O MacGuffin

Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

De preferência, ele

Vasco Pulido Valente in Público 07/02/2010

"Alegadamente, o primeiro-ministro aprovou (ou, pelo menos, conhecia) um plano secreto e pouco saboroso para remover alguns críticos, que o irritavam, fazendo comprar a TVI e parte da imprensa por gente da sua confiança. As criaturas que ele queria exterminar eram, entre outras, o casal José Eduardo Moniz-Manuela Moura Guedes, como responsável pelo Jornal de Sexta, e José Manuel Fernandes, como director do PÚBLICO. Isto, a ser verdade, roça o absurdo. Nem o Jornal de Sexta, nem o PÚBLICO tinham o poder de pôr em risco o Governo ou sequer de afectar significativamente o prestígio e o estatuto de Sócrates. Se alguém tinha esse poder era o próprio José Sócrates, para não falar no grupo obscuro e anónimo, que, segundo se depreende dos documentos que o Sol revelou, o serviu zelosamente no terreno.

Não vale a pena insistir na ilegalidade e, sobretudo, na profunda imoralidade da operação, se por acaso existiu como a descreveram. Em qualquer sítio para lá de Badajoz, nenhum político sobreviveria um instante a essa grosseira tentativa de suprimir com dinheiro público o livre exame e a livre crítica, que a Constituição e os costumes claramente garantem. Mas não deixa de surpreender (e merecer comentário) que um primeiro-ministro de um partido que se gaba das suas tradições democráticas, declare por sua iniciativa, e sem razão suficiente, guerra aberta à generalidade dos media, que não o aprovam, defendem e bajulam. Não há precedentes na história deste regime de um ódio tão obsessivo à discordância, por pequena que seja, ou a qualquer oposição activa, de princípio ou de facto.

O autoritarismo natural de Sócrates não basta para explicar essa aberração na essência inteiramente inexplicável. Tanto mais que ela o prejudica e dá dele a imagem de um homem inseguro e fraco. Pior ainda: de um homem desequilibrado e perigoso. A única hipótese plausível é a de que o primeiro-ministro vive doentiamente no mundo imaginário da propaganda. Ou melhor, de que, para ele, a propaganda substituiu a vida: Sócrates já não partilha ou nunca partilhou connosco, cidadãos comuns, a mesma percepção de Portugal. Do "Simplex" que nada simplifica ao estranho melodrama sobre as finanças da Madeira que nada pesam, aumenta dia a dia a distância entre o que país vê e compreende e o que o primeiro-ministro afirma enfaticamente que é. Está perto o ponto em que só haverá uma solução: ou desaparece ele ou desaparecemos nós."

Domingo, Fevereiro 07, 2010

Évora, 31 de Dezembro de 2009

Respondo (finalmente) ao repto do João. Antes de mais: obrigado João. Em segundo lugar: não me lixes, pá. Isto não se faz, ou melhor, não se pede: eleger um único filme da década é humanamente impossível. E animalescamente também. Quando muito, escolheria um realizador: Clint Eastwood. Nenhum outro realizador deu à luz tantos filmes que me tivessem enchido tanto as medidas, nos últimos dez vinte anos. Chega a ser irritante, digo-vos. Num outro registo, não deixaria de mencionar os que, nos últimos dez anos, mais me «divertiram» (no sentido em que o cinema é também, ou sobretudo, entretenimento sensorial mais ou menos despretensioso): Night Shyamalan e Wes Anderson. Shyamalan fez, aliás, um portentoso filme - que, tenho a certeza, levou alguns realizadores da velha guarda ao divã (tipo "cabrão do puto, deixou-me a ver navios"): Unbreakable (na altura, o saudoso João Bénard da Costa viu logo ali um talento imenso). Wes Anderson é irrepreensível na forma como trata assuntos sérios recorrendo ao humor e à ironia, num estilo pessoalíssimo cheio de referências a um passado recente. Anderson é o mais estiloso dos melancólicos e os seus filmes são uma colectânea de quadros a óleo repletos de camisolas de gola alta, peças de lego, cubos de Rubik, calças de bombazine, paixões de liceu, polaróides, Olivettis, caleidoscópios e gadgets esquecidos/ultrapassados, entre personagens desajustadas, meio à deriva. Quase sempre à procura de um ponto de referência e de um sentido para a vida. A humor Andersoniano nunca é imposto: é antes a expressão não esforçada de uma visão cómica e suavemente triste da vida, com epicentro nas relações familiares.

Pedindo desculpas ao João, subverto um pouco o seu pedido e alargo a lista aos filmes vistos (falhei muitos, eu sei) e realizados entre 2000 e 2009, que me parecem obrigatórios em qualquer lista de filmes de uma década:

2000
Unbreakable Night Shyamalan
In The Mood For Love Wong Kar-Wai
Wonder Boys Curtis Hanson

2001
The Royal Tenenbaums Wes Anderson
Mulholland Drive David Lynch
Ghost World Terry Zwigoff
L’ Anglaise et le Duque Eric Rohmer
Intimacy Patrice Chéreau
La Pianiste Michael Haneke

2002
25th Hour Spike Lee
L’Adversaire Nicole Garcia
Catch Me If You Can Steven Spielberg

2003
Mystic River Clint Eastwood
Saraband Ingmar Bergman
Lost in Translation Sofia Coppola

2004
Million Dollar Baby Clint Eastwood
The Village Night Shyamalan
2046 Wong Kar-Wai
The Incredibles Brad Bird

2005
A History Of Violence David Cronenberg
De Battre Mon Coeur s’est Arrêté Jacques Audiard
Match Point Woody Allen
The Squid and The Whale Noah Baumbach

2006
Letters From Iwo Jima Clint Eastwood
Little Children Todd Field

2007
Eastern Promises David Cronenberg
No Country For Old Men Joel & Ethan Coen
Sweeney Todd Tim Burton
Hotel Chevalier + The Darjeeling Limited Wes Anderson

2008
Gran Torino Clint Eastwood

2009
Vicky Cristina Barcelona Woody Allen
Inglorious Basterds Quentin Tarantino

Sexta-feira, Fevereiro 05, 2010

Do extracto do despacho do juiz

Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010

O homem da Cofidis

Vítor Constâncio, naquele tom de homem seríssimo levemente enfadado por ter de falar na direcção de uma esponja meio cilíndrica emoldurada por um logótipo de uma qualquer estação de rádio ou televisão, aliviou-se de uma presunção: dada a situação económica do país, o Sr. Governador presume que «alguma coisa tem que ser feita». E que coisa é essa? Ora deixa cá ver…. (difícil, tendo em conta a imprevisibilidade daquele encéfalo)… Arrisco: aumento de impostos? Acertei?

Claro que acertei. Não tinha como não acertar. Reparem: estamos a falar de uma figura que nasceu, viveu e, infelizmente, há-de um dia morrer aluído pelo eterno paradigma da planificação económica e da estatização da economia em nome, claro está, da igualdade e da justiça social.

Aparentemente, faltaram explicar-lhe o resto, na Academia, e de pouco lhe valeu viver, recorrentemente, durante mais de trinta e cinco anos, o processo pelo qual o seu paradigma deu os resultados que estão à vista. O socialismo é autofágico, não pelo jejum mas pela gula e obesidade mórbidas. No Estado socialista – que é o nosso - a riqueza produzida passa a estar ao serviço – um serviço indiscutível, eternamente sábio e incomensuravelmente bondoso, servido por gente irrepreensível – de um Estado que, chamando a si a distinta e apreciável função de redistribuir os rendimentos para suprir a falta ali e ceifar as excrescências acolá, se torna toxicodependente daquele que é o instrumento por excelência que lhe permite subtrair uma fatia da riqueza que cada ser humano «produtivo», ganha com o seu trabalho, e que dá pelo nome de «imposto» ou «tributo». A tendência do Estado socialista há-de ser sempre, por definição, a de cobrar mais para gastar mais, e a de gastar mais para justificar cobrar ainda mais. É um ciclo vicioso, imparável, sem direito a reversão ou correcção. Para o Sr. Governador, os impostos são o Cofidis do Estado: sempre disponíveis para tapar o buraquinho orçamental e para apregoar o papel «social» do Estado. Os impostos hão-de estar sempre ali, disponíveis, para salvar a face do Estado gordo e guloso, repleto de necroses e disfunções diabéticas. É esta a mentalidade do Sr. Governador, e é este o único paradigma em que esta singular democracia viveu.

