O MacGuffin

Segunda-feira, Maio 20, 2013

Sobre a (co)adopção

É tonto e incoerente o argumento «antes ser adoptado por um casal homossexual do que ficar no orfanato», como se os casais heterossexuais se recusassem, agora, a adoptar (e não continuassem, tragicamente, a ter de esperar anos a fio por esse longo processo de aferição e autorização, a que teriam de se sujeitar os casais homossexuais caso tivessem, por lei, a mesma liberdade de adopção, coisa que a lei agora aprovada não lhes confere).

É fraquinho e pateta o argumento «antes criado num ambiente harmonioso, do que num ambiente de conflito conjugal, violência familiar ou instabilidade», como se esta conjuntura fosse exclusiva de casais heterossexuais, e o outro cenário, tendencialmente etéreo, um espelho incontroverso e inatacável do modus vivendi gay.

É aceitável, e não sinal de homofobia ou obscurantismo, que se chame à colação o agora ridicularizado argumento do «superior interesse da criança.» É importante que estas coisas se discutam sem que se diabolize, inferiorize ou pura e simplesmente injurie quem está contra ou quem tem reservas sobre esta matéria. Estará sempre a prestar um péssimo serviço à causa da adopção por casais homossexuais, quem use do tipo de intolerância de que acusa quem está contra. E tem-se visto muito, por aí.

Cabe provar, a quem está contra, até que ponto, e de que forma, uma criança criada por um casal homossexual é prejudicada. Que tipo de problemas de ordem cognitiva, psicológica, afectiva e socializante podem surgir, ao ponto de pôr em causa o «superior interesse da criança». Não sei se haverá. Provavelmente sim, provavelmente não. Há argumentos válidos, do lado contra. Se são, ou não, verificáveis, será uma discussão que importa levar a cabo.

Dito isto, acho que ninguém porá em causa isto: at the end of the day, o «superior interesse da criança» estará nos afectos e no laço humano. Onde houver amor incondicional, para além da vida (e qualquer pai ou mãe sabe do que estou a falar), estará assegurado o essencial.

A lei agora aprovada, pretende que o essencial – o laço, o amor incondicional - perdure caso, por exemplo, um dos membros do casal morra. Parece-me justo. Parece-me humano. O que, por estes dias, já é muito bom.

Segunda-feira, Maio 13, 2013

Com raiva e com maldade ou pura e simplesmente por inconsciência

Vasco Pulido Valente, Público 12/05/2013

Uma nova era 
"Nasci numa família comunista e cheguei a adulto durante a guerra das colónias, o que naturalmente não me inclinou para o nacionalismo ou sequer para qualquer espécie de patriotismo ardente. Mas de qualquer maneira, quando o sr. Schäuble fala de Portugal como falaria de um protectorado longínquo e recalcitrante, não consigo escapar a um estado de fúria e de frustração que julguei que nunca conscientemente teria. A Alemanha e a troika, muito para lá da “austeridade”, estão a inspirar (talvez sem perceber) sentimentos de um radicalismo que tarde ou cedo mudarão um país, na aparência calmo e resignado a um destino de miséria. A humilhação que se acumula já fez desaparecer a mais leve ideia de responsabilidade pela catástrofe em que nos metemos (ou em que nos meteram). Ficou só o ódio. E nem sequer um ódio cerimonioso e disfarçado. A vida pública começa a tomar um “tom” muito semelhante às piores fases do PREC. Comentadores da televisão, que eram pessoas em geral pacatas, passaram de repente a oradores de comício, que propõem, ou aceitam, mesmo o indizível para se verem livres do governo e da intervenção estrangeira. Nos debates, cada partido (ou representante de um partido) estoira de indignação perante as “verdades”, frequentemente razoáveis, da outra parte. Os jornais não hesitam em distorcer ou inventar os factos e acabaram num coro de queixas quase completamente inútil. As sessões da Assembleia da República parecem as sessões da última câmara monárquica na sua agonia. Não se sabe quem manda no governo ou se o governo realmente manda. E o dr. Cavaco arranjou para si um “exílio interior”, que o protege das baixas realidades do mundo. O ministro das Finanças altera impostos, taxas, contribuições (parece que até hoje 65 vezes), para se conformar aos “conselhos” da troika, que são os da Alemanha. O próprio Ricardo Salgado (do Banco Espírito Santo) declara com impecável clareza: “Não há nada absolutamente garantido”; e de facto não há — nem o presente nem o futuro —, a não ser que Portugal caiu e, a seguir, foi empurrado para um buraco sem fundo. E, como sempre, o desespero inspira e multiplica a mentira: a mentira sistemática ou a mentira ocasional. Toda a gente mente, com raiva e com maldade ou pura e simplesmente por inconsciência. Portugal entrou numa nova era de pobreza, de conflito e de isolamento: e essa era promete durar."

Domingo, Abril 28, 2013

Massive Open Online Courses


Mais conhecidos por MOOC. Mais informações aqui.



Uma análise simplista

(Divertimento N.º 12 em Mi Bemol para orquestra de sopros e cordas; não levar a sério)

Um alienígena que visitasse, por estes dias, Portugal e pretendesse, por masoquismo, inteirar-se da cena política portuguesa, poderia facilmente ser levado a concluir, pelo tom lúgubre e o teor tremendista de certas intervenções, que no governo do país estaria o governo-patife de um partido-patife. Do outro lado, estaria um partido-herói chamado PS, fartíssimo da situação e empenhado na remoção do governo-patife do partido-patife – partido que, após décadas de permanência no poder, apesar de democraticamente legitimado, teria capturado as instituições do Estado, abusado da sua posição privilegiada, e conduzido um país que gozava de condições financeiras e económicas normais (ou até mesmo favoráveis), a um estado de pré-falência. A impaciência agressiva e exasperante de algumas figuras do partido-herói não deixaria margem para outras conclusões.
Aprofundando o tema em apreço, o alienígena chegaria a outra personagem do regime – um tal de Presidente da República –, aparentemente responsável por bloquear, há décadas, as intenções do partido-herói de remoção do governo-patife - e, por isso, visceralmente odiado por quem dele vinha exigindo a sumária demissão do governo-patife.
Pelo caminho, o alienígena teria dado conta de que o partido-herói andava entretido com uma coisa chamada «congresso», evento marcadamente imagético e propangadista, empenhado em entronizar um secretário-geral amado por um séquito; tolerado, por tacticismo, embora doutrinariamente odiado, por outro grupo; suportado, por camaradagem, pela generalidade das «bases»; e considerado, pela generalidade dos portugueses, como anémico e sofrível.
Tudo isto, concluiria o alienígena, em torno de uma santa causa: a remoção do governo-patife. Remoção que estaria, depreenderia, finalmente, o alienígena, iminente: “Seguro pede maioria absoluta mas promete governo coligado”, leria o alienígena num jornal de referência.
Por último, o alienígena visionaria, na televisão, uma outra figura política: a de um ex-primeiro-ministro, que teria governado num tempo já longínquo, e cuja agastada fácies e o permanente recurso a expressões marcadas pelo rancor, indiciaria ter sido alvo de grandes injustiças.
Nota final: nos últimos dezassete anos e meio, o Partido Socialista governou cerca de treze anos o país. Ou seja: 73% do tempo. Isto é: cerca de 3/4. Este governo está no poder há dois anos. Chegou ao poder com um programa de resgate para cumprir, que condicionaria indelevelmente as suas opções políticas. Aparentemente, dois anos é muito tempo. Não se pode, por isso, compreender como pode um PR ficar quietinho.

Sexta-feira, Abril 26, 2013

O que para aí vai

O Daniel que me desculpe, mas este post é inacreditavelmente parvo. E, penso, potencialmente ofensivo para quem sofreu, na pele, o regime opressivo, estupidificante, irascível, do Estado Novo.

Não há comparação possível entre um regime ditatorial, seja ele 'mild' ou brutal, e a democracia em que vivemos. Nenhuma.

Entendamo-nos. Seria incivil mostrar um optimismo bacoco pelo momento actual. Ou fazer crer que este governo tem feito do bom e do melhor para ultrapassar a crise em que mergulhámos. Temos o direito, e nalguns casos o dever cívico, de nos manifestar e de exigir, deste poder, respeito, competência, dedicação à causa pública (até em coisas aparentemente simples, como o dever de um ministro explicar, ao povo, a opção política A ou B). Podemos discordar, ou achar insuportável, o carácter pusilânime ou tacanho das intervenções do Presidente da República. Podemos considerar que a tecnocracia manga-de-alpaca do ministro da Finanças é estupidamente rígida, ortodoxa, casmurra. Podemos, até, esquecer, para efeitos de retórica ideológica, que Portugal está sujeito a um espartilho de opções políticas, que advém do aperto económico-financeiro ditado pelo programa de resgate (que impõe metas e medidas, conducentes ao seu cumprimento). Não será curial, mas não é, certamente, grave.

Mas há limites. E um limite pode ser este: não estamos a sofrer, nem por sombras, o que os nossos compatriotas sofreram no pré-25 de Abril. Não podemos convocar o tipo de heroísmo e de resistência que manifestaram, então, para fazer a ponte com a «luta» contra as políticas de que discordamos, agora.

Há mais de 39 anos, os portugueses eram encarceradas, sujeitos a tortura, nalguns casos assassinados. Os jornais, as peças de teatro, os livros, as manifestações culturais, eram objecto de censura. Aliado ao medo da perseguição, por delito de opinião, sedimentava-se o silêncio e a auto-censura. Vivia-se num clima de medo: não o medo de perder o emprego ou de perder um subsídio de férias, mas o medo de perder um filho ou um familiar, de acabar preso, torturado ou no convés de um navio, a caminho de uma guerra estúpida.

Pela memória dessa gente, haja pudor no que se diz e no que se evoca. Nem tudo pode servir de arma de arremesso político.

E viva o 25 de Abril.

Quarta-feira, Abril 24, 2013

Os MOOC

Isto é interessante:
"Parceiros de 11 países uniram esforços para lançar a primeira iniciativa «MOOC» (cursos em linha abertos a todos) pan-europeia com o apoio da Comissão Europeia. Os MOOC são cursos universitários em linha que permitem às pessoas aceder a um ensino de qualidade sem terem de abandonar os seus lares. Cerca de 40 cursos, que abrangem uma vasta gama de temas, estarão disponíveis gratuitamente e em 12 línguas diferentes. A iniciativa é liderada pela Associação Europeia de Universidades de Ensino à Distância (EADTU) e envolve principalmente universidades abertas. Os parceiros estão situados nos seguintes países: França, Itália, Lituânia, Países Baixos, Portugal, Eslováquia, Espanha, Reino Unido, Rússia, Turquia e Israel."
Mais informações aqui.

