O MacGuffin: Fevereiro 2013

domingo, fevereiro 24, 2013

...and another...

Alberto Gonçalves, no Diário de Notícias:
"O adjectivo mais divertido para qualificar o movimento de pândegos que calam e insultam governantes ao som de Grândola, Vila Morena é "espontâneo". Aparentemente, os pândegos não se conhecem de lado nenhum, por sorte encontram-se em eventos que contam com a presença de ministros e, num fenómeno que desafia a lei das probabilidades, desatam a entoar a referida cantilena e a gritar "Fascistas!" em uníssono. 
Notável, não é? Os pândegos podiam não se ter cruzado, podiam ter ido à bola ou ao circo, podiam ter cantarolado um sucesso de Shakira e gritado "Olha o robalo fresquinho!". Mas não. Uma e outra e outra e outra vez acertaram na hora, no local, na cantilena e na palavra de ordem. Tudo, claro, de forma espontânea. Desde que um gémeo comeu ostras e o irmão apanhou uma intoxicação alimentar que não havia notícia de coincidência assim. Nem de patranha assado. 
A tentativa de sublinhar a "espontaneidade" destes episódios não é inocente. O facto de os incidentes serem encomendados (e convocados via Facebook) pelos grupinhos do costume, especialistas em recorrer à tolerância do regime para treinarem os sonhos do derrube do regime, não cai tão bem. Tratar a Grândola e os insultos como obra do acaso confere à coisa uma aura inevitável e genérica. No fundo, sugere-se que o povo em peso ciranda por aí a silenciar "fascistas" com a sua indignação. 
E há quem não se fique pela sugestão. Numa coluna lindamente intitulada "Keynesiano, graças a Deus", Nicolau Santos, director-adjunto do Expresso, jura que "as pessoas" estão "fartas, fartissimas [sic], de políticos que não respeitam e a quem não reconhecem um pingo de credibilidade." Logo, prossegue o dr. Nicolau, "o facto de não o deixarem falar em público só mostra que o ministro Relvas não percebe isso mesmo: que foi julgado e condenado." 
Naturalmente, o dr. Nicolau confunde, ou finge confundir, os inúmeros cidadãos que desconfiam dos méritos académicos do dr. Relvas com as dúzias de intérpretes ambulantes da Grândola. O dr. Nicolau não percebe, ou finge não perceber, que o bizarro exercício de censura a membros de um Governo eleito é uma afronta aos que o elegeram. Por fim, o dr. Nicolau esquece-se, ou finge esquecer-se, de que a falta de credibilidade do político que aldraba o currículo é idêntica à do jornalista que promove um currículo aldrabado - e ao que se vê nenhuma implica necessariamente a demissão.
Em matéria de "keynesianos", prefiro, Deus me perdoe, Augusto Santos Silva. Embora movido pela (defensável) vontade de reprovar a apatia de Cavaco Silva, o ex-ministro socialista afirmou, sem nenhum dos habituais "mas" pelo meio, que a praga de "Grândolas" é um comportamento, cito, "anti-democrático": "O que esteve em causa foi uma limitação ilegítima à liberdade de expressão de uma pessoa."
 
Nunca fui admirador do dr. Santos Silva e nunca deixarei de achar que a permanência de Miguel Relvas consome escusadamente um Governo com consumições de sobra. Porém, nunca, quer no apogeu da tragédia "socrática" quer na demência fiscal dos seus sucessores, me passou pela cabeça que não podia haver pior. Pode, sim senhor, e os bandos de cançonetistas "espontâneos" dissipam todas as dúvidas a propósito. Perante tais emanações totalitárias, na boca das quais a palavra "fascistas" é uma afirmação identitária e não um ataque, uma pessoa quase se sente inclinada a gostar do "dr." Relvas e a pedir-lhe que se demore no ministério um bocadinho. Só um bocadinho."

