Sexta-feira, Julho 18, 2008

Ó Isa: com uma crónica destas, como queres tu que eu não o cite?

Vasco Pulido Valente in Público (18/07/2008)

Desigualdade

Os 20 por cento de portugueses mais ricos (à volta de um milhão) ganham sete vezes mais do que os 20 por cento de portugueses mais pobres. Quando se fala em desigualdade, e agora toda a gente fala em desigualdade, a conclusão é sempre que se deve redistribuir o rendimento nacional para acabar com esta horrível injustiça, como se a coisa fosse clara e, até certo ponto, simples. Mas não é. Excepto por uma pequena minoria, os 20 por cento de portugueses ricos não são, de facto, ricos: são a classe média e, pior ainda, uma classe média pobre. Não se trata de tirar a quem tem muito para dar a quem tem pouco. Não estamos na Alemanha, em França ou em Inglaterra. Além de politicamente inconcebível, um aumento da carga fiscal sobre a classe média acabaria tarde ou cedo por levar a um colapso económico e à paralisia do Estado-Providência.

Grande parte dos 20 por cento de portugueses mais ricos vive, directa ou indirectamente, do dinheiro do contribuinte: ou porque trabalha na administração central ou local; no Serviço de Saúde ou no "sistema educativo"; ou porque trabalha em empresas públicas de uma espécie ou de outra; ou porque recebe subsídios. Não vale a pena dizer que a "riqueza" destes "ricos" depende quase só do Orçamento e que é, de certa maneira, "fictícia". O que o Governo podia espremer deles, sem pôr em causa a sua existência e a estabilidade do regime, já espremeu. Claro que também há "ricos" no "sector privado". Mas como esperar que a economia se "modernize" e cresça se o Estado se apropriar à partida dos resultados do risco (que tanto gaba) e da inovação (que tanto deseja)?

Numa sociedade miserável, o que se redistribui é sempre a miséria. Em 30 anos, Portugal chegou até onde a realidade e a "Europa" lhe permitiram chegar. Embora com erros, com desperdício, com ineficácia, a Segurança Social, o Serviço de Saúde e mesmo o "sistema educativo" redistribuem mais do que nunca se redistribuiu em toda a nossa a história. Se a desigualdade continua é porque os 20 por cento de pobres não ganham o que deviam ganhar e não porque os 20 por cento de portugueses mais ricos paguem ao Estado menos do que deviam pagar. A desigualdade continua porque o país não produz, não exporta, não investe e não poupa; porque se endivida; e porque o Estado o desorganiza, corrompe e abafa. Isto é a evidência. Infelizmente, de quando em quando, convém repetir a evidência.

Quinta-feira, Julho 17, 2008

A ler

O Rogério, o Charles e o Roger.

A diferença

Notícia Público:
Em Naqura, no Sul do Líbano, [o Hezbollah] encenou uma recepção triunfal aos presos, designadamente a Kuntar, erigido em herói da nação árabe. Milicianos do Hezbollah, montados em cavalos engalanados de amarelo (a cor do movimento), tapetes vermelhos no chão e bandeiras gigantes. Um cartaz dizia: "O Líbano derrama lágrimas de alegria, Israel lágrimas de dor". O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, decretou feriado nacional. A sua televisão, Al-Manar, transmitia as palavras da mãe de um dos presos: "Nasrallah, tu devias ser proclamado rei dos árabes".

De um lado, um povo chora o regresso de dois soldados do seu exército dentro de dois caixões. Do outro lado, gente que celebra a entrega desses dois caixões e o regresso de alguns carniceiros vivos (um deles assassinou uma criança de quatro anos à coronhada).

De um lado, a noção da tragédia, o sentido do pesar, a solenidade de um momento triste, o simbolismo de um episódio sombrio, na longa e sofrida história de um povo e de uma região. Do outro, grita-se vitória, ergue-se a festa, elegem-se os heróis, nomeiam-se os santos e os reis.

Encontramos, nestes comportamentos antagónicos, toda a diferença. De um lado, o que nos resta, como seres humanos, em matéria de decência e de moral. Do outro, o fanatismo bárbaro, cego, amoral.

Sábado, Julho 12, 2008

O retrato de um país

Vasco Pulido Valente in Público (12/07/2008)

”O Estado da Nação”

O"Estado da Nação"? Basta olhar para a Assembleia, quieta e calada, para se perceber o "Estado da Nação". Em nenhum parlamento da "Europa" subsiste um partido como o Partido Comunista Português, que não deixou ainda a "guerra fria" e vê Portugal como o via em 1960. Com uma certa razão. O PCP não é, por assim dizer, o artifício de um fanatismo inexplicável e ridículo: é o produto arcaico de uma economia arcaica e de um Estado autoritário e monstruoso. Num país moderno não existiria; na eterna "modernização" de Portugal prospera. Exactamente como o Bloco, que vem do mundo dúbio da heterodoxia marxista e se alimenta da pobreza letrada e de uma velha história, que só neste ermo, esquecido e miserável, continua. O PC e o Bloco são, segundo as sondagens, 20 por cento do eleitorado.

Fora isto, que já chega, há o "debate" entre os presuntivos representantes da democracia "burguesa". De facto, não há debate - de qualquer espécie. A oposição fala do atraso e da insuficiência do país, que naturalmente quase não varia, e atribui ao Governo a culpa dessa interminável desgraça. O Governo devolve a culpa à oposição, que já foi governo, e gaba os méritos das duas ou três coisas, que no meio da balbúrdia conseguiu fazer. Nunca, em tempo algum, se sai daqui. Assistir a uma sessão é assistir a todas. Nem as personagens mudam; e a realidade, essa, não penetra em S. Bento. Para os participantes neste ritual, a substância de uma questão ou de um argumento não contam. "Ganhar" é a afirmação de uma simples superioridade teatral ou da "esperteza" bronca e bruta, que "apanha" o próximo e que o indígena tanto estima.

Em 1975, a Assembleia ainda sabia gramática e usava com alguma eficiência a língua portuguesa. Hoje papagueia sem vergonha os lugares-comuns da propaganda partidária ou perora num calão administrativo e "técnico", que se destina habilidosamente a esconder a verdade ou o vácuo. A tradição oratória, até a salazarista, desapareceu. Não há memória de um discurso organizado e claro, que tenha tido sobre a opinião pública um efeito profundo e duradouro. A Assembleia é um clube privado que, de quando em quando, a televisão mostra a um país mais do que indiferente.

O "debate" sobre o "Estado da Nação" da última quinta-feira exibiu involuntariamente o país como ele é: a indigência intelectual, a mesquinhez de propósito, a irresponsabilidade política. Daquela gente não se pode esperar nada.

Sexta-feira, Julho 11, 2008

A ignorância de um primeiro-ministro seguida de desculpa esfarrapada

Na quarta-feira passada, o Eng. José Sócrates tirou da cartola um coelho apressado mas vistoso, daqueles que crescem em poucos dias por via intravenosa de hormonas: os «carros eléctricos». Portugal está, supostamente, salvo: vêm aí os carros eléctricos, com o patrocínio e o beneplácito da Reanult-Nissan (há sempre umas marcas eleitas pelo regime, que o servem quando recrutadas para tal).

Desgraçadamente, esta pífia solução de e para basbaques não esteve isenta da gaffe da ordem. As pressas e o show-off deram nisto: o Sr. Primeiro
afirmou que "se um carro eléctrico já existisse actualmente, apenas pagaria 30 por cento do imposto automóvel, já que este imposto tem em 70 por cento uma componente ambiental” (sic), seguida da não menos extraordinária ”o Governo está disponível para criar um quadro fiscal ainda mais atraente" (sic).

Como bem lembrou a Quercus, hoje, a componente ambiental representa 60 por cento e não 70 por cento do cálculo do imposto e, actualmente, um veículo eléctrico está isento dos impostos. Um veículo eléctrico está isento tanto de Imposto sobre Veículos como de Imposto Único de Circulação. O primeiro-ministro enganou-se em toda a linha (até no percentual).