Terça-feira, Abril 23, 2013

O truque dos tamanhos XL

O Estado das Artes

"Perdoar-me-ão a conjugação pronominal reflexa nestes tempos dados à simplificação, mas dever-se-ia dizer em geral da cultura aquilo que Natália Correia disse da poesia: que era para comer. 
Em Portugal, a cultura sempre andou associada a uma certa pomposidade e snobismo e, por natural arrasto, ao seu inverso, o popularucho bimba, a cultura popular arrasada nos anos do cavaquismo, instrumentalizada que fora pelo antigo regime, promotor do pobrezinho mas honesto: por detrás das sete saias da Nazaré muita miséria se escondia. 
Acabamos de atingir um novo patamar. Após 11 anos regidos por um engenheiro que começou por assinar projectos de pato-bravo no Portugal profundo para acabar a comprar roupa por medida no 420, Rodeo Drive, e governados hoje por um homem que, nas sábias palavras de António Lobo Antunes, evidencia quão curiosos são os caminhos do Senhor – “Deus serviu-se de Filipe La Féria para termos este primeiro-ministro. Deus teve de escolher entre duas desgraças. E preferiu que ele fosse primeiro-ministro a cantor” –, estranho seria se não andássemos baralhados. 
É assim que dizemos bye bye a Paula Rego enquanto acolhemos com veneranda deferência Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda, ou assistimos mudos e quedos ao assassínio d’ Os Lusíadas por José Luís Peixoto. 
Não me interpretem mal. Eu sei que à luz da ciência moderna, provar que um verso de Camões vale mais do que 500 frases de Peixoto é tarefa inglória. Tão inglória como provar que o truque dos tamanhos XL da Joana Vasconcelos não passa disso mesmo: de um truque. Mas isto: “Tágides do Tejo, ninfas de ninfetice total… emprestem-me ainda um resto do vosso ninfetismo…”?! Por muito menos escreveu Almada o “Manifesto anti-Dantas e por extenso”."

Segunda-feira, Abril 22, 2013

"Os comentadores têm uma linguagem apocalíptica"


Entrevista de Miguel Esteves Cardoso ao Correio da Manhã (por Fernanda Cachão):

Correio da Manhã - Porque é que ‘É linda a puta da vida' ?Miguel Esteves Cardoso - Porque quando a gente vê o azar das pessoas - além do azar supremo que é morrer - percebemos isso. Somos todos fraquinhos e a desgraça começa cedo. O bebé chora porque não compreende o que lhe está a acontecer. A desgraça é logo ali. A ‘desgraça linda' porque o bebé dá um trabalhão mas os pais gostam dele. É a parte linda que nos tem ligados à vida.
 
- Que nos faz gostar de viver?...É mais preferir viver do que a alternativa. Sempre quis descobrir aquilo por que toda a gente passa. O que me faz impressão é a acédia [indiferença]. Santo Agostinho falava disso. 
- Vivemos tempos de acédia?
Foi sempre assim. O nosso tempo nunca foi especial em nada. As pessoas já andam a falar da indiferença há muito. Aquela coisa do "comer para cagar" - é terrível mas é muito nosso. A acédia é aquilo que se deve evitar na vida.
 
