O MacGuffin

quinta-feira, abril 03, 2008

O fundamentalismo laico

Constança Cunha e Sá in Público, 03/04/2008

Tempos de incerteza

A reeleição do arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, como presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) foi, se se quiser, a gota de água. Usando uma terminologia que se costuma aplicar ao Partido Comunista, o Diário de Notícias garantia, no dia seguinte, que a manutenção no mesmo cargo do "bispo que mais tem afrontado o Governo, nos últimos anos" confirmava a vitória da "linha dura" da hierarquia católica. Como seria de esperar, D. Jorge Ortiga correspondeu adequadamente a este tipo de expectativas: afirmou que "o Estado democrático não pode ser militantemente ateu"; referiu a "inaceitável exclusão da presença católica dos ambientes públicos e políticos"; exortou os católicos "a encetar acções tendentes a mostrar que nunca irão abdicar dos seus princípios"; e, como se tudo isto não bastasse, ainda se deu ao luxo de invocar a implantação da República "para reconhecer que os acontecimentos adversos suscitaram coerência e fidelidade". É verdade que D. Jorge Ortiga afirmou também que a presença católica não se deve impor "pela lógica dos comportamentos agressivos ou da ambição dos princípios mas pela diferença do amor", acrescentando que a Igreja "deve estar onde o humano acontece". Infelizmente, estes meandros da teologia interessam pouco aos "laicos de serviço", sempre prontos a denunciar a ingerência da Igreja e a defender a natureza inviolável do Estado.

Esta separação radical, determinada pelo espírito do tempo, deixa ao Estado o monopólio do espaço público, remetendo a Igreja para o domínio privado, no qual a sua intervenção se limita a proclamações doutrinais que se dirigem apenas ao conjunto dos seus fiéis. Esta lógica que coloca a Igreja numa redoma, isolada da sociedade e do homem, ignora a aspiração "universal" de qualquer religião e a natureza pública do seu testemunho.

Não por acaso, essas declarações doutrinais que supostamente só dizem respeito aos católicos são abundantemente comentadas - e ainda bem - por todos os que, embora não fazendo parte da Igreja, se sentem na obrigação de as analisar. Basta lembrar as inúmeras polémicas que acompanham invariavelmente as posições do Vaticano sobre determinadas matérias como a homossexualidade, o uso de métodos anticoncepcionais, o casamento dos padres ou o acesso das mulheres ao sacerdócio, para referir apenas as mais recorrentes. O interesse suscitado por estas questões mostra, ad contrarium, que mesmo os seus críticos mais contundentes dificilmente conseguem admitir que a actuação da Igreja se insere numa esfera meramente privada com a qual nada têm a ver.
Em contrapartida, o facto de D. Jorge Ortiga ter dito que o "Estado democrático não podia ser militantemente ateu" (o que é razoável) ou ter considerado "inaceitável" a "exclusão da presença católica dos ambientes públicos e políticos" (o que se compreende) provocou, entre nós, como já é habitual, um ensurdecedor alarido. Aí estava a Igreja, mais uma vez, a "afrontar" o Governo. A exigir, mais uma vez, privilégios que fazem parte do passado. E a imiscuir-se, mais uma vez, onde não era chamada. Pelo meio, houve inevitavelmente quem lamentasse esta indesejável colagem à Igreja espanhola e à sua indecorosa oposição ao Governo de Zapatero. Mas o mundo, como se devia saber, não se esgota na Península Ibérica.

Nos últimos tempos, a chamada "ofensiva" da religião já não se refere, apenas, ao florescimento de uma vaga espiritualidade que, há uns anos, se reflectia no sucesso de algumas seitas ou na importação de um orientalismo de trazer por casa, embrulhado no aperfeiçoamento pessoal e numa gama de "receitas" que levavam à "felicidade". Ao fracasso das ideologias e ao clima de insegurança juntou-se o "fundamentalismo" islâmico, que impôs ao mundo desenvolvido e às sociedades de bem-estar o "retrocesso" da religião. A sharia que o Ocidente tolera, ao ponto de o arcebispo de Cantuária pretender integrá-la na lei britânica, não deixou de abrir um caminho favorável ao regresso da religião numa Europa laica e desenvolvida.