Perante isto, fonte oficial do gabinete do primeiro-ministro fez questão de revisitar o clássico «a emenda é pior que o soneto», desafiando o imperscrutável: afinal, o que o primeiro-ministro quis valorizar, e que só pessoas moralmente deformadas não souberam reparar, indo ao ponto de se fixar em minudências que só baralham o essencial, foi o facto de Portugal ter uma taxa de imposto automóvel "das mais favoráveis da Europa para promover veículos amigos do ambiente", ou seja, "quando se referiu aos 30 por cento de pagamento sobre a cilindrada do imposto automóvel [o primeiro-ministro] estava a referir-se ao caso de se aplicar o regime geral. Mesmo nesse caso, no regime geral, pagaria apenas 30 por cento".

Isto não roça o insulto. Isto é um opróbrio. Para além de Portugal ter uma taxa de imposto automóvel obscena – sobre a qual incide ilicitamente o IVA – a gaffe do Eng. Sócrates é insofismável. O que só confirma a minha tese: é mais verosímil ver o Carlos Abreu Amorim a abraçar o Paulo Portas do que esperar que este governo reconheça um erro e evite, en passant, insultar a inteligência alheia.

Terça-feira, Julho 08, 2008

Baralhando o Daniel

É no mínimo tocante a forma como o mundo se encontra devidamente arrumado na cabeça do Daniel Oliveira. Para o Daniel Oliveira, o problema das casas devolutas em Lisboa explica-se com a habitual canga da esquerda : os «ricos» não estão interessados na «comunidade»; os «ricos» não sabem viver em «sociedade»; os «ricos» preferem ver as suas casas vazias do que apinhadas de indigentes e respectivas proles; os «ricos» vivem da e para a «especulação». Factos que o Daniel considera insustentáveis de tão brutais. O «proprietário» – vocábulo apriorístico na caracterização de «rico» - da casa devoluta na Avenida da Liberdade ou numa outra avenida/zona chique ou in, é, na sensível cabeça do Daniel Oliveira, uma criatura ostensiva ou dissimuladamente rica que só por intenção malévola ou ociosidade especulativa aprecia abandonar aos elementos ou aos acidentais vagabundos os seus palacetes. Perante este prodigioso raciocínio, que soluções para o problema produziu o delicado e estimável encéfalo do Daniel Oliveira? Simples: «taxar fortemente» o ignaro proprietário, com o nobre objectivo de o acordar do torpor que a espaços o assalta ou da manhosice endémica que o habita.

Não querendo, de forma alguma, beliscar o brilhantismo desta ideológica «solução total» (que o Daniel descobriu em Nova Iorque), convinha perceber ou clarificar alguns pontos. Em primeiro lugar, será a totalidade ou a grande maioria dos proprietários destas casas gente suficientemente abastada para encetar obras de recuperação ou beneficiação? Não. Segundo: as rendas foram, como diz o Daniel Oliveira, total e transversalmente «descongeladas»? Não. Terceiro: a CML pode lavar as suas mãos deste problema, esquecendo os empecilhos burocráticos que os proprietários mais voluntaristas enfrentam quando pretendem fazer obras ou, por outro lado, menosprezando o facto de não ter uma verdadeira e pragmática política para a requalificação de imóveis no centro da cidade que ajude os proprietários mais desfavorecidos? Por último, pensará o Daniel que o proprietário de um prédio que recebia cinco rendas de 30 euros e que passou, após o salvífico «descongelamento», a receber cinco rendas de 300, está automaticamente habilitado a encetar obras de milhares ou milhões de euros?

Ao contrário do Daniel Oliveira, não aspiro, por incapacidade, a solucionar o problema dos prédios devolutos em Lisboa (ou na generalidade das cidades portuguesas). Sei apenas isto: a solução dos prédios devolutos não passa por uma perseguição cega e preconceituosa do proprietário.

Sexta-feira, Julho 04, 2008

É de herói e de mártir: espremer, mas com «coragem» e «confiança»

Vasco Pulido Valente in Público (04/07/2008)

As duas crises

Não há economista que não se lembre, e não nos fale, do colapso de 1929 (que, de facto, durou até à guerra). Segunda-feira, António Vitorino, na RTP, disse muito seriamente que a democracia podia estar em perigo. Anteontem, Medina Carreira anunciou que vinha aí "barulho", ou seja, uma forma qualquer de reviravolta à força. E o dr. Amado preveniu o parlamento de que, desde a II Guerra Mundial, a situação da Europa nunca fora tão grave. Este espírito apocalíptico não fica pela gente culta e conhecida. Chegou a toda a parte: à imprensa, à televisão, à rádio, ao agricultor anónimo que prevê o futuro para um repórter meio analfabeto. Parece que, de acordo com uma sondagem recente, os portugueses são o povo mais triste e desesperado da "Europa". O que não admira.

No meio disto, o primeiro-ministro resolveu sossegar o país. E como? Com a "teoria das duas crises". Para Sócrates, não existe uma "crise", existem duas: uma "crise interna" e uma "crise externa". Quanto à "crise interna", o governo que ele tão primorosamente dirige já a "venceu": o famoso "défice" é o "melhor" de sempre, a modernização da economia é manifesta e aumentou, ainda por cima, a protecção "aos que mais precisam". Sócrates pôs Portugal no bom caminho e só merece a nossa gratidão. Mas de repente caiu do céu a "crise externa": a desordem financeira internacional, o preço do petróleo, o referendo da Irlanda, a teimosia da Polónia e outras desgraças. Sócrates não passa de uma vítima inerme e inocente desta catástrofe natural, como a vítima de uma tempestade ou de um terramoto.

E o que vai ele fazer? Nada, naturalmente. Vai continuar, como de costume, a "vencer" a "crise interna" (a espremer o contribuinte). E vai "enfrentar" a "crise externa", com imensa "confiança", "determinação" e "coragem": o que, embora bonito, não promete aliviar o cidadão arruinado ou desempregado. Sucede que Sócrates não se interessa por isso. O que ele quer é introduzir na cabeça de cada presuntivo eleitor uma divisão nítida entre o Sócrates da "crise interna", ele mesmo o herói, e o Sócrates da "crise externa", o mártir da história. E quer também que, em Outubro (ou Julho) de 2009, os portugueses, com esta essencial diferença em mente, votem no Sócrates doméstico do défice e das "reformas". Infelizmente para ele, na miséria geral, ninguém se irá lembrar dessa personagem.

Como é que chegámos até aqui? (2)

Maria Filomena Mónica in Público (04/07/2008)

Os testes de Português podiam ser substituídos por uns papeluchos como os do Totobola

Hoje de manhã acordei a pensar no Ministério da Educação. Num mundo ideal, eu seria professora de Português, consistindo a minha missão em sujeitar a exame todos os membros do Gave (Gabinete de Avaliação Educacional), da DGIDC (Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular), do GEPE (Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação), da DGRHE (Direcção-Geral dos Recursos Humanos da Educação) e da ANQ (Agência Nacional para a Qualificação), usando para o efeito uma "grelha" por mim elaborada.

Este desejo surgiu depois de ter lido os programas, os exames e os critérios de avaliação em vigor. Com filhos crescidos e netos demasiado pequenos para frequentar a escola secundária, tenho andado arredada da matéria, embora, pelo que ia ouvindo, por esquinas e ruas, suspeitasse de que a asneira tivera carta de alforria.

Há três semanas, durante uma sessão de autógrafos na Feira do Livro, conversei com algumas professoras do ensino secundário. O encontro despertou o meu apetite por analisar as provas de exame de Português. Havia muito - exactamente desde 1997, quando publiquei Os Filhos de Rousseau - que o não fazia.

Não foi difícil obter, na Internet, o seu enunciado, ou antes, não foi difícil depois de o director deste jornal me ter enviado o devido link. Comecei pela Prova Escrita de Português do 12.º Ano de Escolaridade, a qual incluía um texto de Camões, outro de Luís Francisco Rebelo e outro de Guilherme Oliveira Martins.

À cabeça, aparecia o extracto do Canto X de Os Lusíadas, começando em "Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas,/..." e terminando em "Que possuí-los sem os merecer". Se a inclusão do maior poeta épico português não me admirou, o mesmo não posso dizer das perguntas sobre ele feitas.

