O MacGuffin: Anatomia de uma morte exagerada

quarta-feira, outubro 26, 2011

Anatomia de uma morte exagerada

O Bruno Sena Martins foi repescar um post escrito em Agosto de 2009 (aqui), sobre o estado da blogosfera e a sua relação com os partidos.

A história está ligeiramente enviesada. É falsa a ideia de que a blogosfera lusa nasceu maioritariamente dominada por gente de direita (que, afiança o Bruno, estava à direita do PSD - uma afirmação que padece de um equivoco primário: não há, em Portugal, contiguidade possível e rigorosa entre o debate ideológico, de carácter mais teórico ou filosófico, e a doutrina partidária), a que se seguiu uma reacção de gente de esquerda. Antes, durante e imediatamente a seguir ao advento da Coluna Infame, já existiam, em mais ou menos igual número, blogues situados à esquerda com voz e espaço (não estou com isto a dizer que a Coluna Infame não foi marcante). A proliferação dos blogues de esquerda não foi, em bom rigor, reactiva relativamente aos de direita, na mesmíssima medida do contrário. Foram, ambas, reactivas face a um momento muito particular: vivia-se (e o Bruno também o refere) uma época de acesa discussão política, marcada pela guerra no Iraque e pelo pós-11 de Setembro, contexto que levou muita gente a presumir, também pela facilidade e liberdade da ferramenta, que tinha o direito e o dever de se pronunciar publicamente sobre o assunto.

A tese do Bruno incide sobre a relação partidos/blogosfera e é paralela/prima de uma outra: a da relação entre os media tradicionais e a blogosfera. A ideia de que a blogosfera perdeu gás e força por ter sido «apanhada» ou «amansada» pelos tentáculos dos partidos, ou assimilada pelos media ditos tradicionais (numa espécie de luta entre bons e inocentes vs. manhosos e interesseiros), é pouco interessante e simplista. Houve interesses legítimos, de ambas as partes, para que em parte isso sucedesse. Seria, aliás, natural que assim fosse. Por um lado, a grande maioria dos bloggers tinha a aspiração ou a expectativa de vir a ser notada pelos «grandes» e «mediáticos» (televisões e jornais). Quem disser o contrário sabe que está a mentir. Por outro, foi natural que os jornais, televisões e rádios, tentassem assimilar os melhores que se movimentavam no «submundo» blogosférico: havia gente de qualidade (logo apetecível) em acção num novo e admirável espaço de intervenção que importava explorar (a internet), tanto mais que nele decorria um desaforado escrutínio dos próprios media. No caso dos partidos, idem. Seria impensável que as máquinas partidárias não lançassem os respectivos apaniguados (os assumidos e os dissimulados) a exercer os seus deveres de proselitismo e, sempre que possível, a «aburguesar» os interessados.

O saldo final? Não é negativo. Se é verdade que a blogosfera perdeu um pouco do gás de outrora – não esquecer o facto da geração seguinte ter optado, por falta de tempo ou de jeito, preguiça ou desinteresse, pelas «benditas» redes sociais - não é menos verdade que a assimilação de gente oriunda da blogosfera reavivou o debate nos meios ditos tradicionais e, ainda que muito pouco, ajudou a renovar o ar nos partidos.

Em penúltimo caso, pode sempre perguntar-se: por que razão não escreves tu mais, Bruno? (género «onde estavas tu no 25 de Abril?»). Em último caso: terá sido a blogosfera assim tão importante?

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