O MacGuffin

sexta-feira, março 28, 2008

Declaração de caducidade afectiva

Vasco Pulido Valente, in Público (28/03/2008)

O novo casamento

Não sei se o meu currículo (quatro casamentos; dois com a mesma pessoa) me impede de escrever sobre essa venerável instituição, se ainda é venerável e, sobretudo, instituição, que, suponho, seguindo o admirável Zapatero e o amor nacional pelo "moderno", o PS pretende agora reformar. O casamento era, para o Estado, um compromisso legal e, para a Igreja, um sacramento. Criava deveres, como criava direitos. Mas, segundo Alberto Martins, parece que já não deve assentar na lei, seja ela qual for sempre coactiva. Deve assentar na consoladora liberdade do afecto. Ou, por outras palavras, deve passar de um contrato perpétuo a uma espécie de encontro temporário, logicamente revocável, se o afecto de qualquer das partes, por natureza etéreo e fugidio, deixar de existir.

O PS também pretende abolir a culpa do processo de divórcio, abolindo o divórcio litigioso. Para começar, porque a própria noção de culpa tresanda a cristianismo e à sua variante católica, tradicionalmente obcecada pelo pecado da carne e pela influência corruptora da mulher. E depois porque a consciência contemporânea se emancipou da culpa, quando não se trata de multiculturalismo ou feminismo, de pedofilia ou de ambiente, ou, pior do que isso, de um atentado cego e celerado contra o nosso divino corpo, como por exemplo fumar um cigarro. Aí o Estado não hesita em proibir e punir. Quanto ao resto, o Estado pretende, e muito bem, tornar fácil o prazer, que nos justifica e alimenta. A inconveniência de um cônjuge ou o estéril escrúpulo de o abandonar pode (vem nos livros) coibir esse prazer. Declarar o afecto caduco resolve o assunto.

Infelizmente, não ocorreu ao PS (como antes não tinha ocorrido ao Bloco) que o novo casamento, se merece a palavra, só beneficia a classe média próspera. E, dentro da classe média próspera, beneficia o homem mais do que a mulher, porque evidentemente o homem ganha em média mais do que a mulher. Quanto à multidão que sobra, e pela mesma razão, a vantagem do homem é arrasadora. Fora que o mercado de trabalho favorece o homem e desfavorece a mulher (invariavelmente a última contratada e a primeira despedida) e que a mulher fica em geral com os filhos, um encargo sem preço. Dito isto, falta esclarecer um mistério: para que serve agora o casamento de homossexuais?

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sexta-feira, março 14, 2008

Sem partido (ou com partido momentaneamente ocupado?)

Vasco Pulido Valente, in Público (14/03/2008)

A direita sem partido

Em 1979 e 1980, fiz duas campanhas pelo PSD, ou, para ser exacto, uma pelo PSD, interna, e outra pela AD. Nessa altura o PSD era ainda em substância o partido do país rural, católico e conservador e, geograficamente, o partido do centro, do Norte e do Nordeste. Ou, por outras palavras, do Portugal em que a oposição à ditadura fora rara e disseminada e mais tarde o PREC mal tocara. Em Lisboa e no Porto, mas sobretudo no Porto, ainda duas cidades do passado que mal começavam a mudar, parte da velha classe média e da pequena burguesia tradicional também votavam PSD, por horror à "revolução" e medo de qualquer espécie de socialismo. O PSD parecia o único partido "nacional", coisa de que ele próprio se gabava (falsamente porque pouco penetrava no Sul) e o único partido, como se dizia, "interclassista".
De qualquer maneira, logo do princípio houve uma claríssima divisão entre o PSD rural, católico e do Norte e o PSD urbano e secular, que aspirava à modernidade; entre PSD da "Marinha" (de Cascais, claro) e o PSD das "bases", como já à época ele gostava de se descrever. Várias cisões (nenhum partido teve tantas) provaram, de resto, a natureza heterogénea e volátil dessa aliança, que não podia durar. Em 1980, Sá Carneiro uniu o PSD (e a direita) contra a esquerda e, a seguir, em 1987, Cavaco conseguiu formar um grande "bloco" contra a herança do PREC. Estes dois triunfos deram uma falsa impressão da força e da vitalidade do PSD. De facto, Sá Carneiro e Cavaco ganharam, apesar do partido e não por causa do partido. Quando um morreu e o outro saiu, o partido voltou ao caos.

