O MacGuffin

sábado, Setembro 06, 2014

Unidade imaginária

Devo ser o único tolinho à face da terra a achar - como sabem, o português gosta de «achar» e, mais ainda, de dar a conhecer os seus «achamentos», não vá o mundo sofrer dessa subtracção – devo ser o único, dizia eu, a achar moderadamente obscenas as aparições dos «agentes» culturais em jornadas de «apoio» ao Dr. António Costa, esse indesmentível «gajo porreiro» da democracia portuguesa.

(É também sabido que o português gosta muito de «apoiar». É uma coisa que lhe está no sangue: «apoiar». No âmbito em apreço, a tendência é de associação: «apoia-se» em congregação, não vá a solidão tecê-las.)

Não querendo pôr em causa o arraial, pergunto: que é feito do homo culturales bicho-do-mato, anti-sistema, revoltoso, para sempre entregue à pálida solidão criadora (e assim sucessivamente)? Finou-se. Faleceu. Bateu as botas. Agora é só alegria, confraternização e pancadinhas nas costas. O Sr. Botelho cineasta, por exemplo, que ainda recentemente arrecadou apoios de natureza a mais diversa – na forma e no sujeito, incluindo o «apoio» pecuniário da CML, presidida pelo Dr. Costa – não teve pejo em despejar um muito jeitoso panegírico sobre “o Costa e o Zé Sá Fernandes”. You scratch my back, I’ll scratch yours. O que prova que o pudor é qualidade em avançado estado de rarefacção.


O que nos salva nestes relapsos públicos laudatórios, é podermos observar o lado cómico-trágico do exercício. Por entre o tilintar do vermute e uns pastéis de ansiedade, a trupe da cóltura ainda não se deu conta de que não vai poder esperar muito do Dr. Costa, quando este ocupar o alopécio cargo. A conclusão é trágica: a aritmética não quer nada com a Cultura.

sexta-feira, Fevereiro 07, 2014

A assoar-se na gravata por engano

Vasco Pulido Valente, Público 07/02/2014

A que propósito andamos nós preocupados com Miró? 
"Quem foi Miró? Um defesa do Bilbau? Uma fragata da marinha chilena? Um cantor da Costa Rica? Uma fábrica de figuras de porcelanas? Há quatro ou cinco semanas apareceu no programa de Manuela Moura Guedes, minha querida amiga, um concorrente que tinha uma vaga ideia de quem o indivíduo fosse. 
De resto, em Dezembro, 99 por cento dos portugueses nunca tinha ouvido falar, nem queria ouvir falar em Miró. Na oceânica ignorância em que “a geração mais bem preparada de sempre” rejubila, isto é um pormenor sem qualquer importância. Eles não sabem nada de pintura, como de literatura, como de história; nem sequer sabem que a água ferve a 100 graus C; mas conhecem em pormenor as bandas pop com que foram criados e muito mal criados, e o que se passa dia a dia no facebook. 
Talvez não seja inútil observar que o surrealismo, como seria de esperar, influenciou em Portugal muito mais profundamente a literatura do que pintura. Alexandre O’Neill e Mário Cesariny não são comensuráveis com, por exemplo, Da Costa e Vespeira. O’Neill mudou a língua, Vespeira pouco mudou. Por outras palavras, o surrealismo entrou em Portugal como várias modas da França ou, se quiserem, “tendências” que transformaram um pouco o curso da cultura indígena, mas que no fundo não romperam com ela, nem (excepto no caso de O’Neill) lhe trouxeram nada de novo. Quem conheceu algumas das personagens da época não ignora que Miró não meteu para aqui prego nem estopa. Em 1950 não era mais conhecido e admirado do que as centenas do que Salazar não permitia que se visse ou falasse. 
Por tudo isto, espanta agora que se diga, na oposição e no governo, que os Mirós do antigo BPN, adquirido por meios que por enquanto ainda não se tornaram claros, ascenderam a “património nacional”. Não o são pela origem, não o são pela natureza e, principalmente, pelo quase nulo peso que exerceram sobre a pintura local. Conservar aqui uma colecção de 85 Mirós não faz qualquer sentido, nem servirá (na falta de um verdadeiro museu de arte moderna, decentemente organizado) para instruir ninguém. A polémica sobre a colecção Miró é outra triste manifestação da saloiice atávica. Não se investe na reabilitação urbana, nem em monumentos em ruínas ou perto disso, nem em bibliotecas, nem em arquivos. Mas precisamos, urgentemente, de 85 Mirós."

segunda-feira, Fevereiro 03, 2014

Da praxe

Mário de Carvalho (daqui):

O PRAXISMO-JAVARDISMO 
"Antes da REACÇÃO contra a revolução do 25 de Abril de 1974, não havia praxe em Lisboa. O espírito crítico de um escol cultural, prevalente na Universidade, tinha padrões exigentes. Ensino superior não queria dizer ensino inferior. Era uma elevação sobre a miserável circunstância dominante. A praxe era considerada – e bem -- COISA DE LABREGOS. 
Em Coimbra, nos anos sessenta, após as críticas corajosas de Flávio Vara (“ O Espantalho da praxe…” 1958) e a chegada de uma geração mais desempoeirada, a praxe quase desapareceu. Reinstalaram-na depois com todo o seu fétido programa passadista. 
A praxe é o abraço alcoolizado entre o ricaço marialvão, abrutalhado e analfabeto e o povoléu boçal e trauliteiro, folclorizando o servilismo medieval em vestes eclesiásticas. Ao fim e ao cabo, o velho Portugal alarve, mendigo, medievalóide e agachadinho, mas de telemóvel em riste. 
Não se ponderem gradações entre um medievalismo civilizado e um medievalismo excessivo. Toda a praxe é desprezível. No estado a que as coisas, desgraçadamente, chegaram, proibir seria contraproducente. Mas há muitas formas de desencorajar. E os professores – que têm sido, aliás, de uma distracção cúmplice (mea culpa) – sabem isso bem. 
Oxalá os estudantes se dêem conta de como foram inferiorizados e transformados em «jovens velhinhos» por uma súcia rasca. 
Tanto mais que a situação assume contornos sinistros e mafiosos. Ao que parece, com “omertà” e tudo. Um atavismo lusitano vem fazer de hífen entre a tradição siciliana e o nórdico Nacional-Socialismo. Pior que mera COISA DE LABREGOS."

quinta-feira, Janeiro 30, 2014

Didas

Miguel Esteves Cardoso, Público 30/01/2014

Para a Marieta 
"Anteontem morreu a nossa gata Marieta. É impossível não pensar nela. Vivia connosco desde 1998 e era pouco maior do que quando era pequenina. Era uma persa-tartaruga elegante, resmungona e selectiva. Quando a Marieta gostava de uma pessoa ou de um gato (o Agostinho), gostava com o coração todo e não vacilava. 
Era uma grande amiga e uma grandiosa inimiga. Quando não gostava de uma pessoa (toda a gente) ou de um gato (todos os gatos, especialmente o Casimiro), toda ela se transformava num diabrete de snobismo, desprezo, nojo, violência e assanhamento. 
Nunca conheci um bicho mais meiguinho ou mais doido por festinhas e companhia. Nunca se ia embora. Ia-se derretendo. Virava-se e oferecia a fofura da barriguinha. Babava-se de tão contente. Era a imperatriz da sensualidade. Quando esteve com o primeiro cio, antes de ser esterilizada, a fúria sexual dela era avassaladora. Não sabia que coisa era a timidez, a vergonha ou o fazer-se cara. 
Era uma brincalhona séria: compreendia, como poucos gatos e nenhum cão, que brincar é um bem de primeira necessidade. Não se divertia quando brincava: empenhava-se e tentava vencer, não descansando enquanto não vencesse. 
Todos os dias muitos seres humanos perdem não apenas a companhia como a presença e a existência dum ser melhor do que o humano com uma personalidade menos apessoada e fingida do que a nossa. 
A Marieta era uma dessas pessoas. Que choramos: agora somos nós os que chamamos por ela. E ela não vem."

sexta-feira, Janeiro 24, 2014

Mais conservadores

Francisco José Viegas:
“A “crise” obrigou-nos a repensar o modo de vida e a forma como lidamos com as coisas banais: o preço da bica, as compras de Natal, a roupa do ano passado, os gestos menores do dia-a-dia, as meias-solas para os sapatos, a ida ao restaurante. Dificilmente iremos encarar o futuro com a mesma leviandade. Há quem se lamente de que, assim, ficamos “mais conservadores”. Se for verdade, é uma vantagem, porque a “saída da troika” não significa o recomeço das festividades ou o regresso ao tempo em que a prosperidade se vendia ao preço do pechisbeque, cheio de engenharias financeiras. Voltaremos a ser portugueses de antanho, provavelmente, renitentes em relação às ilusões do progresso barato, céticos quando se tratar de fazer contas. Os nossos carros terão doze ou quinze anos. A nossa biblioteca será revisitada. Os nossos casacos terão cotoveleiras. Estaremos mais atentos à vida que construímos. Assim serão os anos que vêm.”

sexta-feira, Dezembro 20, 2013

Da parlapatice

Vasco Pulido Valente, Público 20/12/2013

Sem barulho

"A esquerda “sem filiação” devia arranjar outra maneira de se entreter. O dr. Manuel Carvalho da Silva, depois de ter garantido na Rádio Renascença que não tencionava fundar um novo movimento político, assinou um papel em que se comprometia a fundar um “amplo” movimento político que apoiasse uma candidatura ao Parlamento Europeu.
O dr. Carvalho da Silva não é evidentemente obrigado a pensar hoje o que pensou ontem; e de toda a evidência nada lhe garantia ser o n.º 1 de uma lista eventual do “Partido Livre”. Apareceu, assim, um manifesto, o “manifesto 3 D”, que oferece uma espécie de paraíso aos portugueses, desde “erradicar a pobreza” a “pôr fim aos resgates, com esse ou outro nome”. Não falta nesse caderno de encargos nada que um adolescente analfabeto não pudesse querer, excepto a ideia um pouco obsoleta de ressuscitar os mortos.

