O MacGuffin: O MEU PROBLEMA COM O IVAN

domingo, setembro 19, 2004

O MEU PROBLEMA COM O IVAN

Um post escrito n’A Praia sobre o 11 de Setembro e a barbárie de Beslan, ilustra na perfeição a opinião que tenho do Ivan.

O Ivan é um caso na blogosfera. Discreto, low profile, carregadinho de referências apelativas, o Ivan movimenta-se na blogosfera como Hiperíon entre sátiros. Uma espécie de príncipe entre plebeus que, de tempos a tempos, não enjeita o desígnio de separar o trigo do joio, a elite da ralé, os seus dos outros. Na Praia, nada acontece por acaso. Atente-se na forma como o Ivan organiza e utiliza a lista de links do seu blogue. Que qualquer lista reflecte gostos, cumplicidades e alguma dose de babugem compensatória, já todos nós sabemos. Mas com o Ivan, a lista funciona, também, como uma espécie de manifesto ou declaração política, cultural, bairrista, clubista, etc. Dito de outra forma, a lista do Ivan é o produto da arbitragem sazonal que o Ivan faz da blogosfera, ou seja, de quem ele julga digno de atenção. Quando o Ivan gosta, o Ivan inscreve. Quando o Ivan não gosta, o Ivan apaga. Um blogue pode belamente entrar numa semana para, na semana seguinte, ser alvo de erradicação sumária, sem qualquer tipo de explicação (foi o que aconteceu, ainda recentemente, com o Memória Inventada). A lista sofre, por isso, reajustamentos cíclicos que reflectem os figados do seu autor. E há blogues que sonham com o dia do «reconhecimento».

O Ivan escreve pouco (o que é uma pena), mas quando o faz, fá-lo de forma majestosa, magnânima. O Ivan tem consciência da sua «arte» e, como tal, age em conformidade. Por exemplo, o Ivan é capaz de decretar que o blogue x foi, ou é, uma bela merda sem mais nem menos (sobre a Coluna Infame, acaba de escrever que se tratava ”do ponto de vista político, de uma infame porcaria”). Ou, mais comummente, de nem sequer se dar ao trabalho de ligar a pequenas e pífias provocações de blogues «menores». Os critérios são inabaláveis: basta que o Ivan discorde de uma opinião, detecte este ou aquele erro de sintaxe ou gramatical, vislumbre um tom ligeira ou circunstancialmente caricatural, e pronto. Seja qual for a razão, o Ivan é fidalgo no trato mas intrépido nos métodos.

Quem já me conhece sabe que, regra geral, perante este tipo de postura, eu até costumo tirar o chapéu. Como se diz aqui, no Alentejo, «até lhe migo sopas». Gosto de pessoas honestas na sua presunção, gente que gosta de passear o seu mau feitio sem papas na língua, zangada quase que com a humanidade. O que seria de Mencken, de Waugh, de Nelson Rodrigues ou de Vasco Pulido Valente sem aquela pontinha de altivez e pesporrência? Só que, como em tudo na vida, não baste querer para poder. Não é elegante e justificadamente arrogante quem quer, mas sim quem pode e sabe. Eis o problema: o Ivan escreve bem, tem bom gosto, é inteligente, é dono e senhor de um dos melhores blogues nacionais mas falta-lhe, na minha opinião, o estatuto moral e a autoridade intelectual, aliada a um forte sentido de justiça, para acalentar voos que ele, ainda assim, não se coíbe de praticar.

Dito isto, voltemos, então, ao seu post. Para o Ivan, só há uma razão para uma criatura de direita evocar um “nunca esquecer”, ou para discorrer sobre o sofrimento das vitimas do 11 de Setembro: “tentativa de apropriação moral e emocional do 11/9. Isto foi insinuado após o Ivan ter publicado uma fotografia absolutamente obscena – a do horror estampado na cara de uma mãe e de um filho em Beslan - seguida da confissão pública de um estado de alma: ter sofrido ”impressionadamente, como qualquer pessoa, com o sequestro e morticínio de Beslan”. Eu acredito que o Ivan não estivesse a tentar apropriar-se do que quer que fosse quando se expôs ao lado daquela fotografia. Impõe-se o benefício da dúvida. Mas em matéria de apropriações, o Ivan esquece que, sobre e por causa do 11/9, se tem dito de tudo. Se eu agora aqui escrevesse (o que passo a fazer) que “os esquerdistas só falam do 11/9 para cumprir calendário ou descarregar a sua má consciência”, estaria a ser despropositado, preconceituoso, estúpido, injusto? Absolutamente. Mas é importante perceber que a lógica retorcida e injusta subjacente a esta afirmação, foi a mesma utilizada pelo Ivan quando afirmou o que afirmou. É, sob todos os aspectos, farinha do mesmo saco. No fundo, constitui a antítese do que se espera encontrar num blogue da autoria de Ivan Nunes.

