O MacGuffin

domingo, junho 29, 2003

TOURADAS, II

Recebi, também do Zé Luis, o seguinte comentário ao ‘post’ sobre a tourada:
”Devo começar por dizer que gostei do teu "post" acerca das touradas.
Está extremamente bem escrito, apresenta argumentação de peso e sou forçado a concordar com muito daquilo que dizes sobre o assunto.
Não sou um aficionado militante, nem sequer me poderei considerar um aficionado, mas no entanto já presenciei várias corridas e contrariando toda a aparente racionalidade, não consigo vislumbrar essa violência sanguinolenta que tu e muitos apontam. Dito por outras palavras, a sua crueldade não me impressiona e até seria bem capaz de levar o meu filho de 2 anos a uma corrida.
Não! Não me considero uma pessoa particularmente insensível e gosto bastante de animais (apesar de distinguir bem a companhia de um gato da de um rato), impressionando-me sim, imagens como as que ví um destes dias num telejornal incluídas numa peça acerca dos cães abandonados por pessoas(??) que vão de férias.
O meu avô materno, figura que marcou fortemente a minha infância e adolescência, era um fervoroso aficionado e frequentador assíduo ao longo da sua vida das praças portuguesas e espanholas. Com ele fui pela mão às minhas primeiras corridas e era um regalo ouvir os seus comentários sabedores e verificar o seu genuíno entusiasmo por uma boa lide a cavalo ou por uma boa pega.
O meu avô nunca fez mal a uma mosca e era a perfeita antítese daquilo que se pode considerar uma pessoa violenta ou agressiva, como agricultor que era tinha uma relação muito forte com o campo e adorava animais (lembro-me bem o carinho com que tratava os cães da casa).
Quando me lembro do meu avô, penso no incompreensível e no ridículo que seria para ele se estivesse vivo, ouvir o que se diz desde há uns anos para cá acerca do espectáculo taurino.
Conheci ao longo da vida muitos outros amantes da "festa brava" e uma característica que me parece comum a todos eles é a sua adoração por animais. Ainda há poucos dias na televisão tive oportunidade de ver e apreciar a forma poética e até comovente como o cavaleiro tauromáquico Paulo Caetano falava dos seus cavalos, será ele um torturador de animais?
Por tudo isto mantenho o maior respeito pelas corridas de touros, seus participantes e aficionados. Apesar de eu pessoalmente passar anos sem entrar numa praça e de toda a racionalidade que se possa encontrar na argumentação contra o espectáculo de touros, há nele algo de místico que faz parte da nossa cultura e não se pode menosprezar.
Ao contrário de ti não sou conservador, mas tenho um toque tradicionalista, que mais não seja por rejeitar em absoluto a tendência totalitária de higienizar o mundo, que por vezes não é mais do que a tentativa de destruir culturas e tradições milenares por parte daqueles que não as têm (tu sabes de quem é que eu estou a falar...).
Para terminar deixa-me dar apenas um argumentozito a favor das touradas: os touros bravos de lide são ao longo da sua vida extremamente bem tratados, seguramente muito melhor do que quaisquer outros bovinos. Olé!”


O que mais me incomoda, no meio desta questão, é estar a trilhar o caminho do politicamente correcto, ao lado dos fundamentalistas dos direitos dos animais. Mas, como “quem diz o que pensa, não merece castigo”, aqui vai.

Como deves ter reparado, tive o cuidado de dizer que respeitava os aficionados. Tenho a noção clara de que estas coisas não se podem alterar por decreto, de forma abrupta e descontextualizada. Acredito que existe, inerente à tourada, uma função sociológica e psicológica da qual ainda se tira partido e com a qual se equilibram e mantêm determinadas tradições e ligações de grupo. Também não disse que os toureiros, forcados e agentes envolvidos na ‘festa’, sejam a personificação de frios torturadores temerários, envergando um olhar doentio e um sorriso macabro na hora de lidar a «besta». Acredito piamente na benignidade das intenções da maioria dos intervenientes. E acredito, também, que tratem bem os seus animais e que se emocionem genuinamente a falar dos cavalinhos. É bom lembrar que foram educados e socializados a gostar de touradas – tal como tu, quando referes a iniciação a que foste sujeito por parte do teu avô. Também o meu avô, agricultor e homem ligado à terra, tentou iniciar-me nestas coisas da tauromaquia, não falhando uma única vez a tradicional tourada de S. Pedro, em Évora (ou seja, a de hoje, dia 29). Contudo, neste caso, a influência paterna falou bem mais alto. Por culpa do meu pai, passei a observar a ‘festa’ com outros olhos. Por detrás do tal misticismo e da suposta arte, passei a observar um dissimulado exercício de violência para com um animal. E isso, caro Zé Luis, é irrefutável. A questão é, precisamente, esta: a manifestação artística, o misticismo, o espectáculo de entretenimento, valerão essa violência?

Dizes que sabes distinguir “a companhia de um gato da de um rato”. Quererás com isso dizer que há animais e animais. E há, depois, seres humanos. Não coloco os animais ao nível do ser humano. Reconheço a sua inferioridade. Por exemplo, não sou contrário à utilização de animais em laboratório se, com isso, se salvarem vidas humanas, através de novas drogas e novas terapias (já sou completamente contrário ao seu uso em experiências na industria da cosmética). Mas, convenhamos, este argumento e posicionamento tem também sido alvo de abuso e subversão. Muitas das vezes, é este o tipo de raciocínio que está na consciência de quem prega pontapés no cão ou no gato, de quem abandona os animais antes de ir para férias (lá está: "eu sou um ser racional-superior e tenho direito a umas férias descansadas") ou no final de um dia de caça menos frutífero (há tempos, um dirigente de uma associação de caçadores, recomendava o abate dos cães caso os caçadores pensassem em abandoná-los...). Acrescente-se a pura crueldade por vezes evidenciada por certos «amigos» dos animais. Por exemplo, no caso da chamada caça à «corricão», chega-se a largar a lebre num recinto fechado sem hipóteses de escapatória - um acto de desleadade e canalhice - para treinar e «mimar» o respectivo cãozinho. Mesmo que a lebre seja mais astuta e rápida (evidenciando uma supeioridade natural) não lhe é dada a mínima clemência. Regra geral, assiste-se, em muitos casos, à disseminação da ideia de que os animais estão aqui, na terra, ao nosso serviço. É verdade. Só que não pode ser “para o que der e vier”.

O meu ponto é este, e peço desculpa se me estou a repetir: como seres superiores, como elo mais forte da cadeia, como detentores de uma racionalidade e de uma sensibilidade emocional bem mais complexa e rica, deveríamos caminhar no sentido de nos consciencializarmos de que os animais são, neste caso, o elo mais fraco. São eles que vivem à mercê da boa ou má vontade do homem, dos seus caprichos, manias, paranóias e gostos. À partida, não tem mal que assim seja. Alias, só pode ser assim. Agora, convinha não abusar. Já que fazemos uso da sua força, da sua astúcia, da sua carne e da sua pele, convinha não os violentarmos para fins de entretenimento. É o mínimo que podemos fazer.

Retomando aquilo que afirmei, não acho que seja razoável, justo e proporcional abusar de uma animal para gáudio de uns tantos aficionados, em nome de uma festa, de uma arte ou de uma ‘mística’. É só.

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