Os 3 D do Partido Socialista em 1974 eram “descolonizar, democratizar e desenvolver”. Os 3 D de hoje são “a dignidade, a democracia e o desenvolvimento”. Aparentemente, 40 anos não chegaram para o trivial, apesar dos fundos da “Europa” e muita parlapatice. Como os promotores do “movimento” dizem, e dizem bem, “é tempo” de tratar seriamente do caso. Infelizmente, a grande maioria desses promotores já tentou e já falhou na missão urgente de salvar a Pátria. Vieram do PC, do Bloco, do PS, do vaporoso “Partido Livre”, mesmo do lúgubre PRD do general Eanes. Ou seja, arrastam atrás de si uma carreira de tristeza e fracasso, de inutilidade e arrependimento. Muitos estão, de resto, reformados e não se deviam meter em aventuras liceais, deviam ficar em casa a beber chá e a ler os livros que não leram.

O actual modo de vida dos “promotores” também não inspira uma especial confiança. Há dúzias de professores de Lisboa e de Coimbra, artistas de vária pena e pinta, um doutorando em “estudos de cinema” e um humorista. Mas ninguém, ou quase ninguém, ligado a uma empresa, ou a uma câmara, ou a qualquer serviço da administração central. O “programa” do “manifesto” mostra esta ignorância essencial. Parece que os “promotores” imaginam que a sua vontade só por si, reunida, por exemplo, num hotel ou no Teatro Trindade, basta para mudar o mundo e o país. Não basta, como é óbvio. Bastará talvez para eleger Manuel Carvalho da Silva (ou um anónimo solitário) deputado ao Parlamento Europeu, onde o mandarão calar como ele merece. A esquerda “sem filiação” devia arranjar outra maneira de se entreter. Sem barulho."

segunda-feira, Dezembro 16, 2013

Agora munido de um doutoramento

Vasco Pulido Valente, Público 15/12/2013
Como a esquerda se entretém
"A esquerda portuguesa é de facto extraordinária. Quando se provou que os partidos da esquerda se tinham metido num beco sem saída, a primeira ideia que veio à cabecinha das notabilidades da seita foi fabricar mais partidos, sempre à procura da mítica “unidade”, que por toda a parte desapareceu logo na sua auspiciosa criação. Excepto sob a autoridade da URSS, primeiro em Moscovo e a seguir no Comintern e no Cominform, a história do socialismo nunca passou de uma série de querelas, de cisões, de purgas, de assassinatos cometidos com suma piedade e zelo. Mas, pelos vistos, continua em Portugal, no ano de 2013, a mesma ambição de juntar os “verdadeiros” camaradas numa casa comum que domine a política nacional e acabe de uma vez com as terríveis desordens do capitalismo.

O Bloco de Esquerda, hoje defunto, começou com essas fantasias. Claro que o BE não tinha nada de esquerda: nem “massas” que o seguissem, nem um programa para a reforma do país, nem sequer uma estratégia: tinha só as famosíssimas “rupturas”. Mas protegido por alguns génios, que pretendiam enfraquecer o PC, teve até certa altura muito tempo de televisão. E apareceram de repente Miguel Portas, Francisco Louçã, Ana Drago e outros, com um arzinho de universitários sabichões, que atraíram em pouco tempo uma pequena parte da populaça. Eles diziam que eram “modernos” e a populaça julgava que a “modernidade” a esperava. Este equívoco durou quase 20 anos, enquanto a impotência do Bloco se não tornou evidente e Sócrates não se apropriou das “rupturas”. Sob vários pretextos, muitos ratos fugiram imediatamente do barco e ainda não deixaram de fugir.

Com o PC feliz no seu velho ghetto e o PS numa perpétua trapalhada, um antigo BE resolveu arranjar um “partido”, deliberadamente sem doutrina e disciplina, em que as prima-donas da esquerda pudessem falar à sua vontade e ser ouvidas, sem perturbação, por meia dúzia de gatos-pingados. Nada sairá deste concurso de asneiras, mas não interessa. A patetice pública alivia a alma. E estávamos nisto, quando Manuel Carvalho da Silva, agora munido de um doutoramento, tomou a estranha decisão de inaugurar um “movimento”, com o objectivo (adivinhem) de finalmente promover a “unidade” da esquerda. O “movimento” recebe quem lhe bater à porta: católicos, o BE, o “Partido Livre” e mesmo uns tantos comunistas na disponibilidade. É uma sopa turva de que inevitavelmente vai saltar uma dezena mais de partidos com a pedra filosofal no bolso. Deus nos dê muita paciência."

PS: Carvalho da Silva veio, entretanto, dizer que era falsa, a notícia do Público. O Público errou? Parece que sim.

segunda-feira, Novembro 25, 2013

O que tem de ser dito de uma vez por todas (e está muito bem dito)

Bruno Faria Lopes, Diário Económico 25/11/2013

A esquerda ainda sabe quem defende?

"Não assisti ao "encontro das esquerdas" na Aula Magna. Li os artigos de jornal sobre o evento, li o discurso de Pacheco Pereira e vi as imagens da plateia grisalha que as cadeias de televisão seleccionaram.

No final, sobrou aquela sensação familiar e deprimente: entre citações de O'Neill, elucubrações sobre a "destruição do país" e convites insidiosos à violência contra os governantes (que não devem ser perdoados só por virem do decano Mário Soares), os senadores da esquerda e da social-democracia não têm qualquer contribuição realista com que possam influenciar o curso dos acontecimentos ou sequer o debate. Ali se deu uma aula magna sobre o declínio merecido e preocupante da esquerda em Portugal (e na Europa).

Há muitas teorias sobre a fragilidade da esquerda numa altura em que, em teoria, deveríamos assistir ao oposto. Há quem sobreponha simplesmente uma linha de crescimento económico na Europa ao gráfico do número de governos socialistas no continente (a correlação é evidente) para concluir que a esquerda sempre teve dificuldade em governar com menos dinheiro para cumprir promessas. Há quem vá mais longe, como Rafaelle Simone ou Nick Cohen, autores de esquerda que fazem perguntas simples: Os líderes de esquerda ainda sabem o que vale a pena defender? Ainda sabem quem defendem?

Em Portugal, com uma parte da esquerda que não conseguiu ainda renunciar ao comunismo e outra que se faz de morta à espera que o poder lhe caia nas mãos, estas são perguntas com respostas incómodas. O exemplo paradigmático, num contexto de restrição financeira extrema, é a reacção ao corte nas pensões de sobrevivência para quem recebe mais de dois mil euros em pensões. Toda a esquerda (e a "social-democracia" do PSD, que é o PS moderado (sem o casamento gay) gritou "escândalo", mas uma sondagem mostrou que 75% dos portugueses concordam com a medida. Pudera: dois mil euros é quase o triplo do salário médio em Portugal. Pergunta-se então: a esquerda ainda sabe quem defende?

Mas há mais. O Governo acumula erros na eufemisticamente designada "reforma do Estado", corta com pouco escrutínio na Saúde, moraliza de forma constante para cima de um país que vai conhecendo enquanto governa - mas, o que defende a esquerda? A esquerda em Portugal tem uma política para a Administração Pública e a Segurança Social que anule a necessidade de cortes? Ou prefere defender um Estado social iníquo com mais impostos sobre quem trabalha? A esquerda sabe governar melhor dentro da restrição europeia que nos é imposta, e que parte da própria esquerda subscreveu? A esquerda sabe como influenciar a Europa liderada informalmente pela Alemanha de forma a flexibilizar essa restrição? A resposta para (quase) todas estas perguntas é "não".

Políticos à esquerda têm dificuldade natural em moverem-se em sociedades cada vez mais individualistas e votadas ao entretenimento - na vertente económica da política (não dos "valores"), esse é terreno mais amigo da direita. Mas a insuficiência gritante da esquerda e da social-democracia em Portugal é mais elementar: é a incapacidade em discutirem dentro da restrição financeira e do problema concreto do país (competitividade fraca para tanta dívida privada e pública).