Em trinta e cinco anos, nunca ninguém ousou baixar a carga fiscal, porque nunca o Estado e as mordomias que serve, pararam de crescer. Para quê? Para deixar o dinheiro nas mãos do malandro e néscio povo? Não tenham a mais leve das ilusões: a cada orçamento de Estado, haverá sempre um aumento de impostos à espera de si. E uns idiotas úteis que o justificarão com a cara mais séria do mundo. Em nome do mais nobre ideal. O povo - que não é malandro nem néscio - lá encolherá os ombros porque, let's face it: o povo doesn't want chatices.

Domingo, Janeiro 31, 2010

Rui Ramos em entrevista ao Público

A nova "História de Portugal" coordenada por Rui Ramos recapitula os 900 anos do país, propondo releituras heterodoxas de acontecimentos tão fundadores como a crise de sucessão de 1383-85, a expansão ultramarina ou a Revolução Liberal de 1820. Em entrevista, Rui Ramos analisa a grande construção desses 900 anos: a "inerradicável" pluralidade do país.

Entrevista de José Manuel Fernandes, publicada na edição de 31/01/2010 do jornal Público
Porque decidiram começar logo com o Condado Portucalense, e não com os romanos ou os lusitanos?

Porque esta é uma História de Portugal, não uma história dos acontecimentos, das culturas e dos processos que existiram no território português antes da origem de um poder político determinado - o que existe desde D. Afonso Henriques -, poder esse que daria origem ao que hoje chamamos Portugal. Não quisemos fazer uma história deste território desde os tempos primordiais, mas de Portugal enquanto identidade colectiva criada por um processo político que começou com a fundação do Estado. Claro que a nação se construiu sobre uma base pré-existente, só que não existia qualquer elemento que pudesse determinar o que viria a ser o Reino de Portugal. Nesta obra não projectamos na história portuguesa o tipo de modelo oitocentista e novecentista de nação que antecede e exige a formação dos Estados.

Refere-se ao modelo inspirador dos movimentos nacionalistas pós-Revolução Francesa?

Sim. Foram movimentos culturais e políticos que visavam criar Estados que correspondessem a nações. Ora não foi esse o processo de criação do país que somos.

Foi até quase o contrário...

Com os contornos que tem na Península, Portugal é um Estado-Nação perfeito mas que foi criado pelo poder político ao longo de séculos. A nossa identidade nacional foi sendo criada em articulação com o poder político. O poder político antecede a Nação ao ponto de a passagem do Condado Portucalense a Reino de Portugal ter sido protagonizada por uma família vinda da Borgonha, que nem raízes tinha no território.

Mesmo assim estamos perante uma situação única: há quase 700 anos que as nossas fronteiras não sofrem alterações e, ao mesmo tempo, o país tem uma só língua e a esmagadora maioria da população assume pertencer a uma só religião. Essa não era a situação de partida...

Não, de todo. A única divisão política imediatamente anterior era o Condado Portucalense. E ao rectângulo que se formou no século XIII nunca tinha correspondido antes, nem no tempo dos romanos nem no dos reinos visigóticos, qualquer área que se lhe sobrepusesse. Por outro lado, não encontramos nenhuma uniformidade de paisagens...

...ou mesmo de tipo de ocupação do solo, de cultura. Há uma grande diferença entre o Portugal Atlântico e o Portugal Mediterrânico...

O Orlando Ribeiro definiu isso com muita clareza e o José Mattoso, na "Identificação de um País", tornou isso central na caracterização de Portugal. Esses estudos impedem-nos de considerar que o país é um todo homogéneo e hoje até sabemos mais: sabemos, por exemplo, que há uma variação genética importante entre as populações do Norte e as do Sul. Ou seja, temos um território que é produto da acção de um poder político, que o define e nele incorpora as populações muçulmanas e judaicas que viviam no Sul, por exemplo.

Nesta obra, no período referente à I Dinastia, escreve-se que as relações entre os nobres e o Rei foram muito mais conflituosas do que estávamos habituados a pensar, até porque em Portugal não se chegaram a criar estruturas do tipo feudal.

De facto os nobres viam o Rei como uma espécie de "primus inter pares" e o clero via-o como alguém que lhe estava submetido, pelo que o Rei tem, desde o início, de afirmar um poder público para além dessas duas referências mais tradicionais. O que os nossos reis medievais fazem são sucessivas combinações políticas, com maior ou menor sucesso, chegando a produzir nobreza e a instalar bispos, tudo para afirmar a sua soberania. Nunca temos o Rei contra os nobres, mas o Rei com uns nobres contra outros nobres, quase sempre com o apoio dos concelhos, a que iam dando cartas de Foral. É preciso notar que a afirmação deste poder segue a par com a recuperação do Direito Romano, com a concepção de um poder público que é distinto do poder feudal e das relações de vassalagem. É um poder público que se instala para servir o bem comum e não para servir nenhum grupo, nem sequer a nobreza de Entre-Douro e Minho, que sempre considerou que tinha sido ela a fazer o Rei.

Continua válida a interpretação da crise dinástica de 1383-85 segundo a qual foi o povo que se colocou ao lado do Mestre de Avis contra os nobres aliados a Castela? A revolta dos artesãos e comerciantes de Lisboa pode ser vista, como a viu Álvaro Cunhal, como uma proto-revolução burguesa?

Já nenhum medievalista sustenta essa tese. Não só não podemos aplicar as categorias sociológicas do século XX ao século XIV, como havia nobres dos dois lados. O que se passou foi que a nobreza mais estabelecida, a que estava nos lugares de topo, seguiu as regras de sucessão e apoiou as pretensões de Castela, ao mesmo tempo que outros nobres, como Nuno Álvares Pereira, que tinham menos a perder, tomam o partido do Mestre de Avis. Os argumentos que se utilizam para tentar convencer os partidários de D. Beatriz são muito variados e não apenas os referidos no século XIX, sob a influência dos nacionalismos europeus, quando se sublinhou muito o facto de o Mestre de Avis ser natural do Reino. Na época esse foi apenas um entre muitos argumentos trocados. Por exemplo: a facção do Mestre também criticava os adversários por, na época, os reis de Castela terem ficado do lado dos "hereges" no cisma que então abalou a Igreja de Roma... Também não podemos falar de nenhuma revolução, antes da utilização do povo de Lisboa, como voltaria a ocorrer em 1580, em 1640, ou mesmo em 1910. Nem foi essa movimentação popular que, depois, nas Cortes de Coimbra, sustentou a argumentação de João das Regras. O que ele defendeu foi que o trono estava vago, que todos os pretendentes eram ilegítimos, e que por isso as Cortes podiam escolher o melhor - e o melhor era o Mestre de Avis.

A II Dinastia é marcada por uma sucessão de casamentos cruzados entre as coroas de Portugal e de Castela que, mais tarde ou mais cedo, poderia dar origem à unificação dos reinos. Isso acaba por suceder com Filipe II e este, através do Pacto de Tomar, outorga a Portugal algo que definem como uma "quase Constituição". Esta visão não contraria a ideia de "usurpação" que associamos à III Dinastia?

Esse ponto é muito importante pois a verdade é que, nessa época, os reis - e não só os reis de Portugal - tinham de si próprios uma visão providencialista, para além de procurarem a sua grandeza e glória pessoais. O poder político foi produzindo a nação mas durante muito tempo não se identificou com ela. Na época havia patriotismo - basta ler "Os Lusíadas" -, mas não é o mesmo patriotismo dos séculos XIX e XX, quando este passou a estar associado à noção de soberania nacional. O que Nuno Monteiro [o historiador que escreveu esta parte do livro] faz nesses capítulos é ler as relações entre a Casa de Avis e a Casa de Habsburgo tal como eram lidas na época e não como foram lidas nos séculos XIX e XX, em que foram interpretadas à luz do nacionalismo da época e o período passou a ser visto como o do "cativeiro espanhol". Ora o que os contemporâneos discutiam era a legitimidade dos reis, e Filipe II impõe-se não apenas porque era mais forte, mas porque era legítimo por via da linha de sucessão, e porque reconheceu a especificidade de Portugal. Na monarquia dos Habsburgos foi sempre claro que Portugal era um reino herdado, não era um reino conquistado. Os próprios portugueses, na época, estavam sempre a recordá-lo e a sublinhar que o estatuto reconhecia a vida autónoma do Reino de Portugal. O que é que mudou em 1640? Filipe IV, III de Portugal, e o Conde-Duque de Olivares passaram a centralizar o poder em Madrid, quiseram "castelhanizar" toda a Península, e assim violaram o pacto constitucional consagrado em Tomar. Quando o rei se torna tirano, a "Restauração" surge como uma revolta constitucional. A leitura nacionalista veio muito mais tarde...