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

...and another voice

Mariana Vieira da Silva, no Diário Económico:
"No final de uma conferência em que foi interrompido ao som de "Grândola, Vila Morena" Miguel Relvas descreveu aquela noite como normal. Não, aquela não foi uma noite normal. Estes dias que vivemos não são dias normais. 
São dias com desespero - como só podem ser os dias em que 17% dos portugueses e mais de 40% dos jovens estão desempregados. São dias com medo - porque é medo que provoca um primeiro-ministro que descreve o encerramento de empresas em massa como selecção natural, em última instância benéfica para a economia. E são dias de raiva - porque só a raiva pode nascer quando nos governa quem dizia que a culpa era de um país que vivia acima das possibilidades e de um Estado que asfixiava com as suas gorduras, e prometeu que mudando o governo acabava a crise. 
Mas estes dias também são - e isto tem de preocupar quem defende a democracia que nasceu ao som dos passos sobre a gravilha que abrem a maravilhosa canção de Zeca Afonso - dias em que os gritos de protesto contra o governo estão muitas vezes em coro com gritos contra a política, contra os políticos, contra os eleitos e tantas vezes contra as eleições. Relvas pode merecer ouvir cantar a igualdade, porque o discurso contra as prestações sociais é contra a democracia e contra a constituição. A Paulo Macedo pode fazer falta ouvir cantar que o povo é quem mais ordena, porque o SNS é uma conquista de que os portugueses não querem abdicar. Mas os protestos não podem ser acusações de "ladrões" e de "assassinos". E estes acordes não podem ser uma forma de impedir as pessoas de falar, ou uma forma de ameaçar e perseguir. 
"Grândola, Vila Morena" foi escolhida como senha para a liberdade. A sua utilização em protestos e como símbolo de desespero e de indignação é legítima e faz sentido. Mas ela não pode representar, como tem parecido nestes dias não normais, uma forma de ódio e de boicote, até à expressão de outros. Ou estaremos a usar o que foi uma senha para a liberdade e para a democracia como sanha contra a política e, portanto, contra a própria liberdade."

And another voice

Fernanda Câncio, no Diário de Notícias:

Não ser Relvas 
"Não gosto de Miguel Relvas. Mesmo nada. Não gosto do ministro, não gosto do político, deploro o discurso, a pose e o historial. Execro o que fez - não tenho dúvida de que fez - a Maria José Oliveira, a jornalista do Público que ameaçou com revelação de factos da sua vida privada para tentar evitar que ela o questionasse sobre declarações suas no Parlamento a propósito da relação com o ex-espião Jorge Silva Carvalho. Execro o facto de, na oposição, ter afirmado que a família do anterior primeiro-ministro, os filhos, deveriam ter vergonha dele - a vergonha, precisamente, de que o próprio demonstrou não ter pinga, ao manter-se, e ser mantido, em funções quando o próprio presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social diz não ter dúvidas sobre o facto de o ministro ter ameaçado a jornalista. E, por fim, deploro que haja quem o convide para falar de jornalismo, passado, presente ou futuro, depois de tal se ter passado: se a pessoa Relvas não percebe que não pode continuar ministro, que ao menos jornalistas e órgãos de comunicação social evidenciem não lhe reconhecer dignidade para tutelar o sector. 
Compreendo e sinto a justa fúria que tantos sentem ante um governo que diz governar "lixando-se para as eleições" quando, para ganhar as últimas, garantiu que faria tudo ao contrário do que está a fazer. Compreendo quem se lembra de ver Relvas insurgir-se contra aumentos de impostos e austeridade e desemprego e jurar que tudo seria diferente com o PSD, para agora sugerir que quem está mal que emigre. Compreendo quem se indigne por um ministro que fez uma licenciatura à pala de equivalências estar no mesmo governo que chamou às Novas Oportunidades "certificação de incompetência". Compreendo quem recorda Relvas a vituperar os ministros socialistas quando se insurgiam contra manifestações insultuosas ao ver o PSD clamar por "respeito democrático" pela "dignidade das funções" se tal se passa com os seus ministros - exigindo até ao PS que se lhe junte na reprovação "enfática". 
Mas não gosto de ver pessoas acossadas. Aliás, não gosto sequer de ver pessoas a serem humilhadas, menos ainda publicamente - por mais que sejam culpadas de humilhar um país e de desrespeitar a democracia e a Constituição que agora querem como mártires (!) invocar. Daí que, pese tudo o que penso e sinto, me tenha desagradado ver Relvas insultado no chamado "clube dos pensadores", ainda com aquele sorriso apalhaçado com que tentou fazer coro no Grândola com quem protestava. Não gostei de o ver, em pânico, pelos corredores do ISCTE, sob os gritos dos estudantes, à procura de abrigo, de uma porta por onde sair de cena. Por mais que queira isso mesmo, que Relvas saia, que este governo se vá, não deve ser assim. Não decerto por ele, não decerto por eles: por nós, que não somos Relvas. Que não temos da democracia o entendimento oportunista e canalha de quem dela se serve em vez de a servir e honrar."