E, desta última vez, voltou ao caos num Portugal diferente. Num Portugal até certo ponto "modernizado", em que a influência da Igreja deixara de pesar decisivamente, o interior rural se "desertificava" e aparecera uma nova classe média, produto do regime, com uma intensa vontade de ascensão social e sem vestígio de respeito pelo precário equilíbrio antigo PSD. O partido de Menezes, que só por acaso usa o mesmo nome, é o partido dessa nova classe média e não representa mais do que 20 a 30 por cento do eleitorado. Talvez suba ocasionalmente nas sondagens por impopularidade de Sócrates, mas, salvo desastre, a maioria do país nunca lhe confiará o governo; a ambição nua e crua, a brutalidade táctica e um populismo meio louco valem o que valem. Entretanto, dividida e desorientada, a direita responsável do PSD está sem partido. E precisa de um.

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sábado, março 01, 2008

A crónica da semana

Mal-estar difuso
por Vasco Pulido Valente

Alexandre Herculano, o maior "intelectual" do liberalismo, que passara pelo exílio e combatera no cerco do Porto, deixou, já em agonia, um último juízo sobre a Pátria: "Isto dá vontade de morrer." D. Carlos, que foi de facto o último rei e o último reformador da Monarquia, achava Portugal uma "piolheira" e os portugueses, fatalmente, uma "choldra". Os republicanos não estimavam nem o país, nem a República e acabaram, quase sem excepção, "desiludidos". Basta ler uma dúzia de páginas dos Discursos para constatar o infinito desprezo que Salazar tinha por nós. Do PREC ficou o absurdo cadáver do PC. E esta democracia anda agora a chorar abjectamente o seu fracasso. Verdade que a famosa frase de Herculano é apócrifa (inventada por Bulhão Pato) e que D. Carlos só em privado se alargava sobre o seu reino. De qualquer maneira, não há dúvida de que Portugal sempre gostou muito pouco de si próprio.
Com uma certa razão, convém admitir. Desde o princípio do século XVIII que Portugal quis ser "como a Europa" e até hoje infelizmente não conseguiu. A cada revolução, a cada guerra civil, a cada regime, o indígena prestável, alfabeto e "modernizante" supunha que chegara "o dia". E "o dia" invariavelmente não chegava. A sociedade ia, como é óbvio, mudando: devagar, com dificuldade, aos sacões. Só que a distância que nos separava da Europa não diminuía. Os modelos não faltavam: ou modelo universal da França (até à República); ou os mais modestos modelos de países pequenos como a Bélgica no século XIX e a Suécia a seguir. O português copiava com devoção o que via "lá fora". Mas não saía da sua inferioridade e do seu atraso.
No meio desta persistente desgraça, Portugal julgou três vezes que se aproximava da Europa: durante os primeiros tempos da "Regeneração", durante o "fontismo" e durante o "cavaquismo". Ao todo, trinta e tal anos de uma ordem política "civilizada" e de um crescimento económico razoável. Mesmo assim, os fundamentos destes raríssimos milagres não eram sólidos. Nos três casos (embora com um ligeiro atraso), uma crise financeira pôs fim à festa e voltou a velha angústia nacional, a que por aí se convencionou chamar "mal-estar difuso". O "mal-estar difuso" é simplesmente o regresso à realidade. Portugal não tem meios para o Estado-providência e a espécie de vida que os portugueses reclamam. E, como não tem, toda a gente se agita e ninguém faz nada com sentido. Esta fase também é conhecida.


in Público 29.02.2008

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quarta-feira, novembro 21, 2007

Entrevista a Vasco Pulido Valente

(in Expresso 17.11.2007)

Por que escolheu morar neste bairro?

Era barato e a construção é boa. Eu e o porteiro, um homem extraordinário de grande coragem e de grande carácter, fomos as primeiras pessoas a habitar este prédio. Já cá estamos há 25 anos.

Tem o Colombo mesmo à porta. Alguma vez lá foi?

Não frequento. Os restaurantes são muito maus e tenho horror a fazer compras. Vou lá comprar sanduíches e coisas assim, «junk food».

Nem à Fnac vai?

Pouco. Compro livros na Amazon.

Já se «googlou»? Sabe que tem 61 mil entradas?

Não sabia. Já o fiz e apareceu-me uma coisa desconexa. No que diz respeito à Internet continuo a ser muito conservador. Quando tenho uma dúvida prefiro consultar uma enciclopédia.

Aos 50 anos publicou «Retratos e Auto-retratos», onde se interroga se ainda haveria alguma coisa para fazer aos 65 anos. E há?

Pouca coisa.