- Boa parte das crónicas são de uma grande exposição da sua vida privada ou não é bem assim?- Quem escreve crónicas está exposto e tem obrigação de correr esse risco. Por exemplo, em ‘O Independente' não havia ‘off the record'. O que sabíamos, publicávamos. Publicávamos e lixamo-nos algumas vezes, sobretudo com os políticos que têm a tendência para "eh pá, aqui entre nós". À portuguesa é assim: publicamente comenta-se "ah, o livro dele é muito interessante" e depois, pelas costas, diz-se "eh pá, ele ainda é meu primo, conheço-o e está um bocado na merda". Os portugueses gostam muito dessa hipocrisia. O leitor pode até dizer que é embaraçoso mas quando se pensa que a pessoa que se ama pode morrer, onde está o desprendimento para escrever sobre flores? 
- Houve um momento em que decidiu: vou escrever sobre a Maria João?- Os homens são muito ‘show off' com as namoradas. Em 2000, quando casei fiz toda a revista de ‘O Independente' com o casamento. Não há mais ‘show off' que isso. Se eu escrever "a Maria João" fico acompanhado, ajuda-me a escrever. Já não consigo dissociar-me muito bem dela. Um casal tem uma vida própria. O [escritor] Julian Barnes perdeu a mulher, que ele adorava, em 38 dias. Ele diz que quando se perde uma pessoa perde-se mais do que isso, perde-se a vida com aquela pessoa. Ela morre e ele fica menos de que meia pessoa. Isto tem um preço enorme. As pessoas cuidadosas, nas relações de namoro, guardam um sítio para onde voltar se tudo correr mal. No meu caso e no dela, não há sitio para voltar. 
- E isso é mau ou é bom?- É muito bom quando tudo está bem. 
 - Como escreve as crónicas?- Escrevo a partir das sete da tarde e depois, no outro dia, acordo cedo e revejo. 
- Como escreveu ‘A Carta a Deus', a crónica que abre o livro?- Tinha muito, muito mais caracteres. Foi quando ela estava no IPO com um tumor no cérebro e pensávamos que ia morrer. Não havia nenhuma esperança. Escrevi num apartamento emprestado por uma amiga dela na primeira noite que passei sem ela... Eu sou religioso e pensei: "eh pá, nunca se sabe...". É um comportamento a evitar porque é de quem se lembra de Deus porque está à rasca ... mas enfim. 
- Escreveu que uma crónica intitulada ‘O amor é um exagerador´. É mesmo?- Sim. É muito estranho querer estar só com uma pessoa da raça humana. O amor é um exagero. Aquela coisa "Como é que é possível, ela gostar dele que é tão horrível?" É uma coisa mágica. Duas pessoas que se encontram e formam uma unidade. Quando se vive assim, tudo é traição: "Ah, estás mais interessado em ler o jornal do que em falares comigo?!" No amor tudo pode ser traição. O amor é uma parada muito alta. Qualquer coisa pequena é uma coisa dramática. O amor é um exagero por isso. É tudo vivido à lupa. Há muita gente que acha de mau gosto. De mau gosto é uma pessoa fingir. Nós que já passado pelo cancro da mama, quando chegámos ao IPO [por causa do tumor no cérebro]. No IPO encontrámos imensa gente com muita coragem. Nem parecia Portugal. A coragem, afinal, não custa. O cancro dá o susto que faz com que as pessoas apreciem a vida. 
-Andou sempre a escrever sobre coisas da vida privada, em detrimento da vida pública em tempos de crise. Porquê?- Eu escrevo sobre política e economia mas toda a gente se queixa é muito "boring" ("aborrecido"). Eu fiz a licenciatura em Manchester e doutoramento em Ciência Política. Sou oficialmente chato. 
- Mas lê as notícias nos jornais?...- Eu leio só o que me interessa. Quando estava deprimido lia tudo, a ficha técnica, o tempo, tudo. Hoje em dia leio artigos de opinião, sobre artes. Notícias, não leio tanto. 
- Publicou a crónica ‘Amo-te Portugal', em 2011. Ainda gosta do País daquela maneira ou acrescentava um parágrafo ou outro?- Gosto ainda mais do País. Mesmo na maneira como se reage à crise. Os portugueses têm uma grande coragem. Essa coragem pode ser uma forma de resignação, de paciência, mas isso é uma coisa formidável. É resistência verdadeira. Este país é teso, já está cá há muito tempo, já teve invasões, fomes, pestes. Falamos todos a mesma língua e entendemo-nos uns com os outros. Isto continuará aqui e vai melhorar. E mesmo que fique tão mau como há 20 anos, a vivermos todos com muito menos dinheiro, vamos resistir. Querer comprar menos, é libertador. As pessoas dizem que falam que ninguém tem dinheiro para nada perderam um bocadinho a autoridade porque já andam a dizer isso há mais de dez anos. É um discurso histérico. Se virmos a história do País, a história das nossas vidas, dos nossos avós, percebemos que não estamos assim tão mal. Toda a gente fica muito chocada, sobretudo os povos do norte, quando chegam a um país do sul e reparam que os cafés estão cheios. O que estão à espera? Pessoas a chorar, caídas para o lado?! Os europeus do norte e do sul são muito diferentes. Por exemplo, na Inglaterra, o tempo está horrível, as pessoas ficam em casa. Trabalha-se mesmo bem nesses países. É como aquela história do jornalista da New Yorker que ao reparar nos grupos de turistas dinamarqueses e suecos de férias em Reykjavík, diz ao miúdo islandês: "Eles divertem-se mais do que vocês". E o miúdo responde-lhe: "Yes, eles são dos países quentes". Os brasileiros falam de nós como nós falamos dos ingleses. É tudo muito relativo. 
- O Miguel é mais português do que inglês?- É cinquenta, cinquenta por cento. Estou muito bem ser meio inglês mas escolhi viver aqui. Já não vou a Inglaterra há 25 anos. Está tudo dito. O que a Inglaterra tem de bom chega-me por correio ou pela internet. Não é preciso estar lá. 
- A palavra troika serve para um título de uma crónica sua?- Troika... a palavra é tão ridícula! Foi inventada por pessoas do Parque Mayer ou por um comité de Illuminati para dar um instrumento valioso aos humoristas para brincar. Claro que a palavra é usada para esconder os três organismos que estão querer mandar em nós. A Troika é um mau cheiro que vai passar. 
- Não mandam de facto?- Sim e também na Irlanda, na Grécia. Se vocês não fizerem isto, nós não damos dinheiro. 
- Quando ouve falar da ‘falência do estado' o que lhe ocorre?- Nós vivemos muito do Estado. Adoramos o Estado. Um país feliz era um país em que todos fossemos funcionários do Estado. Nós gostamos muito do Estado e fazemos muito bem. O Estado é uma grande ideia. O SNS é uma grande ideia. Sem ele, a Maria João não estava cá. Portanto o Estado não pode falir. Os comentadores têm uma linguagem apocalíptica. 
- Porque acha que o seu amigo Paulo Portas não foi à tomada de posse dos novos ministros e secretários de Estado?- Eu sou muito amigo do Paulo [Portas] precisamente porque não falarmos dessas coisas. Não falo. Não sabia também que ele não tinha ido. Para mim é uma grande perda de tempo. A Maria João ensinou-me isso. Nos últimos dois anos lembra-se de alguma notícia de que tenha gostado? É tempo perdido. 
- A trica política não lhe interessa?- A coisa política nunca me interessou. Nunca, nunca. Agradeço que haja políticos. Agradeço que governem porque acho que deve ser uma chatice governar porque tem de se acordar cedo, lidar com aqueles números, ter que mentir... Uma pessoa deve chegar ao fim do dia e detestar-se a ela própria. 
- Acha que sim?- Sim. É um trabalho que alguém tem de fazer e até pode ser que haja alguém que goste, mas eu fico sempre espantado que haja quem se candidate a primeiro-ministro, a deputado, que queira ser político... 
- Mas a si já lhe apeteceu..- Sim, mas foi pelo PPM. Eram poucas pessoas: eu, o Luís Coimbra, o Gonçalo Ribeiro Telles e mais três ou quatro amigos. Estamos a falar doutra coisa. 
- Disse numa entrevista à RTP que José Sócrates achava que não o compreendiam enquanto primeiro-ministro. Acha que Pedro Passos Coelho pensa o mesmo?- O Passos Coelho parece uma jóia de pessoa, extremamente simpática e sem pretensões. As pessoas zangaram-se por ele continuar a viver em Massamá. O crime! O snobismo que anda por aí. Zangaram-se por assinar Pedro no Facebook... O Passos Coelho que parece genuinamente ser boa pessoa, deve estar à beira de um ataque cardíaco. O homem não tem culpa nenhuma. Ele está a fazer o melhor que pode. 
- E o Cavaco Silva também está "a fazer o melhor que pode"?- Esse está em esforço para não falar e não fazer merda. Portanto, também deve estar a sofrer muito. Ele gosta de mandar e sempre esteve habituado a mandar. Ele deve apetecer-lhe falar e não pode para manter aquela ficção de representar todos os portugueses. Quem é que pode representar todos os portugueses? Ninguém. Uma pessoa não pode representar toda a família quanto mais todos os portugueses. 
- O que achou de Francisco José Viegas, quando saiu do governo, ter escrito que mandava um fiscal das Finanças "tomar no cu" se ele lhe pedisse um recibo?- Não sabia disso mas acho bem dito. Ele é contra a coisa da factura? Também eu! Os europeus não descansam enquanto não tiverem tudo fiscalizado. Os europeus do norte têm aquela coisa - "eles não pagam impostos". Como se alguém gostasse de pagar impostos! Estão a tentar a acabar com ‘o por fora'. O ‘por fora' é o fundamento da sociedade portuguesa. 
- Os portugueses lidam mal com o palavrão, com o impropério?- Acho que são hipócritas. Os portugueses desabafam muito mas é quando chegam a casa. Chegam a casa e dizem "estou mesmo fodido", mas no trabalho é "com certeza senhor doutor". Depois são os comentadores que têm qualquer coisa de governante frustrado. Um ministro não pode desabafar. Aquela coisa do Facebook do Pedro é um gesto de ingenuidade mas não tem mal nenhum. E eu nem sequer o conheço, nem sou do PSD. 
- E não gostava de o conhecer?- Não. Ficava com muita pena dele. Ele é muito novo, e apanhar com isto... 
- O que é que Portugal devia ser?- Portugal devia continuar com tudo o que consegue manter. Não querer mais nada, não é preciso. Não é preciso coisas de fora. Manter o Serviço Nacional de Saúde já era uma grande conquista. Manter o salário mínimo. Manter todas as conquistas do 25 de Abril. 
- Porque é que nunca respondeu ao texto que o historiador Ramada Curto escreveu sobre a sua defesa do historiador Rui Ramos?- Esse senhor sabe fazer polémica. É aquele estilo antigo das pessoas que sabem fazer polémica. Gostei imenso da maneira como ele respondeu. Eu fui mal-educado e ele respondeu-me muito bem, que é sempre a melhor maneira de responder. 
- Em Portugal evita-se as polémicas?- As polémicas do Camilo eram extraordinárias. 
-O que aconteceu do Camilo para cá?- As pessoas têm aquela coisa corporativa. Os historiadores não dizerem mal dos historiadores. Os jornalistas não dizem mal dos jornalistas e por aí a fora. Só de vez em quando estala. O público é que fica defraudado. As polémicas e os ódios existem, só que estão escondidas. É uma pena. Se pudéssemos registar as conversas incandescentes... Isso foi sempre a coisa mais surpreendente na altura de ‘O Independente'. Em ‘of record', os políticos dizem tudo, contam tudo. Até coisas altamente íntimas, coisas que são mesmo ‘too much information' [demasiada informação]. 
- O que aprendeu enquanto director de ‘O Independente'?- Aprendi que o jornalismo é muito divertido. É muito giro ter um jornal. 
- Gostava de voltar?- Acho que as pessoas novas é que têm essa obrigação. 
- E qual é a obrigação das pessoas de 58 anos?- Fiz um jornal, uma revista, a mim ninguém me pode dizer nada. 
- Como foi a fundação de ‘O Independente'?- A parte política era com o Paulo Portas. Fiquei a gostar muito dos jornalistas, sempre me trataram muito bem. Desde miúdo, n' ‘O Jornal', onde encontrei o Fernando Assis Pacheco, o Bessas Múrias e tantos outros. Era um jornal de jornalistas. O dinheiro era deles. Entrei no número quatro de ‘O Jornal' porque escrevi para lá a dizer mal e o António Jorge Branco disse "então vem lá tu fazer melhor". Era muito miúdo. 
- Há um padrão diferente no jornalismo hoje em dia?- Não sei. O que acontece é que as pessoas têm medo. No meu tempo, como havia dinheiro, não havia medo. As pessoas tinham liberdade. Hoje as pessoas têm medo de ser despedidas. Têm medo dos patrões. Aquilo que ‘O Independente' fez, só se pode fazer numa altura de muito dinheiro, para se poder fazer muitos disparates, muitos atropelos. Muitas das notícias não eram muito confirmadas. Era uma inconsciência e eram outros tempos. Naquele tempo, ‘O Independente' era novo porque era irreverente. Naquele tempo era tudo muito cinzento. Hoje já não é assim. 
- Hoje em dia tinha cabimento um jornal como ‘O Independente'?- O ‘Correio da Manhã' é um jornal independente. Tem poder. Toda a gente lê. A independência económica de um jornal é muito importante. O jornalista tem de saber que quanto mais se desbroncar melhor porque lhe vão pagar o salário na mesma. Eu e o Paulo [Portas] fomos milhões de vezes acusados e muitas vezes com razão. O Cavaco nunca fez pressão. Fizemos coisas horríveis. Acusámos pessoas sem razão. Não éramos jornalistas. Estávamos todos a começar. Já foi há muito tempo... 
- Ainda diz que Paulo Portas era capaz de governar o País?- Sim, porque ele é uma pessoa muito inteligente e muito aplicada. Ele é ainda mais inteligente do que parece. E muito mais liberal do que parece. Eu estou a torcer por ele. Não sou do CDS mas sou completamente pelo Paulo Portas. Acho que ele é formidável. 
 - Qual é a sua pior crónica?- Há muitas. Aquelas em que falo de uma coisa e por falar dela, ela deixa de existir. Há pouco tempo escrevi sobre um queijo e no dia seguinte, a pastora deixou de fazê-lo, com medo. As pessoas tem imenso medo da palavra imprensa - aquela coisa do "se alguém lê isto, ainda me lixo". 
- Quando escreve o romance?- Isso dá azar. Vai a caminho. 
- Qual é a melhor crónica do livro?- São as que a Maria João gostou de ler. Ela fica chateada quando não a menciono. 
- O que seria um bom título para os seus 58 anos de vida?- Quanto tinha trinta anos escrevi um artigo para saber se era melhor ter trinta ou vinte e oito. Levei duas semanas a pensar. Cheguei à conclusão que era melhor ter vinte e oito. Idiota!  Passei a maior parte do meu tempo a ler. Tenho muito pouca vida vivida. Agora, com a Maria João, comecei a viver. Antes era um bicho-do-mato. Era muito solitário e com hábitos estranhos. É como tirar uma fotografia. Temos a fotografia da coisa fotografada mas temos morta a memória verdadeira. Um amigo meu foi à Escócia e passou todo o tempo a fotografar. Quando chegou cá, não se lembrava de nada. Aprendi com a Maria João a tirar o olho da máquina e a viver.

Quinta-feira, Abril 11, 2013

"Shut the fuck up, Donny" *

O Prof. Dr. António Sampaio da Nóvoa anda a brincar com isto tudo. Ou é distraído. Ou, ainda, e com todo o respeito que me merece o Prof. Dr. António Sampaio da Nóvoa, gosta de dizer coisas patetas, polvilhadas com a indignação da praxe. Provavelmente, o Prof. Dr. António Sampaio da Nóvoa pensa, genuinamente, que só ele está preocupado com as pessoas. Não sabemos.

Como lembrou Guilherme de Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas, “não é um despacho definitivo, é transitório, tendo em consideração a necessidade de adoptar procedimentos que vão no sentido de detectar onde estão verdadeiramente os desperdícios, para não sacrificar os serviços públicos de qualidade.”

Além disso, o despacho do ministro das Finanças incide sobre despesas não previamente autorizadas/previstas, ou seja, não incluídas nos orçamentos anuais que os senhores reitores, directores e responsáveis administrativos aceitaram alegremente executar.

Mas o Prof. Dr. António Sampaio da Nóvoa não está sozinho. O Dr. José Manuel Silva, bastonário da Ordem dos Médicos, diz que podem morrer pessoas.

O que já morreu, há muito, é o bom senso e um módico de sobriedade (dispenso-me de invocar o velhinho “falem menos, ouçam mais.”)

* Com a devida vénia ao The Big Lebowski

Terça-feira, Abril 02, 2013

Da blogosfera

O Bomba Inteligente faz dez anos. Parabéns à Carla Hilário Quevedo. Cheers!

O que acontece se retirarmos o sarcasmo ao Manuel Parreira? Está aqui a resposta: Macambúzio.