Na apresentação que fez do livro, António Barreto referiu que, ao longo dos séculos, as elites, progressistas ou reaccionárias, esbarravam "numa sociedade de valores e comportamentos atávicos". Sente o mesmo?

Essa percepção surge sobretudo nos séculos XIX e XX, se bem que já tivesse sido esboçada com o governo pombalino, um governo que não se via limitado pelas tradições e tinha como única fonte de direito o poder do Rei. A partir desse primeiro momento, sempre em nome do "bem comum", o poder político pôde permitir-se "transformar a sociedade". No século XIX, com os liberais, essa ambição afirma-se em toda a sua extensão: quer-se mudar a sociedade, os comportamentos, os valores dos portugueses. Surgem elites mais ou menos iluminadas que, à frente de uma máquina burocrática cada vez maior - a do Estado -, têm um programa de transformação. Só que, de forma repetida, começam a queixar-se de que não o conseguem fazer.

O período da expansão, a era dos Descobrimentos, não foi muito desenvolvido no livro. Porquê?

É verdade que não desenvolvemos a história dos Descobrimentos, mas a expansão ultramarina está bem presente. Tivemos de fazer muitas opções, de deixar de parte muitos relatos, pelo que a preocupação foi enquadrar os acontecimentos no fio da história portuguesa e sublinhar a importância que o Ultramar, o Império, teve nela. Penso, por exemplo, que esta é a primeira História de Portugal onde se sublinha a dimensão intercontinental da monarquia no tempo dos Braganças, e ainda muito antes da ida da Corte para o Brasil. Mais: ao abordarmos a Revolução Liberal, abordamos não apenas aquilo que é tradicional abordar - as ideias dos seus protagonistas -, mas também o facto de esta ter de lidar com a realidade e os problemas de um Estado intercontinental. Nesta História não se esquece que, desde a conquista de Ceuta até à saída de Macau, a nossa história não é a história deste rectângulo europeu. Até porque, como dizia Rodrigo de Sousa Coutinho, o Brasil era a maior e a melhor parte do Reino e isso é central no nosso relato.

O discurso sobre Portugal é, há muito, marcado pela ideia de declínio, de decadência. É um discurso com fundamento histórico?

O discurso do declínio surgiu ainda antes de Pombal, até por na época, sob a influência de uma visão protestante ou "iluminada", se atribuir o atraso ao catolicismo, o que levará o Marquês a expulsar os Jesuítas.

Isso era o discurso. E a realidade?

Arriscaria que nenhum dos autores desta "História de Portugal" acredita na tese da decadência tal como tem sido formulada. Até porque temos de perceber o que foi realmente o nosso período áureo. O Vasconcelos e Sousa, por exemplo, quando aborda a Expansão, deixa muito claro que um dos factores que a determinam é a pobreza e a pequenez do país. Era o caminho que podíamos tomar depois de terminada a reconquista. Por outro lado não é verdade, como escreve Nuno Monteiro, que mesmo no seu apogeu Portugal fosse uma grande potência. Tivemos sempre de jogar com os diferentes poderes e aproveitámos apenas uma janela de oportunidade. Mal apareceram concorrentes mais fortes deixámos de ser uma potência determinante no Oriente. Pensar que podíamos manter o domínio do Índico para lá do século XVI é pensar que tínhamos uma força que nunca tivemos.

Mas passou por cá uma enorme quantidade de riqueza que não criou raízes. Porquê?

Esse período não é a minha especialidade, mas muito provavelmente não criou raízes porque Portugal já era um país pobre, e já então quando se atirava dinheiro para cima de um país pobre ele desaparecia. E éramos um país pobre no sentido em que não possuíamos estruturas para produzir riqueza de forma auto-sustentada. O dinheiro que por cá passava era utilizado pelas elites para comprarem luxos onde eles eram manufacturados: no Norte de Itália, no Norte da Alemanha e nos Países Baixos. Regiões que são ricas hoje como o eram no século passado ou no século XVI. Ou mesmo no século XII. Basta olharmos para as nossas igrejas medievais e para as nossas obras do Renascimento e ver o que se fazia nesses países.

Então porquê os discursos sobre a decadência?

Têm muito a ver, por um lado, com discursos de redenção que foram importados da Europa continental e que atribuíam a decadência ou à Monarquia ou à Igreja - ou depois à República. Por outro lado, resultam da comparação dos níveis de vida.

Como explicar a capacidade de outros países europeus que eram pobres, marginais e muito atrasados mas saltaram para o pelotão da frente?

O que a investigação de história económica mais recente nos mostra é que houve quase sempre limitações de recursos e de oportunidades em Portugal. Quando existiam oportunidades, os portugueses sabiam agarrá-las - quanto mais não fosse emigrando. Por outro lado, no momento decisivo do salto em frente no século XIX, Portugal não tinha um conjunto de recursos naturais muito importantes, a começar pela impossibilidade de produzir, a preços competitivos, os alimentos mais procurados. Só tínhamos o vinho, mais nada. Há também outras razões, algumas delas culturais: também não tínhamos gente preparada, gente letrada em quantidade suficiente.

Porquê? Porque nos países protestantes se aprendia a ler para ler a Bíblia e isso não sucedia nos países católicos?

Essa explicação não chega, porque os muçulmanos lêem o Corão e não é por isso que se tornam mais letrados. Há é uma outra explicação, que nunca é referida: nenhum desses países que conseguiram uma alfabetização de massas durante o século XIX o fez contra a Igreja; foi sempre em articulação com ela. Ora em Portugal, primeiro com os liberais, a partir de 1820, e depois com os republicanos, o Estado não só tentou alfabetizar a população contra a Igreja, como entendia que a alfabetização era um veículo para substituir a educação religiosa por uma educação cívica formatada em Lisboa. As ordens religiosas, que em muitos países foram fundamentais para criar uma rede de escolas, em Portugal não podiam sequer ensinar a ler durante a Monarquia constitucional. Ou seja, tínhamos na Igreja uma instituição que podia ter sido fundamental para a alfabetização da população e preferimos chamar tudo para a alçada do Estado, que não tinha recursos e, portanto, falhou.
Foi por um excesso de Iluminismo que se produziu o obscurantismo.

Portugal foi um país que nunca estimulou os homens livres. Pelo contrário, sempre houve uma tendência para ricos e pobres se encostarem ao Estado. Porquê?

Uma explicação para isso tem a ver com a dimensão ultramarina de Portugal, que permitiu que o Estado se soltasse da sociedade. O Estado não necessitava de cobrar impostos nem de estimular o desenvolvimento, pois os proventos não lhe vinham da metrópole mas da pimenta das Índias ou do ouro do Brasil. Isso criou um poder político centrado em Lisboa, transformada quase em cidade-estado onde tudo se passava, à margem de um interior rural e pobre com que ninguém se preocupava. E quem queria pertencer à elite tinha de vir para a Corte. A nossa aristocracia, ao contrário da aristocracia inglesa ou da aristocracia prussiana, não era terratenente, vivia de rendimentos públicos. Houve sempre um Estado maior do que o país e do que a sociedade devido à realidade ultramarina. Quando se perde o Brasil, passamos a ter um Estado que desconfia da sociedade, que acha que ela não se sabe governar. Encontramos essa mentalidade nos liberais, nos republicanos e nos salazaristas. Todos entendem que têm a missão histórica de arrastar a sociedade para o que entendem por bem comum. Lutam os liberais e os republicanos contra uma sociedade que vêem como tradicionalista e reaccionária, lutam os salazaristas contra uma sociedade que vêem como individualista e anárquica.

Todo esse discurso aponta para um momento de corte, como se houvesse um Portugal do Antigo Regime e um Portugal pós-Revolução Liberal. É isso?

Sim, e esta é porventura uma das novidades desta "História de Portugal" para alguns leitores: a grande revolução em Portugal nos últimos 200 anos foi a Revolução Liberal, foi aquela que mudou realmente o mundo político e cortou todas as pontes com o passado.

Mais importante do que o 5 de Outubro?