Por que resolveu escrever sobre quem era aos 50 anos?

Não resolvi. O Esteves Cardoso, na altura director da «K», desafiou-me e lá acabou por me convencer a escrever aquilo.

Utilizou um registo intimista, pouco habitual na sua escrita. Foi difícil?

Nem por isso, levei uma tarde.

Que livro é este, «Ir para o Maneta», que vai publicar agora?

Foi feito a partir de um ensaio que escrevi entre 1973 e 74, sobre a revolta popular de 1807-1814 contra os franceses. Depois da edição portuguesa da minha tese de doutoramento, O Poder e o Povo, andava muito preocupado com a relação entre a acção popular e a organização. Agora teve uma revisão muitíssimo mais profunda e é só parte do ensaio original.

Quem era o «Maneta»?

Um general de Junot, chamado Loison. Não tinha um braço. Era conhecido assim e foram as tropas dele que fizeram as grandes campanhas de contraterrorismo em resposta à rebelião popular de 1807. Tinha uns métodos drásticos. Para dar o exemplo, chegava a uma aldeia e matava velhos, mulheres e crianças. Matou a população de várias aldeias. De tal maneira que ficou a expressão: «ir para o maneta», significa morrer.

O «Maneta» quase não aparece.

A personagem é o povo. Não tenho necessariamente de contar a história do Loison. É a história das pessoas que vão para o maneta.

O seu avô materno era jacobino e partidário de Afonso Costa. Privou com ele?

Muito. Eu tinha 23 anos quando morreu.

Foi a esse avô que foi buscar o nome Pulido Valente?

O meu nome civil tem uma cacofonia e duas sibilantes: Vasco Correia Guedes. É feio!

Quando adoptou Pulido Valente?

Aos 16, 17 anos, quando comecei a escrever. Fazia todo o esforço para ter uma prosa fluente e foneticamente boa, portanto ia logo contra o nome. Comecei a escrever artigos para os jornais da universidade e aquilo irritava-me.

O seu pai achou graça?

Não. Também não se zangou. Há pessoas que resolveram embirrar com isso. Essa história do meu nome é uma coisa ridícula. Alias, é muitíssimo vulgar nos escritores! Como todos os historiadores, sou um pouco escritor, é um género literário.

Considera-se um grande escritor?

Não me considero um grande historiador, é natural que não me considere um grande escritor. Não fiz uma grande carreira de historiador em Portugal. Não é possível.

Porquê?

Porque a história portuguesa é uma história paroquial. Os grandes acontecimentos que mudaram o mundo não aconteceram em Portugal.

Os Descobrimentos não mudaram a História?

Ah, sim! Mas não sou um historiador económico, sou um historiador político. Daí que estivesse interessado em grandes temas, como a Revolução Francesa, o nazismo, as duas Grandes Guerras, etc.. Quando comecei não se admitiam teses sobre a Europa. E a mim não me interessava escrever sobre história portuguesa.

Mas passou a vida a fazê-lo.

Pois passei. Infelizmente.

Um historiador disse que trocava a vida por um dia em Roma. E o Vasco, que período escolheria?

Roma, com certeza. Durante as guerras civis, no fim da república.

Seria César?

De maneira nenhuma! Escolheria o papel de um senador bem no centro da política. Talvez um dos senadores cesaristas.

E se fosse no século XX?

Gostaria de ter estado um dia no cume do poder de Hitler para observar como era aquela gente. Mas não como alemão. Como um embaixador americano, para ver se percebia melhor. Há muitas coisas que ainda não percebo e já li muito.

Quantos livros tem?

Não faço ideia. Todos os anos deito fora uns 200, 300, para ganhar espaço.

Deita fora livros?

Vendo a alfarrabistas e dou alguns.

Lembra-se dos primeiros livro que leu?

A Condessa de Ségur, com certeza. Ainda me lembro do nome do burro de Memórias de um Burro, o Cadichon.

Com que idade foi para a escola?

Talvez quatro, cinco anos. O meu pai trabalhava na Robialac, era engenheiro químico e director fabril. Foi o emprego dele até ao fim da vida. A fábrica era numa pequeníssima quinta, em Gaifães da Maia. Tinha 14 operários. Isto passava-se em 1947. Estive lá ano e meio. Os meus pais acharam que precisava de ir para a escola e puseram-me num colégio interno em Carcavelos, o St. Julian’s School.

Custou-lhe a adaptar-se?