Segunda-feira, Abril 01, 2013

Tudo como Dante

Carla Hilário Quevedo, no jornal i:
"Os portugueses adoram regressos. Voltar a ver uma personagem que desapareceu da vida pública desperta no mínimo curiosidade. No caso de José Sócrates, a curiosidade vem acompanhada ou de um ódio visceral ou de uma admiração infantil. Por mim, que faço os possíveis por não endeusar nem animalizar pessoas, vi o regresso de Sócrates com um certo esforço. Noventa minutos de entrevista foi demasiado, mesmo para um ex-primeiro-ministro que interrompia dois anos de silêncio. Isto sobretudo porque o que veio dizer não difere nada no seu conteúdo do que disse durante os seis anos que esteve no poder. Sócrates pode ter estado a estudar em Paris, mas o estudo não mudou nada de substancial. É certo que afinal não foi estudar Filosofia, mas ainda assim tinha uma vaga esperança de encontrar uma pessoa diferente. Fica mais uma vez confirmado que a leitura e o estudo só mudam quem de alguma maneira pode ser mudado. 
O desprezo evidente pelos jornalistas que o entrevistaram é o mesmo que sempre vimos. O seu ataque ao "Correio da Manhã" faz lembrar outros ataques similares. Tudo como Dante. Sócrates veio "tomar a palavra" e veio, sobretudo, apresentar a sua "narrativa". Ora intervir no espaço público manipulando e contando histórias é fazer política. Nada de diferente, atenção, do que fazem rigorosamente todos os políticos-comentadores, uma acumulação de funções tão nobre quanto a de actor-modelo. Todos fazem política, uns em horário nobre, outros com tempo de antena mais reduzido. Sócrates fá-lo-á sem ser remunerado, por isso, o que, num momento em que o trabalho se confunde perigosamente com uma espécie de favor, faz mais mal que bem à sociedade portuguesa. Não sei como será Sócrates agora como comentador, mas temo que infecte os assuntos com o seu temperamento irado e narcísico e acabe sempre a falar dele, de como é vítima das "narrativas" alheias, etc. 
Sócrates aparece num momento especialmente delicado da vida do país, o que me faz pensar que os receios de que aparecesse um demagogo autoritário possam vir a ser confirmados. Quando Sócrates diz que é preciso parar urgentemente com a austeridade, está a ir ao encontro da vontade de milhões de pessoas e a falar directamente ao seu desespero. A população está massacrada, fragilizada, sem recursos nem esperança de recuperação e aparece um ex-governante a lançar uma frase destas. A má notícia é haver quem acredite que a austeridade pode acabar em breve. Isto é perigoso. A notícia divertida é Sócrates poder tranquilamente ocupar à esquerda o lugar ambicionado pelos movimentos radicais de indignados, Que Se Lixe a Troika, etc. O espaço foi aberto pelas circunstâncias, pelas quais Sócrates também é responsável, e pela desistência da política por parte do governo. Sócrates vem ocupá-lo. 
O panorama televisivo do comentário político fica equilibrado, com Sócrates na RTP, Rebelo de Sousa na TVI e Mendes na SIC. Mas enquanto não mudarem o formato do Jornal da Noite de sábado, que se arrasta uma hora e meia até se chegar a Marques Mendes, serei apenas espectadora dos dois primeiros."

Sexta-feira, Março 29, 2013

Tudo suiço

Vítor Matos, no Elevador da Bica:
"Parece mentira. O tempo passa, os miúdos crescem, o País encolhe e o Sócrates volta.
Um consultor de uma farmacêutica vai ter um programa de comentário político na RTP, não deixa de ser estranho. 
Estou ansioso para ver que remédios nos dará o novo Sócrates. 
Tenho aqui um anti-depressivo para os desempregados (enorme mercado). 
Tenho aqui comprimidos para o sr. ministro das Finanças dormir melhor (ganhávamos todos com isso). 
Tenho aqui anti-ansiolíticos para o sr. Relvas (passávaos a ter menos notícias). 
Tenho aqui vitaminas para o sr. primeiro-ministro (anda a precisar, coitadinho). 
E também comprimidos azuis para a falta de tusa do preservativo mental... ai, o Tózé, ai, o sr. secretário-geral do PS... 
Mas para começar tinha de nos dar a todos uma dose forte de comprimindinhos para limpar a memória que guardamos dele próprio. Tudo suíço e de confiança..."

Ser um "animal feroz" é uma coisa supimpa

Bruno Faria Lopes, no jornal i:
"Dois anos depois da demissão o ex-primeiro-ministro José Sócrates ainda não percebeu a natureza dos seus erros políticos - nem a mudança drástica e grave das circunstâncias na Europa. É uma pena que tenha escolhido Paris para “cumprir o sonho de estudar”. Berlim ou Munique teriam sido mais úteis como locais de aprendizagem.
Sócrates voltou agora porque pensa que agora há mais público para a defesa do seu legado. Portugal está em plena depressão económica e o programa de ajustamento da troika - que se confunde com o governo de Passos, apesar de ter sido assinado por Sócrates - tem cada vez menos adeptos. Sócrates aproveita para defender que os problemas do país não são da sua exclusiva responsabilidade. É verdade. A crise financeira mundial destapou a ficção do euro - alimentada por todos os países e instituições europeias - e alterou o contexto que permitiu a Sócrates e a outros governarem durante anos com base no endividamento. 
Mas nem o momento actual do país, nem a compreensão da importância da Europa limpam o cadastro do ex-primeiro-ministro. Sócrates foi o homem errado, na altura errada, como demonstrou bem na entrevista à RTP. 
Sócrates foi o homem errado quando olhamos para a política. Os que o gabam como “animal feroz” deviam perceber que a falta atroz de capacidade para construir pontes e governar com um mínimo de consenso foi um problema fatal para o então Primeiro-ministro. A agressividade do discurso de tomada de posse em 2009 deu o mote para o que aí vinha na trincheira política quando ainda ninguém sabia o que aí vinha na frente económica. Sócrates queixa-se do chumbo do PEC4 mas, fiel ao seu estilo, não cuidou de criar as condições para que o pacote fosse aprovado numa altura crucial para o país. Foi um mau político. 
Sócrates foi o homem errado quando olhamos para a economia. Podíamos falar da demência dos últimos meses, em que o chefe do governo deixou o país no limiar da sobrevivência financeira e teve de ser atado à cadeira pelo seu ministro das Finanças. Mas mais deprimente foi vê-lo, no ano da graça de 2013, gabar na entrevista à RTP o crescimento de 2,4% em 2007, “o mais alto da década” - 2007, um ano em que o défice externo foi de 8,6%. É o derradeiro sinal de alguém que ainda não percebe que o desequilíbrio externo está no centro da crise europeia. Falar desse PIB defunto é um obstáculo para não discutir o essencial: a viabilidade económica e social de Portugal neste novo euro. 
Depois de dois anos de afastamento do país, José Sócrates fala como quem saiu ontem de São Bento. Sobre a “Europa” - de quem recebeu as directrizes para o PEC4 - nem uma palavra, nem sequer sobre o que se passa em Chipre. Sobre o momento do país a única coisa que tem a dizer é um “temos de parar de escavar” (Como? Pois.) Sobre a austeridade continua a sugerir - com a vantagem de nunca ter que demonstrar - que o seu famoso PEC4, cujas metas eram mais ambiciosas do que as do memorando, seria mais suave. 
A entrevista foi o preço a pagar - um preço baixo - para Sócrates ganhar um palco televisivo sem contraditório, onde ventilará a sua “narrativa” contra a “narrativa” dos outros, enquanto prepara um regresso qualquer. Vai juntar-se a Jorge Coelho, a Marcelo Rebelo de Sousa, a Marques Mendes, a Morais Sarmento, a Francisco Louçã, a Manuela Ferreira Leite e a todos os deputados que pululam nos “frente-a-frente” televisivos, nessa originalidade portuguesa que é ter ex-políticos e políticos a fazerem “comentário” sem qualquer contraditório. Não creio que se tornará na ameaça (ao governo, a Seguro) de que muitos falam. Será um “agitador”, sem qualquer pudor em atiçar o lume numa altura crucial para o país. Será mais um na espuma com que nos entretemos (incluindo este cronista), sem nada de substancial para dizer, enquanto coisas mais sérias acontecem em Nicósia ou em Lisboa."

The one and only




É simples

O maradona explica:

Com Bruno de Carvalho, seremos nós a cair
"A vitória de Bruno de Carvalho nas eleições para o conselho directivo do Sporting Clube de Portugal representa a recusa dos seus sócios e adeptos em assistir à degradação, corrupção e eventual aniquilação do clube segundo os moldes que até agora nos foram propostos. Soubemos, felizmente, optar por uma decadência digna: teremos como presidente um dos nossos, um gajo que vive o clube disparatadamente, e não segundo o filtro do lazer, do passatempo, da "experiência nova", do conforto, do camarote bem posicionado e do diletantismo aristocrata (e nem vou entrar pelo lodo dos "interesses"). Não se trata apenas das estupendas burrice e estupidez dos mandatos de Bettencourt e Godinho, ou do lirismo idiota simultaneamente serôdio e futurista de Dias da Cunha ou Soares Franco; no desporto, sabemos que a distância entre competência e incompetência depende de uma distribuição de factores e condições em grande parte incompreensíveis ao edifício lógico, mais próximas da irregularidade caótica do bom-senso, da intuição e de uma sensibilidade especial com a alma humana e com a passagem do tempo; para nosso prejuízo, o sportinguista é um ser conhecedor e compreensivo com a inverosimilhança da realidade desportiva, especialmente quando a camisola é às riscas verdes; mas o que o sportinguista tem direito a exigir, e nestes últimos anos quase que nos roubavam essa derradeira dignidade, é de sermos nós a cair. Há década e meia pegaram no nosso clube e viajaram com ele para um local tão distante do adepto que quase nem nos sentíamos legitimados a sofrer: o "modelo de negócio", a "estrutura", o "projecto empresarial", "plantel profissional do sporting", ou a puta da "SAD" e os seus esotéricos comunicados à "CMVM", foram entrelaçando-se numa impenetrável malha de sujeitos a quem cabiam as responsabilidades de cada derrota, que nos substituiam na humilhação, que se envergonhavam por nós de cada vez que o Gelson Fernandes enviava um centro para trás da baliza. O mais grave da transformação do sportinguista de actor do que se passa em campo, para mero espectador de uma coreografia desportiva subsidiária de "modelos gestão", não será tanto a consequente dormência e anestesia, mas algo que argumento poder ser mais profundo: o estabelecimento de uma distância definitiva em relação à própria responsabilidade de sentir culpa, vergonha, raiva ou ódio. Durante os últimos anos o sportinguismo percorreu a quase totalidade da estrada que, no seu fim, inocenta o adepto de desenhar uma intimidade particular e privada perante o que sucede no campo de futebol, por mais corrupta ou infiel que nos pareça à identidade que imaginamos propriamente sportinguista. Para mim, isto não tem perdão; a alma pode ser recuperada tantas vezes quantas as que a percamos, mas se abandonarmos o instinto que nos informa da utilidade de demonstrar vontade colectiva, e onde é que devemos procurar para a encontrar e mobilizar, então sucede algo pior que a morte: o esquecimento; e se calha a esquecermo-nos de que estamos mortos, então, meu amigos, então não há zeus que nos salve. Na eventualidade provável de Bruno de Carvalho não ser a nossa redenção (já nem sonho com a glória, só com o perdão), contudo levar-nos-à por caminhos que inevitavelmente nos recordarão o que seria necessário, na posse da sorte e da força que antes demonstrámos, para voltarmos a ser o que nos criou."

