O MacGuffin: Dissecando o bloco

sexta-feira, agosto 28, 2009

Dissecando o bloco

Vasco Pulido Valente in Público 28/08/2009

A cabeça de Louçã

Em véspera de eleições, Francisco Louçã deu uma entrevista à revista Sábado em que tenta explicar qual é a "identidade" do Bloco. Primeiro, declara com insistência que o "Bloco" tem, coisa duvidosa, uma "identidade" e, depois, revela que o Bloco é a "esquerda socialista". Que "esquerda socialista"? A que rejeita "um modelo assente na desigualdade social e na exploração" e, ao mesmo tempo, o "modelo da União Soviética" e o "modelo da China". Do "modelo" que fica entre estas duas rejeições, Louçã não fala. O Bloco - explica ele - continua à procura "de uma agenda interveniente" e é isso que, no fundo, o distingue "do PS, do CDS, do PSD e da CDU", que não andam à procura de nada. Mas sobretudo o distingue do PS e do PCP. O Bloco nasceu de "uma exigência profunda" de aggiornamento da esquerda.

Louçã não sabe - ou talvez prefira não dizer - como vai (em democracia) acabar com a "desigualdade social" e a "exploração". Nacionalizando os meios de produção, à boa maneira chinesa e soviética? Ou alargando o Estado providência até ao (curto) limite do possível? Por enquanto, só sabe - e só diz - que "há um fracasso do regime económico" porque "há um fracasso do regime político". E, surpreendentemente, também acha que a "elite que nos governa", uma elite "tentacular" e degenerada, é a grande responsável por esse "problema estrutural". A propósito, cita Antero (que, de certeza, não leu ou percebeu), sem lhe ocorrer que subscreve, em nome do Bloco, uma das mais reaccionárias teorias sobre o atraso do país. Claro que o Bloco, coitado, se julga a nova elite.

O resto são as banalidades do costume: a falta de "um projecto nacional", a "divergência da Europa", o orçamento-zero, o "diálogo" com Manuel Alegre, as vantagens do debate na Internet, as coligações (particularmente com o PS), a "palavra-chave" da campanha" ("responsabilidade"?), a renovação urbana, o desemprego, os serviços de informação, o BCP, o TGV, o aeroporto de Lisboa e por aí fora até à proverbial "ganância" do capitalismo. O Bloco é um buraco, um vazio, um intervalo. Ou, mais precisamente, é o refúgio de quem não quer votar PC ou já não quer votar PS e por qualquer razão, sentimental ou outra, detesta a direita. Tirando o palavreado e a pretensão de virtude, não existe. O que não impede que a 27 de Setembro seja capaz de acabar com Sócrates. Como ele, aliás, merece.

2 Comentários:

Blogger Francisco disse...

O que muitos não percebem é que, e bem, as acções do Bloco são pautadas não pela procura de uma abstracta pureza ideológica, mas antes pela máxima eficácia no combate ao status quo e na alteração da realidade concrecta... daí VPV acabar por dizer:
"O que não impede que a 27 de Setembro seja capaz de acabar com Sócrates. Como ele, aliás, merece."

Isto faz mais pelo país e pela esquerda que qq enunciado perfeito de teoria política. E será um grande passo em frente na persecução da estratégia de fundo do BE que é refundar a esquerda e com isso o sistema político português...

Significa isto q o bloco "n tem ideologia"(acusação q pode significar mt coisa, a começar por definir o q é q entendemos por ideologia...), não, o Bloco diria até é dos q tem mais, não é é monolítica... Nem pode ser pq as formas que tomarão a alternativa ao actual sistema não serão ditadas pela direcção do BE (embora esta dê e já teja a dar um forte contributo) mas pelo conjunto do movimento popular (do qual o BE será uma parte e não o todo) que será protagonista dessa transformação.

A única coisa, para já, que Louçã pode e deve dizer é balizar essa alternativa como mt bem faz:

«A que rejeita "um modelo assente na desigualdade social e na exploração" e, ao mesmo tempo, o "modelo da União Soviética" e o "modelo da China".»

Que forma exacta e o que será necessário para que essa alternativa triunfe dependerá de mt coisa para além da vontade de Louçã...
A narrativa da Revolução Francesa, ou do Movimento pelos direitos civis nos EUA dependeu mais da acções dos seus opositores e das reacções "espontâneas das massas nas ruas" do que das visões messiânicas dos seus líderes (embora essas tb sejam decisivas, é verdade.)

Espero ter dado alguma ajuda, ao menos q façam críticas com sentido, a bem da verdade se diga que VPV é dos poucos q tenta ter o mínimo de seriedade na análise e que ao menos tenta escapar às banalidades do costume.

4:05 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

ha a ultima era sua a doutrina da ALBANIA dosburacos para seguranca nacional daquela aldeia!

7:41 da tarde  

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