O MacGuffin: E que tal falarmos um pouco do país, pode ser?

sexta-feira, janeiro 07, 2011

E que tal falarmos um pouco do país, pode ser?

O que se tem dito e redito sobre o suposto «caso» Cavaco Silva/BPN revela bem a forma leviana, superficial e amnésica como a classe jornalística pegou no assunto, e a maneira insidiosa e cínica como certos opinadores aproveitaram o caso para revelar o seu eterno asco ao «tosco de Boliqueime» (*). Não falo, por questões higiénicas, dos que engendraram este plano de ataque (nada disto foi feito por acaso) e dos que o lançaram em prime-time (o Sr. Defensor Moura chegou a dizer numa rádio “bom, não é tão grave como tráfico de armas, prostituição ou tráfico de droga”). Falo dos que cavalgaram a onda sem o mínimo de prudência, produzindo asneiras e distorções a um ritmo frenético. Exemplo: Inês Pedrosa esteve, há minutos, a criticar «esta forma de vender acções à margem da bolsa». Não havia outra forma de as vender, cara Inês. A SLN não estava cotada em bolsa. Tanta ignorância mete dó. “Ah, mas foi Oliveira e Costa quem comprou as acções!” Não, foi a SLN Valor. “Ah, mas foi uma negociata directa, por escrito, entre um (Cavaco Silva) e outro (Oliveira e Costa)”. Era o procedimento obrigatório para os accionistas da SLN (q-u-a-l-q-u-e-r accionista). Mais: o Presidente (Oliveira e Costa) tinha estatutariamente o direito de preferência. [Quem recorre, hoje em dia, a um banco para concretizar uma aplicação financeira (por exemplo, um pacote diversificado de acções), sabe que, no dia em que quiser vender essas acções, comunica ao banco essa intenção, e é o banco que promove a venda, nunca se sabendo quem compra]. “Ah, mas foram vendidas por 2,4 quando tinham sido compradas por 1!” Era o preço a que se negociavam à época. Sete dias depois da ordem de venda de Cavaco Silva, foram vendidas acções a 2,6. Um mês depois, a 2,8. Resta dizer que Cavaco Silva declarou a mais-valia e pagou os seus impostos.

Este caso é um não-caso. Quem insistir no mesmo – de jornalistas a opinadores, de políticos a aspirantes – estará apenas a chafurdar na lama. Com o país ali ao lado.


(*) Clara Ferreira Alves, no Expresso da Meia-Noite, voltou a babar raiva sobre aquela personagem «hedionda» que exerce o cargo de PR. O ódio que esta senhora tem a Cavaco Silva é quase patológico. Terminou a dizer qualquer coisa do género “se o país eleger Cavaco Silva, significa que o país está perdido.” Recorrendo a Marcelo Rebelo de Sousa: lélé da cuca.

5 Comentários:

Anonymous pmramires disse...

trabalho muito e depois não tenho tempo para pensar nas coisas, por isso foi com alegria que descobri, há algum tempo, uma via certeira e sensata de decidir sobre as perguntas que o meu país me faz, e é assim: procurar a Clara Ferreira Alves na tv e ouvir o que ela tem para dizer. depois voto no candidato que esteja mais longe das ideias dela, tipo o cavaco para presidente ou o cds para o governo. nunca me arrependi.

10:10 da tarde  
Anonymous jaa disse...

pmramires: o grande problema é que ela tão depressa se mostrava simpática para o «amigo Santana» (que a nomeou para dirigir a Casa Fernando Pessoa) como passou a defender Sócrates. Reconheça-se porém que, no que respeita a Cavaco, mostra coerência...

10:35 da manhã  
Anonymous pmramires disse...

jaa, Santa Lopes ? casa Fernando Pessoa ? não sabia nada disso. ainda pior, então. juro que só conhecia a Dra Clara Ferreira Alves de uma célebre altercação com o muito estimado VPV e de um prefácio razoável a uma edição de "A Viagem ao Fim da Noite" da biblioteca cá da paróquia. há ano e meio (?) é que comecei a gravar (caixa meo) o programa eixo do mal e por indução ou dedução (agora não me lembro) constatei que discordo sempre dela, em especial quando ela usa o expediente de papagear artigos da economist ou do ft (referindo-se ou não a eles) para demonstrar qualquer coisa que, por si só, demonstra que não percebeu nada do que leu. às vezes acho que ela só está lá para, por comparação, ficarmos todos a gostar um bocadinho mais do Daniel Oliveira.

7:37 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Só lhe faltou dizer porque é que Cavaco comprou a 1 euro as acções. Quando ouvi Marques Mendes, cheio de papéis, a dizer que nessa altura algumas acções tinham sido vendidas mais caras, deixei o assunto de lado. Depois veio a questão da compra, tal como no seu post. Nenhum dos defensores de Cavaco pega nesta questão. Toda a gente tem o direito a opinar, agora não queiram fazer os outros de parvos.
Luis

2:30 da tarde  
Blogger O Raio disse...

"bom, não é tão grave como tráfico de armas, prostituição ou tráfico de droga"

E não é.

Mas que existe problema, existe, um amigo de CV metido numa fraude arranjou-lhe, a ele e à filha, um negócio extremamente rendoso.

Em qualquer país democrático este caso seria escalpelizado até à última.

Veja-se o problema que Bill Clinton teve quando um amigo dele do tempo em que era Governador do Arkansas se meteu numa fraude em que Clinton e a mulher tinham investido (e perdido dinheiro).

Até foi nomeado um procurador especial para investigar o Presidente, procurador esse que nunca encontrou nada contra os Clintons.
(http://en.wikipedia.org/wiki/Whitewater_controversy)

11:26 da manhã  

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