A implantação da República é um detalhe quando a comparamos com o que significou a Revolução Liberal. Há um país antes de 1820, ou mais exactamente antes de 1832-34, e outro depois. Na República não mudam os paradigmas, com o triunfo da Revolução Liberal mudou tudo na relação dos portugueses com o Estado. Como disse Almeida Garret, foi nessa altura que um Portugal Velho acabou e começou um Portugal Novo. Todas as instituições, algumas delas seculares, desapareceram. Até acabou a velha relação das pessoas com a terra, que não correspondia à ideia de propriedade individual e absoluta dos dias de hoje. O mapa dos concelhos é todo alterado, na prática destruiu-se um poder municipal que vinha desde o nascimento do país. É também então que começa realmente a separação de poderes. Mas a "maior revolução social da história portuguesa", como se lhe referiu Alexandre Herculano, também destruiu as condições para um equilíbrio entre o Estado e a sociedade que permitisse a modernização, no contexto de uma sociedade tradicional que vai evoluindo sem destruir.

1832-34 é o nosso 1789, a nossa "revolução francesa"?

Oliveira Martins foi o primeiro a dizê-lo. O Portugal Velho acabou de uma maneira abrupta, violenta, com uma guerra civil, tornando inviáveis todos os arranjos que estavam implícitos na Carta Constitucional. A possibilidade de uma evolução à inglesa, em que houvesse sempre os pólos de poder alternativos e concorrentes ao Estado de que falava Tocqueville, desapareceu também nessa altura. Outro aspecto que sublinhamos, e que muitas vezes foi desvalorizado, é a importância da questão religiosa, que não teve a ver com poderes ou determinismos económicos mas derivou de haver muita gente que estava disposta a matar ou a morrer em defesa da Igreja, tal como outros estavam dispostos a matar ou a morrer em defesa do anti-clericalismo.

O Estado, além de criar a nação, também a homogeneizou. Isso passou pela integração de um Sul que era sobretudo muçulmano e tinha uma forte presença judaica. Ora se os judeus são bem acolhidos em Portugal na Idade Média, depois acabam por ter de fugir ou de se converter. Nesse momento a homogeneização não funcionou contra uma das possibilidades que o país tinha de ser menos pobre?

Uma coisa é a violência da expulsão, a violência da Inquisição contra os cristãos-novos, outra coisa é pretendermos encontrar factos que, só por si, expliquem a nossa história toda, e todas as nossas dores, desde D. Afonso Henriques até José Sócrates. Sem dúvida que o país perde na altura parte da sua elite, mas a Inglaterra também a tinha perdido quando dois séculos antes expulsara os judeus e nunca ouvi nenhum historiador inglês queixar-se disso. Penso que para analisarmos certas situações contemporâneas é melhor não nos socorrermos de factores demasiado ancestrais. No nosso passado há de tudo, quer esses momentos de intolerância, quer uma época mais pluralista. E mesmo a tolerante Inglaterra conheceu períodos de uma intolerância gigantesca no século XVI, com terríveis perseguições religiosas.

Ou seja, não temos de ir buscar à História ou à Economia razões para defender a tolerância religiosa e o pluralismo - devemos defendê-la porque é a atitude correcta. A história não deve ser um arsenal ideológico para justiçar esta ou aquela opção actual. E esta é uma "História de Portugal" feita por historiadores que procuram explicações limitadas ao contexto das diferentes épocas e integrando a perspectiva dos contemporâneos.

Lemos esta "História de Portugal" e, no fim, podemos ficar com uma ideia do que é a identidade nacional? Há uma identidade nacional?

Há uma identidade portuguesa a que os portugueses são sensíveis.

Uma identidade pela positiva ou uma identidade contra: "contra Castela", "contra os reinos mouros"?

Todas as identidades são construídas contra: somos alguma coisa porque não somos outra coisa que existe ao lado. Quando falamos, a propósito de história, sobre o que é a nossa identidade, não é a identidade negativa - somos portugueses porque não somos espanhóis - que perturba: o que perturba é interrogarmo-nos sobre o nosso destino. Houve muitas tentativas de criar uma identidade providencialista, sebastianista, houve um discurso sobre os portugueses estarem destinados a criar o Quinto Império. Com o salazarismo, éramos o povo capaz de criar sociedades luso-tropicalistas, na Expo-98 fomos os pioneiros da globalização... É por não encontrarmos hoje uma "missão" que também surge, muitas vezes, o discurso da decadência. Ora o que esta "História de Portugal" nos mostra é que os portugueses foram portugueses de várias maneiras. Temos uma longa história comum e expressamo-nos na mesma língua, o que é muito importante pois uma língua é também uma visão do mundo.

O que quer dizer que...

Portugal nunca teve um problema de identidade como outros. Nunca houve alternativas diferentes da que foi sendo gerada pelo poder político. Nunca existiram, por exemplo, identidades regionais fortes e houve uma homogeneização religiosa - os muçulmanos desapareceram, os judeus foram obrigados a converter-se -, sendo que a religião nunca foi um factor de separação face aos nossos vizinhos. Mesmo hoje não temos grandes comunidades de outras religiões ou de outras etnias para que possamos, verdadeiramente, testar aquele lugar-comum de que os portugueses não são racistas.

O que é que alguém que queira pensar Portugal hoje pode retirar desta História?

Pode perceber que Portugal não começou ontem, que existem condicionantes que vêm do passado, pode até verificar que algumas soluções já foram tentadas no passado, como os programas desenvolvimentistas de obras públicas, e que não deram resultado. Mas a história também é importante para percebermos a nossa inerradicável pluralidade. Não permite um discurso uniformizador sobre "o português"...

Então livros como "O Medo de Existir", de José Gil, não fazem sentido...

Tenho sempre uma enorme dificuldade em compreender as obras que passam por uma antropomorfização de Portugal, como se Portugal estivesse ali ao lado sentado a tomar café. Há dez milhões de portugueses, logo há dez milhões de maneiras diferentes de se ser português. A alternativa a esse discurso é uma História de Portugal que não procura uma explicação filosófica geral. Temos muitas coisas comuns, mas o fado é de Lisboa e o vinho verde tinto é do Norte Litoral. Não tentemos esconder a pluralidade nem substituí-la por uma qualquer leitura secular do velho providencialismo divino.

Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

Com o patrocínio de Ambrose Bierce

O Sr. Marinho Pinto deve ter algures, no quarto, um quadro com a inscrição "Magistrado: funcionário judicial com uma jurisdição limitada e uma incapacidade desmedida". Mas devia pendurar outra: "Advogado: indivíduo com jeito para contornar a lei". E, já agora, que se faz tarde, esta: "Pateta: uma pessoa pouco elegante e com uma tendência excessiva para tropeçar nos próprios pés".

Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

Damn you all

Eu quero ver quem é que se vai atrever a não incluir este espantoso disco na lista dos melhores de 2010.


Eu quero ver quem é que se vai atrever a não incluir este espantoso disco na lista dos melhores de 2010.

Quinta-feira, Janeiro 21, 2010

Mon coeur

Encontrei

Quando escrevi isto, julgava ter perdido isto:


Hoje, encontrei-o. I will cherish it till I die.

O bom, o mau e o melhor

O subvalorizado:




O sobrevalorizado:




O melhor:

A ver vamos...

Quinta-feira, Janeiro 14, 2010

The Taming of the Shrew

Domingo, Janeiro 10, 2010

Mais nada a acrescentar

Alberto Gonçalves in Diário de Notícias 10/01/2010

"O casamento entre pessoas do mesmo sexo é banal no mundo civilizado? É, se entendermos por "mundo civilizado" sete países e um pedacinho dos EUA. O casamento entre pessoas do mesmo sexo veio eliminar uma discriminação brutal? Sim, se admitirmos que uma restrição socialmente imperceptível equivale à escravatura ou às câmaras de gás. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é a conquista de um direito fundamental? Claro, se hoje um "direito fundamental" for o "papel" desprezível a que a esquerda sempre reduziu o casamento tradicional. O casamento entre pessoas do mesmo sexo beneficia muitos necessitados? Com certeza: políticos com necessidade de desviar atenções, políticos com necessidade de parecer "modernos", anónimos com necessidade de erguer carreiras à custa de "causas", etc.