Recomendação

Há que seguir este blogue:


Sem emenda

João Miranda, no Blasfémias:
"Não deixa de ser extraordinário que um fulano que desorçamentou dívida, deixou um défice de 10%, levou a banca ao limiar da falência e o país à bancarrota venha dizer que a dívida subiu muito nos 2 anos seguintes a um pedido de um empréstimo para sanar a bancarrota, recapitalizar a banca e reconhecer as desorçamentações. Só num país de tontos e ignorantes é que alguém tenta sequer este truque."

Quinta-feira, Março 28, 2013

O que vem a ser isto?!

Este blogue fez 10 anos e ninguém me avisou?!


O regresso

Sim, o regresso de uma forma de fazer política agressiva e acintosa, a espaços mal-educada, a espaços arrogante, sem classe e sentido de Estado. O regresso do "animal político". O regresso da política do "pêlo na venta", do "sangue na guelra", do "espera aí que já te lixo", do "vocês não percebem nada disto".

Como escrevi, há 24 horas, esperava o pior. Mas não esperava tanto. José Sócrates foi primeiro-ministro de Portugal, mas isso não o impediu de se apresentar ontem como um misto de brigão, de bully e de calimero revanchista. Nem Santana Lopes chegou tão longe.

Já tínhamos virado a página, mas este homem insiste em voltar atrás. Em ajustar contas. À frente de todos.

“Tudo estava bem, tudo foi bem feito, tudo estava controlado.” Quem beliscou esta (boa) “narrativa” com outra (má) "narrativa", vai levar. Quem se meteu com José Sócrates, vai levar. Porque ele quer, porque ele merece, porque os portugueses, enganados ou burros (ao ponto de o rejeitarem), o merecem.

Goodbye Lenin revisited: Christiane ‘Sócrates’ Kerner acordou de um coma, olhou para um monte de roupa suja (que estava no lixo) e pensou: vou lavar esta roupa. Na praça pública.

Não é só perturbador. É, sobretudo, triste.

Boa sorte a todos.

Para isso, teríamos de estar na presença de um político de outra estirpe (leia-se: de outra classe)

Manuela Maria Carrilho, no DN:
"O que Sócrates deve fazer é assumir as suas responsabilidades na crise, e pedir desculpa aos portugueses - e para isso basta uma entrevista pontual, sóbria, esclarecedora e responsável. É isso que os Portugueses merecem, é disso que a nossa democracia precisa, e é a isso que o Partido Socialista tem direito. Ficar a pastar nos comentários, pelo contrário, é puro circo político, e do pior: é usar o horário nobre do serviço público de televisão para jogadas de baixa política e de pura revanche política pessoal."

Quarta-feira, Março 27, 2013

Aferição do grau de aprendizagem de José Sócrates

(ordem das perguntas: aleatória)


  • Como avalia, a esta distância, a sua governação a partir de 2008, nomeadamente o conjunto de medidas que pôs em prática em 2009?


a) Eram medidas fundamentais para que Portugal aguentasse a crise - em linha, aliás, com as indicações das instituições europeias e em linha com a nossa aposta no investimento público e no Estado Social. Foram medidas que tiveram um impacto muito positivo nesse ano e nos anos subsequentes. Keynes ensinou-nos isso: medidas em contraciclo. Se não tivessem sido postas em prática, teria sido pior. Além disso, ninguém sonhava com o que veio a acontecer em 2010 e 2011. Aconteceu o impensável. O mundo mudou. Tudo o que fiz, foi bem feito, na boa-fé e sempre apoiado pelas instituições europeias e pelos melhores economistas; (1 ponto)

b) Foi a receita ditada pelas instituições europeias e defendida por alguns economistas, para fazer frente à crise internacional. Concordámos com essa opção, embora hoje perceba que deveríamos ter sido mais cautelosos, tendo em conta, aliás, a incerteza do impacto da crise do ‘subprime’, o crescente nível de endividamento do país e as consequências para as contas públicas; (2 pontos)

c) Confesso que houve um misto de excesso de voluntarismo, de ingenuidade e de eleitoralismo na forma como conduzimos as coisas em 2009. Não nos podemos esquecer que era ano de eleições. Seria impensável deitar tudo a perder com um discurso mais realista, leia-se pessimista, e com medidas que poderiam arrefecer a economia. Estávamos a gerir expectativas e disseram-me que havia folga. Hoje, lamento não ter tido mais coragem para travar o caminho do desequilíbrio orçamental e do endividamento, mas há que reconhecer que considerações retrospectivas são sempre mais fáceis de fazer do que considerações prospectivas. (3 pontos)


  • Acha que o PEC IV teria salvado Portugal do pedido de resgaste?


a) Claro que sim. O PEC IV era a solução. Era a única saída para evitar um pedido de resgate. Com ele, a confiança dos mercados seria restabelecida paulatinamente e o financiamento da economia estaria assegurado, a taxas de juro sustentadamente baixas. O governo foi traído. Portugal foi traído pelos partidos da oposição. Hoje estaríamos numa situação confortável; (1 ponto)

b) Não posso ter a certeza, como é óbvio, mas acredito que teria sido possível. Teria sido difícil, é certo. E teria de ter passado por uma estratégia de aproximação ao PSD, forjando uma espécie de pacto de regime com o beneplácito do PR. Mas as condições políticas eram péssimas. O ambiente não era de consensos, em parte por culpa nossa, em parte por culpa da oposição e do PR. As posições extremaram-se. O ambiente era de cortar à faca. Basta lembrar o discurso de posse do PR. Ninguém teve a necessária clarividência para pôr termo à escalada de antagonismos. Tive pena que não se tivesse aprovado o PEC IV. Quem sabe como estaríamos hoje? (2 pontos)

c) Naquela altura, estava convencido que sim. Hoje, estou mais inclinado para dizer que não. Teríamos adiado a coisa, por uns meses, mas tendo em conta a convulsão nos mercados, o comportamento dos nossos principais indicadores económicos, o clima político que se vivia, ao PEC IV seguir-se-ia o V, o VI, o VII… Mais tarde ou mais cedo, deixaria de haver condições para insistir nos paliativos, sem acudir seriamente às doenças – a súbita e a crónica. O problema português era e é um problema estrutural, que a crise internacional agudizou e escancarou. Um problema estrutural que nunca foi atacado convenientemente pelos governos, incluído o meu e, já agora, incluindo o presente. O dinamismo, a vitalidade e a capacidade produtiva de uma economia, não se reinventam num ano ou em poucos meses. Os credores não se convencem com retórica e com medidas pontuais, desgarradas ou meramente contabilísticas. Seria uma questão de tempo até ao pedido de resgaste. (3 pontos)


  • Há a suspeição de que viveu em Paris acima das suas possibilidades, ou seja, que terá adoptado um padrão de vida incompatível com o nível de riqueza que um ordenado de primeiro-ministro supostamente deixa acumular, ao fim de seis anos. Quer comentar isto?


a) É uma tentativa de assassinato de carácter, de achincalhamento. Trata-se de um exercício de maledicência inaceitável. Só revela o quanto as pessoas são vis e a forma como alguns elementos da oposição insistem nas campanhas negras. Irei apresentar queixa contra toda e qualquer pessoa que levante publicamente esse tipo de insinuações. Entendo que o meu bom nome foi posto em causa; (1 ponto)

b) São insinuações sem qualquer fundamento. Vivi com base em algumas economias pessoais e com a ajuda da minha família. Eu não nasci para o mundo em 2005. Fui secretário de Estado e ministro, prestei serviços de engenharia. Por outro lado, em Paris fiz uma vida simples, sem luxos, tentando controlar os gastos. Aceitei, recentemente, um cargo numa empresa farmacêutica porque preciso de ter um meio de subsistência, como qualquer mortal; (2 pontos)

c) Vivo como posso, com base nos meus recursos e nos recursos da minha família. Não tenho mais nada a acrescentar. (3 pontos)


  • Acha que a sua ida para Paris contribuiu para que a sua imagem, aos olhos dos portugueses, saísse prejudicada?


a) De maneira nenhuma. Os portugueses conhecem-me e sabem o quão triste e amargurado fiquei após o acto eleitoral. Os portugueses perceberam o quão traído me senti, e compreenderam a necessidade de recato e de introspecção. E os portugueses sabem que existe, de há uns anos a esta parte, uma campanha orquestrada para denegrir a minha imagem. Tenho sido, invariavelmente, vítima de uma trama infame. Estivesse eu em Lisboa, Paris ou Vilar de Maçada; (1 ponto)

b) Penso que não. Não há razões para isso. A sua pergunta não faz sentido, até porque as pessoas são livres de circular. Sou um cidadão como outro qualquer; (2 pontos)

c) Retirando da equação os casos de má-fé ou de ódio puro à minha pessoa, sou capaz de compreender a posição dos que acharam estranho a minha ausência, ou observaram a minha ida para Paris como uma espécie de fuga. Não sou, nem era, na altura, um cidadão qualquer. Estando de consciência tranquila, devia ter explicado e defendido as minhas opções políticas após as eleições, de forma firme mas igualmente de forma serena, fossem quais fossem as vozes. Devia ter tido mais em conta o princípio da mulher de César. Não se tratava de «ficar por aí», mas de ponderar e perceber que fui primeiro-ministro de Portugal e, para todos os efeitos, o país acabou por pedir um resgate no meu mandato. Reconheço, hoje, que o meu silêncio não favoreceu a minha imagem. (3 pontos)


  • De 0% a 100%, que grau de responsabilidade atribuiria à sua governação para o estado a que chegou o país, ao ponto de ter de pedir um resgaste?


