O MacGuffin: É uma coisa que me chateia

domingo, fevereiro 17, 2013

É uma coisa que me chateia

Habitante desse vasto e riquíssimo território que dá pelo nome de Twitter, dei conta de que o meu anterior post foi ‘favoritado’ (para usar o jargão da seita) pelo Twitter oficial do PS Arouca (@AroucaPS). Não querendo fazer a desfeita de renunciar a tamanha honra, não posso deixar de invocar o grande almirante Pinheiro de Azevedo: é uma coisa que me chateia (e, dentro de minutos, vou almoçar). Para explicar a amofinação, transcrevo um excerto de “Uma Campanha Alegre”. Substituam “partido histórico” por PSD e “partido regenerador” por PS (e/ou vice-versa):
“Na acção governamental as dissensões são perpétuas. Assim o partido histórico propõe um imposto. Porque, não há remédio, é necessário pagar a religião, o exército, a centralização, a lista civil, a diplomacia... - Propõe um imposto. 
«Caminhamos para uma ruína! - exclama o Presidente do Conselho. - O défice cresce! O País está pobre! A única maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc...» 
Mas então o partido regenerador, que está na oposição, brame de desespero, reúne o seu centro. As faces luzem de suor, os cabelos pintados destingem-se de agonia, e cada um alarga o colarinho na atitude de um homem que vê desmoronar-se a Pátria! 
— Como assim! - exclamam todos - mais impostos!? 
E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, tramam-se votações! Por toda a Lisboa rodam carruagens de aluguel, levando, a 300 réis por corrida, inimigos do imposto! Prepara-se o cheque ao ministério histórico... Zás! cai o ministério histórico! 
E ao outro dia, o partido regenerador, no poder, triunfante, ocupa as cadeiras de S. Bento. Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram mais, as transacções diminuíram mais, a opinião descreu mais, a moralidade pública abateu mais - mas finalmente caiu aquele ministério desorganizador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando. 
Abre a sessão parlamentar. O novo ministério regenerador vai falar. 
Os senhores taquígrafos aparam as suas penas velozes. O telégrafo está vibrante de impaciência, para comunicar aos governadores civis e aos coronéis a regeneração da Pátria. Os senhores correios de secretaria têm os seus corcéis selados! 
Porque, enfim, o ministério regenerador vai dizer o seu programa, e todo o mundo se assoa com alegria e esperança! 
— Tem a palavra o Sr. Presidente do Conselho. — O novo presidente: «Um ministério nefasto (apoiado, apoiado! - exclama a maioria histórica da véspera) caiu perante a reprovação do País inteiro. Porque, Senhor Presidente, o País está desorganizado, é necessário restaurar o crédito. E a única maneira de nos salvarmos...» 
Murmúrios. Vozes: Ouçam! ouçam! 
«...É por isso que eu peço que entre já em discussão... (atenção ávida que faz palpitar debaixo dos fraques o coração da maioria...) que entre em discussão - o imposto que temos a honra, etc. (apoiado! apoiado!)» 
E nessa noite reúne-se o centro histórico, ontem no ministério, hoje na oposição. Todos estão lúgubres. 
— «Meus senhores - diz o presidente, com voz cava. - O País está perdido! O ministério regenerador ainda ontem subiu ao poder, e doze horas depois já entra pelo caminho da anarquia e da opressão propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o País a esta última desgraça! - Guerra ao imposto!...» 
Não, não! com divergências tão profundas é impossível a conciliação dos partidos!”

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