata, tamanha foi a discrição e a elegância do seu poder de encaixe. Um, bem mais bárbaro ou, se quiserem, directo/brutal/primário: Luis Filipe Menezes. Outro, bem mais fino ou, se quiserem, subtil/elegante/suave: Pedro Passos Coelho. O emudecimento de Luis Filipe Menezes (pelo menos para já) quanto às escolhas de Manuela Ferreira Leite, revela uma réstia de pudor. Já Pedro Passos Coelho, achou por bem voltar à fase das «opiniões» e, dentro do estilo estou-aqui-estou-me-a-passar-mas-não-consigo-porque-sou-um-pouco-plástico, decidiu opinar sobre a sua não escolha. Esperaria o quê? Que Manuela Ferreira Leite o colocasse no Parlamento? Que eu saiba, os compromissos e as alianças de natureza política fazem-se com base em critérios de confiança, cumplicidade e lealdade orgânica. Pedro Passos Coelho ficou de fora? Ficou e, do ponto de vista de um líder partidário, fez bem. Com esta atitude Manuela Ferreira Leite demonstrou coragem (era bem mais simples «passar-lhe a mão pelo pêlo» a troco de uma paz podre) e, acima de tudo, demonstrou que não é hipócrita. Teria sido imprudente caso o preterido fosse uma sumidade com créditos firmados, dono de uma «estrutura» intelectual inestimável. Parece-me não ser o caso.

Por último, uma palavra sobre a suposta «renovação adiada». Agradecia que me dessem exemplos de casos concretos de «renovação», no pós-25 de Abril, em sede de listas eleitorais, para além de meia dúzia de «novas» caras que vão surgindo aqui e ali nos dois partidos de poder. Atenção: não confundir listas com elencos governativos. E se me apresentarem exemplos, expliquem-me onde e quando se manifestou essa «renovação». Obrigado.


(*) Usei um ponto de exclamação. Espero que o compadre Francisco me perdoe.

terça-feira, agosto 04, 2009

True, true...

Série: juro que é verdade (VIII)

Série: juro que é verdade (VII)

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