No final da primeira parte, pedia-se ao aluno que comentasse, num texto de oitenta a cento e vinte palavras, a experiência de leitura de Os Lusíadas. Com medo de que esta se reduzisse a nada, fornecia-se, em epígrafe, as seguintes linhas de Maria Vitalina Leal de Matos: "Mas o texto é complexo e, por vezes até, contraditório. Em certos momentos exibe uma face menos gloriosa; aquela em que emergem as críticas, as dúvidas, o sentimento de crise". Não só o excerto era desnecessário, como podia causar perplexidade, uma vez que o esquema a preto e branco inventado pelo Gave não se coadunava com "complexidades".

Por outro lado, pareceu-me extraordinário que, a alunos de 17 e 18 anos, se tivesse de fornecer um glossário, no qual se explicava, por exemplo, o que era o Olimpo. Que andaram os meninos a aprender ao longo de dez anos de aulas de História?

Nos grupos II e III, transcrevia-se um texto de Luís Francisco Rebelo sobre O Memorial do Convento de José Saramago, e outro, de Guilherme Oliveira Martins, sobre o P. António Vieira. Do ponto de vista ideológico, o segundo era inócuo, o mesmo não se podendo dizer do primeiro.

Escolha múltipla

Depois de um elogio rasgado ao livro, L. F. Rebelo defendia coisas tão etéreas quanto "a história não é uma categoria imutável e fixa, mas a contínua respiração da realidade, rio cujas águas nunca param e nunca se repetem", desembocando o seu argumento no conceito de "luta de classes", após o que remetia para o poema de Brecht "Perguntas de um Operário Letrado", o qual servia de base para defender que O Memorial do Convento reflectia o conflito entre um "rei beato" e os "servos da gleba".

A fim de serem facilmente classificadas, muitas questões eram de escolha múltipla, ou seja, a seguir a uma frase vinham quatro opções, o que nos leva a pensar que, segundo a ideologia vigente, há uma e apenas uma verdade. Como se isto não fosse suficientemente arrepiante, algumas das supostas respostas certas estavam erradas: a vice-presidente da Associação de Professores de Português chamou imediatamente a atenção para a falta de acordo entre os colegas no que dizia respeito às respostas para o grupo II, 7.

No último grupo, o III, era pedida ao aluno uma redacção, entre duzentas e trezentas palavras, sobre a "temática da dignidade humana e do respeito pelos direitos humanos no nosso tempo". Visto tratar-se de escrever sobre o que passa no século XXI, não entendo a vantagem da inclusão do texto do actual presidente do Tribunal de Contas relativo ao século XVII. Pelos vistos, o contexto temporal desapareceu da cabeça destes pedagogos.

Intrigou-me também a ênfase nos autores contemporâneos. Um anjo-da-guarda explicou-me o motivo. A 4 de Outubro último, através da portaria 1322/2007, Válter Lemos [secretário de Estado da Educação] determinou que, este ano, os exames de Português do 12.º ano passassem a ter como matéria não o que fora dado ao longo do ciclo, como sucedia, mas apenas o leccionado no 12.º ano.

Mutilação planeada

Tal como sucedera no exame de Matemática, a mutilação foi deliberadamente planeada, no sentido de tornar mais simples os exames. Pelo meio, desapareceram autores como Eça de Queiroz e Cesário Verde - declaro, é evidente, um interesse pessoal -, substituídos por Luís de Sttau Monteiro e José Saramago, cujas obras Felizmente Há Luar e O Memorial do Convento são de leitura obrigatória (dada a fama internacional, Fernando Pessoa manteve-se). Em suma, dos clássicos, apenas Camões.

Como qualquer professor sabe, os alunos apenas estudam o que vem para exame, ficando indignados quando lhes "sai" uma coisa não estipulada. A portaria 1322/2007 deu-lhes autorização para esquecer o que eventualmente tivessem aprendido nos dois anos anteriores. Quem viu os telejornais não pode ter deixado de notar as declarações no sentido de que o exame de Português tinha sido "canja" e que, portanto, o futuro iria ser risonho. Não, não vai. Porque os alunos, que hoje ostentam uma face optimista, não tardarão a chorar ao verificarem que não arranjam emprego.

A responsabilidade pelo desastre - porque é de um desastre que se trata - deve ser atribuída a quem ocupa o poder, isto é, em primeiro lugar, a Maria de Lurdes Rodrigues, uma ministra cujo objectivo passou a consistir em baixar o insucesso escolar por via burocrática.

Mas voltemos aos exames. A disciplina de Português, obrigatória para todos os alunos que frequentam o 12.º ano, não é a única que aborda temas literários. Existe uma outra cadeira, optativa, de Literatura Portuguesa, resultado da divisão entre a língua e as obras. Se não é a ler os grandes escritores que se aprende a escrever, então como é? Mas disto não querem saber as luminárias. O programa é, de novo, coordenado pela guru Maria da Conceição Coelho, assessorada, desta feita, por Maria Cristina Serôdio e Maria Joana Campos, não sendo, por conseguinte, necessário voltar a cansar o leitor com citações.

Quero apenas notar que a bibliografia, além de tendenciosa, contém lacunas. Manda-se os professores ler R. Andrews, The Problem with Poetry, Piladelphia, Open University, 1991, e M. Bores et alia, Estética Teatral: textos de Platão a Brecht, Lisboa, Fundação Gulbenkian, 1996, mas a História da Literatura Portuguesa, de A. J. Saraiva e Óscar Lopes, não aparece, como não aparece um único livro de João Gaspar Simões. E, por favor, não me venham dizer que são livros datados.

Propaganda pura

A prova de Literatura Portuguesa para os 11.º e 12.º anos é melhor do que o programa, até porque os escritores escolhidos para análise são Camões e Camilo Castelo Branco. Dado os adolescentes serem particularmente sensíveis ao tema - razão menor, mas que aceito - a inclusão do soneto que começa com "Amor é um fogo que arde sem se ver..." e de um extracto do Amor de Perdição não me pareceu má ideia. Trata-se de clássicos cujo mérito ninguém disputa.

No Grupo III, pedia-se aos alunos para, baseando-se na sua experiência de leitura da lírica trovadoresca, escreverem um texto sobre o tema do sofrimento amoroso nas cantigas de amor. O exame mais bem elaborado é aquele a que um menor número de alunos se sujeitou. Se calhar, uma coisa está relacionada com a outra.

No final, lembrei-me de ver a prova de Língua Portuguesa do 9.º ano, um exame a que foram sujeitos dezenas de milhares de estudantes. Do programa, simplório, não reza a História. Desta feita, o escândalo é o próprio exame. O principal texto - o A - versa a União Europeia. Retirado da Internet, é um artigo de propaganda. Espero que ninguém tenha a tentação de me vir explicar, a mim que, nos idos de 1960, queimei as pestanas a tentar perceber o que, na opinião de Althusser, era um AIE (Aparelho Ideológico do Estado), e que, na década seguinte, se deliciou a ouvir o "We don´t need no education" dos Pink Floyd, que a escola transmite valores. Mas uma coisa é estar consciente do facto, outra é aceitar que nela se transmita propaganda pura e dura. Ora é isto que acontece nesta prova.

Não só os meninos foram sujeitos à ideologia veiculada pela nomenklatura europeia, como o que lhes era pedido se limitava a comentários de índole escolástica. Eis o início: "A União Europeia (EU) está empenhada no desenvolvimento sustentável. Para tal é necessário um equilíbrio cuidado entre a prosperidade económica, a justiça social e um ambiente saudável.

De facto, quando visados em simultâneo, estes três objectivos podem reforçar-se mutuamente. As políticas que favorecem o ambiente podem ser benéficas para a inovação e competitividade. Por sua vez, estas impulsionam o crescimento económico, que é vital para atingir os objectivos sociais".

Se eu tivesse sido sujeita a este exame, reprovaria: não porque tivesse lido mal o que lá vinha, mas por saber que algumas das frases tidas como incontroversas são mais do que duvidosas. Finalmente, a classificação das respostas - com um "V", de verdadeira, ou "F", de falsa - revela uma mente totalitária.