Um bocadinho. O meu avô ia buscar-me aos fins-de-semana. Entretanto a fábrica foi transferida para Sacavém e os meus pais vieram para Lisboa. A minha infância foi um bocado sui generis. Lia muito. Os meus pais tinham uma vida austera, não eram muito sociáveis. Até certa altura, deram-se com os amigos comunistas.

Eram militantes activos. Recebiam clandestinos?

Então não recebiam!

Privava com eles?

Claro. A minha mãe levava os filhos do Octávio Pato ao médico. Tinha facilidades, era filha do meu avô Pulido Valente.

O Álvaro Cunhal ia a sua casa?

Não. Mas os meus pais conheciam-no muito bem. Os meus pais recebiam gente. Havia lá um quarto que estava sempre cheio de militantes. Só comecei a ter uma vida social minha na faculdade. Também entrei muito novo, aos 16 anos.

Era bom aluno?

Não. Nunca fui.

Tinha negativas?

Tive duas. No 5.º ano do liceu fiquei tapado por faltas. No final do 4.º ano já tinha sido expulso por mau comportamento do Liceu Camões e passei para o Pedro Nunes, não punha os pés nas aulas, faltei a dois testes, daí as negativas. Para o meu pai, uma negativa era tão impensável como passear nu no Rossio. Acusou-me de «ser um vadio e um parasita» - palavras dele - e, para salvar o ano, fui imediatamente exilado para o colégio Nuno Alvares, em Tomar, uma espécie de reformatório. Foi um castigo à séria e uns meses muito infelizes.

Sobre si escreveu: «Era velhíssimo na adolescência, adolescente na maturidade…»

Essa frase tem a ver com os hábitos que tinha. Não fazia o que as crianças normais fazem. Não havia oportunidade. Os meus pais davam-se com aquelas pessoas, que não tinham filhos ou filhas que me interessassem.

Era um solitário?

Sim. E durante muitos anos gostei de viver sozinho. E não é só gosto, é uma necessidade. Quando vivia conjugalmente com alguém, se não conseguia estar um ano ou dois sozinho, começava a sentir falta, encorajava a outra pessoa a viajar, por exemplo.

Não é possessivo.

Não era. Agora sou. Mudei um bocadinho com a idade.

Já precisa das pessoas?

Da pessoa.

No seu casamento com a jornalista Constança Cunha e Sá, com que casou duas vezes, viveram em casas separadas.

Já não sou muito assim. Não gosto tanto de viver sozinho como gostava.

Voltando ao comunismo. Os seus pais tentaram doutriná-lo?

A mim? O doutrinamento não se faz assim, aos dez anos uma pessoa não descola dos pais. Comecei cedíssimo a ler livros sobre política.

Foi contaminado por essa formação?

Não muito. Privava com o meu avô, que exercia uma influência antagónica. O avô Pulido Valente foi um dos primeiros seguidores do positivismo lógico e da filosofia analítica.

Foi discípulo do Júlio de Matos…

Em todas as conversas que tínhamos insistia muito comigo e perguntava-me: «O que queres dizer com isso? Onde é que leste?» Isto imunizou-me contra o marxismo.

O seu avô foi uma influência mais determinante do que o seu pai?

Intelectualmente sim. Era muito bom professor, tinha muita paciência. Ensinou-me a ouvir ópera e a ler. Tinha aquela cabeça que não me deixava vagabundear, nem viver instalado na asneira, e na imprecisão. Nem na vaidade.

Participou nas lutas académicas de 1962. Posicionava-se onde?

Fazia parte de um «grupúsculo». E todos os «grupúsculos» eram, ou diziam-se, de extrema-esquerda. Eu pertencia a uma coisa chamada MAR (Movimento de Acção Revolucionário) - achavam este nome muito bonito - cujo chefe era Jorge Sampaio.

E o que faziam?

Nada.

Teve problemas com a PIDE?

Fui preso uma vez, uns dois meses, por causa de um brincadeira estúpida de uma amiga. Ela foi à Jugoslávia e escreveu uma carta a não sei quem. Por cima de um envelope escreveu: «Camaradas, a revolução está a caminho». E mandou o envelope para mim. Aquilo via-se em relevo, de maneira que fui parar a Caxias.

Esteve dois anos em Direito e desistiu. Na sua cabeça qual seria o seu percurso profissional?

Não sabia. Sabia que queria escrever. Desisti de Direito, fui para Inglaterra, voltei e fui estagiar para o «Diário de Lisboa». Estive lá dois meses, houve uma greve, que foi contada em dois romances onde também apareço, e que acabou numa demissão de uma série de gente. Por solidariedade, também me demiti.

