O MacGuffin: Disfuncionalismo público

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Disfuncionalismo público

1. Repartição de finanças, sexta-feira passada. Seis secretárias dispostas em “u”, mais duas ao lado (se não me falham as contas, oito no total), para atendimento dos contribuintes. O placard luminoso à minha frente, com o “Número 138” e a “Mesa 4”, indica-me que tenho de tirar senha. Tiro a senha. Sai-me o número “124”. Antes de entrar já tinha perdido a vez. Sentadas, à minha frente, duas pessoas estavam a ser atendidas. Uma outra aguardava a sua vez, de pé. Como ninguém cantou “bingo”, dirijo-me a um dos cinco funcionários presentes (três secretárias estavam vazias) e pergunto se é preciso tirar senha. “Se quiser pode tirar mas nós não estamos a chamar pelo número mas sim pela ordem de chegada.” Ainda tentei responder com um “não é a mesma coisa?” mas temi pela resposta. Volto ao meu lugar, acabrunhado. Pergunto à minha companheira de fila porque razão não avança. Pois que não, que lhe disseram para se deixar estar quietinha uma vez que apenas dois dos cinco funcionários estavam em funções de atendimento. Entretive-me a ver o que faziam os outros. Um rasgava ao meio folhas A3 com a ajuda de uma régua, régua esta que, já sobre o formato A4, o ajudava a riscar umas linhas paralelas e outras perpendiculares. Um quadro, pensei. O engenho humano em todo o seu esplendor. Outro retirava com dedicada minúcia primatas do nariz enquanto olhava esbugalhadamente para o monitor do pc. O terceiro auxiliava uma das «colegas» atendedoras nas explicações a um pobre e certamente estúpido contribuinte. Passaram dez minutos. Nada mudou naquela sala. A sensação de tempo suspenso. Entram mais duas pessoas. Uma tira senha, outra não. A que não tira senha dirige-se ao homem dos primatas. “Ah, olá e tal”. Amigos de longa data. Ouve-se, ainda, um “vamos já ver isso”. O homem dos trabalhos manuais atende, entretanto, o telemóvel. "Sim, eu passo pelo supermercado assim que daqui sair". Um dos atendedores de serviço fica livre. A minha colega contribuinte avança. “É só um bocadinho” diz-lhe o funcionário. Sai da sala. Cinco minutos depois regressa com um copo de plástico numa das mãos e um pacotinho de açúcar na outra. Está visivelmente feliz. Magnânimo, dá então inicio ao atendimento. O terceiro elemento, que auxiliava a «colega», passa a outra função: remexer papéis. O homem dos trabalhos manuais ausenta-se da sala. Chega, finalmente, a minha vez. Expliquei ao que ia. A senhora não se convenceu: “Mas quem é que o mandou cá tratar disto?”. Explico que tinha sido um colega dela, de outra «secção». Nitidamente contrariada, debruça-se sobre o assunto, não sem antes assoprar. Uma maçada, aquela função. Passados uns minutos, o meu assunto está praticamente resolvido. Os olhos brilham-me. “Agora vá à tesouraria e depois de pagar traga o papel”. Dirijo-me à Tesouraria. O homem dos trabalhos manuais discute futebol com um colega. Enquanto espero (+ 5 minutos) o homem dos trabalhos manuais sai. Pago o que tenho a pagar. Aproveito para saber do paradeiro de um cartão de contribuinte solicitado há mais de um ano. Por sugestão do homem da tesouraria, dirijo-me à «senhora que trata dos cartões». “Não recebeu nada em casa?!”, exclama, surpresa, a senhora dos cartões. Digita o meu número de contribuinte no pc e informa-me que não «consta» nenhum pedido no «sistema». Explico que tenho comigo um papel que prova que fiz o pedido. “Ah, isso foi há mais de um ano, não foi? E foi lá em baixo na Direcção de Finanças, não foi? Pois, é que entretanto o «sistema» mudou. Os pedidos são agora feitos aqui. Provavelmente o seu pedido perdeu-se”. Provavelmente. Claro. Decido fazer novo pedido. “Pague na tesouraria, se faz favor. Depois traga o papel”. De volta à tesouraria, quatro funcionários exercitam amena cavaqueira. Apenas um ocupado. Depois de pagar, entrego o papel à senhora dos cartões, regresso ao poiso inicial, e vejo que o homem dos trabalhos manuais está de regresso e tira, agora, fotocópias. O terceiro ainda remexe papeis, de uma forma, diria, «eficaz». Enquanto espero para entregar um papel e levantar outro, o homem dos trabalhos manuais entretém-se a dobrar as folhas fotocopiadas (formato A3). O resultado final assemelha-se vagamente a umas pastinhas para guardar processos. O engenho e a arte, novamente. O homem dos primatas desapareceu. Entrego, finalmente, o papel. Entregam-me, finalmente, um papel. Passados 45 minutos sou um homem livre.

2. A escola (Básica) da minha filha tem quatro salas de aula. A cada sala correspondem cerca de vinte alunos. Significa isto que se encontram permanentemente na escola, em média, cerca de oitenta alunos. Segunda a lei, a escola tem direito a apenas um «auxiliar de acção educativa» (vulgo «contínuo»). O critério é o número de salas. O número de alunos é irrelevante. A solitária auxiliar deve, portanto, atender o telefone, auxiliar as professoras, limpar as salas de aula, distribuir o lanche, besuntar acidentais arranhões com Betadine, colocar lenha nas salamandras e, agora, face à preocupação manifestada pelos pais sobre a falta de segurança na escola (registada em carta entregue em mão na sede do Agrupamento), deve também zelar pela segurança dos alunos e controlar as entradas e saídas da escola, nas chamadas "horas de ponta", precisamente nos minutos em que supostamente deveria estar a limpar duas das salas que aguardam a turma da tarde. Soube-se, entretanto, que essa auxiliar vai «meter baixa» (termo heróico) para auxiliar, por sua vez, o filho que vai ser sujeito a intervenção cirúrgica. A escola está na iminência de ficar sem a única auxiliar por tempo indeterminado. Ninguém, ainda, no Agrupamento e na Direcção Regional pensou no assunto ou comunicou o que quer que seja. Pode sempre fechar-se a escola.

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