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Algo que importa ser dito (para além de que Miguel Relvas já se devia ter demitido)

Henrique Raposo, no Expresso:
"Sophia de Mello Breyner cunhou uma expressão engraçada para classificar as tácticas inquisitoriais dos companheiros de estrada do PCP: o "fascismo do anti-fascismo" . Esta intolerância de esquerda foi criada antes do 25 de Abril e, como é óbvio, conheceu o seu esplendor no PREC. Mas, volta e meia, a agressividade dos virtuosos reemerge. Nos últimos dias, por exemplo, têm caído alguns pinguinhos: meninos e meninas têm usado "Grândola Vila Morena" como forma de calar outras pessoas. Uma música criada para promover a liberdade de expressão foi assim transformada numa arma contra a liberdade de expressão. 
Os novos cantadeiros do "Grândola Vila Morena" dizem que são anti-fascistas. Bom, sobre isso nada sei, mas sei que são bons aprendizes de fascistas. Têm todas as sementes do bicho. Em primeiro lugar, revelam uma total intolerância em relação ao outro lado; há que malhar na "direita" (assim mesmo: a "direita", um bloco compacto, monolítico, desumanizado, desprezível e espezinhável). Em segundo lugar, respiram e transpiram ódio, um ódio que escorre pelos cartazes, pelos rostos, pelas vozes. E, de forma mui fascista, esta malta tem orgulho nesse ódio. Aquilo que os define é o amor que têm pelo seu ódio, adoram odiar a "direita" ou seja lá o que for. Esta elevação do ódio à categoria de virtude é a marca do fascista, seja ele castanho ou vermelho. Em terceiro lugar, temos a consequência lógica das duas premissas anteriores: o culto da violência. Se a "direita" é espezinhável, se não vale a pena ouvir o outro lado, se o ódio é uma virtude que confere uma legitimidade superior, então a violência é legítima e não faz mal dar uns carolos no Relvas. Aliás, só faz bem dar uns tabefes no Relvas. 
Para terminar, só queria dizer que gosto bastante deste PREC cantado. É que assim já não tenho de recorrer à história para explicar a profunda intolerância das extremas-esquerdas portuguesas . Agora basta-me apontar para o presente. Ela, a intolerância progressista e revolucionária, está aí, anda por aí. Até peço uma coisa: aumentem o volume da violência, continuem a mostrar que não sabem viver em democracia, que não sabem aceitar opiniões contrárias, continuem a ameaçar, continuem a ser fascistazinhos de vão de escada."

terça-feira, fevereiro 19, 2013

E a ralé que não pára quieta

Na edição de 9 de Fevereiro do semanário Expresso, Carlos «Um Professor Doutor de Coimbra, meu deus!» Reis escreveu libelo contra os que por aí andam, a barafustar contra o Acordo Ortogáfico (AO). «Uma fúria contestatária baseada em argumentos parciais, desinformados e não raro tendenciosos», é assim que Carlos Reis caracteriza, de início, as manifestações contra o AO. O artigo prossegue com Carlos Reis a tentar demonstrar, com a elegância que o caracteriza, que os seus argumentos são, claro está, imparciais, informados e nada sectários.

Não vou discutir, parágrafo a parágrafo, os argumentos aduzidos por Carlos Reis (outros já o fizeram, com particular distinção). Interessa-me, antes, (re)notar aquilo que observo em Carlos Reis, desde sempre (desde um debate na RTP, com Miguel Esteves Cardoso, Maria Leonor Buesco e Maria Isabel Rebelo Gonçalves, entre outros): uma mesquinha e afunilada percepção do exercício da liberdade, associada a uma empertigada visão das elites e do «oficialismo» (argumentum ad verecundiam) sobre os dislates e o atrevimento (ignorante) da ralé.

Quando Carlos Reis invoca, de forma marcadamente contente, o facto do AO se encontrar em vigor no «Diário da República», nas «escolas» (como se estas tivessem optado de forma livre e autónoma), nas «televisões de sinal aberto» e em «oito dos dez jornais e revistas portugueses de maior circulação», revemos na prelecção o velho e cinzento Portugal do «respeitinho é muito bonito». Carlos Reis é, também, um produto dessa ‘malaise’ nacional, tão bem retratada nas obras de Eça: o Portugal manga-de-alpaca, professoral e escolástico, onde o «oficial» ou o ditado pela Academia e pelo Estado, é para acatar sem as desnecessárias e funestas «fúrias contestarias» (embora, agora, sem o chicote).

Carlos Reis é um queirosiano. Mas não se nota. Ou melhor: é-o às avessas. Há ali uma pobreza de espirito que faria as delícias de Eça.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

O príncipe

Eu tinha respeito por António Correia de Campos. Tinha. Até ao dia em que deu uma entrevista ao jornal i (edição 16/17 Fevereiro 2013) e disse isto:
Mas Seguro está preparado?"Então não está? Fez toda a sua vida a preparar-se para isso. Muita gente diz que Seguro é igual a Passos Coelho, que são líderes biónicos, forjados nas juventudes partidárias. Eu não sou monárquico, mas conheço algumas virtualidades do regime quando há educação do príncipe. Estes dois homens tiveram educação para o poder, há muito tempo que estão mentalizados para isso. António José Seguro preparou-se e mentalizou-se para estas funções, tal como António Costa. Não vejo mal nenhum nisso. O poder hoje exige preparação, é uma coisa complexa. Veja os EUA."