Vivia com os seus pais?

Às vezes sim, outras, não. Houve um período em que aluguei casa com amigos.

Tinha carro?

Nem pensar!

Mas queria ter um Aston Martin…

Isso era porque a Françoise Sagan tinha um Aston Martin e guiava descalça. Era a minha ideia de escritor.

Formou-se em Filosofia. Por que não escolheu logo História?

O curso era mau e chato. Tinha maus professores e um programa péssimo. Filosofia era mais ou menos a mesma coisa.

Viveu a revolução sexual dos anos 60?

Fui para Oxford em 1968. Essas coisas já tinham acontecido e não havia vestígios quando lá cheguei. E estava casado.

Experimentou alguma droga?

Fumei um charro, claro! Odiei. Fique enjoadíssimo, vomitei. Uma vez fui chamado a casa de uns amigos que tinham tomado LSD e depois tomaram uns remédios para sair daquele estado e houve para lá umas cenas de faca e alguidar. Não sou da cultura da droga, sou da cultura do álcool.

Com que idade casou a primeira vez?

Aos 23 anos.

Escreveu que queria casar com a mulher mais bonita do mundo.

E a Maria Cabral era uma mulher lindíssima e talentosíssima.

Quanto tempo durou esse primeiro casamento?

«On and off», sete anos.

Foi um casamento tradicional?

Digamos que cada um fazia mais ou menos o que lhe apetecia, que é uma maneira civilizada de descrever uma situação.

Tiveram uma filha.

Patrícia Cabral. Também não usa o meu nome.

Têm uma relação próxima?

Não.

Participou no 25 de Abril?

Tinha regressado de Oxford. Fui para a rua ver. Não percebia muito bem o sentido daquilo. Não conhecia aquela gente, nem percebia o que queriam. Não estava no segredo das coisas. Suponho que ninguém estava. Na altura vivia com a Maria Filomena Mónica e combinámos: ela iria esperar o Soares e eu o Cunhal. Quando cheguei ao Cunhal, lá estavam a minha mãe e todos os velhos comunistas da minha infância.

Comoveu-se?

Eu? Não. Não sou muito dado a emoções. Sou mais dado a angustias e ansiedades. Sou daquelas pessoas que verifica três vezes se fechou a porta e a torneira antes de sair de casa.

Foi militante do PSD?

Fui durante a AD. Saí no governo de Balsemão, tornei a ser militante com Fernando Nogueira e depois não precisei de me demitir. Houve uma renovação dos ficheiros, não me reinscrevi.

Como conheceu Sá Carneiro?

Por acaso, num restaurante em Cascais. Ele estava a jantar sozinho, começámos a conversar e chegámos a conclusão que estávamos de acordo sobre as questões principais da política. Disse-me: «Venha trabalhar comigo». Estava numa fase sem saber muito bem o que iria fazer, aceitei. Durante um ano e meio só trabalhei em política. Fez-se a Aliança Democrática. Ganharam-se as eleições e Sá Carneiro convidou-me para secretário-adjunto.

Recebia como profissional do PSD?

Não, como membro do governo-sombra.

E chegou a secretário de Estado.

Primeiro fui secretário de Estado-adjunto. Título intraduzível noutras línguas. E uma das funções que tinha nesse cargo extraordinário era arranjar um secretário de Estado da Cultura. Não consegui.

Quem é que convidou?

Isso não vou dizer. O Sá Carneiro começou a enervar-se porque tinha de apresentar a lista de governo ao Eanes, com quem na altura não se dava nada bem. Tinha de a entregar até às oito e ligou-me: «Já tem o SEC?». «Não». «Então vai você». «Eu, porquê?». Ele disse que não podia levar a lista incompleta e como eu estava encarregue de arranjar um SEC era justo que fosse eu. Ainda lhe disse: «Olhe que vai ser um fiasco». E ele: «Se for um fiasco sempre se ganha tempo».

Teve um ano no governo, viu o poder por dentro. O que aprendeu?

Não há ministro que chegue ao governo e que não queira ser bem visto pela casa, como eles dizem. E querem duas coisas: promoção e espaço. O que aquela gente quer é mais espaço e mais pessoal. E em 90 por cento dos casos fazem coisas que não precisam de ser feitas.

A sua experiência como deputado correu mal.

Correu mal e conta-se rapidamente: fui trabalhar com o Fernando Nogueira porque achava que era necessário fazer algumas reformas urgentes pós-cavaquistas. Pouco depois, Fernando Nogueira demitiu-se e demiti-me também. Acabou.