Tal fragilidade preocupa porque entrega de bandeja à direita (a esta direita específica, de Passos Coelho) o discurso conveniente do "não há alternativa", reduz o escrutínio e diminui as opções viáveis de política. Por isso, da fuga do PS a propostas duras, aos apelos vazios dos ilustres senadores da Aula Magna, convém não ter ilusões. Não só pelos erros do passado, mas porque se demitem de contribuir no presente, também eles são responsáveis pelo "estado a que isto chegou"."

sexta-feira, Novembro 15, 2013

Da hagiografia

Vasco Pulido Valente, Público 15/11/2013

O último rei de Portugal

"Nas cortes do Absolutismo, o poder, a influência de cada um era medida pela proximidade do rei. A gente de importância ficava perto, a gente sem importância ficava longe. Em princípio ninguém falava
sponte sua à pessoa sagrada que representava a ordem política e a ordem social; esperava que lhe falassem e geralmente respondia com as fórmulas tradicionais que a etiqueta estabelecia.

A tentativa de Maria Antonieta para ser tornar “humana” e “popular” (indo ao teatro, por exemplo) prejudicou mortalmente a Monarquia e criou contra ela um ódio universal. Esta digressão vem a propósito da homenagem que a televisão e os jornais resolveram prestar a Álvaro Cunhal, no centenário do seu nascimento. Quase toda a gente, que se resolveu a partilhar as suas memórias do homem, o tratou como um soberano.

De Manuel Alegre a Herman José, não apareceu uma única solitária criatura que se atrevesse, a esta distância, a pensar nele como um homem. Verdade que o homem Cunhal se escondia por detrás da sua figura messiânica; antes de morrer sempre impediu que Portugal soubesse com quem vivia (ou vivera), o nome dos filhos (se existiam), que amigos tinha, como se divertia ou qualquer outra coisa susceptível de perturbar a imagem do “comunista de cristal”, que ele encarnava ou, pelo menos, pretendia encarnar. Não é coincidência que as personagens que por aí o incensaram ignorem quase totalmente a política e se lembrem muito bem de episódios triviais, em que o soberano magnanimamente desce à inferioridade dos serventes e cortesãos para se mostrar bondoso, sensível, irónico e até paternal. Nas memórias que escreveram depois da revolução, os fiéis do “martirizado” Luís era assim que o lembravam.

Como hoje se lembram de Cunhal os militantes do PCP, os “companheiros de caminho” e umas largas dúzias de patetas. O indivíduo que planeava transformar Portugal numa espécie de Bulgária do Ocidente, o promotor do PREC, o responsável pelas “nacionalizações” e pela ocupação dos “latifúndios”, o desorganizador da economia, o inimigo da “Europa”, esse parece que desapareceu. Só resta, com muito sentimentalismo, como ele gostaria, a máscara do
soberano, perante a qual ainda uma pequena parte do país se acha obrigada a genuflectir. A consciência histórica dos portugueses é um óptimo reflexo da inconsciência que os trouxe à miséria e ao desespero."

sexta-feira, Novembro 08, 2013

Da genitália desnudada

Vasco Pulido Valente, Público 08/11/2013
Queremos perceber

"A RTP, estação oficial, oferece agora de madrugada (à volta das duas da manhã), ao pequeno grupo dos seus fiéis, pornografia light e um pouco mais, talvez para aumentar uma audiência em risco de extinção. Desde segunda-feira, passou um documentário sobre o Crazy Horse, para quem está particularmente interessado na anatomia feminina e se diverte com o espectáculo, presumivelmente erótico, de um travesti. E passou também dois filmes do artista espanhol Bigas Luna (ou do Panamá, da Costa Rica ou do Peru, é indiferente), em que o light já anda perto do hard e se mostram, dentro da variedade possível, e com grande devoção e um inusitado brilho, exercícios sexuais que certamente contribuem para a educação do povo boçal e a alegria do país.

Não sou pudibundo, nem tenho nada contra aqueles que gostam ou precisam de pornografia, light ou hard, para o seu descanso. Mas não deixa de me intrigar a razão por que a RTP resolveu escolher este audacioso caminho. Por equívoco? Por um acaso feliz no meio da trapalhada vigente? Por uma subtil estratégia de programação? Ou por simples zelo do princípio constitucional da igualdade, a benefício das velhinhas de Trás-os-Montes, sem computador, que nunca foram a Paris, ao Meco ou às praias do Algarve? Por mais que pense não consigo decidir. Nem, de resto, a própria Igreja Católica Apostólica Romana, que sob a influência do Papa Francisco leva hoje estas coisas com evangélica tolerância. Só que desgraçadamente, em tempo de crise, as dúvidas não acabam aqui.

Qualquer cidadão que paga a RTP com a conta da electricidade ou com impostos, a pretexto de que a RTP é um serviço público indispensável, perguntará com certeza se a pornografia light ou hard é um serviço público. O ministro Poiares Maduro já declarou que o futebol (no mínimo, um jogo por semana) era um direito imprescritível dos portugueses. A súbita aparição da pornografia a horas recatadas vem da mesma generosa visão? E, se vem, a que outros campos se alarga ela? Imagino muitos, mas não quero limitar a liberdade criativa da RTP, e menos a do sr. Maduro. De qualquer maneira, a pergunta essencial pede resposta: que espécie de argumentos justificam a promoção (admito que merecida) da pornografia a serviço público? Nós, que a sustentamos, queremos perceber."

sexta-feira, Outubro 25, 2013

A prova escolar de um ego

Vasco Pulido Valente, Público 25/10/2013:

Quem quererá, agora, falar com ele?

Para José Sócrates a classificação de quem o contraria é simples. O PSD é um conjunto de "pulhas" e de "filhos da mãe" (calculo que a expressão foi, por assim dizer, mais vernácula) e em geral "a Direita é hipócrita". Santana é um "bandalho". Teixeira dos Santos teve "uma atitude horrível connosco", ou seja, com ele. Schäuble, o ministro das Finanças da Alemanha, é um "estupor". E por aí fora. De resto, ele, Sócrates, quando falhou (e, na opinião dele, quase não falhou) não teve nunca a mais vaga responsabilidade ou culpa: a verdade está em que grupos de "pistoleiros", incluindo a Casa Civil do Presidente da República, tentaram sempre impedir que ele governasse e espalharam infames calúnias para "atacar" o seu impoluto "carácter". Apesar de primeiro-ministro, não passou de uma vítima.
 
Vale a pena repetir o que toda a gente já sabe? Vale, porque este "chefe" (como ele mesmo se descreve) e este acrisolado democrata (como ele se declara) saiu do assento etéreo onde subira, com um saco de ressentimento e ódio, que excede, e excede por muito, o de qualquer político desde que existe um regime representativo em Portugal. Ninguém, por exemplo, disse como ele que não queria voltar a "depender do favor do povo", a quem atribui uma larga parte das suas desventuras. Dar uma réstia de poder a semelhante criatura (visto que Deus não parece preparado para o ungir) seria inaugurar uma campanha de represálias contra Portugal em peso: contra a "aristocracia" do PS (que ele se gaba de ter "vencido"), contra a Direita, contra o velho Cavaco, hoje apático e diminuído, e principalmente contra o povo, que não votou por ele em 2009.

Ora Sócrates, protestando o seu desinteresse pela vida pública e as suas novas tendências para a filosofia, com a convicção de um adolescente analfabeto, só pensa em abrir o caminho para um memorável ajuste de contas. Uma entrevista justificatória na RTP, um programa de "opinião" também na RTP e, agora, o lançamento de um "livro", para inaugurar um estatuto de "intelectual", a que nem sequer faltou Mário Soares, Lula da Silva e uma assistência de "notáveis", seleccionados por convite. O supracitado "livro", absolutamente desnecessário, é de facto uma prova escolar (uma "tese" de mestrado), sem uma ideia original ou sombra de perspicácia, que assenta na larga citação e paráfrase de - vá lá, sejamos generosos - 30 livros, que se usam pelo Ocidente inteiro, e em algumas fantasias francesas (
Sciences Po oblige). O extraordinário não é que Sócrates se leve a sério, o extraordinário é que o levem a sério. Mas claro que o "lançamento" não foi de um "livro".