Seguia-se um texto de José Saramago sobre o sorriso. Não vou falar do suposto mérito literário do "nosso" Nobel, mas desejo reiterar que me parece absurdo fomentar a leitura com base em autores contemporâneos. Nem estes são de leitura acessível nem, mais importante, sabemos se têm mérito: um grande escritor é-o quando resistiu à erosão do tempo.

Na segunda metade do século XIX, a elite nacional decidiu que o maior poeta português era Tomás Ribeiro, o qual, em 1862, publicara um poema intitulado D. Jaime. O mais conceituado crítico da época, António Feliciano de Castilho, teve o desplante de considerar a obra como mais importante para o estudo da língua portuguesa do que Os Lusíadas, o que não suscitou arrepios. Mas alguém é hoje capaz de ler, sem se rir, as linhas com que abre o D. Jaime: "Meu Portugal, meu berço de inocente,/ lisa estrada que andei débil infante, variado jardim do adolescente,/ meu laranjal em flor sempre odorante/..."? Quem me garante que José Saramago não é o Tomás Ribeiro do século XX?

Faltava-me ler, com atenção, as instruções que o ministério enviou aos professores encarregues de corrigir os exames. Escolhi o caso do exame de Português do 12.º ano. O que vi - quadradinhos com "níveis de desempenho", listas com os "cenários de resposta" e grelhas com a "correspondência correcta" - deixou-me estarrecida. É certo que as instruções foram transcritas pelos jornais, mas, desacompanhadas dos exames, o leitor não tinha oportunidade de se aperceber da monstruosidade do esquema.

Examinadores vigiados

Não contente com a interferência na vida das escolas, o poder central entendeu por bem vigiar os examinadores de forma maníaca, não os deixando desviar uma linha do que os burocratas consideram "a" resposta correcta. A fim de que não se pense que sou tendenciosa, cito a primeira pergunta, relativa a Os Lusíadas, na qual se pedia ao aluno que expusesse, sucintamente, o conteúdo das três primeiras estâncias.

Nos critérios de avaliação enviados às escolas, especificava-se existirem três níveis de desempenho: o N3, no qual se expunha o conteúdo das três primeiras estâncias (a que se deveria dar 9 pontos), o N2, no qual se expunha o conteúdo de duas estâncias (que mereceria 6 pontos), e o N1, no qual se expunha apenas o conteúdo de uma das estâncias (ao qual se deveria dar apenas 3 pontos). É isto normal?

Na pergunta seguinte, depois de se ter afirmado que a "Fama" desempenhava um papel fundamental no processo de imortalidade, pedia-se ao aluno que referisse "três dos aspectos evidenciados nesse desempenho, fundamentando a sua resposta com citações do texto".

Seguia-se uma coisa designada como cenário de resposta, cujo objectivo era explicar aos professores o que eles sabem ou deviam saber: "A resposta deve contemplar os seguintes aspectos: a "ilha" (incluindo as Ninfas e Tétis) é o prémio, a recompensa dada aos marinheiros; os "deleites" são os triunfos, os louros (1ª estância); os prémios concedidos pela antiguidade eram atribuídos a quem fazia o difícil percurso da virtude (2ª estância); os deuses não passam de humanos que praticaram feitos de grande valor; daí terem recebido o prémio de imortalidade (3ª estância). Seguiam-se os critérios de avaliação, N3, N2 e N1, com a usual pontuação decrescente.

Na terceira pergunta, pedia-se, entre outras coisas, ao aluno para identificar a apóstrofe presente na estância 92. Lá voltavam a aparecer os "critérios específicos de classificação", com a respectiva pontuação. No "cenário de resposta", especificava-se que a resposta certa era "ó vós que as famas estimais". Se um aluno respondesse, por exemplo, "ó vós" - o que estaria certo -, a resposta teria de ser considerada errada. É isto aceitável?

Demorei-me a analisar este texto porque, de entre todos - e, como viram, a escolha não é fácil -, foi o que mais me escandalizou. Deste novo mundo, labiríntico, burocrático, totalitário, desapareceu a autonomia dos docentes, o dever de julgar e até o estímulo para separar os alunos marrões dos criativos. Se as perguntas de escolha múltipla já me tinham irritado, mais furiosa fiquei ao ver que o método era aplicado ao que antigamente se chamava uma redacção. Em grande medida, estas loucuras derivam da filosofia de avaliação expressa na obra de Válter Lemos, O Critério do Sucesso: Técnicas de Avaliação da Aprendizagem (1986).

Máquinas registadoras

Se isto choca nas chamadas Ciências Exactas, o facto é, nas Humanidades, uma anormalidade, uma vez que analisar um texto literário não é o mesmo que resolver um problema de Química. Nos anos 1960, a crítica literária teve de se defrontar com o marxismo e, depois, e em rápida sequência, com o estruturalismo, o pós-modernismo e a semiótica, correntes demasiado esotéricas para que delas possa, ou queira, falar.
A partir de então, a crítica literária foi tida como uma espécie de ciência. Tudo ficou de pernas para o ar, não me devendo eu espantar que a Língua Portuguesa tenha sido separada da História da Literatura nem que a análise do texto o seja dos respectivos autores. A coroar o disparate, o ministério optou por elaborar exames cujo objectivo é escamotear o facto de estarmos a formar uma geração incapaz de pensar, de falar e de escrever.

À volta da elite burocrática sediada no ministério, existe hoje um enxame de "especialistas" que determina o que é, ou não, "correcto". Os exames que elaboram poderiam ser substituídos por uns papeluchos como os do Totobola, nos quais os alunos fariam ao acaso umas cruzinhas, sendo estas posteriormente contadas por uma máquina.

O actual secretário de Estado da Educação e os seus anões não pertencem à tradição humanística que fez a glória da cultura ocidental, mas a uma corrente pedagógica que vê o aluno como um robot e o professor como uma máquina registadora. O Português não é a sua pátria.

Terça-feira, Julho 01, 2008

MacGuffin's Jukebox

Segunda-feira, Junho 30, 2008

MacGuffin's Jukebox (o regresso)

Comer gelados, subir árvores, andar de bicicleta, ficar deitado sobre a relva molhada, gins tónicos ao som de Francis Albert Sinatra, ver o sol nascer, flutuar, caracóis, dormir na praia, comer percebes, não trabalhar, dedos enrugados, pele salgada, observar o céu estrelado (de preferência de mão dada).

É Verão. E há músicas que fazem lembrar o Verão.






Para quando um karaoke, Sr. Primeiro Ministro

Referindo-se às confederações patronais, José Sócrates terá soltado um "não é justo que não gostem de mim" (sic). Vai daí, lembrei-me desta intemporal letra:

Eu vivo a sonhar
Não pensem mal de mim
Quanto mais não vale
Viver a vida assim
Nas asas do sonho
É bom andar sem norte
Não preciso vistos
Nem uso passaporte"

Que nem uma luva.

Sexta-feira, Junho 27, 2008

Não, agora a sério: como é que chegámos até aqui?

Portugal está entregue a gente insana, a doutrinas estupidificantes, à gentinha dos «aparelhos», aos dilectos do chefe, a tecnocratas sem bom senso e sem pudor. Notícia Público:
DREN não quer professores que dão notas "distantes da média" a classificar exames
De acordo com um relato de um professor escrito em acta, a directora regional de Educação do Norte, Margarida Moreira, pediu aos conselhos executivos das escolas para terem atenção na escolha dos docentes que vão corrigir os exames, e disse que “talvez fosse útil excluir de correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações muito distantes da média.” Os “alunos têm direito a ter sucesso” e o que “honra o trabalho do professor é o sucesso dos alunos” terá dito imediatamente antes e depois.

Boa notícia

Paulo Rangel foi eleito líder da bancada parlamentar do PSD. Terá de esgrimir argumentos com o Sr. Eng. Sócrates, com o Sr. Dr. Augusto Santos Silva, com o Sr. Dr. Alberto Martins, com o Sr. Dr. Silva Pereira. Por mim, já ganhou o céu.