Apoiou, em 1985, a candidatura de Mário Soares à presidência e fez parte do MASP (Movimento de Apoio Soares à Presidência). Porquê?

Achava necessário que fosse eleito. Foi um período simpático e diverti-me muito, estavam lá os meus amigos da altura. Tenho um grande respeito e admiração pelo doutor Soares. E ainda por cima gosto muito dele. Porque podia ter estes sentimentos e detestá-lo.

Votou nele nas últimas eleições?

Por causa da coluna no «Público» nunca digo em quem voto.

Nas últimas presidenciais tentaram ter o seu apoio para outra candidatura. Não almoçou com Cavaco Silva?

Almocei com ele, sim. Até fui eu que lhe pedi que se candidatasse. Porque achei que Portugal precisa de um polícia.

O poder interessa-lhe?

Não.

Mas tem poder ou, se preferir, contra-poder.

Quanto muito tenho influência. Poder é fazer ou impedir que outros o façam. Se quiserem uma metáfora, sou um chefe do estado-maior, não o comandante.

Foi almoçar com Cavaco antes dele se candidatar. Se isso não é ter poder…

Fui almoçar com o Cavaco Silva porque os grandes negócios em Portugal fazem-se com o Estado ou com informação que vem do Estado. Só a presença dele em Belém coíbe muita gente.

Os políticos pedem-lhe conselhos antes de tomarem de decisões?

Não. As conversas com os políticos não servem para decidir nada. Na minha vida tive duas ou três conversas importantes com políticos.

E com Sócrates, já teve alguma conversa?

Nem me lembro de o ter visto em pessoa.

É um político que ficará na história?

O Sócrates?! Não. É de uma pavorosa mediocridade. Pior: é um homem que tem uma linha de pensamento convencional. Que assenta em todos os lugares-comuns deste tempo e reproduz de uma maneira tosca esses mesmos lugares-comuns.

Mas é um Governo com impulso reformador.

A mim não me parece. Estas coisas do ensino e da investigação não levam a nada. Qualquer pessoa que tenha passado umas semanas numa genuína universidade não pode olhar para isto senão com tristeza.

O que pensa do actual momento do PSD e do novo líder, Luís Filipe Menezes?

O regresso de Santana Lopes só pode complicar as coisas. Vi o primeiro debate na Assembleia da República e achei aquele ajuste de contas com Sócrates lamentável. Com o Menezes estou muito surpreendido. Está mudo e quedo. Disse meia dúzia de coisas sem importância e ainda não fez nada. Não sei do que está espera ou se está a planear alguma coisa.

Enquanto cronista, a sua principal característica é o pessimismo.

Não concordo nada. Optimismo e pessimismo são sentimentos que eu não tenho. Às vezes parece-me que a vida portuguesa vai correr bem, outras vezes parece-me que vai correr mal, mas isso é irrelevante. Não escrevo fundado num sentimento ocasional.

Mas tem uma maneira de ler o mundo em que só vê o que está mal.

Não. Tento ser realista e ver as coisas como elas são e não como eu gostava que elas fossem. Se as coisas são más, então…

Nunca ninguém se zangou consigo por causa das crónicas?

De políticos não me lembro de ninguém. Há duas pessoas que se zangaram, a Clara Ferreira Alves…

Pôs-lhe um processo por causa do que escreveu no seu blogue, «O Espectro». Onde insinuava que não era licenciada.

Foram vinte linhas. É diferente do que escrever para um jornal. Mas está em segredo de justiça, não vou falar nisso.

E a outra pessoa?

Foi o Miguel Sousa Tavares.

Como sabe que ele se zangou?

Encontrei-o num restaurante e não me falou.

Vai ler «Rio das Flores»?

Já li.

E?

Não digo nada. Irá perceber em breve.

É verdade que, tal como o próprio contou na TSF, conheceu Miguel Sousa Tavares quando o convidou para escrever um livro sobre a sua passagem pela cultura?

É. Tinha lá uma data de papelada, queria contar aquilo mas não tinha tempo, nem paciência para o fazer. Não queria um elogio histórico. Queria um livro, que iria superintender.

Porque é que lhe respondeu num artigo inteiro? Não bastava uma nota?

Porque ele disse nessa entrevista ao «Expresso» que eu tinha dito mal do Equador sem o ter lido. Era mentira. As pessoas em Portugal gozam de total impunidade. Escrevem um livro e se alguém vem dizer que o livro é mau, tentam intimidar. Disseste mal de mim? Então és bêbado! Ou mais sofisticado: és invejoso. Não percebem que se discute o livro e não quem o escreveu.