Num livro, publicado em Portugal, no ano de 1994, sob o título A Igreja e a Nova Europa, o então cardeal Ratzinger, recusando uma análise "simplista" sobre esta matéria, não deixava de concluir o seguinte: "O islão, seguro de si, exerce sobre o Terceiro Mundo um fascínio muito mais forte do que o cristianismo, a que falta paz interior."
Dois anos mais tarde, na Universidade de Ratisbona, o mesmo Ratzinger, já como Papa Bento XVI, exortava as religiões do Livro a ocuparem o espaço deixado vazio pelas ideologias modernas e a tirarem partido destes tempos de incerteza e de mudança para regressarem ao centro da vida política - o que foi interpretado como uma legitimação da "cruzada" da Igreja espanhola contra o Governo de Zapatero. A mudança, no entanto, não se fez sentir apenas em Espanha. Em Itália, a Igreja deixou cair o primeiro-ministro Romano Prodi. Na Áustria, o arcebispo de Viena, num artigo publicado do New York Times, decidiu repescar o direito natural de inspiração divina por oposição às leis "demasiado" humanas que são aprovadas num Parlamento. E, por último, em França, no berço do Estado laico e republicano, o presidente Sarkozy surgiu como um baluarte da religião, defendendo as suas virtudes cívicas, ao mesmo tempo que afirmava que a moral laica se pode esgotar quando não é apoiada numa esperança que realiza as "aspirações do homem ao infinito".

Pode-se dizer que tudo isto não é mais do que um fenómeno passageiro - principalmente se levarmos em linha de conta o divórcio que existe entre as exigências da religião e o modo de vida europeu. Como se pode dizer também que existe uma incompatibilidade de fundo entre o pluralismo da democracia e a Verdade única que emana de Deus. Mas não deixa de ser sintomático que este tempo de incerteza aliado a um laicismo exacerbado possa pôr em causa uma das principais conquistas do mundo ocidental.

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quinta-feira, março 13, 2008

“Borbulhagem”, diz ele

Constança Cunha e Sá, in Público (13/03/2008)

Um Vazio Complicado

No início da semana, o dr. Luís Filipe Menezes encarava as inúmeras críticas suscitadas pelas alterações ao regulamento interno do partido com o optimismo natural de quem conta com o apoio das "bases", do "povo" e de outras entidades metafísicas que ele, por pudor, se absteve de referir. Segunda-feira, no rescaldo do Conselho Nacional, todas essas declarações tinham uma dimensão reduzida, revelando apenas "alguma borbulhagem" que andava "no ar", fruto do sucesso "evidente" da sua notável liderança. Compreensivo, o dr. Menezes explicava com um saber de experiência feito: "Em quatro meses, trouxemos o partido de uma situação em que não pensava na vitória para uma situação que pensa na vitória" acrescentando didacticamente que quando um fenómeno, como este, acontece, "o comportamento das pessoas altera-se e passa a haver mais ambição". Nesse dia, o que interessava era a fidelidade das "bases" e as renovadas expectativas do "povo" que ele e o "seu PSD" tinham subitamente desenterrado.

No dia seguinte, o diagnóstico mudou radicalmente: a natural "borbulhagem" da véspera ganhou novos e tenebrosos contornos, transformando-se, numa noite, num inqualificável ataque à fulgurante liderança do dr. Menezes. Em conformidade com esta diferente interpretação dos factos, a Comissão Permanente do partido decidiu que o dr. Rui Rio tinha que ir, com carácter de urgência, ao Conselho de Jurisdição explicar as suas "gravíssimas" e "intoleráveis" declarações, explicando nomeadamente como é que os actuais regulamentos internos podiam transformar o PSD numa próspera lavandaria de ordem financeira. António Capucho, por sua vez, viu confirmada a sua anunciada demissão da concelhia de Cascais com um "agradecimento pelos serviços prestados", uma velha fórmula salazarista que a direcção do PSD achou por bem ressuscitar, no que pode ser visto como um oportuno piscar de olhos a uma direita retrógrada e saudosista, depois de um salto inesperado para os protestos da "rua" e para o colo dos sindicatos. Este PSD do dr. Menezes é assim: previsivelmente imprevisível. Num dia, junta-se ao entusiasmo do PREC, no dia seguinte entrega-se aos pequenos requintes do salazarismo; num dia, regista uma auspiciosa "borbulhagem", no dia seguinte encontra um "intolerável" e "gravíssimo" ataque à sua irrepreensível liderança.