Common people

Em teoria, quanto menor a evasão fiscal, maior o desagravamento dos contribuintes cumpridores. Em teoria, o alargamento da base tributária e a melhoria da cobrança da dívida exequenda, concorre para uma maior justiça na repartição da carga tributária. Em teoria, quanto menor a evasão fiscal, melhores serviços serão prestados. Em teoria, e por princípio, não pagar impostos é roubar o Estado e, pior, os contribuintes que pagam.

Na prática, quanto mais impostos se pagam, mais o Estado gasta. Na prática, quanto mais o Estado gasta, mais impostos quer cobrar. Na prática, a base tributária alargou-se a níveis inéditos e a cobrança de impostos é cada vez mais eficiente, mas nem por isso assistimos, uma única vez em trinta e oito anos, à diminuição da carga fiscal. Na prática, o fisco pratica uma espécie de agiotagem com os contribuintes, sempre que estes se atrasam no pagamento dos impostos, e arroga-se no direito de devolver impostos incorrectamente cobrados no prazo que uma qualquer portariazinha (feita à medida) o permite.

Ninguém, no seu perfeito juízo, desconhece ou rejeita o que está escrito no primeiro parágrafo. E muitos sabem que a única forma de podermos continuar a exigir um Estado melhor e mais justo, é não incorrer em práticas que o prejudicam e que são moralmente erradas. Tudo isto está certo. Mas a vida não é aquilo que desejamos ou idealizamos ou nos explicaram no papel. A realidade oferece resistências. São as prosaicas minudências – pagar a renda da casa, os medicamentos da avó, os cadernos e livros escolares, as visitas ao supermercado, o combustível, os transportes públicos, a electricidade, o gás, o serviço do canalizador que não estava previsto, etc. -, que não cabem na letra da lei e parecem passar ao lado dos grandes princípios que alguns «idiotas da objectividade» (na imortal expressão de Nelson Rodrigues) nos gostam de atirar à cara (como se fossem santos), são as minudências, dizia, que borram a pintura. Junte-se às insignificâncias do dia-a-dia, a constatação de que o Estado nem sempre se apresenta como «pessoa de bem»; a evidência de que os governantes resistem a dar o exemplo; o facto de estarmos assoberbados por uma carga fiscal morbidamente obesa (que uns maduros juram estar em linha com a «Europa»); e, finalmente, last but not least, polvilhe-se a mistela com, por exemplo, o condimento BPN.

Do que estavam mesmo à espera?

"...and dance and drink and screw, because there's nothing else to do."

domingo, fevereiro 17, 2013

É uma coisa que me chateia

Habitante desse vasto e riquíssimo território que dá pelo nome de Twitter, dei conta de que o meu anterior post foi ‘favoritado’ (para usar o jargão da seita) pelo Twitter oficial do PS Arouca (@AroucaPS). Não querendo fazer a desfeita de renunciar a tamanha honra, não posso deixar de invocar o grande almirante Pinheiro de Azevedo: é uma coisa que me chateia (e, dentro de minutos, vou almoçar). Para explicar a amofinação, transcrevo um excerto de “Uma Campanha Alegre”. Substituam “partido histórico” por PSD e “partido regenerador” por PS (e/ou vice-versa):
“Na acção governamental as dissensões são perpétuas. Assim o partido histórico propõe um imposto. Porque, não há remédio, é necessário pagar a religião, o exército, a centralização, a lista civil, a diplomacia... - Propõe um imposto. 
«Caminhamos para uma ruína! - exclama o Presidente do Conselho. - O défice cresce! O País está pobre! A única maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc...» 
Mas então o partido regenerador, que está na oposição, brame de desespero, reúne o seu centro. As faces luzem de suor, os cabelos pintados destingem-se de agonia, e cada um alarga o colarinho na atitude de um homem que vê desmoronar-se a Pátria! 
— Como assim! - exclamam todos - mais impostos!? 
E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, tramam-se votações! Por toda a Lisboa rodam carruagens de aluguel, levando, a 300 réis por corrida, inimigos do imposto! Prepara-se o cheque ao ministério histórico... Zás! cai o ministério histórico! 
E ao outro dia, o partido regenerador, no poder, triunfante, ocupa as cadeiras de S. Bento. Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram mais, as transacções diminuíram mais, a opinião descreu mais, a moralidade pública abateu mais - mas finalmente caiu aquele ministério desorganizador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando. 
Abre a sessão parlamentar. O novo ministério regenerador vai falar. 
Os senhores taquígrafos aparam as suas penas velozes. O telégrafo está vibrante de impaciência, para comunicar aos governadores civis e aos coronéis a regeneração da Pátria. Os senhores correios de secretaria têm os seus corcéis selados! 
Porque, enfim, o ministério regenerador vai dizer o seu programa, e todo o mundo se assoa com alegria e esperança! 
— Tem a palavra o Sr. Presidente do Conselho. — O novo presidente: «Um ministério nefasto (apoiado, apoiado! - exclama a maioria histórica da véspera) caiu perante a reprovação do País inteiro. Porque, Senhor Presidente, o País está desorganizado, é necessário restaurar o crédito. E a única maneira de nos salvarmos...» 
Murmúrios. Vozes: Ouçam! ouçam! 
«...É por isso que eu peço que entre já em discussão... (atenção ávida que faz palpitar debaixo dos fraques o coração da maioria...) que entre em discussão - o imposto que temos a honra, etc. (apoiado! apoiado!)» 
E nessa noite reúne-se o centro histórico, ontem no ministério, hoje na oposição. Todos estão lúgubres. 
— «Meus senhores - diz o presidente, com voz cava. - O País está perdido! O ministério regenerador ainda ontem subiu ao poder, e doze horas depois já entra pelo caminho da anarquia e da opressão propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o País a esta última desgraça! - Guerra ao imposto!...» 
Não, não! com divergências tão profundas é impossível a conciliação dos partidos!”