Antes que seja tarde, convém afirmar o óbvio: há gente (à direita e à esquerda) a recordar o 11/9 com o propósito sincero e edificante de falar sobre o essencial – as razões do terrorismo e a melhor forma de o combater - e não propriamente para ganhar a corrida de um eterno período de nojo. O problema é que o debate está doente. A prova disso mesmo pode ser encontrada na forma como, cada vez mais, se extremam posições e como a discussão tem vindo a ser envolvida num manto de ideias e pressupostos perfeitamente inqualificáveis. Defendendo a minha dama, há gente à direita a esticar a corda por falta de alternativa, ou seja, achando-se no dever de pregar um valente murro na mesa. Recordemos o já famoso cartaz de Spiegelman:



O cartaz ilustra um dos efeitos primários da já referida enfermidade: Bin Laden e Bush colocados, frente a frente, ao mesmo nível. Ainda não entendi se Spiegelman os vê assim – de igual para igual - ou se, simplesmente, alerta para o facto da discussão ter sido inconsequentemente reduzida a uma espécie de duelo entre dois vilões, equiparáveis nas suas monstruosidades. Este cartaz diz muito sobre o que se esconde por detrás das putativas “apropriações morais” e do esticar de muitas cordas.

Que alternativas (nos) restam perante certas afirmações e declarações de princípio? Como é que se pode discutir o 11 de Setembro e o seu aftermath com alguém que coloca ao mesmo nível Bin Laden e George W. Bush? «Soubesse o Ocidente» escapar ao relativismo e às equivalências morais e talvez, por um minuto, pudéssemos todos conversar com ponderação e elevação. Onde o Ivan vislumbra “apropriação moral e emocional”, eu vejo uma forma de gritar um "Basta!" relativamente à má-fé (veja-se o caso Michael Moore), ao contorcionismo moral e à total mendicidade de certos argumentos sobre as causas e as soluções do terrorismo.

Se a direita se vê na circunstância de esticar a corda para além do “politicamente correcto”, tal deve-se, em boa parte, à forma como é empurrada por aqueles que, evocando o 11 de Setembro de 2001, ainda misturam, em 2004, tudo. Não pode haver uma discussão séria enquanto se utilizar o 11 de Setembro para atacar a administração Bush, acusando-a de conivência com o ataque terrorista, ou defendendo que tudo não terá passado de poetic justice. Não se pode discutir seriamente a questão do terrorismo, fazendo crer, ao mesmo tempo, que os atacados são, afinal, os culpados e os terroristas meras vitimas de “pulsos fortes” (e sim, incluo o que se passou na Ossétia do Norte). Não há condições para se debater de forma plural e construtiva a questão do terrorismo, quando se considera de «pobre» o apelo ao “não esquecer o 11/9”, como se o “não esquecer” não estivesse na base de qualquer discussão. Não se chegará a lado nenhum enquanto se insistir em misturar a intervenção no Iraque com o 11/9 como se este tivesse ocorrido depois daquela, ou, no mesmo contexto, quando nem sequer se coloca em dúvida a suposta correlação entre o recrudescimento das acções terroristas a nível mundial (atentados, raptos, etc.) e a guerra no Iraque. Continuará a haver défice de honestidade intelectual se se continuar a vomitar escárnio sobre o actual governo iraquiano, ao mesmo tempo que se relatam de forma prazenteira os revezes da coligação, apresentando-os ao mundo como a «prova cabal» da falência moral da intervenção, sem que por uma vez se condenem os actos e se aponte o dedo aos verdadeiros terroristas. Não se avançará um milímetro em matéria de integridade moral enquanto as razões que levam milhares de pessoas a sair à rua para protestar contra o governo de Sharon, deixarem de servir para levar essas mesmas pessoas a protestar na mesma rua contra as organizações terroristas que continuam a matar civis inocentes em Israel (entretanto apelidadas eufemisticamente de «resistência armada», «activistas radicais», etc).

Soubesse o Ivan falar disto, e não apenas das «apropriações da direita». Ganharíamos todos com isso.

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