Num esforço meritório, os Ribaus, os Botas e os Lopes do partido, desdobraram-se em comentários e explicações que tornaram ainda mais precisa a posição adoptada pela actual direcção do PSD. Enquanto a maioria se escudou prudentemente no "assassinato político" do líder e no "ataque sistemático" às suas desenjoativas propostas, o dr. Santana Lopes, como já é habitual, sobressaiu pela ousadia dos argumentos e pela sua luminosa insensatez: começando, modestamente, na TSF, por considerar que foram "ultrapassados" todos os limites, o velho Lázaro da nossa pequena política acabou, gloriosamente, em Gaia, a denunciar "o clima de terror robespierriano" que, graças ao dr. Rui Rio e a outros elementos igualmente perniciosos, passou a existir no interior do PSD. Obviamente, comparar o "Terror", ou melhor, o "Grande Terror" da Revolução Francesa com as trapalhadas do PSD revela uma confrangedora ignorância da História. Mas, pior ainda, revela o estado em que se encontra um partido onde a irresponsabilidade é uma regra de ouro e o mais puro oportunismo se transformou na única estratégia política perceptível.

Os últimos quatro meses de que o dr. Menezes tanto se orgulha foram, de facto, uma festiva sucessão de delírios e piruetas políticas que culminaram, na semana passada, com a bombástica confissão de que, embora o PS já não mereça governar, o PSD ainda não se encontra em condições de o substituir - um "paradoxo" que o dr. Menezes, com a sua intuição apurada, considera que pode estar na origem de um "vazio complicado". Em momentos muito especiais, a democracia tem destas coisas!

A alteração dos regulamentos, impedindo a fixação dos cadernos eleitorais e abrindo caminho à perversão de qualquer processo democrático interno, é o reconhecimento desse "vazio" por parte de uma direcção acossada que apenas se mantém no poder por obra e graça dos interesses imediatos dos seus caciques locais. A forma como essa mesma direcção reagiu às críticas de Rui Rio e de António Capucho (a "purga", segundo Pacheco Pereira) confirma o autismo de quem vive à margem do país, entretido com pequenos jogos de poder partidário, e a impunidade de quem conta com os cálculos alheios e garante orgulhosamente que só "à bomba" é que o tiram da liderança que tão arduamente conquistou.

Se, em 2009, o dr. Menezes ainda se mantiver à frente do partido, como o próprio garante que se manterá, o PSD estará irremediavelmente condenado à sua própria insignificância: a maioria relativa do PS será naturalmente vista com mais uma vitória retumbante do líder e das suas bases que continuarão impunemente a mandar no partido; e a maioria absoluta, por sua vez, obrigará o partido e um novo líder a quatro anos de oposição, entregues a um grupo parlamentar difícil de descrever. Até lá, o dr. Menezes não deixará de ser o principal trunfo de um primeiro-ministro em queda, podendo mesmo, na recta final, adquirir um papel insubstituível na sua campanha eleitoral. Quem sabe se o tal "vazio complicado" não será mesmo demasiado complicado.

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sexta-feira, novembro 23, 2007

Está a perder-se um grande escritor

A avaliar pela argumentação retorcidamente fantasiosa, pela prosa a espaços mística e pela capacidade de contornar a realidade rumo à ficção, temo que o mundo assista ao definhar de um talento. O mundo tem no Daniel Oliveira um escritor de qualidade cujo engenho se encontra amordaçado por um sistema democrático castrador. A produtividade literária do Daniel encontra-se claramente refém de uma sociedade burguesa nos modos e liberal nos costumes. Palpita-se na sua escrita o fulgor e o vigor - quase animal - de um grande intelectual/escritor. Vivesse o nosso Daniel na louvável Venezuela, ou fosse mesmo nado e criado por terras de Bolívar, e estou certo que assistiríamos ao ressurgimento de um Orwell, de um Camus ou, quiçá, de um Milosz. Isto, claro, partindo do principio de que o nosso Daniel estaria contra o modus operandi de Chávez e a ideia que este tem do que é uma sociedade livre, próspera e equitativa, encontrando-se, por isso, num limbo existencial entre a angustia e o desespero, o qual, como sabeis, é terreno fértil para prosa de qualidade (daquela «fracturante»). Já para não falar na eventual performance pública do nosso Daniel num Eixo do Mal venezuelano, a emitir numa qualquer estação estatal, onde o direito ao contraditório é consagrado por obra e graça do Hugo.

Sim, meu caros leitores: sou um ingénuo incorrigível.

