O MacGuffin: HELENA MATOS

segunda-feira, novembro 08, 2004

HELENA MATOS

Na Escolinha do Pensamento Único
Por HELENA MATOS
Sábado, 06 de Novembro de 2004
"Na vitória de Bush existem dados que de modo algum podem ser ignorados e um deles é a derrota do unanimismo. Do pensamento único. Do politicamente correcto. Ou de como se quiser chamar a essa arrogância que tem levado milhões de almas a considerarem que apenas os estúpidos, os ignorantes, os intelectualmente intoxicados e, claro, os que representam obscurantissimos interesses discordam das suas teses. Aliás uma das características do pensamento único é essa estruturação em função do inimigo externo. É a esse inimigo que dedicam grande parte dos seus discursos, subestimando um programa político. Nazis, fascistas e comunistas, expoentes ideológicos do pensamento único, são disso um bom exemplo. Ironicamente é pela sua relação com os inimigos que acabaram a ser julgados na posteridade: os campos de extermínio, a tortura, as execuções sumárias - ou seja as formas a que recorreram para se desembaraçarem dos inferiores - sobrepõem-se àquilo que fizeram ou se propuseram fazer com aqueles que os apoiavam.

Nas democracias, os continuadores desta gente de convicções sólidas sobre o QI e o carácter dos outros, são os zelosos arautos do politicamente correcto. E estes arautos instituíram Bush como o inimigo. Logo ao mesmo tempo que o depreciavam intelectualmente, apresentavam-no como isolado do mundo da cultura. Listas de cantores, realizadores de cinema, jornalistas, escritores... foram-se declarando anti-Bush e essa tomada de posição era apresentada como um acto de resistência pese ser absolutamente consensual no mundo de que provinham essas pessoas. O aval dos intelectuais e dos artistas a determinados líderes e a sua rejeição a outros funciona não apenas em termos obvia e directamente mediáticos mas também de forma muito mais profunda apelando a que haja uma identificação entre o líder apoiado e a inteligência. O líder rejeitado, antes pelo contrário, é apresentado como anti-cultura, anti-inteligência. No mundo do pensamento único está instituído que Bush é estúpido pois Michael Moore - tão culto e que tem tido tantos prémios de cinema - provou que ele é estúpido. Faz tanto sentido acreditar na estupidez de Bush a partir dos filmes de Michael Moore quanto presumir que os alemães eram uma raça superior após visionar os documentários de Leni Riefenstahl, mas uma das características do pensamento único é precisamente o conseguir renovar constantemente os objectos dos seus ódios e paixões, sem nunca questionar a sua disponibilidade para acreditar naquilo que quer e precisa que seja provado.

Bush será provavelmente tão ignorante e estúpido quanto Jimmy Carter. Exactamente esse que foi presidente dos EUA e que os europeus transfomaram dum produtor de amendoins incapaz de perceber o mundo num misto da bondade da Madre Teresa de Calcutá e da inteligência de Albert Einstein, desde que declarou que o escrutínio na Flórida podia não ser fiável. Mas esse mesmo ex-presidente norte-americano, quando estava na Casa Branca chamou com carácter de urgência, o físico Fran Press. Porquê? Carter tinha lido num jornal "Do Sol chegam menos neutrões do que se esperava". O conselheiro científico confrontou-se com um alarmado Carter que lhe perguntou "O que podemos fazer, Press?" Será esta história de pacotilha verdadeira? Não faço ideia mas é do mais elementar bom senso não se avaliar por este episódio a cultura de Carter, sendo que me parece absolutamente normal que Carter tenha reagido como reagiu. Mas quantas pequenas histórias como esta temos ouvido com o propósito de corroborarem esse dogma inquestionável que é a estupidez de Bush?

A este subestimar constante dos adversários - note-se que nunca se subestima a sua força, antes se exagera porque o pensamento único precisa de inimigos apenas se subestimam as suas capacidades intelectuais e o seu perfil moral - junta-se o culto dos líderes do pensameto único. Os baús da História estão cheios de fotografias retocadas, biografias amputadas ou pura e simplesmente inventadas. (A quem quiser contemplar este exercício numa versão praticamente extinta recomendo o site da Coreia do Norte http://www.korea-dpr.com ou o jornal cubano Granma na sua versão digital http://www.granma.cu ). Na versão mais corrente e próxima temos já não a criação de personalidades exemplares de Chefes, Queridos Líderes, Grandes Timoneiros, Generalíssimos... mas sim títulos como "John Kerry, aristocrate de gauche" ( jornal "Le Monde" de 26 de Julho) que revelam não só um profundo desconhecimento quer do programa quer da biografia de John Kerry como uma enorme e inquietante disponibilidade para sobrevalorizar um homem, no caso Kerry, em detrimento de outro, no caso Bush.

Independentemente do candidato que se tenha apoiado, as eleições norte-americanas acabaram por ilustrar a cegueira a que conduzem os consensos inquestionáveis e os unanimismos. Contudo no nosso dia a dia, eles estão aí, às vezes tão absurdamente evidentes que já não nos espantam nem indignam. Veja-se, por exemplo, a forma como, esta semana, foi relatado o assassínio do realizador Theo van Gogh: "O realizador holandês da curta-metragem Submissão, Theo van Gogh, foi ontem assassinado, em pleno dia numa rua de Amesterdão. O controverso cineasta acabara de realizar um filme sobre o assassínio do político populista e de ultradireita Pim Fortuyn, morto em Maio de 2002. O suspeito, de 26 anos, foi descrito como tendo barba comprida e estar vestido como um muçulmano." Ou seja, segundo esta notícia do jornal "A Capital", igual nos seus preconceitos a tantas outras que relataram esta morte, o assassino é o único que tem direito a um tratamento isento: apesar de estar vestido como muçulmano e de mais à frente se ter acrescentado que possuía nacionalidade marroquina ninguém o adjectiva de nada. Não é controverso, não é fundamentalista islâmico, não é racista, não é anti-ocidental.

Imaginemos que Theo van Gogh em vez de fazer um filme sobre a violência a que o Islão submete as mulheres ou sobre o "político populista e de ultradireita Pim Fortuyn" tinha optado por tratar a vida de Chico Mendes, o líder dos seringueiros brasileiros assassinado em 1988 e que o homem que o matara tinha nacionalidade brasileira. Então esta notícia seria mais ou menos assim: "O cineasta conhecido pelas suas corajosas posições de apoio à luta dos povos da Amazónia acabara de realizar um filme sobre o assassínio do carismático líder seringueiro Chico Mendes, barbaramente assassinado no final de 1988 por homens a soldo dos grandes fazendeiros do estado do Acre. A possível ligação do assassino de Theo van Gogh aos responsáveis pela morte de Chico Mendes parece ser inevitável." Como Theo Van Gogh não escolheu os temas certos é um assassinado "controverso".

Moral da História: no pensamento único nada se perde, tudo se transforma."

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