sexta-feira, Setembro 20, 2013

Quem se espantar que se espante primeiro de si

Vasco Pulido Valente, Público 20/09/2013

Nada de espantar
 
"Joaquim Pedro Oliveira Martins (que não se parece nada com o neto ou trineto) foi o homem que melhor percebeu o Portugal da segunda metade do século XIX. Os políticos de falam hoje constantemente de "erros do passado", mas sem nunca explicar de que "erros" se trata e sem nunca dizer com alguma clareza o que espera o país. Com outro carácter e coragem, Oliveira Martins escreveu, em 1894, que a "nação" "se encontrava" perante uma pergunta "vital": "Há ou não há recursos bastantes, intelectuais, morais, sobretudo económicos, para subsistir como povo autónomo dentro das estreitas fronteiras portuguesas." Como se chegou aqui em 1894 e como se chegou aqui em 2013? Num artigo breve e claro, Oliveira Martins tenta responder. E a resposta só surpreenderá o pior analfabeto em circulação. 
Em 1851, no começo da maior expansão do capitalismo na Europa, as potências financeiras do tempo (a Inglaterra e a França) voltaram a ver em Portugal uma boa oportunidade "a explorar" e as bolsas, "passando a esponja do esquecimento" sobre as "bancarrotas" anteriores, "abriram os seus cofres". Em 40 anos, o nosso "Tesouro Público (...) conseguiu obter por empréstimo uma soma aproximada de 90 milhões esterlinos efectivos, em bom ouro". O resultado acabou por ser um "cenário", "que dava a Portugal a aparência de um país rico", "coalhado" de caminhos-de-ferro e também de estradas, com dois portos modernos, Lisboa e Leixões. E os governos iam garantindo a paz doméstica com o "comunismo burocrático", que vinha substituir o antigo "comunismo monacal": o Estado contratou "muitos milhares de funcionários, mais ou menos opiparamente prebendados", "a legião nova dos beneficiados de obras públicas" e centenas de concessionários", que rapidamente enriqueceram. 
Infelizmente, não se podia viver "salariando a ociosidade" e "suprindo a escassez do trabalho interno com subsídios oficiais", à custa do dinheiro de fora. Portugal não se aguentaria, se continuasse a depender de "recursos estranhos ou anormais" e não do "fruto" da sua produção e economia. Isto "não era segredo para ninguém mediocremente instruído". E não se deve considerar o fontismo um erro, como não se deve considerar a política da II República um erro ou uma série de erros. Nos dois casos, a "fortuna enganadora" do país serviu a ambição e o interesse da elite que tomou conta do regime e de uma classe média ignorante, cretinizada pelos partidos. E quem se espantar que se espante primeiro de si."

terça-feira, Setembro 17, 2013

"Come, Armageddon, come"

Do editorial da revista Sábado, 12/09/2013:

"
António José Seguro já tinha percorrido todo o longo argumentário da esquerda preguiçosa, pedindo mais despesa pública e menos impostos, acusando cada mexida na lei de ser uma tentativa de homicídio do Estado Social e, genericamente, prometendo aquilo que não estará nas suas competências cumprir – só faltava mesmo acenar com a recordação da “longa noite fascista”. 
Já não falta: esta semana, o secretário-geral do PS anunciou que o País está a voltar a ser “o Portugal de miséria e pobreza” que existia durante a ditadura. Para quem tivesse dúvidas, Seguro lembrou que sabe do que fala: “Eu tinha 12 anos quando o 25 de Abril aconteceu em Portugal e os meus pais contavam-me o que era o Portugal” dessa altura. 
Estando, portanto, a parte relativa ao Estado Novo resolvida por intervenção dos seus pais, só falta arranjar alguém que conte a António José Seguro como é “o Portugal” de hoje em dia, para o líder socialista perceber que a comparação que faz é absurda. De acordo com os dados da Pordata, a esperança de vida dos homens em 1970 era de 64 anos – em 2011 estava nos 76,7. A esperança de vida das mulheres era de 70,3 anos – passou para os 82,6. A taxa de mortalidade materna era de 73,4 por 100 mil habitantes – passou para 5,2. A taxa de mortalidade infantil era de 55,5 por cada mil – passou para 3,4. A taxa de analfabetismo nas mulheres era de 31% – passou para 6,8%. De acordo com António Barreto, nos anos 60 “tinham água canalizada 28% das casas; duche ou banho, 19%; instalações sanitárias, 42%; electricidade, 41%; e ligação ao esgoto, 38%”. Ao fim de 40 anos, esses valores já estavam, respectivamente, nos 87%, 82%, 89%, 98% e 91%. 
Portugal ficou de certeza mais pobre por causa da crise económica; mas com mais certeza ainda não regressou à “miséria e pobreza” anteriores ao 25 de Abril. Dizer o contrário é, simplesmente, não perceber o que era essa “miséria” e essa “pobreza”. Pior: é presumir que os restantes portugueses também não sabem ou não querem saber, estando apenas interessados em ouvir uma retórica oca que tenta tornar igual aquilo que é radicalmente diferente. Se António José Seguro já não sabe o que há-de dizer para fazer oposição, podia de vez em quando experimentar não dizer nada. Pior não fazia. 
A Comissão Nacional de Eleições (CNE) é composta por nove elementos. Cinco são escolhidos pelos cinco partidos com representação parlamentar, três são escolhidos pelo Governo e um é escolhido pelo Conselho Superior de Magistratura. Em nove elementos, oito são representantes do poder político. Foram eles que na semana passada decidiram proibir a entrevista de Pedro Passos Coelho à RTP, são eles que controlam e que impõem a cobertura jornalística feita pelos órgãos de comunicação social, são eles que decidem se uma reportagem tem o tamanho adequado ou o tom certo. Numa palavra, são eles os directores de informação durante os períodos eleitorais. Só existe um inconveniente: eles não são jornalistas obrigados a obedecer a um código deontológico, são representantes dos partidos políticos e do Governo. 
Na semana passada, estes representantes do poder político proibiram uma entrevista decidida por jornalistas independentes com base numa extensa argumentação de 25 palavras: “A CNE entende que um programa de entrevistas com responsáveis políticos, com o formato anunciado pela RTP, apenas pode ter lugar fora dos períodos eleitorais.” Sem qualquer justificação adicional e sem sequer ouvir a RTP, impediram a emissão de um trabalho jornalístico. Para o PS, que apresentou a queixa e que já demonstrou com a tentativa de compra da TVI durante o anterior governo o que pensa da liberdade de imprensa, esta decisão “cumpre o Estado de direito”. Para os eleitores, é um regresso aos tempos do República e do Diário – quando Arons de Carvalho, Jaime Gama, António Reis e Raul Rego faziam de jornalistas."

segunda-feira, Setembro 16, 2013

De bibe

Vasco Pulido Valente, Público 14/09/2013
Requalificação 
""Tu és parvo!" "Não, não sou: tu és parvo!" "Tu és mentiroso!" "Não, não sou: tu és mentiroso!" "Tu és saloio!" "Não, não sou: tu és saloio!" A campanha eleitoral tem levado esta conversa de criancinhas de oito anos, que a televisão e os jornais parecem tomar a sério, a Portugal inteiro. De certeza, que neste momento qualquer português já percebeu quem são as duas personagens que nos tentam ilustrar com o insulto mútuo e a repetição de frivolidades, que o país melancolicamente recebe, sem protesto: são António José Seguro e Pedro Passos Coelho. Mas, não é difícil imaginar por que razão o debate político desceu a este abismo de inanidade. É que Passos Coelho e o sr. Seguro não podem perorar sobre nada de substantivo e a zaragata que arranjaram, ao menos, sempre ajuda a passar o tempo. 
No cérebro do sr. Seguro, não existe o vestígio de uma ideia. E o PS não achou conveniente fabricar um programa, um horrífico trabalho que guarda para o Verão de 2014. Por isso, quando vai animar a festa (mais conhecida, no vocabulário da seita, por "campanha"), está reduzido a duas soluções: ou se indigna com a miséria da austeridade, ou promete desfazer tudo o que o Governo fez, coisa em que ninguém acredita e que, de resto, é patentemente absurda. A dívida continua com ou sem Passos Coelho e os credores não amolecem ao ver a carinha de Seguro, mesmo que ele ponha, como devia, um bibe. Seja como for, os sofrimentos de agora ninguém os "paga", sobretudo com promessas de um regresso mítico à prosperidade e ao dinheiro fácil do Portugal que morreu em 1910. 
Passos Coelho também fica em perigo cada vez que abre a boca. Anunciar cortes, despedimentos e o aumento do horário de trabalho para o funcionalismo público não é, como se calculará, a melhor maneira de convencer o eleitorado a votar na gente que lhe trouxe tantas benesses. Pior ainda, o crânio do primeiro-ministro anda, coitado, tão vazio como o de Seguro. Perdido na crise, é constantemente empurrado de um lado para o outro, nega e afirma, não manda de facto no Governo e trata com um inexplicável zelo as querelas do partido e da coligação. Nestas patéticas circunstâncias, o silêncio era a melhor política. Mas não para Passos, constantemente obrigado a falar. E ele fala, coitado, com o amadorismo e a irresponsabilidade a que se habituou na JSD. As vociferações contra Seguro acabam por ser o melhor refúgio, tanto mais porque Seguro amavelmente retribui. Este par é que precisava com urgência de "requalificação"."

quinta-feira, Setembro 05, 2013

Em risco de perder-se

Malparado, o novo blogue de Pedro Mexia.