Sentem as críticas como ataques pessoais?

Podem sentir o que quiserem. Não estou interessado nos sentimentos de pessoas que não conheço.

Mas pessoalizou. Disse que o protagonista era uma espécie de super-Miguel.

Isso é legítimo. Foi uma hipóstase do Miguel. Se algum dia eu escrever um romance em que o herói é um conselheiro político de grande subtileza, de grande visão, um jornalista extraordinário, um crítico que foi para Oxford, o super-Vasco, as pessoas têm o direito de dizer «o velhote começa a estar cheché». Se disserem que eu só escrevo asneiras, não me ofendo.

Ofendeu-se com a Maria Filomena Mónica quando ela descreveu a vossa vida íntima na autobiografia «Bilhete de Identidade»?

Isso sim. Passou a linha entre o público e o privado. As coisas privadas só se podem escrever com autorização.

Sabia o que ela estava a escrever?

Sabia. Almoçávamos todas as semanas e ela contava-me o que andava a escrever.

Tentou impedi-la?

Sabia que ela estava a escrever as memórias, não em que termos.

Leu o livro?

Li tudo.

Magoou-o?

Magoou. Uma coisa é a crítica a um livro ou a uma crónica. Outra, é ler nos jornais a minha vida privada. É outro universo. Se a Mena Mónica escreve as memórias, é obvio que vai contar alguma coisa sobre a minha vida. Mas a linha de separação entre o público e o privado não deixa de existir. Era amigo da Mena há 35 anos, pensei que percebesse esta coisa básica. Por isso, nunca me preocupei quando soube que estava a escrever as memórias e também por isso fiquei muito espantado quando as li. Ainda bem que isto me sucedeu aos 65 anos, bem casado. Se me tem sucedido aos 40 estava tramado. Cada vez que tivesse um milímetro de intimidade com uma senhora ficava aterrorizado porque ia parar tudo aos jornais.

É o que aconteceu ao Pinto da Costa.

Só acontece a pessoas famosas, é duplamente irritante. Perguntaram-me o que há para fazer aos 65 anos e respondo: há pouco. Mas não tem muita importância. A sociedade está a tomar formas tão horríveis que não me apetece viver muito mais neste mundo.

O que quer dizer?

Se me dissessem «tens mais 20 anos de vida», não, muito obrigado. Nem dez. Mais dez anos a aturar esta gente? Nem pensar.

Tem remorsos?

Não. Nunca fiz grandes patifarias na minha vida. Fiz coisas ridículas e censuráveis. Coisas más, não. Acho eu.

Qual é a sua obra que mais gosta?

Três: O Poder e o Povo, A República Velha e Glória. Em Glória, até certo ponto, consegui reproduzir uma época e um mundo cultural, como se pertencesse a esse mesmo universo. Deu-me um trabalhão enorme.

Apetece-lhe biografar mais alguém?

Estou a escrever a biografia sobre o Eça. Li tudo dele.

Qual é o livro de que mais gosta?

De Os Maias, claro. Por isso mesmo. Não há frieza, nem perspectiva. Há muitas coisas que se vêem pior ao perto do que ao longe.

O que é que o diverte?

Tanta coisa! Divertem-me imenso alguns escritores, os Monty Phynton… e o Eça, claro. Os portugueses, e eu também, são sobretudo sarcásticos. Eu preferia ser irónico. O sarcasmo não me diverte tanto.

Gosta do humor dos Gato Fedorento?

Não. Socialmente e politicamente são neutros.

Portanto, o único português que o diverte é o Eça.

Não! Há muita gente. A pessoa que mais me diverte é a minha mulher. A Constança diverte-me muitíssimo. Ao contrário do que se possa pensar, gosto muito mais das coisas que me divertem do que as que não me divertem.

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sexta-feira, novembro 16, 2007

VPV

Uma Farsa
por Vasco Pulido Valente, in Público:

A esquerda e a direita andam por aí muito excitadas por causa de Hugo Chávez, que o rei de Espanha mandou calar na XVII Cimeira Ibero-Americana. No primeiro dia, em que, muito à Fidel, arengou mais 20 minutos do que devia, Chávez resolveu chamar "fascista de todo o tamanho a José Maria Aznar", "magnata do petróleo" a Lula da Silva e "fascismo dos fascismos" à democracia americana. No dia seguinte, enquanto falava Daniel Ortega, da Nicarágua, Chávez recomeçou a insultar Aznar, fora de ordem e com o microfone desligado. Já farto do espectáculo, o rei de Espanha perguntou: "Por que não te calas?". Pergunta razoável, tanto mais que o homem insistia em ignorar as regras da reunião. Mas dizem que a cimeira ficou "gelada" e a "Europa" inteira discute agora a intervenção do rei.

