O MacGuffin

sábado, abril 10, 2004

O “R” DA DISCÓRDIA
Sobre a polémica (vivemos no pais das «polémicas») do “r”, pouco há a acrescentar ao que Vasco Pulido Valente escreveu (crónica que mais à frente reproduzo). Mas não resisto a comentá-la.

Em primeiro lugar, há que dizê-lo: o cartaz não é inocente. E, hey, ainda bem! É, se quiserem, uma «provocação» (saudável, em meu entender). Mas daí até constituir uma tentativa de «revisionismo histórico», uma «ofensa à memória de Abril» ou coisa que o valha, vai uma grande distância, como já por aí vi insinuado ou escrito. Nesse sentido, não deixa de ser espantosa a forma absolutamente patética como gente supostamente aberta, plural, progressista e vanguardista (porque «nova» e não só) encheu a boca de indignação e a cabeça de macaquinhos só porque, vejam bem, alguém se lembrou de produzir um cartaz sobre o 25 de Abril onde a palavra “revolução” deu lugar à palavra “evolução”. Na ânsia de manter presentes a chama e a memória da “revolução” – que eles acham ter dado inicio ao fim de todo o arcaísmo e reaccionarismo – nem sequer enxergam que a sua postura e reacção é, ela própria, uma fonte inesgotável de reaccionarismo. Tão patética, e perigosa, é a nostalgia do 24 de Abril como é o saudosismo bacoco, ressabiado e impregnado de toda a tralha «revolucionária» dos que, agora, ainda juram que "Abril está por cumprir!"

O cartaz é feliz, para além de esteticamente aprazível. E é feliz porque, não desvalorizando ou esquecendo “Abril”, transmite uma ideia de continuidade na prossecução de algo que se iniciou há trinta anos – ou seja, da ideia da liberdade, do pluralismo, da democracia, de um Estado de Direito e por aí fora. Daí a inclusão da referência “30 anos” em conjunto com a frase “Abril é evolução”. Porque é disso mesmo que se trata: de evoluirmos e caminharmos. Ao fim ao cabo, de celebramos o 26 de Abril e de não nos determos somente no 25 de Abril. Porque a «revolução» não foi um fim, mas um meio.

De uma vez por todas, é bom que a esquerda mais empedernida e a esquerda chic que receia perder as suas referências e é assolada por pesadelos nos quais é confundida com os «outros», perceba uma coisa banal: há 30 anos, Abril foi “r” de “revolução”. Hoje, como há já muito anos, já não o é. Ponto final.

Não peço para esquecer. Peço apenas uma coisa: viremos a página e olhemos em frente. Os "amanhãs que cantam" são hoje. E agora, a crónica do VPV.

O 'r'
por Vasco Pulido Valente
“Parece que este ano o «25 de Abril» passou oficialmente de «revolução» a «evolução». A Esquerda, como lhe compete, ficou indignada. O dr. Ferro já lamentou com amargura o sumiço do «R». E Miguel Portas também veio protestar, em nome do «Bloco», da «inteligência» e da «memória». O que ele diz merece um comentário, porque representa muito bem o espírito do tempo. A grande «festa» de '74 e '75, como lhe chamavam, ainda o comove. Foi a «história» da vida dele, foram dias de «paixão». O momento incomparável em que, militante do PC, arranjou maneira de pregar a Portugal (ao Portugal «reaccionário») um «susto de morte». Hoje, coitado, não assusta ninguém. Nessa altura, ia «superar um sistema social, o do capitalismo», e aprendeu a mudar o mundo «nas praças, nas ruas, nas salas», por toda a parte onde as «pessoas decidiam», «mil vezes mal», mas com o sobre-humano prazer da sua humanidade. E querem agora «domesticar» e «amansar» essa epifania? Não, Miguel Portas não consentirá. Até porque este místico ignorou a realidade do PREC e não se interessa pelo «resultado» final do exercício. Os mortais, que não comungavam com as «massas», não podem desgraçadamente ver as coisas com o mesmo deleite. O trabalho deles teve de ser o de salvar, a pouco a pouco, alguma coisa de um país desfeito. Primeiro, a democracia a que «revolução» trouxe uma torpe tutela militar, que só acabou, e a muito custo, em '82. E, segundo, a economia: uma economia deformada e sufocada pelo sector público, que nos condenava ao subdesenvolvimento e à miséria. Para Miguel Portas, nada disto evidentemente conta. E como contaria ao pé do seu próprio, intransmissível êxtase? Não «acorda» ele sempre com a «esperança» que o Céu revolucionário lhe permita repetir a façanha?”

in Diário de Notícias


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