O MacGuffin: Uma «farsa»

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Uma «farsa»

Daniel Oliveirawho else? – abriu a boca e decretou, com aquele semblante de ser repleto: “Uma farsa! As eleições no Iraque são uma farsa!”. Isto garantia-nos o ciente Daniel na sexta-feira passada, aquando da gravação do programa O Eixo do Mal (maradona, aponta aí). “Está-se mesmo a ver o que vai acontecer”, exclamavam outros que não em Carnaxide. Muitos foram os que secretamente desejaram – que digo eu!!! – ansiaram – ai! – cobiçaram – oops! - redigiram – agora está melhor – a crónica de uma farsa mais que anunciada. Afinal de contas, o país não tinha «tradição» democrática. Afinal de contas, por sofrerem há mais de um ano as bárbaras vicissitudes de uma tentativa mendaz e absurda de instaurar um regime democrático «à força», os iraquianos voltariam as costas ao exercício. Afinal de contas, como toda a gente sabe e a imprensa «séria» repete há meses, os terroristas no Iraque são mais que as mães (há quem assegure que todo o Iraque é hoje um enorme campo de treino para sunitas ressabiados, entes de Bin Laden e camaradas de Al Zarqawi). Afinal de contas, asseguravam os «especialistas», da mesma forma que já todo o iraquiano tinha percebido que tinha sido um erro trocar Saddam por Bush (volta avôzinho, está perdoado), ninguém estaria na disposição de trocar um dia caseiro, ao som de morteiros e dinamite a pipocar, por uma bala no peito ou no meio dos olhos a caminho de uma assembleia de voto. É claro que algumas televisões ocidentais fariam o favor de filmar meia-dúzia de iraquianos – provavelmente falsos ou drogados para o efeito – a caminho das urnas. Mas nada disso seria suficiente para contrariar o óbvio: as eleições no Iraque seriam uma farsa.

Parece-me, agora, claríssimo que as eleições foram um sucesso. Não, a sério: um estrondoso sucesso, mesmo levando em linha de conta os atentados e as mortes que se registaram. Sobretudo levando em consideração todos esses «condicionalismos»: a violência, a morte, as ameaças. Impressionou-me saber que a esmagadora maioria dos iraquianos venceu o medo, ergueu a cabeça, conquistou a dignidade perdida e decidiu escolher. Contra os terroristas no terreno, contra a vizinhança «amiga», contra os cínicos e desdenhosos que, a ocidente, os viam cobardes e toscos demais para perceber o espírito da «coisa».

É claro que estas linhas não passam de ingenuidade, própria de quem foi borrifado por fragmentos de positivismo que não permitem o mergulho clarificador no âmago da questão, na essência dos acontecimentos. É claro que, dentro de dias, ou de horas, a generalidade dos escribas do Barnabé ou do Blog de Esquerda irão dissecar as eleições e ensinar aos que, como eu, bestilizados num gozo de nababo, ainda não perceberam que tudo não passou de uma enorme «farsa» (sim, o termo é sonante e não convêm que se perca), já que o terrorismo vai continuar, já que o forte aparato de segurança foi um claro indício de que no Iraque a democracia ainda está longe, já que os xiitas vêm aí e tudo vai, por isso, acabar mal. Muito mal. Eu sei que sou assim: uma inefável besta.

PS: Longe de mim pôr em causa as contas de merceeiro do Daniel (aqui), mas gostaria muito que ele explicasse ao auditório qual a metodologia empregue para estimar que, dos 27 milhões de iraquianos, 75% são adultos. A sério. Por uma razão: se a percentagem for menor – é claramente menor - as contas do Daniel saem furadas.


(foto: The New York Times)

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