sábado, fevereiro 16, 2013

Tenho um fraquinho por reformados

Tenho um fraquinho por reformados. Confesso. Tenho um fraquinho por velhos. Por gente já um pouco cansada, já um pouco doente. Incapaz de recomeçar. Tenho um fraquinho por gente que trabalhou grande parte da sua vida (para sustentar a casa, pagar a educação dos filhos, ajudar os mais velhos da família), pagando, anos a fio, os seus impostos e descontando uma parte do esforço do seu trabalho para alimentar um sistema de natureza sinalagmática: a obrigação legal de contribuir associada ao direito a um conjunto diverso de prestações sociais - de entre as quais, na recta final da vida, uma «pensão de velhice».

Uma pensão que resulta de um contrato, com cláusulas claras e contraentes supostamente imbuídos de boa fé: o contribuinte e o Estado. «Pagas isto durante a tua vida de trabalho e, em troca, garantimos-te x». Mais: o Estado, essa entidade eternamente benévola e altruísta, criou, a certa altura, um regime complementar individual e voluntário, a que deu o nome de «Regime Público de Capitalização». Desse regime, resultariam «certificados de reforma». Ou seja, o Estado ofereceu-se para ser o guardião de uma espécie de pé-de-meia, pago a mais pelo contribuinte, a disponibilizar para além da prosaica «pensão de velhice».

Foi com base nessas «contas», i.e., nessa expectativa, que milhares de pessoas contribuíram e planearam o «ocaso da sua vida» (expressão foleira, é verdade, mas não disponho, de momento, de outra). Provavelmente, se lhes tivessem dito «olhe que estas contas não são garantidas, podem sofrer alterações (e não despiciendas), nada disto é totalmente certo», o contribuinte teria optado por uma atitude de precaução, fazendo uso de outros instrumentos de poupança. Mas não. Ao contribuinte foi retirado, por obrigação legal, ao longo de cerca de quarenta anos, uma fatia dos seus rendimentos, com base num acordo supostamente sério e objectivo, em troca de uma determinada quantia.

Tenho um fraquinho por reformados, sim. Da mesma forma que, actualmente, dadas as circunstâncias e o que para aí vai, desenvolvi um severo e doentio asco por essa trupe de jovenzinhos que adoram perorar, com o mais cândido dos facilitismos, sobre as reformas e o papel da «velhada». Diante da folhinha Excel (excelente programa, by the way), e do alto dos seus vinte ou trinta e tais aninhos, ei-los a emitir elucubrações sofisticadíssimas sobre a natureza «injusta» das reformas - as quais, supostamente, tramam, agora, o país e, indirectamente, condicionam o futuro dos jovens. Porque, lá está, os jovens precisam, mais do que ninguém, de ajuda e de estímulos: de subsídios, de políticas pró-emprego e pró-crescimento, de bonificações e água de malvas – coisinhas que podem ser, também e preferencialmente, financiadas por um quinhão das reformas dessa gente «estacionada» na vida, a receber do bom e do melhor. Porque não taxá-los, sobretaxá-los, obrigá-los a contribuir «solidariamente»? Porque não mudar as regras do jogo a meio ou no fim do jogo?

É este o tom. É este o mote. Noções de honra, de boa fé e de lealdade contratual, não os animam. Nem lhes interessa perceber que, no estágio de vida dos reformados, não há defesas, nem subterfúgios, que lhes valham. Ao contrário dos jovens, os reformados não têm «as estradas livres para caminhar». A maioria já contraiu matrimónio com uma doença crónica. Já não vão a tempo de «ir à luta». Já não há força para biscates (até porque o mercado dos biscates está preenchido, lá está, pelos jovens). Nem sequer, que horror!, de emigrar. Só lhes resta aquilo.

