O MacGuffin: Excelentíssimos

quarta-feira, março 16, 2005

Excelentíssimos

No país dos jaquinzinhos, assiste-se a um fenómeno curioso: a horda de jornalistas da praxe insiste em perseguir as eminências pardas da paróquia - como se de luminárias se tratassem – com o intuito de escutar ou aceder à Palavra. Sem se saber muito bem porquê, embora esteja à vista como, há quem acredite piamente que gente do mais alto gabarito cósmico – como Soares e Cavaco – continua a ter muita coisa interessante e útil a dizer aos que, lá em baixo, dão corpo ao deboche da plebe e, obviamente, parecem sempre disponíveis para se prostrar humildemente frente aos altares de onde os eminentes balbuciam frases de salve rainha. A sério: é para mim um mistério. Aquilo que, por estes dias, o Dr. Soares, o Prof. Cavaco ou o Eng. Guterres nos têm para dizer equivale ao que o intelectual Gil nos tinha para dizer no seu magnificente opúsculo, agora presença preferencial nos melhores lares portugueses: banalidades atrás de trivialidades, seguidas, por sua vez, de vulgaridades. Eu percebo que, na maior parte dos casos, as redacções das têvês e dos jornais tenham de atribuir aos meninos estagiários algum trabalho de campo. Afinal de contas, esta gente acabou de sair dos seus cursos de jornalismo e está mortinha para revelar ao mundo a sua indigente preparação e a acidental estupidez que por vezes revelam, tipo janelinha popup. Mas devia haver limites. Em prol de todos, aliás. Eu quero acreditar que a família e os amigos dos eminentes não devem olhar com bons olhos estes espasmos palanfrórios, os tabus da praxe, as expressões ora graves ora blasés de quem parece saber de tudo um pouco.

Pensando melhor, o melhor mesmo é não acreditar em nada. No fundo, o circo alimenta-se de figurantes e passarões.

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