Finalmente.



segunda-feira, Setembro 02, 2013

Vai tudo correr bem II

Vasco Pulido Valente, Público (01/09/2013)

Uma guerra absurda 
"Cameron foi proibido pela Câmara dos Comuns de intervir na Síria por meios militares. Trinta deputados do Partido Conservador votaram contra o Governo e também nove deputados do outro partido da coligação. Cameron disse que tinha compreendido a ordem do povo e declarou que lhe obedeceria. Nunca tinha acontecido antes que um primeiro-ministro perdesse uma votação quando se tratava de decidir entre a guerra e a paz. Sucedeu agora. Apesar de uma crescente dependência e disciplina, ainda apareceram nos grupos parlamentares 40 indivíduos que seguiram a sua opinião (e a sua consciência), em vez de seguirem obedientemente a política do seu chefe e senhor. A lição que a Câmara dos Comuns deu a Cameron não seria possível em Portugal. Em Portugal, a Assembleia da República faz tudo o que lhe mandam.
E assim Obama ficou sozinho. E por culpa dele. Primeiro, resolveu estabelecer perante o mundo a famigerada "red line" contra o uso de gás. A seguir, ameaçou com uma intervenção, como se não precisasse de um mandado da ONU ou sequer de esperar pelos peritos que foram à Síria. E, no fim, acabou internacionalmente isolado, sem o apoio dos países do Médio Oriente (tirando Israel), sem o apoio da "Europa" (tirando a França) e sem apoio do próprio Canadá. Vai meter a América numa nova aventura (mais perigosa do que a do Iraque e a do Afeganistão), acompanhado apenas pelo sr. Erdogan da Turquia e pela Arábia Saudita, dois parceiros que não se recomendam. O comportamento errático de Obama e as dezenas de erros que cometeu comprometem um mandato estimável e provavelmente acabarão por inutilizar o segundo. 
Pior do que isso, Obama não pretende liquidar o regime de Assad (até porque não existe na Síria uma oposição capaz de o substituir) e sabe muito bem que um "ataque cirúrgico" não mudará em nada a situação estratégica. O que ele quer é castigar Assad pelo crime de matar com gás 1400 pessoas (400 crianças) e, julga ele, impedir que o caso se repita. O prestígio da América está em jogo, pensam loucamente os serviçais da Casa Branca e Obama imagina que uma "pequena" intervenção da América não trará consequências de maior. No que se engana: uma violenta retaliação de Assad é susceptível de sublevar o Médio Oriente inteiro e, em última análise, empurrar a América para uma longa, frívola e mortífera campanha. Que o sr. Hollande, impotente e desarmado, se alivie de algumas cretinices que pesam no seu doce coração não interessa muito. Mas que Obama o imite é com certeza catastrófico."

Vai tudo correr bem I

Vasco Pulido Valente, Público (31/08/2013)
A trincheira 
"No Verão de 2011, quando já a troika tinha passado por cá e Passos Coelho se instalara no Governo, escrevi nesta coluna que a reforma do Estado seria impossível, ou quase impossível, apesar da perseverança e das convicções que a nova direita proclamava. Por uma razão simples. Desde o "25 de Abril" que se criara, directa ou indirectamente, uma classe média que vivia do Estado e que não se deixaria eliminar em sossego. Na administração central e na administração local centenas de milhares de portugueses, com alguma educação e uma certa ambição, deviam o seu estatuto e a sua inesperada prosperidade ao facto de pertencerem vitaliciamente ao funcionalismo público e aos "negócios" de vária espécie, que a sua influência, grande ou pequena, lhes permitia fazer.

Sem um sector privado a crescer com regularidade e depressa, e que pagasse mais do que pagavam as tristes repartições do Estado, não havia maneira de reordenar e diminuir o "monstro", que a partir de Cavaco se criara. Nenhum governo podia pacificamente liquidar essa especial "conquista" da revolução. Como, de resto, sucedera, com as consequências que se conhecem, na Monarquia Constitucional e durante a República até à ditadura de Salazar. Na ordem democrática da "Europa" de Bruxelas, Pedro Passos Coelho estava num beco sem saída. Daí a relutância em publicar o famoso "guião", que nunca apareceu, e suspeito que nunca aparecerá. O "guião", mesmo por agora metido numa gaveta, é uma ameaça para uma parte considerável do país, que provavelmente não ficaria quieto.

O veto do Tribunal Constitucional ao chamado "regime de requalificação" não espanta ninguém com algum conhecimento da sociedade indígena. Entre os funcionários públicos os juízes desse tribunal são de longe os mais privilegiados (o que teoricamente se percebe). Mas também se percebe que não estejam inclinados a autorizar uma limpeza que por baixo deles provocaria uma instabilidade endémica e abriria um precedente perigoso para eles próprios. Nada, portanto, mais natural e previsível que o Tribunal Constitucional defenda o Estado como o encontrou e de que é o mais refinado e protegido símbolo. Passos Coelho e Paulo Portas não têm razão de se queixar. Era óbvio que a classe média do Estado, tarde ou cedo encontraria uma trincheira. Encontrou esta."

sábado, Agosto 10, 2013

The Colbert Report

domingo, Julho 21, 2013

Next!

As declarações de Soares, Alegre & Cia. sobre o que Seguro deveria ou iria decidir («ele garantiu-me que…», enquanto decorriam as negociações...), foram mais um episódio na já longa sucessão de sinais de desrespeito para com o secretário-geral do PS, por parte quer das gradas figuras socialistas (os inefáveis «senadores»), quer da ala dos «jovens turcos».

Ao terem falado como falaram, não perceberam (ou perceberam-no bem demais), que estavam a «tramar» Seguro, lançando, para sempre, a dúvida sobre os verdadeiros motivos da decisão que o secretário-geral viesse a adoptar. Os elogios póstumos são, por isso, um pináculo de cinismo.

Seguro, claro, ajudou à festa com a declaração de ontem. Tudo pareceu encaixar na tese do «condicionamento interno»: o corte abrupto nas negociações, a notória posição de inflexibilidade por parte do PS, a prosa vaga e demagógica. Zero de disfarce.

Para quem tivesse dúvidas sobre a inconsequência da proposta de Cavaco Silva para um «compromisso de salvação nacional» (a propósito: não houve tempo para encontrar uma expressão menos dramática e definitiva?), ela está, agora, à vista. Após a demissão de Gaspar e o ridículo episódio com Portas (que deve começar a pensar noutro ofício), Cavaco Silva deveria ter feito uma de duas coisas: ou aceitava a solução governativa apresentada por Passos Coelho - não dando, a partir daí, a menor margem de manobra ao governo para mais divertimentos -, ou convocava eleições antecipadas. Pôr à mesa das negociações actores políticos medíocres, mesquinhamente agarrados à imagem que o partido projecta nos respectivos eleitoradozinhos, acabrunhados com passadas «patifarias» e sedentos de futuras «vinganças», hábeis na perfídia parlamentar e inábeis em enfrentar a realidade, não foi apenas um erro de palmatória: foi uma estúpida perda de tempo.

Tudo previsivelmente mau, nada minimamente edificante. E o som do país, ao fundo, a despenhar-se.

segunda-feira, Julho 08, 2013

Ainda vamos a tempo de aprender

Do editorial da The Spectator, 06/07/2013
Egypt shows us that elections aren’t enough
"Democracy and holding elections are not the same thing. There could be no better demonstration of this than the experience of Egypt. Protesters who two years ago gathered in Cairo to force a dictator out of office, and to win the right to replace him with an elected government, are back — this time to demand the resignation of the president whom they elected. The likely result is, by popular demand, a return to what preceded the Arab spring of 2011: a military dictatorship, for a period at least. From a western perspective this is inexplicable: why would people want to risk their lives to overthrow a military-backed president, only to come back two years later to reverse what they seemed to have achieved? But then the West sees the events in Egypt through the prism of societies where democracy has evolved over a much longer period — centuries, in the case of Britain and the US. The experience of young democracies is that they often do have sharp reversals. Hold an election in a country which lacks the traditions and institutions of an established democracy and the question can all too easily be: which dictator would you like next? As in Egypt, as in Russia: there are plenty who wonder what the revolution was all about.
The West needs to learn from Egypt because for the past two decades the US and its allies have been too keen to believe that a country is free when it holds elections. When we have intervened, as in Afghanistan and Iraq, we have tended to treat the first elections as a pivotal moment following which, excepting a few hiccups, the country will necessarily embark on an enlightened path to peace, stability and respect for human rights. When the elections are followed by further chaos we have tended to tell ourselves (like Donald Rumsfeld dismissing the murderous aftermath of Saddam Hussein’s overthrow with the words ‘freedom’s untidy’) that it is just a bit of exuberance from a people who have been oppressed for decades.
The lesson of Iraq, Afghanistan and now Egypt is that democracy only works when a freely elected parliament is supported by the other institutions which guarantee freedom in the West: fair and independent courts, a police force reasonably free of corruption, a free press, an army which does not seek to intervene in political debate. It is a paradox that while the West has encouraged elections in every Middle Eastern country in which it has found itself involved, many of our friends in the region have been countries like Jordan and Saudi Arabia whose leaders do not themselves bother seeking a mandate from their people. They are countries whose attitude to human rights leaves plenty to be desired, yet it is easier to do business with them than with a volatile democracy.
David Cameron acted boldly over Libya, and his instincts in that case were vindicated by events. But this should not give him a taste for interfering in Arab politics. It is tempting to take sides when a country seems to have a chance to overthrow a theocracy or military dictatorship; to think that with a nod and a wink, a missile and a tank, we can groom a favoured leader whom the people might be inclined to rubber-stamp at the polls. But such efforts usually backfire, and anyway, in Cairo today, America’s opinion counts for little. What Britain thinks matters even less.
The Arab Spring was welcomed by those who believed that any regime change had to be for the better — because history was on a course towards liberal democracy. As Egyptians have found, things are not quite so straightforward: the ballot boxes brought new waves of sectarian bloodshed and new shortages of food, fuel and security. Britain can hope that Egypt will evolve into a stable democracy. But we will not speed up that process by trying to bully or cajole it in a particular direction. This time we would do better to admit that we do not have the answers."