a) 0%. Não tivemos, obviamente, culpa. Fomos apanhados por uma crise internacional que não pedimos e para a qual nada contribuímos. Foi um problema sistémico. As coisas estavam controladas. O investimento público estava a dar os seus frutos. Portugal estava no bom caminho. Um caminho só interrompido por uma mentira e por um desejo cego de poder por parte da oposição. O PEC IV teria sido o instrumento ideal para atravessar esta crise, até que a Europa e as suas instituições adoptassem um sistema de mutualização das dívidas soberanas e um mecanismo de solidariedade pro-activo entre Estados, para salvar o Euro e as economias da especulação dos mercados e das agências de rating. Fiz o meu melhor, sendo que o meu melhor era o melhor para o país; (1 ponto)

b) Não gostaria de abordar o tema dessa forma. Não há aqui culpados. Foram as circunstâncias. Melhor: foi a confluência de uma série de factores, grande parte deles alheios à nossa vontade. O que aconteceu em Portugal, aconteceu um pouco por todo o lado. Interessa, agora, olhar para o futuro e debater o que fazer; (2 pontos)

c) Não sei responder a isso, de forma totalmente objectiva. Tivemos a nossa parte de culpa, como é óbvio. Ninguém, ao fim de seis anos de governação, pode chegar ao fim e dizer “não tive nada que ver com isto”. Uma parte da crise portuguesa veio de fora, foi importada. Esta é a parte que diz respeito ao problema do financiamento da economia portuguesa. Mas o comportamento dos mercados (e das agências de ‘rating’), não foi gratuito. Em bom rigor e em consciência, não posso deixar de reconhecer que trilhámos uma trajectória de endividamento que nos foi fatal, do ponto de vista da credibilidade e da confiança dos mercados. Fomos teimosos e tentámos, a certa altura, fazer omeletes sem ovos. O stock da dívida do Estado em função do PIB cresceu para níveis perigosos e o défice disparou a partir de 2009. Durante os anos da minha governação, a dívida pública aumentou em mais de 90%. Em 2004, o Estado devia, por português, qualquer coisa como 8.500 euros. Em 2011, já estávamos em 16.500 euros, fora PPPs. Economias mais fortes, mais dinâmicas, aguentam melhor esses desequilíbrios, sejam eles propositados (para fazer frente a crises) ou de natureza exógena. Não era o caso de Portugal. Como referi, a crise portuguesa foi agudizada por essa falta de resiliência, fruto de deficiências de ordem estrutural. Se me perguntar se ajudei a reformar o país, digo-lhe que sim, que ajudei. Tenho muito orgulho, por exemplo, no que fiz entre 2005 e 2007. Mas podia ter feito mais e melhor. Devia ter corrido menos riscos, já que estes pagam-se. Por exemplo: acho que perdi muito tempo e energia com o fogo fátuo de alguns programas e projectos públicos marcadamente propagandistas. Relaxei na contenção de gastos a partir de 2008. Não me desviei um milimetro do comportamento dos governos portugueses, de proteger algumas posições monopolistas de certas empresas-bandeira. E chutei para a frente encargos para o Estado, através das PPPs. Mas não é menos verdade que falar depois, é sempre fácil. Assim como foi fácil falar em «menos sacrifícios» e em «cortar as gorduras do Estado», como o fez Pedro Passos Coelho em 2011, para justificar o chumbo do PEC IV. (3 pontos)


  • Como avalia a prestação do secretário-geral do PS, António José Seguro?


a) Está a fazer um excelente trabalho, dou-lhe os meus parabéns e faço votos para que continue pleno de combatividade, como até agora. Parabéns! (1 ponto)

b) Qualquer que fosse o secretário-geral do PS após as eleições de 2011, não teria pela frente uma tarefa fácil. António José Seguro tem feito o possível, embora reconheça que tem andado um pouco apagado. Hoje tem a vida mais facilitada, tendo em conta o nível de insatisfação da população portuguesa. Talvez pudesse ter ido mais além no que respeita a propostas alternativas concretas; (2 pontos)

c) Só quem está no exercício do cargo sabe o que tem pela frente. É uma gestão que lhe pertence. Não me cabe, por isso, avaliar a prestação de António José Seguro, tendo estado, ainda por cima, longe do país. António José Seguro é o secretário-geral do meu partido. Ou seja, é também o meu secretário-geral. Nada tenho mais nada a acrescentar. (3 pontos)


  • Porque decidiu voltar ao espaço mediático?


a) Porque está na hora de limpar o meu nome e de evidenciar o que já todos perceberam: eu tinha razão. Se ninguém o faz por mim, serei eu a fazê-lo. Chega de mentira e de farsa. Além disso, está na hora de arregimentar as minhas tropas, tomar conta do partido e reganhar o poder. Portugal precisa de mim; (1 ponto)

b) Agora que terminei o curso, tive condições para aceitar o convite que me foi endereçado, com a condição de não ser remunerado. Entendo que tenho algo a dizer sobre o que se está a passar no meu país. Julgo que devo explicar o que fiz e o que faria agora, se estivesse no governo; (2 pontos)

c) Como sabe, fiz comentário político durante vários anos. Agora que me afastei da política activa, embora com base na experiência adquirida no exercício de cargos governativos, entendo que posso dar algum contributo para a análise da realidade política portuguesa e europeia, de forma desassombrada, sem qualquer outra ambição. (3 pontos)


  • Na altura da negociação do Memorando de Entendimento, afirmou, perante as câmaras, que tinha alcançado um bom acordo. Ainda pensa assim?


a) Sim. Graças à nossa capacidade de negociação, alcançámos um bom acordo. Repare que o Memorando é o PEC IV. O problema é que, o actual governou, desvirtuou o Memorando. Quis ir para além do Memorando. Quis ir para além do PEC IV; (1 ponto)

b) Dadas as circunstâncias, foi um bom acordo. Foi uma espécie de PEC V, ou seja, o Memorando continha o PEC IV, mais um conjunto de medidas de carácter mais estrutural e com um alcance mais duradouro; (2 pontos)

c) Foi o acordo possível. Esperava condições mais gravosas, pelo que acabei por dizer que tinha sido um bom acordo. Provavelmente, não o devia ter dito, daquela forma, até porque o impacto do acordo era, à data, imprevisível. Foi, como disse, o acordo possível. Um pedido de resgaste não se faz sem contrapartidas, sem medidas de ajustamento, invariavelmente dolorosas. (3 pontos)


  • Que leitura faz da governação de Pedro Passos Coelho?


a) Um desastre. Motiva-o a ideologia. Tanto o primeiro-ministro, como o ministro das Finanças, olham as pessoas como números: descartáveis, dispensáveis, elimináveis. Foram, aliás, muito para além do Memorando. E insistem em ser os bons alunos, quando deviam ter logo, em 2011, renegociado algumas condições, e adiado outras, para ganhar tempo. Ganhar tempo teria sido a chave, enquanto íamos recebendo as tranches do empréstimo. Mas não, o programa deles é outro: acabar com o Estado Social, privatizar as áreas da educação, da saúde e da segurança social. São extremistas, gente perigosa que se recusa a ver o sofrimento que está a infligir com o seu neoliberalismo radical; (1 ponto)

b) Negativa. Com o desemprego a este nível, pouco mais há a dizer. Este governo enfiou Portugal numa espiral recessiva. Hoje estamos pior que há dois anos. Estamos a insistir nos erros que nos conduziram até aqui; (2 pontos)

c) Percebo que as metas impostas no memorando impunham medidas cegas, de natureza contabilística, na busca da décima ou do ponto percentual. Cortar salários ou pensões, é cortar despesa pelo lado mais fácil, atacando indiscriminadamente tudo e todos. Mas dificilmente poderia ser de outra forma. Provavelmente faria o mesmo. O memorando estabelecia prazos quase inexequíveis. O tempo era escasso e, sendo escasso, implicava medidas desta natureza. Para além de outros erros que possamos apontar, o que é imperdoável nesta governação é a incapacidade de perceber que as medidas fiscais preconizadas para 2013, iriam empurrar o país para uma profunda recessão. Uma coisa é tentar ir ao encontro das metas do Memorando, outra é insistir num caminho que, está provado, nos afasta dessas metas. (3 pontos)


  • O que acha das petições que foram lançadas contra a sua presença na televisão, e a manifestação que foi montada lá fora, para o impedir de participar nesta entrevista? Acha que está a ser julgado?


a) Um nojo e uma vergonha. O senhor já se pôs no meu lugar?! É gente sem escrúpulos, sem princípios, que não sabe viver em democracia; (1 ponto)

b) Confesso que não gostei. São atitudes que reflectem uma visão deturpada e perigosa da vida em democracia. Quem não se sente, não é filho de boa gente; (2 pontos)

c) As pessoas são livres de se manifestar. Estamos em democracia. E é aquela frase “os actos ficam com quem os pratica”. Para além disso, quem ocupa cargos de poder, tem de ter estofo para este tipo de coisas. São os ossos do ofício. Respondendo à sua segunda pergunta, não acho que esteja a ser julgado. Fui julgado, em 2011, pelos portugueses, nas eleições. Não tenho mais nada a acrescentar. (3 pontos)

AVALIAÇÃO
  • Até 10 pontos: não aprendeu rigorosamente nada;
  • Entre 11 e 15 pontos: há alguma esperança;
  • Entre 16 e 25 pontos: Paris fez-lhe bem;
  • Entre 26 e 30 pontos: temos homem!