E é aquilo que, agora, está sob ataque. Cortar, cortar, cortar. O Estado é um buraco negro que tudo suga. E há muito jovenzinho a defender isso.

Este post é cretino? Com a vossa licença: vão «tomar no cu» (com a devida vénia ao Francisco José Viegas).

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Marvelous

terça-feira, fevereiro 05, 2013

E acabou-se a conversa

“A direita é aquilo, e acabou-se a conversa.”

Sim, Luis M. Jorge: a direita é um banqueiro cretino, de charuto na boca e chicote na mão, esmagando a criadagem (não muito, caso contrário não limpam os estábulos, não pastoreiam o gado, não lavam os Bentleys e não dormem com o patrão).

Sempre muito arrumadinha, preguiçosa, maniqueísta e, também ela, cretina, esta cosmovisão do mundo.

E não se fala mais nisso.


segunda-feira, fevereiro 04, 2013

E é tudo o que tenho a dizer sobre o assunto

Pessoas que preferem o governo de José Sócrates ao governo de Passos Coelho. Pessoas que acreditam que o PEC IV teria evitado a situação de pré-bancarrota e que o derrube do anterior governo, após a apresentação do PEC IV, foi uma golpada sem justificação (e que, isso sim, conduziu o país ao resgaste). Pessoas que, no interior do PS ou fora dele, acreditam que, comparativamente e em perspectiva, o governo de José Sócrates foi o melhor (ou o menos mau) e mais reformista governo desde o 25 de Abril (ou pelo menos dos últimos 20 anos), mesmo que lhe reconheçam publicamente os defeitos ou vícios. Pessoas que acreditam que as reformas encetadas no governo de José Sócrates, não só foram úteis e muito importantes (com consequências no longo prazo), como foram minadas (então) e estão a ser desvalorizadas (agora). Pessoas que, militantes ou não do PS, defenderam o partido e o seu secretário-geral com unhas-e-dentes, durante as campanhas eleitorais em que José Sócrates participou, nalguns casos pisando o risco de uma certa ideia de equilíbrio (da mesma forma que os seus detractores pisaram esse mesmo risco). Pessoas que acreditam que a generalidade dos indicadores económicos e sociais tiveram um impulso (positivo e nalguns casos impar) durante os governos de José Sócrates, e que a eventual deterioração deste ou daquele indicador teve origem na crise financeira internacional. Pessoas que abominam quem tenta denegrir a imagem dos governos de José Sócrates, e que acreditam que está em curso, de há um ano e meio para cá, uma campanha de descrédito do anterior governo (como o caso do relatório do FMI, que pretendeu escurecer um passado recente). Pessoas para quem um estilo ferino ou quezilento, é questão secundária ou sinónimo de combatividade.

Pessoas que têm medo de assumir tudo isto, apesar de o praticarem insinuada ou assertivamente: nos jornais, nas redes sociais, na televisão, nas conversas entre amigos. Não só agora, como de há muito tempo para cá. Este medo ou esta hesitação, incompreensível já que não se trata de crime, nem encerra a defesa do «diabo» ou uma qualquer fraqueza de ordem moral ou intelectual, reflecte, também, a ‘malaise’ socialista. Para o bem e para o mal, haja ou não consequências na opinião pública, o PS e os seus apoiantes deviam assumir estas convicções, sair do armário, dizê-lo sem complexos ou medos. A maior parte já o faz, mas timidamente. Com tibieza. A medo. Quando isso lhes apontado, fogem, negam, ofendem-se. Sentem-se acossadas. Juram que não. Julgam que podem disfarçar a simpatia ou a militância (seja ela formal ou informal). Julgam que ninguém ainda reparou no que dizem e como o dizem. Julgam que, se o fizerem, prejudicam uma putativa aura de imparcialidade (como se simpatias políticas públicas e assumidas, escondessem vícios privados ou fossem sinónimo de descredito profissional), que supostamente as acompanha.

Porquê? Com que necessidade? Onde está o mal? Qual é o problema? Talvez esta fosse, também, uma forma de normalizar a imagem de José Sócrates na história recente do país. O homem não foi um bicho, os seus governos não destruíram um país que era um brinquinho.

Foi disto, aliás, que tentei falar no meu anterior post. Nada mais, nada menos.