Dito isto, não acho que o casamento entre pessoas do mesmo sexo justifique o frenesim indignado de alguns. O medo de que o alargamento a homossexuais anule a alegada relevância do casamento heterossexual deriva do exacto equívoco em que os activistas gay incorrem: o de que o peso simbólico do matrimónio é definido pelo reconhecimento estatal, ou seja, por lei. Obviamente, não é, e não será um "papel" a convencer a sociedade de que um tipo de união é rigorosamente igual ao outro. Embora a formação ideológica da maioria dos integrantes dos movimentos gay os faça sonhar com um Estado absoluto e "padronizador", há quem viva no mundo real e compreenda que os costumes resistem a decretos. Os gays propriamente ditos, por exemplo.

Em Espanha, meia década após a legalização, realizaram-se menos de 20 mil enlaces homossexuais, e com tendência para diminuir a cada ano. Ou uns 99% dos gays locais não entendem que o casamento os proteja da discriminação ou não se sentem discriminados de todo. Por cá, teremos talvez mil ou duas mil bodas por geração, alvo de interesse decrescente dos media e, a prazo, da indiferença geral. Alheias a delírios publicitários, as restantes centenas de milhares de homossexuais prosseguirão as suas vidas. E nós faríamos melhor em prosseguir as nossas."

Mitos

Vasco Pulido Valente in Público 10/01/2010
A França, a Europa e as Pátrias

"É uma velha convicção dos políticos que um país só prospera e só se afirma com uma boa dose de nacionalismo. Esta ideia romântica (no sentido técnico da palavra) ainda não desapareceu, apesar do uso que Hitler, Mussolini e outros beneméritos fi zeram dela. A gente da minha idade ainda com certeza se lembra da obsessão com a ilusória “identidade portuguesa” depois do 25 de Abril e da perda das colónias de África. A esquerda até inventou que Portugal se tinha tornado numa “placa giratória” entre o Ocidente e o Terceiro Mundo. Os disparates não paravam. E continuam. Manuel Alegre, por exemplo, falou ontem no Expresso de um “Quinto Império cultural e da língua” e acha, muito seriamente, que os problemas da economia “não se resolvem, sem orgulho ou confiança no país”. Nada disto é extraordinário.

Extraordinário é que a doença se tenha pegado à França e que Sarkozy ande agora oficialmente à procura da “identidade francesa”. Verdade que desde o Grand Siècle (o século XVII), de uma maneira ou de outra, a França dominou a Europa. As “Luzes” foram, sobretudo, as “Luzes” da Enciclopédia e Voltaire, não as da Inglaterra ou da Alemanha, bem mais decisivas para o futuro. E a Revolução convenceu erradamente os franceses de que encarnavam e transportavam consigo os valores da humanidade. Nem a empresa napoleónica, uma empresa de conquista e rapina, os fez pensar duas vezes. Mesmo no século XIX, a França, regularmente vencida (ou com a vitória pírrica e partilhada da I Guerra), não deixou de se considerar, como dizia o outro, o “farol” do mundo. Nem sequer a humilhação de 1940 a desanimou. Em 1945, a “inteligência” indígena persistia em arengar a América, a África e a Ásia, com a autoridade espúria de mãe da liberdade. E era ouvida.

O Mercado Comum e a “Europa” que dele saiu acabaram pouco a pouco com este delírio. Mitterrand teve passageiramente um ou outro acesso de grandeur. Dali em diante, a França entrou na mediocridade que lhe competia. Já ninguém a levava a sério como consciência de serviço. Em certo sentido, a França fi cou no desemprego da História. A campanha de Sarkozy para redescobrir e reinventar a “identidade francesa” é um sintoma e o reconhecimento dessa definitiva queda. Mas, na prática,como é que se redescobre ou reinventa uma “identidade”? Até hoje há duas sugestões radicais: cantar A Marselhesa no princípio dos jogos de futebol e meter Camus (um semi-reformista e um semiliberal) no Panthéon (tirar e pôr pseudo-heróis no Panthéon sempre foi, de resto, um grande divertimento revolucionário). A União Europeia, para desgosto do dr. Soares, não passa de mito. Em compensação, para descanso do dr. Soares, a Europa das Pátrias não renascerá."

Não esquecendo a Viana do Alentejo

Miguel Esteves Cardoso in Público 10/01/2010
"O FUGAS é um potente aperitivo. O de ontem aliciava quem tenha a sorte de estar no Porto entre hoje e sábado, a instalar-se nas alturas do restaurante da Casa da Música, a apreciar os picos da cozinha vienense, preparados por um dos melhores chefes austríacos, Florian Ortner.

Dizem que esconde grandes segredos. Nenhum, porém, será tão difícil de explicar o hábito português de nos referirmos à capital austríaca como Viana de Àustria. É o meu primo que está a estudar piano em Viana de Áustria. É este bolo de chocolate feito com uma receita de um café em Viana de Áustria.

Esta semana estava a falar com um médico e quando me referi a um estudo publicado em Viena, ele procurou logo esclarecer: "Viena de Áustria?" Apetece logo responder "Não, Viena do Castelo" mas não se pode, porque o vício está enraizado. Não é só o facto de haver poucas Vienas à parte a de Áustria. Há uma Viena na Virgínia, nos Estados Unidos da América, mas é raro ouvir falar-se dela. Nem sequer o maestro Victorino d"Almeida a menciona.

É a força do nome da cidade. Alguém fala em Viena e nós, por magia, pensamos logo em Viena de Áustria. Não nos ocorre mais nenhuma. O refrão da canção de 1981 dos Ultravox "(It means nothing to me, oh)Vienna" perderia dramatismo se tivesse de acrescentar of Austria.

Só nos resta agradecer que a precisão não se alastre a outras grandes cidades: "Comprei este lenço em Londres da Inglaterra mas ele foi feito em Roma de Itália".

Obrigados!"

Sábado, Janeiro 09, 2010

Os putos voltaram

Domingo, Janeiro 03, 2010

Estado

José Manuel Fernandes, in Público 03/01/2010

Salvar o país deste Estado, e o Estado deste governo

"Ontem de manhã fui ao Portal do Governo, abri um por um os perfis profissionais de todos os membros do Governo, e confirmei uma suspeita: nenhum deles trabalhou a maior parte da vida no sector privado. A maioria nunca o fez. Alguns, poucos, exerceram vagamente a advocacia, mas há muito que não têm "escritório". Duas ministras terão ganho mais em direitos de autor do que com os proventos dos lugares que mantêm na administração pública. E até a "sindicalista" nunca trabalhou numa empresa, começou logo como funcionária da UGT. Considerando o conjunto dos ministros, o número total de anos passados no Parlamento ou em gabinetes ministeriais não deve ser muito diferente do acumulado a dar aulas em universidades públicas.

Perguntar-se-á: mas porquê a minha suspeita? E será que podemos tirar alguma ilação desta constatação? Na verdade não há mal intrínseco em se ter feito toda a carreira no sector público. Nem de tal se pode tirar qualquer ilação, sobretudo se pensarmos nos que dão aulas nas universidades. Contudo...

Contudo estamos perante um sinal dos tempos: o melhor (?) que o país foi capaz de produzir para depois lhe entregar a responsabilidade de o governar foi um grupo de quadros que nunca correu os riscos associados à actividade privada e sempre cresceu no ambiente protegido - mesmo que nem sempre glorioso - da administração pública. Sucede com este Governo, como poderia suceder com um governo liderado pelo PSD, talvez com pequenas nuances, e não deve surpreender ninguém: o sonho da maioria dos portugueses é, há décadas, há séculos, acolher-se no regaço protector do Estado. De preferência como seu servidor, se necessário como seu subsidiado.

Acontece que isto tem causas e consequências. As raízes desta maneira de ser mergulham na nossa muito particular história como povo e uma delas resulta bem evidente quando lemos a nova História de Portugal, coordenada por Rui Ramos. No texto que escreveu para a apresentação da obra, António Barreto não deixou de a destacar: "A omnipresença de um Estado que desempenhou todos os papéis, o de inovador e o de conservador, o de revolucionário e o de reaccionário, o de motor e o de obstáculo ao desenvolvimento, o de abertura e o de fecho ao mundo exterior, o de déspota e o de liberal. Parece que quase tudo começou e acabou no Estado. Conquista e reconquista, expansão e retracção, instrução e obscurantismo foram obra de um Estado que pouco espaço deixava para a sociedade de classes, grupos e homens livres e independentes."