Quarta-feira, Junho 25, 2008

The deed is done (apparently...)

O quê: Jenny Lewis and the Watson Twins? Rilo Kiley? Grizzly Bear? Beirut? Arcade Fire? Ena, ena…

Por objectiva inaplicabilidade, e por manifesta inteligência da destinatária, a série “A reeducação de Miss Charlotte” fica suspensa por tempo indeterminado. Aparentemente, a Sra. Dona Charlotte supera-se a cada dia que passa e eu, pela presunçosa parte que me toca, suspendo os meus serviços, não sem antes tirar o chapéu.



Já agora, caso a própria não conheça (o que, a avaliar pela onda sapiente, duvido), deixo mais duas referências (sugeridas a moi por este bom homem).


Terça-feira, Junho 24, 2008

Uma cabeça de cavalo

João Pereira Coutinho in Expresso (21/06/2008)

União Europeia

A actual União Europeia já merecia um filme e eu, modestamente, tenho realizador para ele: Francis Ford Coppola, obviamente. Depois de "O Padrinho", seria fácil montar uma fita sobre as fitas que a União faz para construir uma Europa sem europeus.

E como se processa essa "construção"? Para citar Vito Corleone, fazendo propostas que os outros não podem recusar. Porque, se recusam, acordam com uma cabeça de cavalo entre os lençóis.

Durante meses, Bruxelas foi a família Corleone, ameaçando e chantageando os pobres irlandeses para que votassem num único sentido. Por definição, um referendo tem duas respostas possíveis; para a família, tem apenas uma, o que mostra desde logo a farsa democrática em que a União se sustenta.

Conhecidos os resultados irlandeses, com um expressivo "não" ao Tratado de Lisboa, a família não baixou os braços. E se alguém relembra que o Tratado precisa de ser ratificado pelos 27, coisa que o referendo irlandês teoricamente enterrou, a família não perde tempo e desata a rasgar as suas próprias leis.

O Tratado não está morto, disse a família, e acrescentou que os restantes membros devem ratificá-lo sem demora. A Irlanda, presume-se, será posta de castigo para pensar outra vez. Como aconteceu com o Tratado de Nice, em 2001. A prazo, os irlandeses serão reconduzidos às urnas e, com a arma apontada, obrigados a votar no sentido que a família recomenda. Ninguém gosta de acordar com uma cabeça de cavalo entre os lençóis.

Pessoalmente, nada disto me espanta. O que espanta é a alegre desvergonha da elite europeia que nem sequer oculta os seus procedimentos autoritários; procedimentos que repugnam qualquer democrata verdadeiramente liberal.

Mas não só. O espanto de hoje será coisa pouca perante o espanto de amanhã: ao ignorar e violentar as escolhas livres dos seus povos, a União Europeia está a semear o extremismo nacionalista que um dia despertará contra ela. E que despertará com uma violência política que transforma o referendo irlandês numa brincadeira de crianças.

Segunda-feira, Junho 23, 2008

Isto da democracia dá muito trabalho

mugabe

Pedindo, desde já, desculpa ao críticos da paróquia

Fui ver o último Shyamalan e gostei. A avaliar pela crítica, que lhe atribuiu, no máximo, 2 estrelas, estou a perder qualidades. É certo que é a mesma crítica que atribuiu 3 e 4 e 5 estrelas ao último Indiana Jones. Mas não insistas, Mac. Estás errado.

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A reeducação musical de Miss Charlotte (20)

A reeducação musical de Miss Charlotte (19)

Sexta-feira, Junho 20, 2008

É mais uma opinião, claro

Notícia Público:

”A Associação de Professores de Matemática (APM) considerou hoje que o exame nacional de 9.º ano da disciplina foi o "mais fácil" desde que a prova se realiza, sublinhando que algumas questões poderiam ser respondidas por alunos do 2º ciclo. Também a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) criticou o reduzido grau de dificuldade do exame, sublinhando que "a nivelação por baixo" poderá ter custos futuros "muito graves".

"Na generalidade, a prova é mais acessível e mais fácil do que nos anos anteriores. Algumas questões poderiam ser resolvidas por alunos do 2º ciclo", defendeu Sónia Figueirinhas, vice-presidente da APM.

Perto de 100 mil alunos realizaram hoje o exame nacional de Matemática, que se realiza desde 2005. O ano passado, 72,8 por cento dos estudantes tiveram nota negativa, quando em 2006 a percentagem de chumbos no teste situava-se nos 63 por cento.

"Em algumas questões ficou aquém das competências e conhecimentos que os alunos no final do 9.º ano deveriam ter. Se em exames anteriores as questões eram mais elaboradas e difíceis, não há razão para que este ano também não fossem", acrescentou.”

O que dirá a Sra. Ministra disto? Nada. Como diz a própria, a Sra. Ministra não tem que comentar «opiniões».

Tudo explicadinho

Assisti, caladinho, ao circo. Nada disse, ou escrevi, sobre o Europeu. Observei, de longe, e com algum prazer, a histeria e a idiotice militante da generalidade dos «agentes» que concorrem para fazer do futebol o «deporto rei» (dirigentes, treinadores, jogadores, jornalistas, treinadores de bancada, adeptos em geral). Para a história ficaram momentos inexcedíveis, que me levaram à quase apoplexia, como o do jornalista do RCP que, à falta de tema, descrevia os gradeamentos que ia encontrando ao longo de um percurso pedonal, algures na Suiça, ou o de outro jornalista radiofónico confessando-se triste e ofendido por Figo e Fernando Couto terem recusado falar com ele.

Como sempre, os portugueses apostaram tudo na selecção. Como nos explicou de forma tão ternurenta e segura o Dr. Carlos Abreu Amorim e o «impossível» Dr. Carlos Coelho, perante o olhar atónito de Daniel Oliveira no programa-divã da nação (o Prós e Contras), a selecção levaria o país ao colo até à redenção final, onde tudo e todos se excederiam e se reinventariam, forjando uma nova «arrancada» e um novo «espírito» mobilizador, solidário, a rebentar de auto-estima. O sonho morreu, ontem. E eu, que de futebol não percebo nada, suspirei um "esta gente estava à espera do quê?". Bastou observar de soslaio os jogos de preparação para o Europeu para perceber que tínhamos uma selecção tão coesa como o PSD. Bastou observar a soberba dos jogadores da selecção e a disponibilidade dos mesmos e do seleccionador para dar entrevistas, para perceber que tínhamos já embarcado no nosso sobejamente conhecido Titanic da «parvoeira e histeria colectivas». Bastava ter reparado nos erros tácticos e na teimosia recorrente de Scolari para perceber para onde nos encaminhávamos. Reparem só neste pormenor: o Sr. Scolari poupou os titulares no jogo contra a Suiça porque, dessa forma, os «titulares» ganhariam três ou quatro dias de avanço sobre os «cansados» alemães. Há atitude mais portuguesa e chico-esperta do que esta? A ninguém ocorreu dois factos: a) qualquer derrota nesta fase teria efeitos sobre a selecção, mesmo que fosse a berlindes contra o Cazaquistão; b) quebrar o ritmo e, para utilizar uma palavra tão em voga, o trabalho de «entrosamento» dos jogadores principais em plena prova poderia ser contraproducente. É claro que o notório, ontem, era previsível: a Alemanha com uma máquina bem oleada, tacticamente coesa, extremamente atenta; Portugal com uma defesa miserável e descoordenada, um meio campo sofrível e um ataque carregado de ansiedade.

“Ah, mas a culpa é do arbitro, que não viu o Ballack a empurrar o nosso! E do Ricardo, que é uma besta a sair à bola! Até jogámos bem! Tivemos foi azar!”

Pois.