Terça-feira, Março 19, 2013

The future's so bright, I gotta wear shades

Rui Albuquerque, no Blasfémias:

O que aí vem não vai ser bom 
"Nenhum político gosta de dar más notícias ao povo. Em situações de crise, essa atitude é agravada pelo facto dos políticos estarem convencidos que as boas notícias animam as pessoas e que o optimismo é meio caminho andado para se resolverem os problemas. Por isso, os governantes nunca dizem a verdade completa aos governados. Mesmo quando estão perante o abismo. Muitos deles acreditam mesmo que são capazes de dar a volta aos factos, conseguindo fazer em pouco tempo e sem recursos o que não foram capazes de fazer quando tinham uma coisa e a outra. Estes são, de longe, os que podem provocar os piores danos, porque estão completamente alheados da realidade, da sua própria e da do país em que têm responsabilidades. Ainda há pouco tempo assistimos a José Sócrates a resistir ao pedido de ajuda económica, convencido que ainda conseguiria evitar a bancarrota, quase seis anos depois de dispor do país como, infelizmente, muito bem quis. Vitor Gaspar não levou o país à bancarrota, porque ele já lá estava quando assumiu funções, nem dispôs de meios faraónicos para o recuperar, mas emprestou o seu nome a uma estratégia de recuperação que não podia resultar. E disso é inquestionavelmente responsável. 
Ora, o que se passa hoje com Portugal é por demais evidente para qualquer cidadão que não tenha responsabilidades políticas, nem adorações ideológicas ou partidárias que o ceguem. Por motivos que já nem interessa discutir, o estado e o país estão tecnicamente falidos, por isto se querendo dizer que não produzem a riqueza suficiente para pagar a sua despesa pública e a dívida que ela acumulou ao longo dos anos. Para reverter esta situação seria necessária uma radical redução dos custos correntes do estado, que nenhum governante tem coragem de assumir, porque provocaria uma hecatombe social de efeitos graves e imediatos. Infelizmente, o estado foi somando erros sobre erros, durante muitos anos, na forma como foi lidando com os cidadãos e nas expectativas que lhes criou sobre o modo como deviam conduzir as suas vidas: confiando sempre na existência de direitos económicos inalienáveis, que o estado lhes garantiria caso lhes falhassem. Desgraçadamente, um modelo social paternalista, imobilista e inimigo da produção e da responsabilidade individual com anos e anos de consolidação, não se substituiu em pouco tempo por um modelo económico produtivo e empresarial. 
O que o governo português tem feito, aplicando as regras, impostas pela troika, de uma gestão racional, desenhada para tempos de crise, mas de relativa normalidade, tem sido tapar buracos, sem verdadeiramente conseguir fechar nenhum, e aguardando que um milagre – as exportações, a União Europeia, um tecido empresarial cada vez mais frágil – inverta a situação e salve o país. Porque, a não ser um milagre (no qual José Sócrates também acreditava, convencido que a sua inflexibilidade atemorizaria os credores e a União Europeia), o país só pode agravar mais ainda a sua situação financeira e o défice das contas públicas. 
De facto, por cada aumento de impostos para alimentar o défice aumentam as falências, com as falências aumenta o desemprego, com o desemprego aumentam necessariamente os subsídios e os apoios do estado, crescendo, assim, o défice público em vez de diminuir, como se pretendia com as medidas fiscais. Por outro lado, a falência das nossas empresas não resulta do livre jogo do mercado, no que seriam facilmente substituídas por outras, não resulta nem da concorrência, nem da insatisfação dos consumidores, mas da pura e simples destruição do mercado, provocada pelo excessivo intervencionismo do estado que asfixiou fiscalmente as empresas e as pessoas, e descapitalizou os bancos que as podiam apoiar nos momentos de dificuldade. Neste cenário, como pode conceber-se uma recuperação da economia portuguesa que simultaneamente pague uma gigantesca dívida pública, equilibre a despesa corrente do estado (sempre necessariamente crescente em momentos de crise social) e ainda consiga criar empresas, emprego e riqueza que sustentem tudo isto, num cenário de crescimento desmesurado da carga fiscal e dos custos de produção? Isto é materialmente impossível, como é óbvio. 
Por outro lado, a solução socialista de suportar a dívida pública e produzir «crescimento» económico injectando dinheiro na economia, a velha fórmula que, no fim de contas, nos trouxe até aqui, é, ela também, uma impossibilidade evidente. Porque, por um lado, não temos esse dinheiro nem ninguém que no-lo empreste, e, por outro, se ainda tivéssemos ao nosso alcance a rotativa que produz moeda fiduciária (o Dr. Mário Soares sugeriu, há semanas, que a ligássemos novamente…), não estaríamos a fazer nada mais do que produzir folhas de papel com o símbolo da República, que apenas contribuiriam para aumentar a inflação e empobrecer ainda mais o país. 
Portugal está, deste modo, numa encruzilhada sem saída à vista. Com Passos e Gaspar, com outro Gaspar qualquer que Passos possa nomear, com Tozé ou Costa, o país já não depende de si mesmo, muito menos dos políticos que eufemisticamente o governam ou possam vir a governar nos próximos anos. Como qualquer empresa irremediavelmente falida, Portugal está inteiramente nas mãos dos seus credores e da União Europeia, na qual está política e economicamente integrado, e que é uma espécie de fiador das soberanias que a compõem. Estes, por sua vez, demonstram sinais crescentes de nervosismo e impaciência nunca antes vistos na história da União, como ficou bem claro com a intervenção no Chipre, que é um sério aviso e ameaça à navegação. 
Neste momento, a única coisa que podemos ter quase como certa, e que a 7ª auditoria da troika se limitou a confirmar, é que o que aí vem não vai ser bom."

Domingo, Fevereiro 24, 2013

...and another...

Alberto Gonçalves, no Diário de Notícias:
"O adjectivo mais divertido para qualificar o movimento de pândegos que calam e insultam governantes ao som de Grândola, Vila Morena é "espontâneo". Aparentemente, os pândegos não se conhecem de lado nenhum, por sorte encontram-se em eventos que contam com a presença de ministros e, num fenómeno que desafia a lei das probabilidades, desatam a entoar a referida cantilena e a gritar "Fascistas!" em uníssono. 
Notável, não é? Os pândegos podiam não se ter cruzado, podiam ter ido à bola ou ao circo, podiam ter cantarolado um sucesso de Shakira e gritado "Olha o robalo fresquinho!". Mas não. Uma e outra e outra e outra vez acertaram na hora, no local, na cantilena e na palavra de ordem. Tudo, claro, de forma espontânea. Desde que um gémeo comeu ostras e o irmão apanhou uma intoxicação alimentar que não havia notícia de coincidência assim. Nem de patranha assado. 
A tentativa de sublinhar a "espontaneidade" destes episódios não é inocente. O facto de os incidentes serem encomendados (e convocados via Facebook) pelos grupinhos do costume, especialistas em recorrer à tolerância do regime para treinarem os sonhos do derrube do regime, não cai tão bem. Tratar a Grândola e os insultos como obra do acaso confere à coisa uma aura inevitável e genérica. No fundo, sugere-se que o povo em peso ciranda por aí a silenciar "fascistas" com a sua indignação. 
E há quem não se fique pela sugestão. Numa coluna lindamente intitulada "Keynesiano, graças a Deus", Nicolau Santos, director-adjunto do Expresso, jura que "as pessoas" estão "fartas, fartissimas [sic], de políticos que não respeitam e a quem não reconhecem um pingo de credibilidade." Logo, prossegue o dr. Nicolau, "o facto de não o deixarem falar em público só mostra que o ministro Relvas não percebe isso mesmo: que foi julgado e condenado." 
Naturalmente, o dr. Nicolau confunde, ou finge confundir, os inúmeros cidadãos que desconfiam dos méritos académicos do dr. Relvas com as dúzias de intérpretes ambulantes da Grândola. O dr. Nicolau não percebe, ou finge não perceber, que o bizarro exercício de censura a membros de um Governo eleito é uma afronta aos que o elegeram. Por fim, o dr. Nicolau esquece-se, ou finge esquecer-se, de que a falta de credibilidade do político que aldraba o currículo é idêntica à do jornalista que promove um currículo aldrabado - e ao que se vê nenhuma implica necessariamente a demissão.
Em matéria de "keynesianos", prefiro, Deus me perdoe, Augusto Santos Silva. Embora movido pela (defensável) vontade de reprovar a apatia de Cavaco Silva, o ex-ministro socialista afirmou, sem nenhum dos habituais "mas" pelo meio, que a praga de "Grândolas" é um comportamento, cito, "anti-democrático": "O que esteve em causa foi uma limitação ilegítima à liberdade de expressão de uma pessoa."
 
Nunca fui admirador do dr. Santos Silva e nunca deixarei de achar que a permanência de Miguel Relvas consome escusadamente um Governo com consumições de sobra. Porém, nunca, quer no apogeu da tragédia "socrática" quer na demência fiscal dos seus sucessores, me passou pela cabeça que não podia haver pior. Pode, sim senhor, e os bandos de cançonetistas "espontâneos" dissipam todas as dúvidas a propósito. Perante tais emanações totalitárias, na boca das quais a palavra "fascistas" é uma afirmação identitária e não um ataque, uma pessoa quase se sente inclinada a gostar do "dr." Relvas e a pedir-lhe que se demore no ministério um bocadinho. Só um bocadinho."

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2013

...and another voice

Mariana Vieira da Silva, no Diário Económico:
"No final de uma conferência em que foi interrompido ao som de "Grândola, Vila Morena" Miguel Relvas descreveu aquela noite como normal. Não, aquela não foi uma noite normal. Estes dias que vivemos não são dias normais. 
São dias com desespero - como só podem ser os dias em que 17% dos portugueses e mais de 40% dos jovens estão desempregados. São dias com medo - porque é medo que provoca um primeiro-ministro que descreve o encerramento de empresas em massa como selecção natural, em última instância benéfica para a economia. E são dias de raiva - porque só a raiva pode nascer quando nos governa quem dizia que a culpa era de um país que vivia acima das possibilidades e de um Estado que asfixiava com as suas gorduras, e prometeu que mudando o governo acabava a crise. 
Mas estes dias também são - e isto tem de preocupar quem defende a democracia que nasceu ao som dos passos sobre a gravilha que abrem a maravilhosa canção de Zeca Afonso - dias em que os gritos de protesto contra o governo estão muitas vezes em coro com gritos contra a política, contra os políticos, contra os eleitos e tantas vezes contra as eleições. Relvas pode merecer ouvir cantar a igualdade, porque o discurso contra as prestações sociais é contra a democracia e contra a constituição. A Paulo Macedo pode fazer falta ouvir cantar que o povo é quem mais ordena, porque o SNS é uma conquista de que os portugueses não querem abdicar. Mas os protestos não podem ser acusações de "ladrões" e de "assassinos". E estes acordes não podem ser uma forma de impedir as pessoas de falar, ou uma forma de ameaçar e perseguir. 
"Grândola, Vila Morena" foi escolhida como senha para a liberdade. A sua utilização em protestos e como símbolo de desespero e de indignação é legítima e faz sentido. Mas ela não pode representar, como tem parecido nestes dias não normais, uma forma de ódio e de boicote, até à expressão de outros. Ou estaremos a usar o que foi uma senha para a liberdade e para a democracia como sanha contra a política e, portanto, contra a própria liberdade."

