O MacGuffin: Felis catus

sábado, agosto 08, 2009

Felis catus

A gata Didas (ver foto) é, como todos os gatos, inescrutável (para além de linda). A deliciosa petulância da Didas (na realidade o nome dela é Sophia, como a poetisa), aliada à quase indolente languidez com que, por vezes, se arrasta pela casa, e à notabilíssima agilidade com que se empoleira, sem derrubar rigorosamente nada, nos sítios mais improváveis, atiram-me invariavelmente para um sentimento que mistura admiração, un petit peu de embirração e uma dose assinalável de amor desmedido. Explico: nunca, até há três anos atrás, tinha gostado, se calhar por nunca ter privado comme il faut, de gatos. Sempre fui um rapaz de cães. Tenho, aliás, um cão (ou melhor, o cão é da minha filha): um cocker spaniel inglês (a raça mais divertida, passada e dono-dependente que conheci até hoje) que, todos os dias, faz questão de me dizer, por palavras e gestos próprios a revelar uma ansiedade tocante, “desculpa, dono, desculpa, mas terei sido há minutos atrás suficientemente meloso e adulador?”. Amar um cão de forma absoluta é uma coisa tão directa e simples (só o olhar de um cão deixa qualquer um, incluindo o José Saramago, estarrecido) que pouco ou nada há a dizer. Nos gatos, a questão é bem mais complexa e, por isso, interessante. Se eu quisesse definir o que é um gato em poucas palavras, descreveria o que invariavelmente encontro sempre que, todos os dias, faça chuva ou faça sol, tenha ou não o Carlos Abreu Amorim achado que não houve renovação nas listas do PSD, chego a casa com a minha mulher: num primeiro instante, tenho o focinho da Didas colado à porta como que a dizer “ena, ena, chegaram!”; dois segundos depois (às vezes menos), está dada a meia-volta (uma meia-volta à Rita Hayworth em Gilda), dando-se início a um suposto afastamento (treta, claro): é a fase do “Eh pá, não julguem que eu estava para aqui ansiosa por vos ver chegar mas, por favor, não deixem de reparar em mim e sim eu estou a morrer de saudades mas não me venham com as lamechices do costume porque eu estive sozinha e abandonada várias horas e por isso vocês merecem desprezo mas não se zanguem comigo porque está na hora de me pegarem ao colo mas não por muito tempo que eu gosto muito pouco de confianças mas sim por favor agarrem-me como é habitual seus humanozecos”; depois, a minha mulher pega-lhe ao colo: é a fase das festas que conduz a um ronronar que, poucos segundos depois, atinge decibéis leoninos; ao fim de dois minutos (nunca mais do que isso, que estamos na presença de um animal rigoroso), a Didas protesta e quer voltar para o chão. É isto, mais as maluqueiras recorrentes (as corridas desenfreadas out of the blue, o fascínio pelo desembainhar do fio dental, a absoluta imprudência face a qualquer buraco ou novidade) e aquele absoluto e contagiante apego ao sono e à paz, de preferência junto dos donos (mais da dona, que ela ama incondicionalmente) numa qualquer superfície amolfadada, que faz de um gato (no meu caso uma gata) um animal deliciosamente provocador. De resto, ou por tudo isto, nada me dá mais gozo do que chateá-la porque, let’s face it, há qualquer coisa naquela altivez que está sempre a pedir problemas. Eu, pela minha parte, ando sempre com as mãos e os braços arranhados. Ela, por seu lado, aguarda ansiosamente o pagode e o jogo do toca e foge. Entendemo-nos na perfeição.



PS: Sobre gatos, é imprescindível ler a crónica de Miguel Esteves Cardoso, no Público, do dia 7 de Agosto ("Ronrom assassino") e, claro, o relato intermitente das aventuras do gato Varandas (esse aristocrata meio alucinado) que vai conferindo à Charlotte o sublime privilégio da sua companhia.

4 Comentários:

Blogger Isa disse...

adorei o post e a tua gata é linda de morrer. disseram-me uma vez e confirmei, a nossa casa não é nossa, é deles, eles é que nos deixam lá ficar :-))
Bj

3:23 da manhã  
Blogger ana disse...

agradeço o contributo para a minha tentativa de ter um gato. O meu filho ainda agora me acabou de dizer que a sua gata é muito engraçada

6:14 da tarde  
Blogger zazie disse...

Que coisinha mailinda. E cara de menina sem hipótese para enganos.

O outro ali mais abaixo tambem ]e um fofo

ehehe

9:27 da tarde  
Blogger menina limão disse...

Na maior parte do texto, se substituíssemos "gata" por "mulher"*, ninguém estranharia.







*uma mulher em particular, que as generalizações entediam-me de morte.

4:11 da tarde  

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