Terça-feira, Junho 17, 2008

O voto

A aversão que a «Europa», o Dr. Durão Barroso e, à escala liliputiana, o Eng. José Sócrates têm pelo voto e pela consulta popular só tem paralelo com o meu asco por cobras e osgas. O «não» irlandês explica-se tão bem como o Prof. Nuno Crato nos pode explicar o resultado da soma 1+1: ninguém sabia o que era e o pouco que se sabia não aliviava um grama ao pesado fardo que cada família de classe média de qualquer país europeu (salvo raríssimas excepções) por estes dias carrega no seu dia-a-dia – cenário mais do que ideal para chumbar propostas vagas, ditadas por gente que não se conhece e com efeitos duvidosos em sede de soberania e eficácia imediata. Visto noutra perspectiva, o «não» irlandês foi uma espécie de «cut the crap» face à plasticidade de um Tratado inconsequente e um aviso para que os lunáticos de Bruxelas e Estrasburgo percebam, de uma vez por todas, que a Europa é, ainda e por muitos e bons anos, um conjunto heterogéneo de países e não uma massa uniforme de alienados. A desconfiança irlandesa perante o Tratado de Lisboa é igualzinha à que a maioria da ralé de todos os países europeus sente quando se lhes fala do Tratado e da construção europeia. A única diferença é que a Irlanda consultou o povo e isso revelou-se a céu aberto. Nos outros países, optou-se pela passagem administrativa. Bem ao jeito, aliás, da doutrina Socratiana e Barrosiana, avessa a divergências e contratempos que baralham os seus planos forjados a régua e esquadro, putativamente mobilizadores e salvíficos.

Se eu estou contra a Europa? Não. Só não gosto é de gente apressada, cega e com noções muitos duvidosas sobre o que significa respeitar a vontade popular e que lições retirar dos resultados.

socratesbarroso

Explicações de português

Leiam a crónica do Vasco Pulido Valente reproduzida aqui, de seu nome "O Europeu".

Segunda-feira, Junho 16, 2008

Discos de Verão

Qual Verão? Que Verão?

O assunto é sério

Junto a Ciudad Rodrigo comprou-se um dos melhores presuntos de que há memória: o Gran Reserva Coto de Galan. Porco ibérico (what else?), alimentado 100% a bellota nas dehesas da Extremadura (where else?), com cura de 2 anos (não em cascos de carvalho). O preço é uma coisa a atirar para o obsceno (cerca de 53€ o quilo) mas o resultado é sublime: gordura translúcida entremeada de forma improvável com a carninha, a «travar» ligeira e delicadamente na garganta. A carne transpira saúde e, no corte, parece manteiga. Combinado com pão alentejano (Vidigueira ou Torrão, não sejamos esquisitos), é capaz de converter ateus em religiosos fervorosos e bloquistas em neoliberais. Manter afastado de gente bruta (para que sobreviva às primeiras 24 horas).

”Allí pasean a sus anchas por encinares de miles de hectáreas, potenciando esa inimitable manera suya de infiltrar grasa, procedente sobretodo de la bellota. Esta característica genética dará lugar a las peculiares vetas blancas, que otorgan a este producto una untuosidad, aroma y sabor inigualables.”

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Sexta-feira, Junho 13, 2008

Países que nos salvam (e que dão lições a burocratas)

Parafraseando a grande Heidi Klum:

“One of you will be named the winner, all the other ones will be out.”

Ireland

Sábado, Junho 07, 2008

A humidade faz a força

Sexta-feira, Junho 06, 2008

Isto é bom mas, no geral, eles vão ter que se esforçar um pouco mais

Terça-feira, Junho 03, 2008

Saudades

Imagino-o, por estes dias, como sempre: com aquele olhar de quem está bem com a vida e consigo próprio, envergando um sorriso capaz de desarmar a mais bélica das abordagens e contagiar o mais tímido dos tímidos. Imagino-o, onde quer que ele esteja, rodeado de amigos – ele que fazia e cimentava com facilidade amizades para a vida - em alegre cavaqueira, rodeado de boa comida - regada, obviamente, a preceito – e boa música. Imagino as conversas: política, filosofia, gastronomia, ciência, futebol, música, cinema, viagens, Israel, a Palestina, arte, etc. etc. e não necessariamente por esta ordem. Com o Carlos era assim: falava-se de tudo e sempre com propriedade. Nunca o vi repetir (no sentido de plagiar) uma ideia alheia. Em suma: tinha voz própria e o respeito que se lhe tinha era, passo o pleonasmo, orgulhosamente respeitoso. Ao contrário de mim, era de esquerda, mas de uma esquerda que me fazia falta: a que açoitava regular e clamorosamente o meu lado cínico e por vezes pedante, a resvalar para simplismos maniqueístas ou soluções plásticas e absolutistas. Tinha um saber enciclopédico e uma memória de Funes: quando já ninguém se lembrava do ano, nem sequer do sítio, o Carlos ia ao pormenor da hora, da ementa, das conversas, do tempo e da gaffe do empregado. Fruía a vida como poucos e envolvia os que o rodeavam nesse espírito de forma militante. Aprendi, com ele, muitas coisas: a escolher o bom em vez do medíocre, a ser limpidamente justo no meio da confusão dos dias e do ruído de fundo, a usar mais a razão que o preconceito, a reconhecer as vantagens do lazer sobre o trabalho, a gozar a languidez dos dias em que, para nosso prazer, havia tempo para nada fazer.

Por estes dias, volto a sentir na pele aquilo que jamais esquecerei: há dois anos atrás perdi o meu melhor amigo. Tenho saudades tuas, brother.

cv2
circa 1997, durante um jantar (de antologia)


CV1
Da esquerda para a direita, todos de fraque, num casamento no norte: o Porsche, o Telmo, o MacGuffin, o Carlos, o Nuno (o nosso agente em Copenhaga) e o Renault 5.

PS: um grande beijo para a Helena.

Segunda-feira, Junho 02, 2008

Olha, querida, faz-me favas com chóriço

Sexta-feira, Maio 23, 2008

Dennis The Pennis (2)

Dennis The Pennis (1)

It's a bird... it's a plane...

Notícia Público:
Governo confirmou passagem por Portugal de 56 voos de e para Guantánamo

Este é mais um caso (é, aliás, "o" caso) para a Super Ana Gomes!

anagomes

Espera-se, a todo o momento, a «indignação», o «I told you so», o «a mim ninguém me engana», o «se não fosse eu a escarafunchar...», o «este PS é de direita e está feito com os déspotas e com o grande satã».

Quinta-feira, Maio 22, 2008

Sobre a Feira do Livro (ainda)

A referência que me ocorre:
AIsabelEIntelectual por Tiago Guillul

A Isabel é intelectual
porque perdeu a virgindade na Feira do Livro
E ela vê, ela lê, ela sabe de cor o ABC

Quarta-feira, Maio 21, 2008

Marquise é uma espécie de bolo, não é?

O Sr. LR diz que eu gozei com o Sr. Saramago. Disparate. Eu não gozei com o Sr. Saramago. Tentei, de forma provavelmente deficiente, dizer mal do Sr. Saramago. Coisa bem diferente. Repare-se: não se goza um Nobel. É aviltante fazê-lo. Pode dizer-se mal da obra de um Nobel, desferir um ataque ad hominem, tratá-lo abaixo de cão. Agora, «gozar»? Acho mal. É pouco digno. É falta de respeito.

Diz o Sr. LR que eu perorei sobre assunto que desconheço. O Sr. LR é um distraído. Ou fez-se de desentendido (típico no Sr. LR, companheiro de outras querelas). O que estava em causa no meu post não era o passado. O que esteve na mira do meu post foi a reacção do Sr. Saramago. Para o caso, não interessava saber se outras editoras tentaram no passado fazer o que a LeYa pretende no presente levar a cabo (ou se no passado houve proibições tenebrosas e agora não). O que me interessou, e divertiu, foi a canga das «classes» e da «feira democrática», a teoria do «caos» e o medo das «imponências» levado à cena pelo Sr. Saramago. O que me interessou foi o verdadeiro festival ideológico evidenciado em cada sílaba pelo Sr. Saramago. Sobre isso, o Sr. LR nada disse.