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sexta-feira, novembro 16, 2007

Ajudem o Abrupto (petição contra ímpios e cobardes complôs)

Um fantástico post de Pacheco Pereira (a guardar):
"Graças aos seus leitores o Abrupto continua de excelente saúde, isto para usar a fórmula com que a NASA começa os comunicados sobre a sonda Cassini. Continua no topo de todas as medições e de todos os rankings, situação que mantém quase ininterruptamente há quatro anos, caminha para os sete milhões de visitas e para os oito milhões de page views, e tem um Page Rank no Google de 5. Centenas de leitores, centenas mesmo, colaboraram com textos e fotografias, enviados de todo o mundo. O Abrupto tem leitores fiéis na Europa, no Brasil e nos EUA, e em mais de 100 países vem cá gente com alguma regularidade, embora eu não me iluda muito com as estatísticas dos leitores de Madagáscar. Esta nota já muito desactualizada dá uma ideia do que o Abrupto deve aos seus leitores.

Tudo isto sem comentários abertos, um dos meios mais fáceis para obter "audiências", nem os truques técnicos que abundam hoje, usados por conselheiros especializados de como se sobe nas listas, como se falsificam rankings, listas e lugares no Google . Esta situação do Abrupto incomoda muita gente, que utiliza todos os truques do ofício para arranjar listagens com critérios "subjectivos" que forneçam rankings diferentes, que misturam blogues genuínos com falsos blogues pornográficos, na maioria dos casos com o evidente objectivo de evitar que o Abrupto apareça sempre nos primeiros lugares. Quando os instrumentos de medida que permitem comparar blogues, como o Page Rank, o Google Analytics ou o Technorati, teimam em colocar o Abrupto à frente, atacam os mensageiros, que "como todos sabem, não prestam". A prática deliberada de muitos blogues de fazerem ligações a tudo menos ao Abrupto assim como de citar sem "ligar", tem as suas consequências: o Abrupto é muito mais citado do que "ligado", como se verifica quando se faz uma procura pelo nome do blogue ou do seu autor. Porém, como os milhares de leitores quotidianos do Abrupto estão fora destes pequenos círculos interiores da blogosfera, o blogue continua de boa saúde e recomenda-se. No entanto, não precisam de se afadigar tanto, a lei das coisas é que tudo o que sobe tem que descer e é só esperarem sentados.

Há, no entanto, várias coisas que estão mal. Umas dependem muito da minha disponibilidade, do tempo, outras resultam de não conseguir fazer melhor. O Abrupto é um blogue de uma pessoa só e isso faz com que haja dias vazios e dias de recurso. Depois há outras coisas que estão mal e precisam de ser melhoradas quer do ponto de vista gráfico, quer do conteúdo, quer técnico, das funcionalidades do blogue. À medida que puder tentarei fazer corresponder o Abrupto à dedicação e interesse dos seus leitores.

Obrigado."

Façam como eu: linquem o Abrupto.

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domingo, outubro 21, 2007

Shut the fuck up donny!

Gosto de blogues. Gosto de programas televisivos onde se opina sobre tudo e mais alguma coisa. Gosto de colunas de opinião nos jornais, incluindo aquelas de que discordo visceralmente. Gosto de observar os tiques e maneirismos da malta da opinião. Gosto de analisar, com o tempo, a historiografia facial do senhor professor universitário, do senhor deputado, do senhor general, do senhor presidente, do senhor escritor. Gosto dos fóruns radiofónicos, onde o direito à indignação é festival de ulcerações por via biliar. Sim, há gente a mais a opinar. Há excesso de assuntos. Fala-se muito alto de tudo e por nada. Sei do que estou a falar. Faço parte da matilha. Conheço os meus excessos como ninguém. A vaidade e a presunção são-me familiares. Pratico-as regularmente. E reconheço-as nos outros, embora muitos acreditem que estão vacinados contra tais delirios.

Entendam-me: tudo isto está bem. A democratização do acesso à opinião publicada e falada só poderá aborrecer os donos das coutadas e os respectivos caseiros. O problema, claro, é outro. O problema nasce no momento em que ao endurecimento vocal se junta a seriedade formal, a objectividade confessada, a presunção fanática, o gesto teatral. Há gente que se leva demasiado a sério. Demasiadas vezes. É um espectáculo triste na forma e patético no conteúdo. Há gente para quem a auto-ironia e o sentido de humor são uma galáxia distante. E é vê-los, por aí, seríssimos, a jurar que sabem tudo, sentem tudo, perscrutam tudo e todos.


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