Hugo Chávez é um fenómeno político curioso. A velha esquerda ocidental, incluindo o dr. Mário Soares, fez dele um grande herói. Por antiamericanismo, evidentemente. E, como de costume, não quer ver ou perceber o que se passa na Venezuela (como antes não quis ver ou perceber o que se passava em Cuba). Parece que Fidel ressuscitou, para humilhação do "monstro" e deleite da já falecida "inteligência" progressista. Mas ninguém dá pela farsa em que se meteu. Com uma economia dependente do petróleo, Hugo Chávez não pesa. As palhaçadas revolucionárias com que se tem universalmente distinguido são a prova e o sinal da sua impotência. Está, de facto, reduzido a ameaçar, a berrar, a injuriar. O Brasil, a Argentina e o Chile olham para ele com embaraço e desprezo. Só em Cuba, claro, o admiram.

Fidel foi importante por causa da guerra fria. Era uma base inimiga a uns quilómetros da América. Sozinho, Chávez não existe. Nem ele, nem Ortega, nem Morales, nem o mais que vier. A América pode, sem incómodo, deixar toda essa gente criar na sua terra uma boa miséria "bolivariana" e "socialista", como deixou o "marxismo" arruinar tranquilamente a África. E também não há qualquer razão para Portugal e Espanha participarem em aberrações como a Cimeira Ibero-Americana. A influência da Ibéria na América Latina é quase nula e a "Europa" (que Portugal e a Espanha tentam impressionar) sabe isso perfeitamente. De resto, a "iniciativa privada" que se arranje por si, como lhe compete, e a diplomacia profissional que ature Chávez, com paciência.

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domingo, outubro 21, 2007

VPV sobre MST

Um novo génio
por Vasco Pulido Valente
in Público 21.10.2007
"Há uns tempos, Miguel Sousa Tavares escreveu um romance chamado Equador. Era "um romance de aeroporto" implausível e pueril, que seguia a receita do género: um lugar exótico, longas descrições de paisagens, muito sexo e muita atenção à cozinha e à roupa. Até dois terços, não se lia mal, como se lêem os livros deste género: sem esforço, com meia atenção, para descansar. No meu caso, li a coisa no hospital, numa altura em que não tinha cabeça para mais nada. Hoje só me lembro, e vagamente, do herói: uma espécie de super-Miguel, um pouco ridículo, com o seu arzinho aristocrático e a sua obrigatória consciência de esquerda. A certa altura, o Equador desapareceu (por falta de espaço) na limpeza de uma estante qualquer e não tornei a pensar no assunto.

Nunca me ocorreu que Miguel Sousa Tavares se tomasse por um escritor. Afinal muita gente, sobretudo em Inglaterra e na América, vive de produzir prosa para consumo de massa, que ninguém confunde com literatura. É uma maneira como outra de ganhar a vida. Honesta, ainda por cima. Mas Miguel Sousa Tavares parece que não se considera light e pretende que o levem a sério. Só isso explica que volte agora a meia dúzia de comentários sobre o Equador (não especialmente lisonjeiros) que publiquei há anos numa carta a este jornal. Para explicar essa minha absurda aberração, Miguel Sousa Tavares revelou ontem ao Expresso que eu, quando o critiquei, não tinha lido o livro e que depois, quando de facto o li, o achei óptimo. Quem lhe contou foi um amigo anónimo, presumivelmente tão analfabeto como ele; e em que ele, claro, piamente acredita.

Fora a acusação de fraude (que me incomoda), Miguel Sousa Tavares trata com condescendência o meu putativo pessimismo e lamenta que o meu conhecimento do mundo não vá muito além de Oxford e do Gambrinus (para quem não saiba, um restaurante de Lisboa). Esta estupidez não é inocente, é profiláctica. Serve para me desqualificar, se por acaso eu disser o que penso (e não disser bem) sobre o Rio das Flores, um segundo romance que já saiu ou vai sair daqui a poucos dias. Mesmo vendendo como vende, Miguel Sousa Tavares não consegue suportar que diminuam o que ele julga ser o seu imenso brilho. A mim, não me aflige que ele se apresente como um génio literário. Desde que não ande por aí a espalhar mentiras."

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