O Sr. LR acha que uma feira do livro é uma feira do livro. Ponto final. Dito de outra forma, a uma feira do livro só interessam os livros. Nada mais. O resto é paisagem. Ou folclore que conspurca e desvirtua o objecto-livro e alta cultura que lhe está subjacente. Acha ele, e mais uns quantos comentadores, que os livros devem viver afastados da confusão, do acessório, do espectáculo, do pó (eu também acho) e, provavelmente, da canalha da alta finança e do comércio, para quem um livro, um sabonete ou um pacote de batatas fritas são a mesma coisa. Nesse caso, o Sr. LR não gosta de feiras (como eu). Ou deveria ser indiferente ao seu formato (como eu). Nesse caso, o Sr. LR só deveria ir a livrarias, onde o silêncio, o recato, a apresentação, a temperatura e a fauna são superiores. Bem sei que, no caso das feiras, ao Sr. LR só lhe deverá interessar o bom do desconto. Mas esse é um argumento, ou um critério, pobre, comezinho e mesquinho. É o típico argumento de quem poupa na casa e aposta na marquise.

Segunda-feira, Maio 19, 2008

Wright or wrong?

João Pereira Coutinho in Expresso (17/05/2008)

Barack Obama

Ganhe ou perca contra McCain (e eu acredito que vai perder), Obama já ganhou a corrida para a nomeação democrata. Razões da vitória? Os deméritos de Hillary, que se resumem na arrogância com que a senhora se apresentou a concurso: Hillary acreditou que a candidatura seria um passeio triunfal (e, sobretudo, breve) em que a alegada "experiência" da antiga primeira-dama acabaria por afastar a concorrência.

Azar. O passeio não foi triunfal, não foi breve e a "experiência" de Hillary não foi vista como uma vantagem. Pelo contrário: saturados das dinastias Clinton e Bush, os americanos desejam outro apelido no boletim de voto. Sem falar do resto: ter votado a favor da guerra iraquiana é uma mancha que os democratas não esquecem nem perdoam; e as fantasias infantis fabricadas pela senhora (como ter estado sob fogo na Bósnia) relembraram à América que a mentira é um defeito de família.

E Obama? Obama é sobretudo um mistério - e já nem falo das "ideias". Nas últimas semanas, a candidatura do homem tremeu com as declarações do reverendo Jeremiah Wright. Quem é Wright? De acordo com o próprio Obama, um dos homens mais importantes da sua formação, para além de o ter casado e baptizado as filhas. O que se sabe de Wright, porém, chega e sobra para fazer tremer o mais crédulo dos crédulos: um extremista racial, para quem o governo americano teria fabricado o vírus do VIH com o sinistro propósito de exterminar a raça negra. Durante 20 anos, Obama viveu e conviveu com a criatura. Nunca se ter apercebido da faceta lunática de Wright desafia a credulidade.

Provavelmente, Wright voltará ao ataque até às eleições, provocando sangrias sempre que abrir o bico. Mas os problemas para Obama não estão simplesmente em Wright. Como se viu nas primárias decisivas da Carolina do Norte e de Indiana, Obama é cada vez mais o candidato dos jovens e, claro, da comunidade negra. Ao mesmo tempo, afasta-se do "centrão" moderado e já perdeu o voto religioso. "Sorry", rapazes. Não chega para ganhar em Novembro.

A reeducação musical de Miss Charlotte (18)

A reeducação musical de Miss Charlotte (17)

Do que nos livrámos

Uma notícia no Público dá-nos conta do pesar de Saramago sobre a possibilidade de coexistirem pavilhões «diferenciados» na Feira do Livro de Lisboa, a qual, como todos sabeis, era servida por barraquinhas uniformes:
”Referindo-se à autorização para pavilhões diferenciados, Saramago criticou a "diferença na apresentação dos livros de qualquer editora". "Não me parece bem. Se nos pavilhões cabiam as pequenas e as grandes editoras, podiam continuar a caber", defendeu o Nobel da Literatura. Para o escritor, esta "não foi uma boa solução" porque "abre portas a uma espécie de caos". José Saramago caracterizou a Feira do Livro como uma "festa democrática", onde a existência de pavilhões diferenciados e eventualmente "imponentes", "exibe uma diferença de classes".

Comunista dos sete costados (vamos pensar que sim), e provavelmente incomodado pelo facto da sua editora – a Caminho – ser agora propriedade do vampiro capitalista Paes do Amaral (grupo LeYa), Saramago não deixa os créditos igualitaristas em mãos alheias e alerta o mundo para o caos que aí vem se deixarem o homem à solta. Para Saramago, será um duro golpe no espírito comunitário e democrático da Feira do Livro, onde toda a minha gente se sujeitava, por hábito e amorfismo, à mediocridade vigente. Fazer diferente, e provavelmente melhor?! E os pequenos?! E os pobres, que não vão poder «acompanhar» os ricos?! Nem pensar, avisa Saramago. Isso estragaria a «festa». Há que nivelar por baixo. Há que refrear a diferença. Há que domar a diversidade. Há que ser utilitarista na adopção de proteccionismos. Há que boicotar essas novas ideias «progressistas». E eu penso: ainda bem que um certo “Abril” não se cumpriu.

(também publicado aqui)

Sexta-feira, Maio 16, 2008

No país das maravilhas

Esta notícia dá conta que o Parlamento aprovou ”com os votos favoráveis do PS, PSD, Bloco de Esquerda e sete deputados do CDS, o Segundo Protocolo do Acordo Ortográfico”. Manuel Alegre (PS), dois deputados do PP e Luísa Mesquita votaram contra.

Em nome de um vago e duvidoso interesse nacional, os dois Blocos (o Central e o de Esquerda) aprovaram um acordo que me envergonha. Não tanto pelas razões ortográficas (a que não sou insensível), mas acima de tudo por se tratar de um acordo absolutamente cretino e falacioso. Este acordo não vai adiantar um grama de utilidade à compreensão do português falado e escrito no Brasil. Este acordo vai lançar a confusão entre a população estudantil e as respectivas famílias (a minha filha de 12 anos vai sentir na pele a dicotomia tão ridiculamente explicada e irresponsavelmente acolhida por Sua Eminência o Cardeal coimbrão Carlos Reis, segundo o qual cada um escreverá como lhe aprouver porque, é verdade, o Acordo assim o permite). Este acordo vai criar uma sensação de instabilidade e desnorte pedagógico na classe docente.

Até o putativo contributo do Acordo para a cultura e para a economia dos bens culturais só pode ser levado a sério por duas espécies de obtusos: os que não enxergam a que nível se encontram as diferenças que pesam para o hipotético «fosso» linguístico entre Portugal e o Brasil (a sintaxe, o vocabulário, as expressões idiomáticas, etc.); os que, tendo interesses económicos no âmbito dos livros e afins, insistem na expectativa desesperada de uma pífia «abertura» que lhes permita vender mais uns obscuros opúsculos da Sra. Dona Lídia Jorge ou do sempre jovem Peixoto.

Há, finalmente, uma espécie de apoiantes do acordo cuja argumentação não se fundamenta nas supostas virtudes do mesmo, mas tão só no facto de vislumbrarem nos argumentos contrários e nas pessoas que os personificam, laivos bacocos de nacionalismo e neocolonialismo ou, pior, o pútrido perfume de tempos «orgulhosamente sós». Há gente para quem a política e a ideologia são tudo. Pena é que não vejam para além disso.

PS: Dispenso-me de comentar o argumento da «união dos povos» por razões óbvias (lirismos não, obrigado).

Quarta-feira, Maio 14, 2008

Há 10 anos acabava a série do Jerry, do George, do Kramer e da Elaine

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Terça-feira, Maio 13, 2008

Earl Grey, I suppose

Eu adoraria tomar um chá com o Sr. Passos Coelho over political philosophy. Estou certo que o Sr. Passos Coelho leu, a seu tempo, Hayek, von Mises, Strauss, Friedman (o Thomas e o Milton) e, quiçá, Nozick. Ou seja: o cânone contemporâneo do «liberalismo». Estou certo que terá debatido calorosa e apaixonadamente com os seus pares, em universidades de verão ou fóruns organizados pelos jotas, as virtudes do liberalismo sobre o socialismo. Estou certo que, dos três ou quatro ou cinco ou dez candidatos a líderes do PSD, o Sr. Passos Coelho será aquele com quem se atingiria mais rapidamente a bitola da boa e amena cavaqueira em torno de tópicos tão sugestivos como ciência política, modelos de organização social e económica, regimes de protecção social ou o efeito das radiações UV sobre a pele. Acontece que o que está em causa no PSD não é a eleição do mais simpático e cool e eloquente e apresentável dos visionários e teóricos políticos do centro direita. O que está em causa é a eleição de uma figura (velha, nova, gorda, magra, homem ou mulher, gay ou straight) que tenha o instinto, a experiência de facto (a «experiência de» e não a «experiência acerca» como Oakeshott nos ensinou a distinguir) e a exacta noção da perfeita e trágica correlação de forças entre a realidade «real» e a exequibilidade dos ditos «modelos».