Se assim foi desde a fundação da nacionalidade - "foi o Estado, isto é, o poder político organizado ou em vias de organização, que criou a nação, o que durou séculos", notou também António Barreto - dificilmente poderia deixar de ser hoje. Dificilmente poderia de ter hoje um peso ainda maior do que no passado, e nem devemos começar por falar da economia para o sublinhar. É verdade que, como ainda na sua mensagem de Ano Novo recordou o Presidente da República (que, como ex-primeiro-ministro, é um dos responsáveis pela situação), "Portugal tem já um nível de despesa pública e de impostos que é desproporcionado face ao seu nível de desenvolvimento", mas isso também sucede com outros países. O nosso problema é mais grave e mais fundo.

O nosso problema é que temos cada vez mais governo no Estado - e quando falo de governo, também incluo as autarquias regionais e locais - e cada vez menos sentido de Estado no Estado. A omnipresença da mão que tudo condiciona, ou mesmo tudo controla, agravou-se muito nos últimos anos, sob a batuta dos executivos de Sócrates, mas é um mal que vem detrás.

Vinte anos depois de termos iniciado o processo de privatizações, o número de empresas públicas - e dos gestores que por elas circulam - é muito maior. Dos hospitais EPE às empresas municipais. Trinta e cinco anos depois do 25 de Abril não se concebe que um alto quadro da administração pública não seja de "confiança política", tendo desaparecido por completo o espírito de lealdade independente e competente nos altos lugares da administração. Catorze anos depois de Guterres se ter entusiasmado com a reacção positiva dos mercados à sua vitória eleitoral, os dedos de uma só mão chegam para contar as empresas cotadas no PSI20 cujo destino (e até cuja cotação) não dependa, em maior ou menor grau, das suas relações com o Governo.

Por fim, cinco anos depois de Sócrates ter chegado ao poder graças a um acidente da história, são cada vez mais raros os concursos públicos e cada vez mais comum a negociação directa entre o poder e os empresários para "ajustarem", na ausência de um ambiente competitivo, negócios de todas as dimensões - a arbitrariedade começou com os PIN (Projectos de Potencial Interesse Nacional), que permitiam contornar a lei por decisão discricionária de um ministro, é hoje moeda comum quer se trate da adjudicação do Magalhães, da do Terminal de Alcântara, das concessões das barragens ou das obras de recuperação do parque escolar.

É triste, é trágico, escrevê-lo, mas o nível de discricionariedade - a nível central, a nível regional e a nível local -, associado à correspondente subserviência (e também à corrupção) não tem paralelo na história recente de Portugal, pois até antes do 25 de Abril havia mais respeito por certas regras. Quanto mais não seja porque havia mais pudor - agora qualquer vestígio de pudor é rapidamente sacudido em nome da "legitimidade democrática".

Podemos ter mil conversas tecnocráticas sobre o "programa" para tirar Portugal de crise e nos reaproximar da Europa, que serão inúteis. O nosso problema, como tantas vezes no passado, é de liberdade e de responsabilidade. Em nome da liberdade derrubámos o anterior regime, em nome da liberdade acabámos coma tutela militar sobre o poder político, em nome da liberdade reprivatizámos a economia. Entretanto, esquecemos demasiadas vezes a responsabilidade e agora, em nome da democracia, do "voto do povo", querem limitar-nos a liberdade. É tempo de dizer "basta".

E será que não há aí ninguém capaz de assumir as consequências políticas deste diagnóstico? Talvez não, pois bem sei o que custaria fazê-lo: Portugal é o que é há muitos séculos."

Sábado, Janeiro 02, 2010

É

Vasco Pulido Valente, Público 02/01/2010

2010
"A primeira grande crise económica mundial - que começou em 1929 e foi durando até à II Guerra Mundial - trouxe consigo um terramoto político na Europa, na América e na URSS (a Rússia é outra coisa). Em França, houve uma Frente Popular; em Espanha uma Frente Popular e uma guerra civil; em Inglaterra um governo do Partido Trabalhista pela primeira vez chegou ao poder; na Alemanha caiu a República de Weimar e veio o nazismo; na URSS Estaline liquidou os kulaks e, para grande admiração da "inteligência" ocidental, espremeu da fome e do terror a industrialização forçada; e até na América Roosevelt se atreveu a tomar algumas medidas pretensamente "socialistas", que puseram em transe o "liberalismo" indígena. Pelo mundo inteiro - ou pelo que naquela altura se julgava "o mundo inteiro" - pareceu soprar um vento (irresistível?) de mudança.Era o tempo da "esquerda" ou, mais precisamente, da "esquerda revolucionária", uma sopa turva com que a minha geração ainda cresceu e mesmo, por causa do "25 de Abril", uma ou duas camadas de gente mais nova. Como é óbvio, o colapso do "socialismo real", o descrédito do marxismo enquanto doutrina e teoria e a "normalização" do Estado-Providência acabaram com tudo isso. Agora alguns patetas, que devem ter dificuldade em encontrar a cabeça com as duas mãos, protestam inteligentemente contra os "tremendistas". O dr. Mário Soares (sempre uma alegria) chora dia a dia a "Europa" perdida (ou desencaminhada) e reza aos santinhos da sua desesperada devoção como Lula e Obama. E, segundo consta, uma facção lírica à fado de Coimbra continua ao vento à procura do pensamento.

Mas, de qualquer maneira, um facto é certo: a crise de 2008 não produziu uma ideia. Basta ver Portugal. O Estado apodrece, como sempre historicamente apodreceu, com o défice do orçamento e a dívida externa. O regime político está paralisado e desliza pouco a pouco para o grotesco. O PSD não passa de um grupinho de coscuvilheiras, sem vergonha ou emenda. E o PS serve um optimismo lorpa a uma populaça céptica. Nem um arrepio perturbou a inanidade da nossa vida pública. A reorganização da direita? Qual quê? A reforma da esquerda? Nem pensar. Afinal, a julgar pela placidez da populaça e a resignação da classe média, a crise não existe. Como, de resto, se constatará em 2010. Não é?"

Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

Em alternativa

Choque de titãs

Domingo, Dezembro 13, 2009

Rádio Televisão Propaganda

É absolutamente obscena a forma como a RTP se presta a servicinhos de «humanização» de gente a contas com a justiça. A entrevista de Judite Sousa a Armando Vara, seguida do comentário do pró-socrático João Marcelino (começa também a ser obsceno o desvio míope do director do Diário de Notícias, sempre para o mesmo lado), é mais um sinal do quão enferma se encontra a televisão pública em Portugal. Para além de financeiramente mal gerida, a RTP anda há décadas à deriva: sem tino ou vocação, o único serviço que se lhe reconhece é o serviço prestado à «situação».

O episódio Dias Loureiro parece não ter sido procedente. Nenhuma das cabecinhas que chefiam ou dirigem a informação na RTP percebeu que há circos que não só fedem como lançam a confusão (provavelmente serão pagos para assobiar para o lado). Entrevistar um arguido daquela forma não é só imprudente: é um exercício absolutamente inconsequente e forçosamente estúpido. Viu-se, aliás, como Armando Vara se escudou no estatuto de arguido ou na figura do segredo de justiça (estatuto e figura invocadas conforme as conveniências) para não responder ao que lhe era incómodo, à medida que ia tecendo, ao seu ritmo e com particular gozo, as vestes de «vitima» de um «sistema» que serve «outros interesses» que não os conducentes à Verdade.

A RTP é, hoje em dia, no que respeita à informação, um lugar pouco recomendável. Ou melhor: bastante recomendável para quem queira observar ou estudar a influência e a omnipresença do poder executivo sobre um meio de comunicação social que tutela. Nada é deixado ao acaso. Nunca se viu tanto enviesamento e manipulação.

Sábado, Dezembro 12, 2009

O meu herói

Façam o favor de

Bom fim-de-semana

Bom fim-de-semana


Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Começar mal

Sentámo-nos. Pedimos a carta. Tratava-se do Sushi Bar de um hotel, em Évora. A carta era tão diversificada quanto o cabelo do Mário Almeida. A opção «um pouco de tudo» revelava-se minimalista. Chama-se o empregado. Conversa do empregado: “Já conhecem o nosso Sushi Bar?”. “Não, é a primeira vez”. “Informo que já houve quem nos comparasse com o Aya, em Lisboa”. Mais sorriso plástico. Mais silêncio confrangedor.

Eh pá, não dá.

Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

O grau menos que zero da política portuguesa

A expressão «espionagem política» - expressão querida ao Partido Socialista, que o mesmo tratou de repescar do tempo em que, por causa de um processo de pedofilia (de há trezentos anos atrás), também se achou alvo de graves urdiduras, mandando então às malvas qualquer pingo de respeito pelo sistema judicial português -, esta expressão, dizia, foi reciclada e relançada pelo ministro da Economia do governo da República (estranha relação esta, entre a pasta e a matéria das declarações). Alegadamente, segundo o ministro, alguém aproveitou uma investigação sobre um caso «menor» de corrupção (a corrupção em Portugal está de tal forma banalizada e enraizada nos costumes que não passa disso mesmo: de um redondo vocábul0) para «espionar» o primeiro-ministro a coberto dessa mesma investigação, fazendo, a posterior, uso indevido (leia-se «político») das conversas.

Daqui se depreende, de forma simples e sem margem para dúvidas, que um ministro deste país acredita, está convicto e supostamente terá provas (um ministro não falaria de ânimo leve destas matérias) de que o Ministério Público e o juiz de instrução pactuaram num caso de «espionagem política», provavelmente envolvidos com membros de outras forças políticas, contrárias ao governo.

Na prática, chegámos até aqui: um ministro deste país, secundado pelo partido do governo, contribuiu activa e deliberadamente para engrossar a lama em que está envolvido o sistema de justiça português, lançando suspeitas gravíssimas sobre investigadores, magistrados, políticos, etc. E ninguém pareceu importar-se e os que se importaram cairam no caldeirão mesquinho da «disputa política» ou, claro está, da «maledicência).

Não contente com a expressão «espionagem política» (fraquita, de facto, assim isolada, vaga, quase obscura), tratou-se, a semana passada, de ligar um partido e um líder ao PUEC -Processo de Urdidura em Curso: o PSD e a Dra. Manuela Ferreira Leite. Como? Simples: quando a Dra. Manuela Ferreira Leite andou, em plena campanha eleitoral, a dizer que o Sr. Eng. José Sócrates tinha mentido ao país por causa do caso TVI, ela já dispunha, certamente, de cópia, em Dolby Surround, das conversetas do Sr. Eng. Sócrates, ao telefone com amigos. Só assim se compreendem as «certezas» da Dra. Manuela.

Deixemos de parte aquela que será uma das mais descaradas e burlescas confissões de culpa de um primeiro-ministro (“é mentira, é, mas como é que vocês souberam disso, hã?!?!”). Lembremo-nos apenas da notícia de 27 de Junho de 2009, do semanário Expresso:

Governo já conhecia negócio PT/TVI desde o início do ano


O Governo acompanhou todo o processo de venda de parte da Media Capital(dona da TVI) pelos espanhóis da Prisa. Desde Janeiro que a hipótese de a PT entrar na empresa era defendida pelo Executivo de Sócrates, podendo ser feita directamente ou via Espanha, onde a Prisa pode sofrer uma recomposição accionista. Sócrates e Zapatero estiveram sempre a par.


Estará o Expresso envolvido na urdidura? Esperam-se, para breve, declarações nesse sentido do Sr. Ministro dos Assuntos Parlamentares e do líder da bancada do PS. Na defesa de um santo, todos são poucos.

Mistério

Onde estão aqueles que invocaram o «interesse público» como justificação absoluta e nobre para a violação de correspondência privada entre dois jornalistas do Público, sobre matéria «grave», e agora nada dizem sobre o «interesse público» de se conhecerem as razões que levaram dois juízes deste país a extraírem certidões por considerarem haver matéria «criminalmente relevante» nas conversas telefónicas entre o Sr. Armando Vara e o Primeiro-Ministro de Portugal?

Terça-feira, Novembro 24, 2009

"Não gosto de ser sequestrado. É uma coisa que me chateia, pá"

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

"Dá muito nas vistas", diz o arquitecto

Mal que pergunte mas... o que é que é isto?!



Na foto: igreja em forma de barco que Troufa Real desenhou para o Alto do Restelo, e cuja construção começou ontem.

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Say hello to your mother

É cair, é cair

É lixado

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Sim. Jeremy.

O Sr Maradona (proprietário e CEO do melhor blogue na categoria "unipessoal com média de visitas diárias acima das 1.300") concorda comigo na avaliação do novo Porsche Panamera. Nada de especial (fico por aqui, assumindo a minha qualidade de ignavo quando o que está em jogo é criticar esta extraordinária marca de automóveis). E volta a ter razão, este excelente bloguista e esta inestimável pessoa (uma e a mesma pessoa), quando dá conta do tremendo bocejo que o Hammond e May tendem a provocar sempre que actuam por sua conta e risco (sem a sombra tutelar de Mr Clarkson). Em contrapartida, o novo Porsche 911 Turbo acabou de chegar. Não digo mais nada. Ou melhor, digo apenas isto: caixa de 7 velocidades PDK, PTV (distribuição variável e dinâmica de torque), DFI (injecção directa electromagnética), VTG (turbo de geometria variável), 500 cavalos. Fico por aqui.

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

A man who has made the mistake of believing his own publicity

Simon Heffer in The Daily Telegraph 04/11/2009

It's Barack Obama's first anniversary - but there's precious little to celebrate

A year ago, almost to the minute, I was here in New York, watching television reports of the aftermath of the election of Barack Obama as 44th President of the United States of America. I recall the sight of a lachrymose woman from the Midwest, standing outside her run-down house as the sun rose, giving thanks for her deliverance: not from George W Bush, but from the threat of foreclosure. I have no idea whether this poor woman kept the roof over her head; all I know is, if she did, it would have been no thanks to Mr Obama.

On the anniversary of his election, he is busy with unpleasant confrontations with reality. As my colleague Toby Harnden reported so graphically last week, the honeymoon is over. Never in American politics has someone come to power on such a bubble of expectation; never, inevitably, has the pricking of that bubble caused such shock. America may just have come out of recession, but things remain bad. Ten per cent of the workforce is unemployed: here in New York, perhaps the most dynamic and prosperous city on the planet, the figure is even higher.

The rhetoric that bore Mr Obama to office proved equal to electoral success, but not to economic management. Moreover, Mr Obama's most coveted legislative aim, the creation of a sort of national health service, remains elusive. The Wall Street Journal, the newspaper here of serious money, has just savaged the Bill as perhaps the worst inflicted on the American people since the era of Roosevelt. Its projected cost – $1.055 trillion over 10 years – is regarded as madness when America has a level of debt so astronomical that it (just) exceeds, per capita, that of Britain; and few outside a hard core of Obama devotees see it delivering what is needed, where it is needed.

Internationally, the lustre has worn off, too. Mr Obama might have won the Nobel Peace Prize, but the less said about that the better. The award was apparently decided in February, days after he entered the Oval Office. He gave up his missile defence system in eastern Europe: we all imagined the Russians would give something in return, but we are still waiting. More recently, he went to Copenhagen to try to secure the 2016 Olympics for Chicago, and failed. While this did little more than provide amusement to many, it damaged him in America, and outraged his true believers: perhaps the emperor had a small wardrobe after all.
Now he is immersed in a deliberative exercise about whether to send more troops to Afghanistan. As is the lot of politicians, he will be damned if he does and damned if he doesn't. What the dilemma illustrates is that governing is not so easy as it might once have seemed; that you cannot please all of the people all of the time, so there is little point trying; and that the expertise of the Obama campaign in managing image is useless when managing a country. Tony Blair, had they asked, could have told him that.

For all the difficulties of America's imperial burden, it is the domestic, and particularly the economic, front that Mr Obama and his colleagues are finding hardest to defend. America rejoiced when unemployment dropped in July, but the dawn was false. In the next two months it rose again by nearly 700,000. The projected cumulative deficit for the next 10 years is now $9 trillion, having just been revised upwards by $2 trillion. Perhaps it is because these sums are incomprehensible that Americans are no longer shocked by them: but someone will have to pay. There is no sign of the budget going into the black in any of the next 10 years: the projection for 2019 is still that it will be 4 per cent of gross domestic product (it is between 11 and 12 per cent now). The health care plans, were they to be enacted, would make this dire situation even worse. They can be funded only by higher taxes, which is no doubt fair if everyone wants such a system, but far from everyone does. And, as I have written in relation to our benighted economy, the growth that might ease the problem will only be depressed by higher taxes. The stimulus package of $787 billion has paid few dividends ("He didn't even read the Bill, he just signed it," a Republican told me): as at home, serious cuts in spending are not on the agenda. The dollar remains a reserve currency, but has been heading south. For all the supposed brilliance of Timothy Geithner, the Treasury Secretary, and Larry Summers, Mr Obama's chief economic adviser, they are still looking for the paddle.