Desculpem a falta de jeito.

domingo, fevereiro 03, 2013

A minha versão (mas se não gostarem desta, tenho outras)



Apesar de «rapaz magro, de olhos grandes e melancólicos», não privo com a intelligentsia lusa e nunca parti à «conquista» da capital, como Arturzinho Corvelo. Desconheço os corredores do poder, as arrecadações das intrigas e os salões da esgrima política. Não almoço na Rocha do Conde de Óbidos com os mais proeminentes comentaristas ou os mais promissores políticos da nouvelle vague. Não tenho acesso a inside information, nem pratico insider trading. Padeço de uma simplicidade montesina (ou, no meu caso, de uma singeleza de planície), pelo que as circunvoluções do meu cérebro, por onde corre informação fraquinha (em quantidade e qualidade), não me habilitam a graves e monásticas elucubrações sobre a sempre frenética e fascinante movida politico-partidária. Mas tenho, lá está, como todo o português que se preza, uma opinião sobre todo e qualquer assunto.
Já foi lavrado em sede própria, facto evidente e irrefutável: António José Seguro, excelentíssima pessoa (no doubt about that), é um político pífio que aproveitou uma «janela de oportunidade» (eu que tinha jurado nunca usar esta abjecta expressão) para chegar à solene posição de secretário-geral do Partido Socialista.
Todos os partidos têm esta estirpe de políticos: cinzentinhos mas muito «responsáveis»; treinados no campus das jotas mas já ligeiramente grisalhos; hábeis no contacto com «as bases» e outrora com capacidade de destaque nas «concelhias» (circunscrições que não implicam grandes «inteligências», apenas o tempo e a dedicação próprias de quem não tem uma profissão «cá fora»); proprietários de três ou quatro ideias vagas (normalmente apreendidas nas universidades de Verão ou num transitório mas louvável esforço autodidacta); com um séquito de gente «jovem» mas igualmente medíocre (apesar de bem intencionada). Gente que, com jeitinho, lá vai ganhando o seu espaço nos partidos e, em momento de fragilidade dos ditos (ou em período de nojo pós-desaire eleitoral), atrevem-se, com algum sucesso, a conquistar o poleiro. Regra geral, são líderes, como sói dizer-se, «a prazo».
António José Seguro é tudo isto. Mas teve a seu favor a clarividência de ter percebido duas ou três coisas quando ocupou o secretariado (ocupado, aliás, com o tipo de «pressa» que, hoje em dia, lhe causa perplexidade). O PS precisava de divergir da linha comportamental (acintosa, teimosia, soberba e insuportavelmente arrogante) e programática (pouco dada ao esquerdismo de suposta boa cepa, de que Seguro assegura nunca ter renunciado) daquilo a que se convencionou chamar, para facilitar a coisa, de «socratismo». Por outro lado, tinha sido o PS a pedir a assistência externa e a negociar, com a troika, o resgate - resultando desta negociação um memorando que o então líder do partido e primeiro-ministro, havia considerado «equilibrado» -, pelo que ninguém de boa-fé e honrado no partido poderia «rasgar» o que tinha acordado.
A incumbência de António José Seguro não era, por isso, fácil. Desde logo pela circunstância de ter a seu lado, no parlamento, um plantel (de deputados) cuja escolha lhe fora alheia. Depois, por ocupar o lugar de líder de um partido que, mais coisa, menos coisa, era tido (em boa parte da opinião pública, como se pôde ver no resultado das eleições) como co-responsável pela situação a que o país chegou (embora a doutrina do partido oscilasse entre os 0% e os 5% para caracterizar a quota parte de responsabilidade da governação socialista na situação do país). Finalmente, teria de controlar a tendência interna, protagonizada por um grupo de deputados, de defender de forma inapelável e, a espaços, heróica, a governação e o legado «socrático» (com o PEC IV elevado à categoria de mítico, místico e único plano salvífico).
Com o tempo, os astros alinharam-se. As consequências da aplicação «concreta» do memorando (aumento do desemprego, esbulho fiscal, etc.), o festival de tiros no pé levado à cena por alguns membros do governo (incluindo o primeiro-ministro), a dificuldade em cumprir as metas orçamentais e, last but not least, o adiamento de reformas palpáveis (com a honrosa excepção da Saúde) tantas vezes anunciadas como adiadas, foram criando as condições para que, sem necessidade de tocar ou entrar no discurso apocalíptico e anti-troika da extrema-esquerda, António José Seguro resgatasse uma ideia estratégica para o país, aproveitando para dissecar, de forma inteligente (leia-se objectiva e clara e com propostas alternativas igualmente objectivas e claras), os erros cometidos pelo governo.
