O MacGuffin: UMA LIÇÃO AMERICANA

sexta-feira, novembro 05, 2004

UMA LIÇÃO AMERICANA

”[T]he story of America is essentially one of difficulties being overcome by intelligence and skill, by faith and strength of purpose, by courage and persistence. America today, with its 260 million people, its splendid cities, its vast wealth, and its unrivalled power, is a human achievement without parallel. That achievement – the transformation of a mostly uninhabited wilderness into the supreme national artifact of history – did not come about without heroic sacrifice and great sufferings stoically endured, many costly failures, huge disappointments, defeats, and tragedies. There have indeed been many setbacks in 400 years of America history. As we have seen, many unresolved problems, some daunting size, remain. But the Americans are, above all, a problem-solving people. They do not believe that anything in this world is beyond human capacity to soar to and dominate. They will not give up. Full of essential goodwill to each other and to all, confident in their inherent decency and their democratic skills, they will attack again an again the ills in their society, until they are overcome or at least substantially redressed. So the ship of states sales on, and mankind still continues to watch its progress, with wonder and amazement and sometimes apprehension, as it moves into the unknown waters of the 21st century and the third millennium. The great American republican experiment is still the cynosure of the world’s eyes. It is still the first, best hope for the human race. Looking back on its past, and forward to its future, the auguries are that it will not disappoint an expectant humanity.” PAUL JOHNSON, in A History of the American People (Phoenix Press, 2000)

Contra a «vontade do mundo» e as «revoluções psicológicas» apregoadas pelo Dr. Soares; contra a jactância europeia (que exigia a eleição de Kerry e não evitou enviar um grupo de observadores a terras americanas, como se aquelas eleições fossem no Kazaquistão); contra a sobranceria dos que, durante quatro anos, fizeram do seu presidente um «idiota» chapado; contra o vaticínio contido no já famosíssimo “Eles mentem, eles perdem”; contra a «paz» e os «apaziguamentos»; contra tudo e contra todos, os americanos escolheram, de forma livre e em consciência. E escolheram George W. Bush, o Tirano. Estiveram, é bom dizê-lo, positivamente cagando para os editorais à la Osório, para a posição da intelligentsia francesa sobre o assunto, para as Cassandras que pululam na abnegada e nobre Europa, para a difusa opinião pública mundial. Uns chamar-lhe-ão arrogância, irresponsabilidade, burrice. Eu chamar-lhe-ei liberdade, independência, frontalidade.

As reacções – quase sempre em registo apocalíptico - não se fizeram esperar. Umas mais audíveis e aveludadas (“O medo venceu a esperança” declarava o Eng. Ângelo Correia), outras à boca pequena e mais crispadas (“os americanos provaram que são estúpidos”), de tudo se tem ouvido e lido. E, no meio do pavoneamento dos «especialistas», uma coisa fica bem clara: todos fizeram questão de revelar a sua endémica incompreensão sobre o que são os EUA.

Não era, aliás, de esperar outra coisa. Estamos a falar de gente que já esqueceu o que não sofreu, de gente que tende a aplaudir o «sacudir a água do capote», de gente que, se pudesse, colocava tudo como dantes, na lodosa, doentia mas «legal» ordem mundial pré-11 de Setembro. Nunca, obviamente, perceberão o que foi o 11 de Setembro e nunca vislumbrarão o seu verdadeiro impacto na consciência de um povo. Nunca perceberão de que estirpe e grandeza se pode revelar o sentimento de união de um povo em torno do seu commander-in-chief, sobretudo em tempos difíceis e incertos. Foi Vaclav Klaus, o presidente checo, que o disse: ”Em tempos difíceis, Bush provou ser um verdadeiro líder do seu país e os eleitores americanos mostraram o seu reconhecimento”. Quem não perceber isto dificilmente perceberá o que é ser norte-americano.

A ferida 11/9 continua aberta e não sarará sem deixar marcas. Para a maioria dos americanos, os EUA estão em guerra – uma guerra que não pediram mas para a qual foram empurrados. Neste contexto, nunca encaixará na mentalidade americana optar-se pela tibieza e pelas meia-tintas, pela hesitação e por pedinchar «compreensão» e «ajuda», sobretudo a quem fez e faz questão de se anunciar moralmente superior. Perante um ataque sem precedentes na história daquele país, continua a ser claro para a maioria do povo americano que não há melhor defesa do que o ataque. A determinação dos americanos, na adopção de uma atitude pró-activa e não contemplativa face aos desafios e aos problemas, será sempre contrária à gaguez, à indeterminação e à incoerência tantas vezes revelada por John Kerry.

Para um povo que sofreu no seu próprio solo a barbárie da estupidez, do fundamentalismo assassino e da intolerância religiosa e cultural, este não é um tempo de condescendência, de «apaziguamento». Muito menos de desistência. Mais do que nunca, os americanos sabem que dependem deles próprios e de mais ninguém. Não é de admirar que tenham excluído da presidência um homem que prometia arrepiar caminho, que prometia «diálogo» e «concertação» com quem, no passado, os tinha acusado de «unilateralismo» e os tinha remetido para a categoria de bárbaros e mentirosos. Não é de admirar que tenham votado em quem apoiava inequivocamente os seus homens no terreno, em quem fez sempre questão de lembrar que aquela era uma guerra justa, que valia e vale a pena travar.

Os americanos são um problem-solving people. Recusam-se a acreditar que existem coisas no mundo que escapam à capacidade, à vontade e ao engenho humanos – apesar de, lá no fundo, saberem que sim. É essa tenacidade que os leva a não abrir mão do que acreditam ser melhor para eles e para o mundo, e que os conduz a lutar e a defender acerrimamente os seus ideais - que são, foram, ou deviam ser os nossos. Nos EUA, expressões como «Mundo Livre», «Liberdade» e «o Bem contra o Mal» conseguem passar pelo crivo do cinismo e da hipocrisia, alcançando com igual sentido e força o common man, o intelectual, o académico ou o político - ao contrário do que acontece na sofisticada Europa.

Há quem se assuste com a carga de fé e perseverança presente num saloio texano de olhar símio, que para o bem e para o mal vai continuar sentado na cadeira do poder da mais poderosa nação à face da Terra. É essa, precisamente, a diferença: os americanos estarão sempre próximos de quem transmitir força e determinação, de quem recusar parar para ver as vistas ou desistir para evitar canseiras, seja qual for o grau de sofisticação e o estilo adoptado. Os americanos estarão sempre ao lado de quem não hesita quando se trata de defender os valores do tal «mundo livre» - a tolerância, a liberdade de expressão e de culto, o respeito pela vida e dignidade humanas - contra a campanha fundamentalista que pretende condicionar politicamente as democracias ocidentais e o quotidiano das suas gentes, mesmo que no passado eles próprios tenham perpetrado injustiças ou tenham cometido, pela sua acção ou inacção, erros mais ou menos graves (e estou a lembrar-me, hoje, de Guantanamo).

Para quem tende a desvalorizar e a menosprezar estas ameaças; para quem pensa que tudo não passa de um conjunto de receios totalmente infundados; para quem acha que o 11/9 foi um incidente isolado, longínquo, dirigido a quem há muito estava a pedir uma carga de poetic justice - nada disto faz sentido. Mas foi por a maioria dos americanos pensar de maneira diferente que Kerry perdeu. Once in motion, the job has to be done, pensaram eles. E, provavelmente, não pensaram mal.

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