quarta-feira, Junho 19, 2013

Um socialista será sempre um socialista

A palavra ao senhor deputado Pedro Nuno Santos:

“A desvalorização cambial tem sido apresentada como a única alternativa à desvalorização interna para melhorar a competitividade-preço da nossa economia. Não é no entanto verdade que seja a única e muito menos a melhor. Se o objectivo de quem defende aquela solução é, através da desvalorização da moeda, diminuir o preço dos produtos nacionais no mercado externo para dessa forma aumentarem as exportações e, por outro lado, aumentar o preço dos bens importados de forma a incentivar a produção nacional, então há outra solução. Algumas formas de auxílio do Estado às empresas exportadoras permitem-lhes reduzir custos e, por essa via, reduzir o preço cobrado nos mercados externos. Poderíamos, assim, com intervenção do Estado fazer diminuir o preço das nossas exportações sem sair do euro ou sem precisar de deprimir os salários dos trabalhadores portugueses. Por outro lado, com vista a estimular a produção nacional e a substituição de importações o recurso à introdução de tarifas aduaneiras sobre alguns bens importados aumentaria o seu preço e dessa forma seria incentivada a sua substituição por produção nacional.” (Jornal i)

Ou seja: 1) mais despesa (sob a forma de benefícios fiscais ou subsídios); ou 2) mais impostos (que o próprio reconhece, mais à frente, serem de difícil implementação, uma vez que o Tratado Europeu é avesso a entraves aduaneiros.)

Conclusão: uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma. Pelo caminho, os habituais e estafados remédios socialistas. Next.

segunda-feira, Junho 17, 2013

Tem-me acontecido, ultimamente: defender algumas coisas, mas já sem convicção

Retirado do livro Arcana Coelestia, de Emanuel Swedenborg:
"Os anjos me disseram que, quando Melanchton morreu, lhe foi oferecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual àquela que possuíra na Terra. (A quase todos os recém-chegados à eternidade acontece o mesmo e por isso acreditam que não morreram). Os objectos domésticos eram iguais: a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton despertou nessa casa, reatou suas tarefas literárias como se não fosse um morto e escreveu durante alguns dias sobre a salvação pela fé. Como era seu hábito, não disse uma palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram pessoas a interrogá-lo. Melanchton lhes falou: "Demonstrei de maneira irrefutável que a alma pode dispensar a caridade e que para entrar no céu basta a fé". Dizia isso com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram essa afirmativa o abandonaram. 
Em poucas semanas, os móveis começaram a se encantar até se tornarem invisíveis, com excepção da poltrona, da mesa, das folhas de papel e do tinteiro. Além disso, as paredes do aposento se mancharam de cal e o assoalho de um verniz amarelo. Sua própria roupa já estava muito mais ordinária. Continuava, entretanto, escrevendo, mas como persistia na negação da caridade, foi transferido para uma sala subterrânea, onde estavam outros teólogos como ele. Ali ficou preso alguns dias e começou a duvidar de sua tese, e lhe deram permissão de voltar. A roupa que vestia era de couro cru, mas procurou imaginar que a que tivera antes fora uma simples alucinação e continuou elevando a fé e denegrindo a caridade. Uma tarde, sentiu frio. Então percorreu a casa e comprovou que as demais peças já não correspondiam às de sua casa na Terra. Uma delas estava cheia de instrumentos desconhecidos; outra estava tão reduzida que era impossível entrar nela; outra não tinha sofrido modificação, mas suas janelas e portas davam para grandes dunas. A do fundo estava cheia de pessoas que o adoravam e lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio quanto ele. Essa adoração agradou-o, mas como uma das pessoas não tinha rosto e outras pareciam mortas, acabou se aborrecendo e desconfiando delas. Determinou-se então a escrever um elogio da caridade, mas as páginas que escrevia hoje apareciam apagadas amanhã. Isso aconteceu porque eram feitas sem convicção."

domingo, Junho 16, 2013

Acabemos com a deificação, por favor

Alberto Gonçalves, Diário de Notícias 16/06/2013
Ninguém ensina os professores? 
"A greve dos professores suscitou um manifesto de apoio por parte de 22 autodesignados artistas, do cançonetista Carlos Mendes ao filhote de Lucas Pires. O manifesto começa com uma relativa evidência: "Sem Educação não há país que ande para a frente." Infelizmente, prossegue com generalizações diversas, umas difíceis de provar, outras fáceis de desmentir. O tom geral é o de que a classe docente constitui uma entidade abstracta, sempre maravilhosa, incansável e esclarecida. Em Portugal, o sabujismo rende. 
Donde a proliferação dos sabujos. Além de subscrever o texto, o escritor José Luís Peixoto alinhavara, em 2011, um texto pessoal no qual desenvolveu os arrebatamentos líricos e que o site do Bloco de Esquerda agora resgatou: os professores, garante a promessa da ficção nacional, trazem consigo "todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu". Além disso, os professores "não vendem o material que trabalham, oferecem-no", visto que "o trabalho dos professores é a generosidade". Os professores, com "as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás" são, jura o sr. Peixoto, "os guardiões da esperança". Os professores "ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar". E quanto a nós, antigos alunos, "basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores". 
Bonito, porém improvável. Se me inclinar ao tal esforço mínimo, e máximo, da memória, não abundam os "plims" (?) pequeninos de gratidão. Ao contrário do sr. Peixoto, homem de sorte, nunca tive professores que trabalhassem de borla, tive poucos carregados de conhecimento, ignoro os modelos dos automóveis que conduziam e, ao que me lembro, a função da maioria consistia justamente em encher-nos de certezas rígidas e opacas. Comecei a espernear no dia em que me arrastaram para a "primária". Parei de espernear no dia em que concluí a licenciatura, de longe o maior alívio que senti na vida. 
É claro que, da primeira à quarta classe e à custa de salvíficas reguadas, a dona Julieta me ensinou a fazer contas (da leitura e da escrita os meus pais e avós trataram antes). É claro que, no liceu, recordo meia dúzia de almas competentes e uma dúzia de almas esforçadas. E é claro que não esqueço um certo professor de história económica na faculdade. O resto foi uma imensa perda de tempo, às vezes uma tentativa de desvitalização do cérebro e, muito por feitio meu, uma longa tortura, que nem as benesses escolares alheias às aulas resgataram. Levei com gente que nos forçava à escuta de "Zeca" Afonso, gente que presumia a familiaridade de adolescentes com Schrödinger, gente convencida de que Pierre Bourdieu era um pensador, gente parcialmente analfabeta, gente que corria para a janela a cada avião, gente que sumia o ano inteiro mediante "baixa" (juro que não me importava), etc. Fabricar uma imagem idílica da docência é equivaler as fraudes aos profissionais sérios - e caluniar estes.
Pior: nivelar os professores por cima é uma burla idêntica à padronização por baixo que há décadas se aplica aos alunos e que, de resto, torna anacrónica a conversa acerca das virtudes e defeitos do ensino. A época em que, bem ou mal, os professores ensinavam morreu. Hoje, procuram sobretudo escapar das agressões verbais e físicas que alunos e famílias de alunos lhes dedicam. As criaturas que por oportunismo louvam em tons absurdos o papel dos professores são as mesmas que se calam quando um professor apanha uma sova por ousar sossegar a irreverência das criancinhas. Com frequência, o Ford Fiesta aparece sem pneus a título punitivo.
 
E se não são delinquentes a humilhar os professores, os próprios tratam do assunto por via sindical: marcar uma greve que se pretende incómoda para as datas dos exames é assumir que já só são imprescindíveis nas funções de vigilância, tarefa que uma câmara de 50 euros ou um contínuo com o salário mínimo desempenhariam com brio similar. E o Governo, que não accionou a câmara nem o contínuo, dá-lhes razão fingindo não a dar. Para quem acumula todo o conhecimento do mundo, impressiona o desconhecimento que tantos professores têm do seu. Ninguém é capaz de os ensinar?"

sábado, Junho 15, 2013

Acabou-se a papa doce

Vasco Pulido Valente, Público 15/06/2013

O fim das vacas gordas

"O extraordinário número de independentes (?) que se candidata à presidência das câmaras talvez seja o primeiro sinal da próxima desagregação dos partidos tradicionais, sobretudo do PS e do PSD, que tomaram conta do Estado e nos governaram durante 30 anos. Contra o senso comum, há mais socialistas (19) que decidiram abandonar o rótulo do partido do que "sociais-democratas" (12). Mas vendo mais de perto a coisa não é assim tão estranha. Mal ou bem, Pedro Passos Coelho lá se vai aguentando e as ruínas que deixar ainda podem no futuro servir para alguma coisa. Infelizmente, nem agora, nem no futuro, Seguro, com o seu realejo e a sua vacuidade, não promete nada a ninguém. E pior: parte do eleitorado PSD parece mais fluido e, por isso, mais susceptível de acreditar numa solução milagrosa.