Mr Obama seems also to have made another bad mistake. Apparently shocked by the virulence of Fox News Channel's attacks on him, he has declared war on the network. We can imagine what would happen if a British head of government were to try to take on an arm of the media, and it has happened here. Many voters feel the President has diminished himself by admitting to being so bothered by Fox, which for its part has turned up the abuse.

So too has Rush Limbaugh, the talk radio presenter, whom Mr Obama and his friends have made the mistake of branding the leader of the Republican Party. That was meant to be an insult to the Republicans: it has transmuted
into a further proof of the administration's weakness, and has elevated Mr Limbaugh to an even higher position of influence. The President appears thin-skinned, immature and inexperienced. Mr Limbaugh now taunts him outrageously to see what reaction he can provoke, such as by saying last weekend (on Fox, of course) that the President's attendance at the repatriation of dead American servicemen was a "photo opportunity" contrived because his popularity was slumping. The gloves are not just off; the knuckledusters are on.

To use another old cliché, Mr Obama looks like a man who has made the mistake of believing his own publicity. His adherents in the media are now so defensive that they have started complaining about the rules – implying that the exercise of free speech by the likes of Mr Limbaugh verges on the traitorous, and is preventing the President from doing his job properly. Any excuse, we must suppose, will do.

For his part, Mr Obama is engaging in acts of deference to the Democratic majority in Congress – as a Chicago machine politician probably has to, for genetic reasons – that are exceeded only by his acts of deference to the unions, who have never had it so good, and who were the reason for his absurd decision to put tariffs on tyres imported from China.

By the time you read this you will know whether the Democrats have lost a series of key elections held yesterday, including the governorships of Virginia and New Jersey. If they do, it will reinforce the point that Mr Obama won last November because he was not the heir of George Bush, and for no other reason. The President starts to risk comparisons not just with Jimmy Carter, but with Lyndon Johnson, felled by a combination of a foreign war and welfare reform, and even, with his list of enemies, Richard Nixon. The problem may be one of immaturity and inexperience. If so, he had better learn fast. For, at this rate, next year's congressional elections start to look more than challenging for him.

Coliseu

Ou muito me engano...

...ou ainda vamos ter saudades deste senhor, nos assuntos parlamentares:

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Não gosto muito do Panamera, mas o anúncio é redentor

My name is

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

A «roubalheira» do PS?

Espera-se a todo o momento que o Sr. Capoulas Santos e o Professor Doutor de Coimbra Meu Deus! Vital Moreira, exijam, em nome da coerência e da vergonha na cara, que o PS se pronuncie sobre «a roubalheira» em que estão envolvidas «figuras gradas» do PS.

Terça-feira, Outubro 27, 2009

E isto pouco ou nada tem que ver com a liberdade de opinião, somente invocada para disfarçar a ignorância

Richard Zimler ao Ípsilon in Público:

Concluindo, custa-me compreender como é que alguém, ainda que vagamente familiarizado com a filosofia e a literatura ocidentais, pode acreditar que erguer-se em 2009 contra a crueldade contida no Antigo Testamento tem alguma coisa de novo ou de chocante. Ou sequer interessante.

O que é interessante é perguntarmo-nos por que razão exige Deus uma tão absoluta fidelidade aos israelitas e os castiga tão brutalmente por Lhe desobedecerem. Por que são outros povos, como os cananitas, olhados com tanto desprezo. O que diz tudo isto sobre as condições políticas e sociais em Israel em 500 a.C. E o que diz a relação de Deus com Israel sobre a "natureza tribal" das religiões da antiguidade.

Estes, sim, são temas importantes a merecer respostas sérias dos estudiosos.

Mas, naturalmente, nada disto mereceu a atenção de Saramago nem dos que reagiram às suas críticas ao Antigo Testamento. O que me traz ao aspecto mais perturbador e alarmante de toda esta tola controvérsia. Os jornalistas e os responsáveis religiosos portugueses de um modo geral trataram os comentários de Saramago como importantes! Graças a eles, os meios de comunicação deram-lhe mais tempo na televisão e mais espaço nos jornais do que a outras questões muito mais importantes. E alguns representantes da Igreja Católica atacaram-no com uma ferocidade emocional que revela bem que consideram tais opiniões sobre o Antigo Testamento como um obstáculo à fé. Mais uma vez, tal como salientei mais atrás, os comentários de Saramago não são nem chocantes nem novos. E apenas representam um obstáculo à fé para quem não tenha a menor ideia do que é e do que pretendia ser o Antigo Testamento. As críticas de Saramago são unicamente banalidades superficiais, que revelam uma profunda ignorância da filosofia e da religião ocidentais e uma total incompreensão da linguagem poética e narrativa de desde há mais de três mil anos. Só quem ignora tal herança, jornalistas e responsáveis religiosos incluídos, poderia tornar o patético desabafo do romancista numa tal polémica. E, para mim, essa foi a parte mais desanimadora e mais perturbante de toda esta "inventada" notícia: descobrir que na sociedade onde vivemos, entre os seus membros mais ilustres e cultivados, possa prolongar-se tão lastimosa ignorância de uma parte importantíssima do legado civilizacional da filosofia e da cultura ocidentais.

Sábado, Outubro 24, 2009

Um épico absoluto

Vasco Pulido Valente in Público 23/10/2009

Um farsa

O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum. Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito. Claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele. Mas, se há desculpa para Saramago, não há desculpa para o país, que se resolveu escandalizar inutilmente com meia dúzia de patetices.

Claro que Saramago ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada, e vendeu milhões de livros, como muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita. E claro que o saloiice portuguesa delirou com a façanha. Só que daí não se segue que seja obrigatório levar a criatura a sério. Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena. Depois do que fez no PREC, Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve.

O regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha. É um privilégio que devemos intransigentemente defender. O Estado autoriza Saramago a contribuir para o dislate nacional, mas não encomendou a ninguém? principalmente a dignatários da Igreja como o bispo do Porto - a tarefa de honrar o dislate com a sua preocupação e a sua crítica. Nem por caridade cristã. D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre o tarde, certos dotes de nascença e de educação. O que, finalmente, espanta neste ridículo episódio não é Saramago, de quem - suponho - não se esperava melhor. É a extraordinária importância que lhe deram criaturas com bom senso e a escolaridade obrigatória.

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Check it

Ricardo: isto também é muito bom:



Sleeping States In The Gardens Of The North

Muito bom

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Pela segunda vez, Sr. José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa

Notícia Público:

Pela segunda vez, José Sócrates não obteve junto da Justiça uma decisão favorável ao processo que apresentou contra o colunista do “Diário de Notícias” João Miguel Tavares, avança hoje o próprio jornal. Na origem do caso está o artigo "José Sócrates, o Cristo da política portuguesa", publicado em Março deste ano, que o primeiro-ministro considerou "calunioso e ofensivo".

Na primeira vez que o caso foi levado a tribunal, o Ministério Público decidiu arquivar o processo. Na segunda vez que José Sócrates insistiu na queixa, a resposta foi também o arquivamento. Para o juiz do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa que analisou o caso, o artigo em causa pode ser crítico quanto ao político mas é também uma "manifestação legítima de uma opinião", como cita o DN.

Em causa está o artigo "José Sócrates, o Cristo da política portuguesa", que João Miguel Tavares escreveu depois de uma intervenção de José Sócrates no Congresso do PS, na qual este criticou alguns órgãos de comunicação social. No seu texto, sustentou que Portugal é dirigido por “um homem [José Sócrates] sem o menor respeito por aquilo que são os pilares essenciais de um regime democrático", referindo-se ainda à “licenciatura manhosa” do primeiro-ministro.

Para o secretário-geral do PS e primeiro-ministro, o texto do colunista do DN além de "calunioso e ofensivo", questionava a sua "integridade moral", recorda o diário.

Apesar dos argumentos apresentados por Sócrates, Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa realçou a questão da “liberdade de expressão”, que prevê a “possibilidade de poder questionar as acções e opções políticas de um político”. Para o juiz de instrução criminal, “é também neste tipo de situações que o direito à honra tem de ceder em prol da liberdade de expressão”. Assim, o tribunal considerou que o artigo em causa é um texto que "se encontra plenamente inserido no exercício da liberdade de expressão".
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