A nada disto se assistiu. Na praxis parlamentar e nas entrevistas que foi dando, António José Seguro revelou-se pueril e inconsequente (a vaga e repetida aposta argumentativa no chavão do «crescimento económico», não passou disso mesmo: «estar vivo é o contrário de estar morto».) Killer instinct: zero. Medidas concretas: zero (à excepção de uma espécie de imposto sobre as rendas das PPP e da promessa do regresso ao passado da RTP). Ao ar de «bom rapaz» nunca se associou a sensação de gravitas política. A sagacidade, a força e o génio raramente, para não dizer nunca, o habitaram.
A prova desta incapacidade apareceu vertida nas sondagens e nos «barómetros» da praxe: o PS liderava, é verdade, mas nunca descolando de forma clara e sustentada da soma PSD/CDS. As sondagens reflectiam o clássico e expectável descontentamento da população face a políticas de austeridade, mas dificilmente reflectiam uma agitação de nítido entusiamo em torno do maior partido da oposição e do seu homem do leme.
No PS, agigantou-se o incómodo desta situação – incómodo que, no caso de alguns deputados e militantes, se aliou a um incómodo mais antigo: o desplante de António José Seguro ter, de forma mais ou menos insinuada, renunciado ao legado da governação de Sócrates.
O pico do desconforto deu-se há dias quando, uma vitoriosa ida aos mercados (independentemente da paternidade dos méritos), fez despertar nas finas consciências socialistas um sobressalto: e se, com o tempo, de forma mais ou menos atabalhoada ou inconsciente, o governo marca suficientes pontos para inculcar no povo a ideia de que «a austeridade, afinal, pode dar frutos», auxiliado ou não pelo amolecimento do coração troikiano e pelas manobras de Draghi?
António Costa e os seus apoiantes, perceberam isso. Perceberam que, com Seguro, o PS não está seguro. À impaciência aliou-se a imprudência: alguém, observando o calendário e a perspectiva de Seguro alcançar uma vitória eleitoral nas autárquicas, aliviou-se de um desesperado wishful thinkink: «não se arranja aí uma hipótesinha de antecipar a troca do pífio pelo valente»? O caldo entornou-se.
Entornou-se o caldo porque Seguro sabe que Seguro sabe que Seguro é um líder fraco. Que está a prazo. Que serviu para queimar tempo. As «viúvas socráticas» (perdoem-me a expressão) anseiam por um homem que reconcilie o partido com o passado recente. Quem ouviu Fernanda Câncio no Expresso da Meia-Noite percebeu, limpidamente, que boa parte da bancada socialista e outra boa parte dos militantes socialistas pensam aquilo: Sócrates foi o melhor primeiro-ministro do pós-25 de Abril. A solução continua lá. Pouco há a enjeitar. Como insinuou Fernanda Câncio, as eventuais «boas» reformas deste governo foram iniciadas ou são um prolongamento das de um governo quasi-sacrossanto, traído pelos mercados e por uma coligação mefistofélica de partidos, da direita à esquerda. E, por falar em Fernanda Câncio, veja-se o caso «relatório FMI»: as críticas da articulista ao relatório, encerram no estilo e na forma (já que no conteúdo há críticas fundamentadas), o tipo de rancor de quem não esquece a traição e não entende a interrupção de um percurso governativo ímpar, sem paralelo na democracia portuguesa, cuja irrefutabilidade da eficácia e eficiência conduziu ao expediente rasteiro e desesperado de um relatório-embuste. Há quase que uma exigência latente: prossiga-se com o caminho perfidamente interrompido!
Há mais de um ano que, no interior do PS, se travava esta luta entre o passado, o presente e o futuro. Há muita gente a desejar – e António Costa é uma dessas pessoas – a reconciliação com o passado e a reabilitação do socratismo, na altiva e arrogante, mas implacável, cerrada e combativa forma de fazer política. Mesmo que, do ponto de vista programático, poucas diferenças haja (e está por provar que o PS consiga apresentar, mesmo com Costa ao leme, um rumo alternativo, convincente e concreto tomando como válidas as restrições impostas pela troika). Tudo será bem-vindo quando a consciência da putativa superioridade moral e intelectual vai alta, e a estatura dos adversários, baixa. António Costa é o homem desejado porque não enjeitou, nem enjeitará, esse passado. E, claro, porque tem peso político (Assis ainda não chega lá).
Entretanto, no meio dos distúrbios da «noite das facas moles» (feliz expressão de Ana Sá Lopes), António Costa parece ter feito a sua opção (a meu ver correcta): foi ponderado e prudente. Evitou a peixeirada, que estava iminente. Ensaiou o número “mostra lá do que és capaz”, dando ares de homem conciliador. Foi magnânimo. Sossegou a miudagem, por uns tempos (é verdade que, por outro lado, enfureceu e inquietou os que querem «sangue» - na guelra e na arena).
Mas está escrito nas estrelas – e a decisão de Costa em nada põe em causa isso – que ele será o próximo secretário-geral dos socialistas na corrida para o lugar de primeiro-ministro, numas próximas eleições. Vai uma aposta?

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