De resto, os próprios candidatos que o PSD apresenta oficialmente evitam exibir nos cartazes o emblema da casa. Julgam que por este subtil processo evitam a sua associação aos desastres que o Governo dia a dia faz cair sobre os portugueses. Julgam com certeza que os portugueses são mentecaptos. O PS, pelo contrário, insiste em se apresentar com a militância do costume e, muito ajudado pelos "tempos de antena" de Sócrates, põe instantaneamente em coma o cidadão vulgar. Entregar ao dr. Seguro a salvação da Pátria é a última ideia que passa pela cabeça de uma pessoa sensata ou mesmo de um louco reconhecido e público com um ou outro intervalo de lucidez. Os "socialistas" com um pequeno resto de massa encefálica preferem que Passos lhes tire as castanhas do lume, para depois proclamarem o seu sacratíssimo direito à "alternância".

Mas sucede que a ebulição em que andam as máquinas dos partidos se deve manifestamente à redução drástica da sopa do convento. Acabou a época em que se fundavam "empresas municipais" para aconchegar os bolsos da ladroagem local; da "reclassificação" de terrenos; dos vereadores sem espécie de função; dos centros de cultura; dos cursos universitários sem universidade e sem alunos; da ornamentação urbana e das rotundas; das grandes festas para a populaça; dos jornais subsidiados para criarem o culto do "presidente"; do ócio quase permanente e de várias alegrias, que faziam o misterioso encanto da autarquia. A indisciplina partidária, que a troika trouxe na sua bagagem, transformou o antigo paraíso numa guerra corpo a corpo pelo que sobrou do tempo das vacas gordas."

Parabéns

No papel de garimpeira das consciências alheias, à procura das gemas de «falsidade» dos «maus carácteres», munida do seu pneumático moralismo «separador de águas», eis que, uma vez mais, conseguiu esburacar a «hipocrisia», na forma dos «elogios fúnebres de plástico», vazios de qualquer sentimento puro (elogios de plásticos que são já uma chatice avant la lettre).

sexta-feira, Junho 14, 2013

João Pinto e Castro

Escrevia primorosamente. Tinha um sentido de humor fantástico (tantas vezes deliciosamente corrosivo, sobretudo quando batia «nos nossos»), pontuado pela ironia da praxe (da boa). Inteligente, culto e provocador, obrigava-nos a pensar (oiça-se esta entrevista, para o perceber). Para quem, como eu, não pertencia à sua família política (expressão irritante, eu sei), sabia-se que se estava na presença de um «adversário» de respeito (um «osso duro de roer»). Na política, batia-se com valentia e estilo (o que às vezes irritava a malta «deste lado»). Era um «moderado» (na acepção mais nobre da palavra), mas não tinha a mínima paciência (e com razão) para a mediocridade e para o lado «cafajeste» da politicazinha partidária (daí que, por vezes, fosse deliciosamente desbragado).

Não o conheci pessoalmente. E descobri-o tardiamente (agradeço ao maradona o empurrão). Apesar das discordâncias, ou sobretudo por causa delas, sinto que é uma grande perda.

Paz à sua alma. Condolências à família.

A melhor homenagem? Ler o que escreveu:

Milionários inconsoláveis

O neo-liberalismo e eu

Pesadelo encadernado

A tragédia do povo russo

TPC

Porque é errado avaliar os professores pelos resultados dos seus alunos

Mais contentores, já!

Etc. etc. etc.




segunda-feira, Junho 10, 2013

31 de Maio de 1984

"Jogando com os descontentamentos naturais, sem contudo se apresentar qualquer programa coerente alternativo, intencionalmente procurou fomentar-se um clima deletério, de descrença generalizada, de pessimismo total, assacando todas as culpas ao governo - a este Governo - esquecendo o passado ainda tão próximo, denegrindo por sistema, entravando ou mesmo sabotando iniciativas em curso, silenciando ou minimizando os aspectos positivos de uma actuação que todos sabem ser feita em condições singularmente difíceis, que se pretende? Derrubar apenas o Governo? Mas como, se parece difícil fazê-lo no Parlamento, que é o único sítio, em democracia, onde se devem derrubar legitimamente os governos? Na rua? Para dar lugar a que confrontações e a que novo surto de anarco-populismo? Desagregando por dentro, desencorajando as pessoas e tentando destruir as suas imagens políticas? Para abrir caminhos a que tipo de aventuras?" 
Mário Soares

sexta-feira, Junho 07, 2013

Pormenores

Pedro Picoito, no obrigatório Declínio e Queda, esquece um pormenor e entra em contradição.

O pormenor: o «processo de intenções» está, obviamente, ligado ao facto de, à excepção da Antena 1, nenhum jornal ter pedido ao próprio (Francisco José Viegas) para comentar a notícia. No mínimo, estranho (mesmo levando em conta que não é coisa rara.)

A contradição: Pedro Picoito defende o carácter «solitário» e «autonómico» da decisão política do actor-governante (contra, se necessário for, «pareceres técnicos»), mas, logo a seguir, afirma que «o valor artístico e cultural do património pode discutir-se, mas não pode ficar sujeito à opinião ou ao gosto de um governante» - esquecendo, en passant, que Francisco José Viegas sustentou a sua decisão através de uma opção política:  «ao fim de três anos de duração do processo (o habitual é prolongar estes assuntos até uma das partes cair de inanição e a outra esquecer o assunto), era preciso dar uma resposta: ou ficar com o quadro, pagando-o, o que significava, na prática, dispor de aproximadamente €2,9 milhões; ou autorizar a sua saída para Paris. Escuso-me de comentar a hipótese de ter €2,9 milhões disponíveis.»

Será verdade?

Tão bonito, o unicórnio

Vasco Pulido Valente, Público 07/06/2013

Impunidade 
"Desde o princípio, o maior erro deste Governo foi não ajustar contas com o passado, a pretexto de que não queria perder tempo com velhas querelas. Por assim dizer, apagou a responsabilidade de toda a gente que tinha levado Portugal à situação desesperada de 2011. O nosso coração é bom e muito inclinado a não tocar no sossego e no bom nome do próximo. É um coração de ouro que não gosta de afligir ninguém. E, como não gosta, os portugueses ficaram sem saber ao certo como se acumulou a enorme dívida, soberana e outra, que nos sufoca; quem deliberadamente a fez por sua própria força e autoridade; e que espécie de razões presidiram ao exercício (corrupção? oportunismo eleitoral? incompetência? puro desleixo?). A julgar pela televisão e pelos jornais parece que um castigo do Altíssimo se abateu sobre nós para nos punir de inconfessáveis pecados. Entretanto, cai interminavelmente do céu uma chuva de números, que de resto mudam dia a dia e em que o cidadão vulgar deixou de acreditar. Durante o glorioso mandato deste Governo, os portugueses, pelo menos, conseguiram aprimorar a sua educação cívica, que se resume numa frase: não devemos confiar em nada e contar com nada. Um ministro pode perfeitamente decidir isto ou aquilo e, em meia dúzia de horas, decidir exactamente o contrário. O primeiro-ministro ora nos garante a felicidade para depois de amanhã, ora um futuro de miséria para 30 anos. Os profetas-comentadores, deliciados de se exibirem e subitamente sem excepção com uma licenciatura em Economia, discutem o extravagante dr. Gaspar, ou a iminência do apocalipse, ou a urgentíssima necessidade do “crescimento”, que se tornou um fenómeno tão mítico como um unicórnio. E nós continuamos passivos no meio desta feira de inocentes, sem a menor ideia do que nos vai suceder. Mas sem queixas. Portugal é o país da impunidade."

Entretanto…

…Fernanda Câncio insiste num tom truculento (“rapazola impreparado, ignaro e sonso”) e num estilo apocalíptico (“um país acabrunhado e calado a ser conduzido para abate”) que Marinho Pinto, certamente, não enjeitaria. É pena: ela não merece o senhor Bastonário (dito de outra forma: é bem capaz de melhor.)

Vamos com calma

Infelizmente, um destes dias, pela ordem natural da vida, Mário Soares deixará este mundo. Será uma perda para Portugal, quer se tenha ou não gostado dele. A seu favor ? «Apenas» o simples facto de ter sido decisivo, num período de grande instabilidade (que alguns patetas gostam de confundir com o que agora se vive), para a instauração de um sistema democrático e para a consolidação das liberdades.

Até lá, e por agora, o seu estado meio-senil fará as delícias da esquerda (que adora ter um «senador» aos berros contra o governo, numa linguagem apelativamente simples, embora desbragadamente primária) e da direita (que não desaproveitará algumas cenas para provar que o homem está xexé.) Acreditem: tudo isto é triste.

segunda-feira, Maio 20, 2013

Sobre a (co)adopção

É tonto e incoerente o argumento «antes ser adoptado por um casal homossexual do que ficar no orfanato», como se os casais heterossexuais se recusassem, agora, a adoptar (e não continuassem, tragicamente, a ter de esperar anos a fio por esse longo processo de aferição e autorização, a que teriam de se sujeitar os casais homossexuais caso tivessem, por lei, a mesma liberdade de adopção, coisa que a lei agora aprovada não lhes confere).

