O MacGuffin: Dois em um: a nódoa e a bela

sábado, novembro 15, 2008

Dois em um: a nódoa e a bela

As últimas semanas têm sido certamente fecundas em boas antíteses retóricas. O assunto é o já conhecido problema do «Ensino», acompanhado da também clássica confusão dada à luz pela partes envolvidas que, camada sobre camada, se vai acumulando até à formação de uma compacta e palavrosa argamassa de argumentos contraditórios, difusos e, na maior parte dos casos, completamente à margem do que realmente importa observar, discutir e concluir. Convinha, por cima de toda a berraria envolvente, e descontando a provável arrogância deste gesto, alcançar o mínimo dos discernimentos.

Em primeiro lugar, é bom que se perceba uma coisa: a política de educação do actual governo está centrada num único e solitário objectivo: melhorar, por via administrativa, o índice de aproveitamento escolar e o ranking português no que respeita à média de notas dos alunos no contexto da OCDE/UE. Só. Apenas. Rigorosamente mais nada. A prova de que as coisas são assim está à vista de todos e só não vê quem estiver cego ou partilhar a obtusidade mental do Sr. Valter Lemos e da Sra. D.ª Margarida Moreira (a ministra aparenta ser bem mais inteligente embora sofra de uma espécie obstinação patológica, própria de quem pensa que veio à Terra com um qualquer desígnio místico e salvador). A doutrina e prática deste sinistro ministério da educação baseia-se na seguinte premissa ou, se quiserem, no seguinte ponto de partida: nenhum aluno pode (não é «deve», é «pode») ser excluído do ensino até ao 3.º Ciclo (inclusive). Os alunos não podem deixar de frequentar a escola – ou, como diria poeticamente o Sr. Valter Lemos, a escola não pode abandonar as crianças. Sob pena de adoecerem fisicamente? De empobrecerem espiritualmente? De não medrarem profissionalmente? Não: sob pena de piorarem as estatísticas. Os alunos podem, eventualmente, ficar «retidos» (eufemismo para «chumbados») mas só no caso de falharem, por infinitésima probabilidade, os mecanismos dissuasores e de bloqueio de que o ministério dispõe contra cataclismos desta natureza (incluí-se a chantagem e o controlo detractor que as direcções regionais exercem sobre as próprias escolas). Ainda assim, se essa calamidade se verificar, o aluno deve ser alvo de acompanhamento especial, como se fosse portador de doença infecto-contagiosa capaz de contaminar as estatísticas. O objectivo: recolocá-lo no caminho da verdade – nem mais, nem menos, do que o caminho por onde circulam os rebanhos dos que têm aproveitamento escolar (não interessa em que condições) e com isso concorrem para a cosmética do sucesso.

Decorre, do exposto, que tudo – literalmente tudo – deve ser encabeçado por esta orientação. O vergonhoso e abjecto abaixamento do nível de exigência e dificuldade dos exames (o recente caso da Matemática é disso um paradigma) faz parte dessa estratégia. O sistema de avaliação proposto pelo ministério – um inacreditável sistema metodologicamente cretino e burocraticamente cómico – mais não é do que uma forma de obrigar os professores e as escolas a orientar o ensino no sentido do sucesso à força. Entendamo-nos: um sistema de avaliação de professores que tem por base (ou pelo menos como um dos pilares) as notas dos alunos, a taxa de reprovação e os «desvios» verificados relativamente aos «objectivos» propostos no início do ano, mais não é do que um sistema que pretende impor à força o sucesso escolar, e que redunda num Catch-22: se o professor quantificar como objectivo, ou colocar como mera hipótese, a reprovação de alunos que, em seu entender, não se encontrem preparados para passar de ano (até para se defender face a eventuais desvios no final do ano lectivo), manchará indelevelmente o seu «documento»; se não o fizer e chumbar alguns alunos, estará lá o desvio face aos «objectivos» a prejudicar a sua própria avaliação. Independentemente de haver professores ou sindicatos, em quantidade ou percentagem incerta, cujos protestos contra «este» sistema de avaliação escondem a vontade de nunca virem a ser avaliados, lutar contra este sistema de avaliação e contra a doutrina estalinista subjacente às actuais políticas de educação, é um imperativo de ordem moral.

Tal como nos números do desemprego, este governo transfigurou o ministério da educação numa máquina de «encher chouriços». Se a expressão for demasiado pimba e inescrutável para os vossos cândidos e sensíveis intelectos, direi apenas que, no Ensino Público em Portugal, palavras como «qualidade», «exigência», «responsabilidade» e «disciplina» foram «excluídas» da função «ensinar» - ela própria uma função secundária e esquecida, algures entre os corredores do ministério e os gabinetes do Sr. Valter Lemos e da Sra. D.ª Margarida Moreira.


Esta mulher é muito bonita

1 Comentários:

Blogger LF disse...

Assino por baixo.
Só não concordo é com a foto.
Uma foto dessas depois de se acabar de falar em Valter Lemos e Margarida Moreira, parece-me totalmente desadequada.

11:32 da manhã  

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