O MacGuffin

segunda-feira, junho 23, 2003

OS MEUS LIVROS

Fim-de-semana de recolhimento. Por companhia? A grandeza da vontade, a nobreza do sofrimento e da dor, por Sófocles, em “Antígona” (releitura #2.354); a inconsistência da felicidade, por Philip Larkin, em “Collected Poems”; a nostalgia conservadora de Roger Scruton, em “England: an elegy”.

Sobre o livro de Scruton, falarei mais tarde. Sobre “Antígona” já escrevi, noutras ocasiões. Apenas um comentário sobre Larkin – sobre quem nunca escrevi e arrisco, agora, um breve texto.

A poesia de Philip Larkin – rigorosa, austera, implacável, diria mesmo «reaccionária» – contínua a representar uma espécie de ‘back to basics’ com direito a ‘punch’ e ressaca. Percorrida por um contínuo e melancólico lirismo encantatório, por vezes insuportavelmente amargo, a sua obra parece funcionar como câmara de descompressão, relativamente ao nosso ordinário limbo existencial - saturado de embriaguez, volúpia e volubilidade. Câmara essa na qual, é bom que se diga, os seus indefectíveis leitores parecem sempre dispostos a entrar, como se nos fosse próxima e familiar essa descida - não ao inferno, mas à vida, tal qual ela é. Impressiona a forma como, do belo, Larkin descobre um irresistível lado ‘sad & bitter’, a fazer lembrar a canção de David Byrne: “Would you like to be said?/ Would you like me to teach you?/ Well, you can learn to be sad/ but you must practice like I do”. Leia-se “High Windows” e perceber-se-á o que quero dizer.

Certo é que a desolação e o desespero em Larkin, de tão pessoais e sentidos, tornaram-se universais. “Deprivation for me is what daffodils were for Wordsworth”, disse uma vez o poeta. Há, nas suas palavras tristes e poeticamente dolorosas, uma universalidade que nos convoca, embora não nos redima. Por exemplo, o medo da morte é o nosso medo – embora insistamos em soterrá-lo quotidianamente. Tal como em Beckett, a obra de Larkin (infelizmente escassa) transmite-nos a cristalina mas cruel sensação de quão frágil e absurda é a vida humana. E de como, sem nos darmos conta, por entre o progresso técnico, a modernidade e a urgência da perfeição, trilhámos, algures no tempo, o caminho da decadência.

”Life is first boredom, then fear.
Whether or not we use it, it goes,
And leaves what something hidden from us chose,
And age, and then the only end of age.”


Ou, como escreveu Beckett, “Enquanto há vida, há desespero”.

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