FFF

Por estes dias tenho-me apercebido que em matéria de evolução histórica e social este país ainda vegeta sob a égide dos três ‘F’: Fátima, Futebol e Fado. Não necessariamente por esta ordem, diga-se. O Sr. Passos Coelho deveria ter isso em conta. Aliás, o Sr. Passos Coelho - um político simpatiquíssimo - deveria ter em conta muita coisa. A começar pelo país em que vive. Até que ponto, a ideia de «liberalismo» do Sr. Passos Coelho encaixa no país da Liga dos Últimos, do Sr. Francisco Louçã e do Professor Doutor José Pureza?

Domingo, Maio 11, 2008

Digam o que disserem

Vasco Pulido Valente, in Público (28/03/2008)

Um adeus português

Foram esta semana a leilão o título e os bens de O Independente, para pagar uma dívida de quatro milhões. Ninguém deu nada nem por uma coisa, nem por outra. A oferta máxima pelo título não passou de 1.100 euros, provavelmente porque se julga que não atrai ninguém e até pode repelir uma certa espécie de opinião. O jornal saiu de cena como um resto pouco estimável de uma época morta. Verdade que o longo final tirou todo o dramatismo a um fim mais do que esperado. Mas nem sequer houve um sentimento de perda e melancolia. A televisão não disse nada, a imprensa, quando deu por isso, arrumou o caso com uma notícia desinteressada e curta. O Portugal de 2008 enterrou O Independente como quem enterra um primo de má vida e pior fama, que se deve esquecer. Como se calculará, não partilho esta atitude, que me parece hipócrita e suspeita. Fundado em 1988, O Independente é inseparável do «cavaquismo», ou seja, de uma época de esperança e prosperidade. Portugal não voltaria à «cauda da Europa» e tinha à sua frente um futuro de ouro. Quem não concordava com isto era, evidentemente, um «velho do Restelo». No ridículo entusiasmo em que se tornara a ortodoxia oficial, O Independente nunca se iludiu. Esteve sempre contra a arrogância e as certezas do Governo e (pelo menos, no primeiro mandato) contra a irresponsável retórica de Soares. Na oposição, só ele existia. O que o PS, reduzido a uma completa impotência, nunca no fundo conseguiu engolir e o que, infelizmente, levou Paulo Portas para a política e o CDS.

Mas falar de
O Independente sem falar na liberdade que Miguel Esteves Cardoso trouxe ao jornalismo português não faz sentido. O Terceiro Caderno raspou a solenidade e a pompa de uma geração que, da esquerda ou da direita, herdara as tradições do «respeitinho» indígena. Depois do Terceiro Caderno não se escreveu mais como se escrevia antes. Claro que a iconoclastia empurra sempre para o excesso e que, de quando em quando, se pisou de facto o risco do bom senso e da simples decência. Resta que ler ou escrever no Indy foi um privilégio. Portugal precisava hoje de um terramoto igual. A mim o que me custa, naquele horrível leilão, é a facilidade com que se deita fora uma história exemplar, alegre e rara, na subserviência e na mesquinhez da cultura instalada.

Sábado, Maio 10, 2008

A arte da crónica (4)

Peter Simple
(Michael Wharton)

Processed

The government is to spend more than £4 million on a scheme to give every primary and secondary school on this country a computer of its own. ‘Children entering primary schools now’, says Mr William Shelton, junior Education Minister, ‘will still be contributing to the productivity of this country in the year 2040. It is essential that they develop the tools of the future in the schools of today.’

Amid the roar of adult cheering, mingled with the shrill piping of the poor little monsters who have already been enslaved by this gadgets (which they naturally find great fun), I can hardly expect any words of mine to be heard or even processed.

But what does the government’s proposal really mean? It means that these instruments of auto-hypnosis will be furthering at school the tendency by which children, already seduced by menticidal flickering-machines at home, are to be robbed of their childhood – and thereby of then adulthood as well.

This is a scheme for producing a whole generations of morons and slaves of the machine, without a sense of wonder, without any true sense of the real world in which they live. In place of thoughts and sensations they will have numbers, symbols, formulae.

And how does Mr Shelton know that computers will be the tools of the future? The tools of the future may be the spade, the fork and the scythe. How does he know what life in the year 2040 will be like? Why does he think the children of today should be systematically processed for a future which nobody can possible forsee?

A computer in every school? Can it be that the ‘midless vandals’ who specialise in dealing with schools will prove to be the unconscious friends and benefactors of humanity, at least throwing the occasional spanner in the wheel of computerised progress even if they cannot stop it altogether?

A terrible Thought

As I read a report of a debate in the Commons on rules about immigration, with Mr Hattersley, the Shadow Home Secretary, in full flood and accusations of ‘racism’ flying about the place, a terrible thought came into my mind.

What is ‘racism’ (or ‘racialism’, as it was called before it became, according to the liberal consensus, the one sin which may not be forgiven either in this world or the next)? If it means ‘racial discrimination’ it can be anything form the crankish theories of Alfred Rosenburg, the Nazi expert on ‘racial science’, to an instinctive and generally harmless human preference for people of one’s own kind; a belief, until recently unquestioned by the sane, that there are differences, not necessarily implying superiority or inferiority, between one race and another.

In this latter sense almost everybody in the world is a ‘racist’. My terrible thought was this: that one day, just once, as one of the periodical orgies of cant on this subject was raging, some Member of the Parliament might get to his feet and say: ‘I am a racist. And so, you hypocrites, are you’.

It might be the end of the world. On the other hand, it might make everybody feel a great deal better.

Bedroom Horrors

According to a survey, 46 per cent of homes in this country have two or more television sets and a majority of their owners have their second sets in their bedrooms. Six per cent of this people said that bedroom television ‘inhibited sexual intercourse’. They were men and women in roughly equal numbers but mainly of the lower middle class.

Seventeen per cent, found that other bedroom activities inhibited by television were, firstly, reading, followed by games of Scrabble, knitting and pillow-fighting. As for the programmes, horror films were said to be more popular in the bedrooms of the Midlands, documentaries in London and Scotland and old films in the North of England.

What is one to make of such findings (an even more horrific one emerged in another survey which showed that 18 per cent of children had their own television sets)?

Here is a picture of a nation debauched by continual, passive exposure to visual and verbal rubbish and in danger of being reduced to total, drooling imbecility. What hope is there of stopping or reversing this process?

Many – soon perhaps a majority – of the children are already lost. Nor is it much comfort that some of these doomed people manage to read, play Scrabble, knit and have pillow-fights in their bedrooms while the television set is on, and that some manage to have sexual intercourse. What proportion, by the way, do all these things at the same time, and what class do they belong?

As for those, mainly of the lower middle class, who cannot have sexual intercourse while watching television, this may be a blessing. Even today, and even among the lower middle class, or so experts believe, sexual intercourse sometimes results in conception and the birth of children.

Are people of the lower middle class who are so addicted to television, the worst of modern evils, that they have allowed it to invade their bedrooms, fit to have children, let alone bring them up?

A arte da crónica (3)

A única natureza é a humana por Miguel Esteves Cardoso

Verão. Não é só calor – é a luz. Odeio a Luz. Como toda a natureza, aliás. Quero que ela exista, claro, mas longe de mim. As únicas coisas interessantes neste mundo são as que as pessoas fizeram. O mar, que até tem uma certa graça, nada é ao pé do que se escreveu acerca dele. Até a palavra mar é melhor que o mar em si. As paisagens podem ser