And another voice

Fernanda Câncio, no Diário de Notícias:

Não ser Relvas 
"Não gosto de Miguel Relvas. Mesmo nada. Não gosto do ministro, não gosto do político, deploro o discurso, a pose e o historial. Execro o que fez - não tenho dúvida de que fez - a Maria José Oliveira, a jornalista do Público que ameaçou com revelação de factos da sua vida privada para tentar evitar que ela o questionasse sobre declarações suas no Parlamento a propósito da relação com o ex-espião Jorge Silva Carvalho. Execro o facto de, na oposição, ter afirmado que a família do anterior primeiro-ministro, os filhos, deveriam ter vergonha dele - a vergonha, precisamente, de que o próprio demonstrou não ter pinga, ao manter-se, e ser mantido, em funções quando o próprio presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social diz não ter dúvidas sobre o facto de o ministro ter ameaçado a jornalista. E, por fim, deploro que haja quem o convide para falar de jornalismo, passado, presente ou futuro, depois de tal se ter passado: se a pessoa Relvas não percebe que não pode continuar ministro, que ao menos jornalistas e órgãos de comunicação social evidenciem não lhe reconhecer dignidade para tutelar o sector. 
Compreendo e sinto a justa fúria que tantos sentem ante um governo que diz governar "lixando-se para as eleições" quando, para ganhar as últimas, garantiu que faria tudo ao contrário do que está a fazer. Compreendo quem se lembra de ver Relvas insurgir-se contra aumentos de impostos e austeridade e desemprego e jurar que tudo seria diferente com o PSD, para agora sugerir que quem está mal que emigre. Compreendo quem se indigne por um ministro que fez uma licenciatura à pala de equivalências estar no mesmo governo que chamou às Novas Oportunidades "certificação de incompetência". Compreendo quem recorda Relvas a vituperar os ministros socialistas quando se insurgiam contra manifestações insultuosas ao ver o PSD clamar por "respeito democrático" pela "dignidade das funções" se tal se passa com os seus ministros - exigindo até ao PS que se lhe junte na reprovação "enfática". 
Mas não gosto de ver pessoas acossadas. Aliás, não gosto sequer de ver pessoas a serem humilhadas, menos ainda publicamente - por mais que sejam culpadas de humilhar um país e de desrespeitar a democracia e a Constituição que agora querem como mártires (!) invocar. Daí que, pese tudo o que penso e sinto, me tenha desagradado ver Relvas insultado no chamado "clube dos pensadores", ainda com aquele sorriso apalhaçado com que tentou fazer coro no Grândola com quem protestava. Não gostei de o ver, em pânico, pelos corredores do ISCTE, sob os gritos dos estudantes, à procura de abrigo, de uma porta por onde sair de cena. Por mais que queira isso mesmo, que Relvas saia, que este governo se vá, não deve ser assim. Não decerto por ele, não decerto por eles: por nós, que não somos Relvas. Que não temos da democracia o entendimento oportunista e canalha de quem dela se serve em vez de a servir e honrar."

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2013

Algo que importa ser dito (para além de que Miguel Relvas já se devia ter demitido)

Henrique Raposo, no Expresso:
"Sophia de Mello Breyner cunhou uma expressão engraçada para classificar as tácticas inquisitoriais dos companheiros de estrada do PCP: o "fascismo do anti-fascismo" . Esta intolerância de esquerda foi criada antes do 25 de Abril e, como é óbvio, conheceu o seu esplendor no PREC. Mas, volta e meia, a agressividade dos virtuosos reemerge. Nos últimos dias, por exemplo, têm caído alguns pinguinhos: meninos e meninas têm usado "Grândola Vila Morena" como forma de calar outras pessoas. Uma música criada para promover a liberdade de expressão foi assim transformada numa arma contra a liberdade de expressão. 
Os novos cantadeiros do "Grândola Vila Morena" dizem que são anti-fascistas. Bom, sobre isso nada sei, mas sei que são bons aprendizes de fascistas. Têm todas as sementes do bicho. Em primeiro lugar, revelam uma total intolerância em relação ao outro lado; há que malhar na "direita" (assim mesmo: a "direita", um bloco compacto, monolítico, desumanizado, desprezível e espezinhável). Em segundo lugar, respiram e transpiram ódio, um ódio que escorre pelos cartazes, pelos rostos, pelas vozes. E, de forma mui fascista, esta malta tem orgulho nesse ódio. Aquilo que os define é o amor que têm pelo seu ódio, adoram odiar a "direita" ou seja lá o que for. Esta elevação do ódio à categoria de virtude é a marca do fascista, seja ele castanho ou vermelho. Em terceiro lugar, temos a consequência lógica das duas premissas anteriores: o culto da violência. Se a "direita" é espezinhável, se não vale a pena ouvir o outro lado, se o ódio é uma virtude que confere uma legitimidade superior, então a violência é legítima e não faz mal dar uns carolos no Relvas. Aliás, só faz bem dar uns tabefes no Relvas. 
Para terminar, só queria dizer que gosto bastante deste PREC cantado. É que assim já não tenho de recorrer à história para explicar a profunda intolerância das extremas-esquerdas portuguesas . Agora basta-me apontar para o presente. Ela, a intolerância progressista e revolucionária, está aí, anda por aí. Até peço uma coisa: aumentem o volume da violência, continuem a mostrar que não sabem viver em democracia, que não sabem aceitar opiniões contrárias, continuem a ameaçar, continuem a ser fascistazinhos de vão de escada."

Terça-feira, Fevereiro 19, 2013

E a ralé que não pára quieta

Na edição de 9 de Fevereiro do semanário Expresso, Carlos «Um Professor Doutor de Coimbra, meu deus!» Reis escreveu libelo contra os que por aí andam, a barafustar contra o Acordo Ortogáfico (AO). «Uma fúria contestatária baseada em argumentos parciais, desinformados e não raro tendenciosos», é assim que Carlos Reis caracteriza, de início, as manifestações contra o AO. O artigo prossegue com Carlos Reis a tentar demonstrar, com a elegância que o caracteriza, que os seus argumentos são, claro está, imparciais, informados e nada sectários.

Não vou discutir, parágrafo a parágrafo, os argumentos aduzidos por Carlos Reis (outros já o fizeram, com particular distinção). Interessa-me, antes, (re)notar aquilo que observo em Carlos Reis, desde sempre (desde um debate na RTP, com Miguel Esteves Cardoso, Maria Leonor Buesco e Maria Isabel Rebelo Gonçalves, entre outros): uma mesquinha e afunilada percepção do exercício da liberdade, associada a uma empertigada visão das elites e do «oficialismo» (argumentum ad verecundiam) sobre os dislates e o atrevimento (ignorante) da ralé.

Quando Carlos Reis invoca, de forma marcadamente contente, o facto do AO se encontrar em vigor no «Diário da República», nas «escolas» (como se estas tivessem optado de forma livre e autónoma), nas «televisões de sinal aberto» e em «oito dos dez jornais e revistas portugueses de maior circulação», revemos na prelecção o velho e cinzento Portugal do «respeitinho é muito bonito». Carlos Reis é, também, um produto dessa ‘malaise’ nacional, tão bem retratada nas obras de Eça: o Portugal manga-de-alpaca, professoral e escolástico, onde o «oficial» ou o ditado pela Academia e pelo Estado, é para acatar sem as desnecessárias e funestas «fúrias contestarias» (embora, agora, sem o chicote).

Carlos Reis é um queirosiano. Mas não se nota. Ou melhor: é-o às avessas. Há ali uma pobreza de espirito que faria as delícias de Eça.

Segunda-feira, Fevereiro 18, 2013

O príncipe

Eu tinha respeito por António Correia de Campos. Tinha. Até ao dia em que deu uma entrevista ao jornal i (edição 16/17 Fevereiro 2013) e disse isto:
Mas Seguro está preparado?"Então não está? Fez toda a sua vida a preparar-se para isso. Muita gente diz que Seguro é igual a Passos Coelho, que são líderes biónicos, forjados nas juventudes partidárias. Eu não sou monárquico, mas conheço algumas virtualidades do regime quando há educação do príncipe. Estes dois homens tiveram educação para o poder, há muito tempo que estão mentalizados para isso. António José Seguro preparou-se e mentalizou-se para estas funções, tal como António Costa. Não vejo mal nenhum nisso. O poder hoje exige preparação, é uma coisa complexa. Veja os EUA."

Common people

Em teoria, quanto menor a evasão fiscal, maior o desagravamento dos contribuintes cumpridores. Em teoria, o alargamento da base tributária e a melhoria da cobrança da dívida exequenda, concorre para uma maior justiça na repartição da carga tributária. Em teoria, quanto menor a evasão fiscal, melhores serviços serão prestados. Em teoria, e por princípio, não pagar impostos é roubar o Estado e, pior, os contribuintes que pagam.

Na prática, quanto mais impostos se pagam, mais o Estado gasta. Na prática, quanto mais o Estado gasta, mais impostos quer cobrar. Na prática, a base tributária alargou-se a níveis inéditos e a cobrança de impostos é cada vez mais eficiente, mas nem por isso assistimos, uma única vez em trinta e oito anos, à diminuição da carga fiscal. Na prática, o fisco pratica uma espécie de agiotagem com os contribuintes, sempre que estes se atrasam no pagamento dos impostos, e arroga-se no direito de devolver impostos incorrectamente cobrados no prazo que uma qualquer portariazinha (feita à medida) lhe permite.

Ninguém, no seu perfeito juízo, desconhece ou rejeita o que está escrito no primeiro parágrafo. E muitos sabem que, a única forma de podermos continuar a exigir um Estado melhor e mais justo, é não incorrer em práticas que o prejudicam e que são moralmente erradas. Tudo isto está certo. Mas a vida não é aquilo que desejamos ou idealizamos ou nos explicaram no papel. A realidade oferece resistências. São as prosaicas minudências – pagar a renda da casa, os medicamentos da avó, os cadernos e livros escolares, as visitas ao supermercado, o combustível, os transportes públicos, a electricidade, o gás, o serviço do canalizador que não estava previsto, etc. -, que não cabem na letra da lei e parecem passar ao lado dos grandes princípios que alguns «idiotas da objectividade» (na imortal expressão de Nelson Rodrigues) nos gostam de atirar à cara (como se fossem santos), são as minudências, dizia, que borram a pintura. Junte-se às insignificâncias do dia-a-dia, a constatação de que o Estado nem sempre se apresenta como «pessoa de bem»; a evidência de que os governantes resistem a dar o exemplo; o facto de estarmos assoberbados por uma carga fiscal morbidamente obesa (que uns maduros juram estar em linha com a «Europa»); e, finalmente, last but not least, polvilhe-se a mistela com, por exemplo, o condimento BPN.

Do que estavam mesmo à espera?

"...and dance and drink and screw, because there's nothing else to do."
Powered by Blogger Licença Creative Commons
Esta obra está licenciado sob uma Licença Creative Commons.