O MacGuffin

quinta-feira, agosto 07, 2003

AS ÁRVORES
Por causa de um texto no Aviz e de outro no A Causa Foi Modificada, decidi contar duas histórias.

Há dois anos atrás, a câmara municipal de Évora – cidade onde nasci e teimo em viver -, ainda sob a batuta da CDU, avançou com uma série de obras no centro histórico a que denominou de “Requalificação Urbana”. De entre as obras, uma houve que prendeu a minha atenção: a intervenção no Largo d’Álvaro Velho.
O executivo em causa tinha-me habituado a ver tratar a temática da arborização, criação e manutenção dos espaços verdes de uma forma a que chamaria, no mínimo, de infeliz. Ao longo de anos, os eborenses assistiram à decadência do Jardim Público (era, por exemplo, sujeito a um verdadeiro calvário durante as semanas em que decorria a Feira de S. João); ao empobrecimento (num caso ao quase desaparecimento) dos jardins da cidade (varridos por intervenções guiadas pela lei do menor esforço, encabeçadas pelo mais pobre e medíocre sentido paisagístico, consubstanciado pela simplista solução de plantar relva, relva e mais relva); ao corte quase indiscrimnado de árvores, revelando o tipo de tenacidade e voluntariedade empregue por certos dentistas perante a visão de uma boca aberta; a um deficiente trabalho de replantação, onde se assistia à colocação de pauzinhos que, após meses de previsível incúria, pareciam cometer uma espécie de suicídio colectivo - um grito mudo que ninguém parecia querer ouvir; observaram, ainda, a chegada da moda das palmeirinhas, as quais, como qualquer alentejano devia saber, são uma espécie autóctone; ao desleixamento no tratamento de recantos e pequenos espaços ajardinados (tanta vezes já tenho questionado se ainda existirão jardineiros a sério em Évora); em suma, a um role infindável de asneiras, descuidos e negligência pura que só parecia agredir alguns eborenses, já que o eterno executivo do Dr. Abilio Fernandes via o seu mandato renovado por sistema, com os elogios de fundo de meia dúzia de intelectuais e notáveis da capital, que por aqui passavam e bradavam: “Évora é o máááximo!”. Pois.
Eis senão quando, na azáfama da «requalificação», se transladaram para o Largo d’Álvaro Velho duas frondosas árvores, acompanhadas por dois bancos de jardim, dotando o espaço de um ambiente quase poético. E os eborenses, a pouco e pouco, aperceberam-se do impacto estético da presença de duas singelas e enigmáticas árvores. Da riqueza da sombra, em dias de canícula. Da hipótese de fruição do espaço, proporcionada pela presença marcante de duas árvores. Ainda hoje penso que foi aquela visão que fez despertar os eborenses para os anos de atraso, que uma intervenção de última hora (estávamos a dois meses das eleições) não poderia voltar a apagar.
Dizem agora que, com este novo executivo, tudo vai mudar, incluindo, claro está, a temática dos espaços verdes - das árvores, da arborização, da sua limpeza e manutenção. Até à data, apraz-me contar um pormenor: nas avenidas novas, insiste-se em plantar as árvores no enfiamento dos lugares de estacionamento que se encontram longitudinalmente contíguos aos passeios. Ou seja: as árvores são colocadas literalmente fora dos passeios. Elas parecem não estar ali para fazer sombra aos pedestres. Não. Elas estão ali para assegurar que o feliz proprietário do Fiat Uno ou do BMW encontre o seu carrinho fresco.

Por causa dos incêndios, o meu pai falou da Serra d’Ossa - frequentada por ele quando era miúdo (anos 50). A Serra d’Ossa de então era um regalo para os sentidos: encostas coberta de sobreiros, azinheiras, pinheiros, alguns castanheiros e medronheiros, envolvidos por uma riquíssima fauna e flora. A serra era ainda pontuada por fontes, riachos e recantos húmidos e frescos. A abundância de água era tal que, em certos sítios, escorria para a estrada. No Verão, a serra era escolhida como refúgio por quem procurava um ar límpido, refrescante, suavemente perfumado. Uma espécie de oásis no meio da abrasadora planície alentejana – a mesma planície onde muito gente labutava, de sol a sol. São memórias muito queridas as que o meu pai guarda, de quando percorria, a pé ou de bicicleta, as estradas e veredas da Serra d’Ossa.
Hoje, passados 40 anos, não se vislumbra uma gota de água na Serra d'Ossa. As fontes secaram, o ar tornou-se áspero, doentio. A carga térmica sente-se - pesada, omnipresente. A mais famosa fonte – a do Convento da Serra, agora transformado em hotel -, local de romagem onde os locais se iam abastecer da “melhor água do mundo” (a mesma que servia para fabricar os famosíssimos ‘pirolitos’), está condenada a um fio. Um triste, angustiante e sintomático fio de água. Mas a serra está «verde», dirão alguns. Sim, o verde é rei. As árvores estão lá. Mas a serra ficou confinada a praticamente duas espécies: pinheiros bravos e eucaliptos.

Com o tempo, tudo se perde. Pouco ou nada se transforma, para melhor. E a culpa vai morrendo solteira - perdida na memória dos locais e das suas gentes.

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