É fraquinho e pateta o argumento «antes criado num ambiente harmonioso, do que num ambiente de conflito conjugal, violência familiar ou instabilidade», como se esta conjuntura fosse exclusiva de casais heterossexuais, e o outro cenário, tendencialmente etéreo, um espelho incontroverso e inatacável do modus vivendi gay.

É aceitável, e não sinal de homofobia ou obscurantismo, que se chame à colação o agora ridicularizado argumento do «superior interesse da criança.» É importante que estas coisas se discutam sem que se diabolize, inferiorize ou pura e simplesmente injurie quem está contra ou quem tem reservas sobre esta matéria. Estará sempre a prestar um péssimo serviço à causa da adopção por casais homossexuais, quem use do tipo de intolerância de que acusa quem está contra. E tem-se visto muito, por aí.

Cabe provar, a quem está contra, até que ponto, e de que forma, uma criança criada por um casal homossexual é prejudicada. Que tipo de problemas de ordem cognitiva, psicológica, afectiva e socializante podem surgir, ao ponto de pôr em causa o «superior interesse da criança». Não sei se haverá. Provavelmente sim, provavelmente não. Há argumentos válidos, do lado contra. Se são, ou não, verificáveis, será uma discussão que importa levar a cabo.

Dito isto, acho que ninguém porá em causa isto: at the end of the day, o «superior interesse da criança» estará nos afectos e no laço humano. Onde houver amor incondicional, para além da vida (e qualquer pai ou mãe sabe do que estou a falar), estará assegurado o essencial.

A lei agora aprovada, pretende que o essencial – o laço, o amor incondicional - perdure caso, por exemplo, um dos membros do casal morra. Parece-me justo. Parece-me humano. O que, por estes dias, já é muito bom.

segunda-feira, Maio 13, 2013

Com raiva e com maldade ou pura e simplesmente por inconsciência

Vasco Pulido Valente, Público 12/05/2013

Uma nova era 
"Nasci numa família comunista e cheguei a adulto durante a guerra das colónias, o que naturalmente não me inclinou para o nacionalismo ou sequer para qualquer espécie de patriotismo ardente. Mas de qualquer maneira, quando o sr. Schäuble fala de Portugal como falaria de um protectorado longínquo e recalcitrante, não consigo escapar a um estado de fúria e de frustração que julguei que nunca conscientemente teria. A Alemanha e a troika, muito para lá da “austeridade”, estão a inspirar (talvez sem perceber) sentimentos de um radicalismo que tarde ou cedo mudarão um país, na aparência calmo e resignado a um destino de miséria. A humilhação que se acumula já fez desaparecer a mais leve ideia de responsabilidade pela catástrofe em que nos metemos (ou em que nos meteram). Ficou só o ódio. E nem sequer um ódio cerimonioso e disfarçado. A vida pública começa a tomar um “tom” muito semelhante às piores fases do PREC. Comentadores da televisão, que eram pessoas em geral pacatas, passaram de repente a oradores de comício, que propõem, ou aceitam, mesmo o indizível para se verem livres do governo e da intervenção estrangeira. Nos debates, cada partido (ou representante de um partido) estoira de indignação perante as “verdades”, frequentemente razoáveis, da outra parte. Os jornais não hesitam em distorcer ou inventar os factos e acabaram num coro de queixas quase completamente inútil. As sessões da Assembleia da República parecem as sessões da última câmara monárquica na sua agonia. Não se sabe quem manda no governo ou se o governo realmente manda. E o dr. Cavaco arranjou para si um “exílio interior”, que o protege das baixas realidades do mundo. O ministro das Finanças altera impostos, taxas, contribuições (parece que até hoje 65 vezes), para se conformar aos “conselhos” da troika, que são os da Alemanha. O próprio Ricardo Salgado (do Banco Espírito Santo) declara com impecável clareza: “Não há nada absolutamente garantido”; e de facto não há — nem o presente nem o futuro —, a não ser que Portugal caiu e, a seguir, foi empurrado para um buraco sem fundo. E, como sempre, o desespero inspira e multiplica a mentira: a mentira sistemática ou a mentira ocasional. Toda a gente mente, com raiva e com maldade ou pura e simplesmente por inconsciência. Portugal entrou numa nova era de pobreza, de conflito e de isolamento: e essa era promete durar."

domingo, Abril 28, 2013

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Uma análise simplista

(Divertimento N.º 12 em Mi Bemol para orquestra de sopros e cordas; não levar a sério)

Um alienígena que visitasse, por estes dias, Portugal e pretendesse, por masoquismo, inteirar-se da cena política portuguesa, poderia facilmente ser levado a concluir, pelo tom lúgubre e o teor tremendista de certas intervenções, que no governo do país estaria o governo-patife de um partido-patife. Do outro lado, estaria um partido-herói chamado PS, fartíssimo da situação e empenhado na remoção do governo-patife do partido-patife – partido que, após décadas de permanência no poder, apesar de democraticamente legitimado, teria capturado as instituições do Estado, abusado da sua posição privilegiada, e conduzido um país que gozava de condições financeiras e económicas normais (ou até mesmo favoráveis), a um estado de pré-falência. A impaciência agressiva e exasperante de algumas figuras do partido-herói não deixaria margem para outras conclusões.
Aprofundando o tema em apreço, o alienígena chegaria a outra personagem do regime – um tal de Presidente da República –, aparentemente responsável por bloquear, há décadas, as intenções do partido-herói de remoção do governo-patife - e, por isso, visceralmente odiado por quem dele vinha exigindo a sumária demissão do governo-patife.
Pelo caminho, o alienígena teria dado conta de que o partido-herói andava entretido com uma coisa chamada «congresso», evento marcadamente imagético e propangadista, empenhado em entronizar um secretário-geral amado por um séquito; tolerado, por tacticismo, embora doutrinariamente odiado, por outro grupo; suportado, por camaradagem, pela generalidade das «bases»; e considerado, pela generalidade dos portugueses, como anémico e sofrível.
Tudo isto, concluiria o alienígena, em torno de uma santa causa: a remoção do governo-patife. Remoção que estaria, depreenderia, finalmente, o alienígena, iminente: “Seguro pede maioria absoluta mas promete governo coligado”, leria o alienígena num jornal de referência.
Por último, o alienígena visionaria, na televisão, uma outra figura política: a de um ex-primeiro-ministro, que teria governado num tempo já longínquo, e cuja agastada fácies e o permanente recurso a expressões marcadas pelo rancor, indiciaria ter sido alvo de grandes injustiças.
Nota final: nos últimos dezassete anos e meio, o Partido Socialista governou cerca de treze anos o país. Ou seja: 73% do tempo. Isto é: cerca de 3/4. Este governo está no poder há dois anos. Chegou ao poder com um programa de resgate para cumprir, que condicionaria indelevelmente as suas opções políticas. Aparentemente, dois anos é muito tempo. Não se pode, por isso, compreender como pode um PR ficar quietinho.

sexta-feira, Abril 26, 2013

O que para aí vai

O Daniel que me desculpe, mas este post é inacreditavelmente parvo. E, penso, potencialmente ofensivo para quem sofreu, na pele, o regime opressivo, estupidificante, irascível, do Estado Novo.

Não há comparação possível entre um regime ditatorial, seja ele 'mild' ou brutal, e a democracia em que vivemos. Nenhuma.

Entendamo-nos. Seria incivil mostrar um optimismo bacoco pelo momento actual. Ou fazer crer que este governo tem feito do bom e do melhor para ultrapassar a crise em que mergulhámos. Temos o direito, e nalguns casos o dever cívico, de nos manifestar e de exigir, deste poder, respeito, competência, dedicação à causa pública (até em coisas aparentemente simples, como o dever de um ministro explicar, ao povo, a opção política A ou B). Podemos discordar, ou achar insuportável, o carácter pusilânime ou tacanho das intervenções do Presidente da República. Podemos considerar que a tecnocracia manga-de-alpaca do ministro da Finanças é estupidamente rígida, ortodoxa, casmurra. Podemos, até, esquecer, para efeitos de retórica ideológica, que Portugal está sujeito a um espartilho de opções políticas, que advém do aperto económico-financeiro ditado pelo programa de resgate (que impõe metas e medidas, conducentes ao seu cumprimento). Não será curial, mas não é, certamente, grave.

Mas há limites. E um limite pode ser este: não estamos a sofrer, nem por sombras, o que os nossos compatriotas sofreram no pré-25 de Abril. Não podemos convocar o tipo de heroísmo e de resistência que manifestaram, então, para fazer a ponte com a «luta» contra as políticas de que discordamos, agora.

Há mais de 39 anos, os portugueses eram encarceradas, sujeitos a tortura, nalguns casos assassinados. Os jornais, as peças de teatro, os livros, as manifestações culturais, eram objecto de censura. Aliado ao medo da perseguição, por delito de opinião, sedimentava-se o silêncio e a auto-censura. Vivia-se num clima de medo: não o medo de perder o emprego ou de perder um subsídio de férias, mas o medo de perder um filho ou um familiar, de acabar preso, torturado ou no convés de um navio, a caminho de uma guerra estúpida.

Pela memória dessa gente, haja pudor no que se diz e no que se evoca. Nem tudo pode servir de arma de arremesso político.

E viva o 25 de Abril.

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