O MacGuffin

quarta-feira, junho 18, 2003

PERCEBER O QUE (NÃO) É A LIBERDADE

No Diário do Sul (jornal de Évora), o Prof. Carlos Zorrinho fez uma referência ao meu blog, citando a passagem de Isaiah Berlin inscrita aqui ao lado (“Liberty is liberty, not equality or fairness or justice or human happiness or a quiet conscience"). Segundo entendi, Carlos Zorrinho – que, desde logo, anuncia uma profunda diferença de opinião em relação à minha pessoa – não concorda com Berlin porque, para ele, a liberdade é precisamente aquilo que Berlin afirma não ser.

Convém explicar, ao meu caro ex-professor, o contexto daquela frase, incluída no “Four Essays on Liberty”. Para isso, nada melhor do que dar a palavra a Berlin:

“Liberty is liberty, not equality or fairness or justice or culture, or human happiness or a quite conscience. If the liberty of myself or my class or nation depends on the misery of a number of other human beings, the system which promotes this is unjust and immoral. But if I curtail or lose my freedom, in order to lessen the shame of such inequality, and do not thereby materially increase the individual liberty of others, an absolute loss of liberty occurs. This may be compensated for by a gain in justice or in happiness or in peace, but the loss remains, and it is a confusion of values to say that although my ‘liberal’, individual freedom may go by the board, some other kind of freedom – ‘social’ or ‘economic’ – is increased. Yet it remains true that the freedom of some must at times be curtailed to secure the freedom of others. Upon what principle should this be done? If freedom is a sacred, untouchable value, there can be no such principle. One or other of these conflicting rules or principles must, at any rate in practice, yield: not always for reasons which can be clearly stated, let alone generalized into rules or universals maxims. Still, a practical compromise hat to be found.”(1)

Junto à transcrição anterior, as palavras de Berlin sobre o tema, na entrevista dada a Ramin Jahanbegloo:

“(...) Negative liberty is twisted when I am told that liberty must be equal for the tiger and for the sheep, and that this cannot be avoided even if enables the former to eat the latter, if coercion by the state is not to be used. Of course unlimited liberty for capitalists destroys the liberty of the workers, unlimited liberty for factory-owners or parents will allow children to be employed in the coal-mines. Certainly the weak must be protected against the strong, and liberty to that extent must be curtailed. Negative liberty must be curtailed if positive liberty is to be sufficiently realized; there must be a balance between the two, about which no clear principles can be enunciated. Positive and negative liberty are both perfectly valid concepts, but it seems to me that historically more damage has been done by pseudo-positive than by pseudo-negative liberty in the modern world.”(2)

Parecem-me sábias, razoáveis, equilibradas as palavras de Isaiah Berlin. Sinceramente, não percebo como Carlos Zorrinho pode pensar de forma radicalmente diferente. O ponto é, até, bastante prosaico e pacífico (ou deveria ser): a liberdade, enquanto valor ou princípio abstracto, não pode ser confundida com outros conceitos e princípios, nem o seu alcance pode ser alvo de restrições, como moeda de troca para alcançar determinados objectivos - sob pena de subvertemos o seu valor e de, em seu nome (e a História ensina-nos que foi invocado quase sempre em vão), a perdermos de forma irreparável. A liberdade é um valor que é, deve ser, sagrado e intocável – e isto é sobretudo válido como princípio a encabeçar quaisquer tentativas para alcançar a justiça e a felicidade humanas.

(1) "Four Essays On Liberty", Oxford University Press

(2) "Conversations With Isaiah Berlin", Phoenix Press

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