O MacGuffin: Bonjour Tristesse

sábado, novembro 15, 2008

Bonjour Tristesse


Would you like to be sad?
Would you like me to teach you?
Well, you can learn to be sad
But you must practice like I do

You must follow directions
And learn it right from the start
There isn't a short cut
It must come from your heart

Well there are those who are happy
And there are those who are wise
But it's the truly sad people
Who get the most out of life”


Sad Song – David Byrne

”Estou disposto a aceitar que a tristeza é um instrumento de crescimento intelectual, ético e moral injustamente desprezado”

Estás disposto? Não devias. Arrisco opinião desinteressante sobre tema distinto, começando por dizer uma banalidade: um dos pilares de toda criação e evolução literária, artística e filosófica dos últimos dois séculos (XIX e XX, para não recuar mais no tempo) assentou num longo e (ok, concedo) intermitente pacto com o pathos que a condição humana – as suas misérias, fifias, falências, excessos e crueldades – proporcionou. A tristeza – e para os devidos efeitos considere-se «tristeza» como o estado de quem está triste (simples, não é?) - foi sempre uma espécie de concubina no leito criativo de poetas, prosadores, pensadores, músicos, humoristas, vagabundos e varredores de rua. Tennyson e Byron prestaram-lhe devoção. Keats arriscou uma Ode to Melancholy. O nosso Cesário Verde sorveu-a como ópio. Pessoa idem. Larkin reconheceu-a e expô-la à sua normalidade quotidiana. Camus, Plath, Akhmatova, Beckett, Cioran... Os exemplos levar-me-iam a não fazer mais nada este fim-de-semana (e eu tenho uma casa para limpar). O século XX, por exemplo, foi um século em que a colheita de barbaridades e abjecções humanas mandou às malvas a mais leve esperança de correlação entre a produção humana (comportamental e moral) e a putativa evolução civilizacional. Resultado: produziram-se belíssimas mas terríveis obras sob a égide da tristeza, da melancolia, da angustia, da consternação. A tristeza tem sido, e continua a ser, um valorizado e reconhecido instrumento de crescimento e produção intelectual, moral e ético. Para além de que, lets face it: a tristeza e a melancolia encerram em si uma espécie de chamamento catártico que, em condições ideais, confere clarividência e recentra a nossa postura face à vida tal qual ela é.

O humor tem vindo a ganhar espaço? Em contraponto à tristeza ou ao estado de melancolia? Duplamente não. Não é uma questão de ganhar espaço. Há uma espécie de «complementaridade» (depois falamos de exemplos práticos de «complementaridade») entre humor e tristeza - mais do que isso: miscigenação (eu sempre quis empregar esta expressão). Existem práticas humorísticas baseadas na tristeza e na miséria humanas, assim como se reconhecem laivos de humor lancinante e comicidade quase perversa em obras profundamente marcadas pela tristeza, pela alienação e pela desolação (Beckett é um bom exemplo). Agora, com toda a franqueza, não sei se era sobre isto que falavam. Peço desculpa.

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