O MacGuffin: SIM, MAS... - II

terça-feira, setembro 28, 2004

SIM, MAS... - II

Diz o Bruno que ”perante a onda de excitação mediática, as pessoas dizem e defendem coisas que não se coadunam com os princípios básicos de uma sociedade equilibrada. Poderá não ser uma questão de ideologia. Mas é preocupante.” Que é feio, é. Que põe a nu a hipocrisia de muitos, põe. Que é contrário à ideia de justiça num Estado de direito, também. Mas não sei se é assim tão preocupante ou grave. Quanto muito é sintomático, remetendo a questão para a evolução social e política de Portugal, nos últimos cinquenta anos. De resto, caro Bruno, concordo com a tua crítica à «rua» e ao «bom povo».

Mas foi a utilização da expressão «extrema-direita» que me despertou a atenção (e não propriamente no caso do Bruno). Sobre o assunto, o leitor Carlos Conceição enviou-me a seguinte missiva:

A leitura de THE RELATION BETWEEN THE ASS AND THE PANTS fez-me lembrar o caso dessa «venerável» actriz que dá pelo nome de Lídia Franco, quando instada a manifestar as suas «ideias políticas»: “Considero-me uma boa pessoa, por isso acho que sou de esquerda!", afirmou, convicta, à «magnífica» publicação que é a Nova Gente...
Acontece que pouco tempo depois, após uma mediática tentativa de violação (!), esta boa pessoa apressou-se a defender um verdadeiro Estado Policial... A avaliar pela «coerência» dela e dos «seus» (as boas pessoas), seria este Estado Policial de Extrema-Esquerda ou de Extrema-Direita?


A expressão «extrema-direita» é hoje utilizada por 'dá cá aquela palha'. Do Dr. Ferro ao Dr. Louçã, passando pelo comum dos mortais, a facilidade e a ligeireza com que se utiliza esse epíteto, reflecte não só e invariavelmente a falta de argumentação de quem usa e abusa da dita expressão, mas sobretudo a falta de rigor (é utilizada sem qualquer tipo de aplicação de facto) e a perigosa banalização de certas palavras e expressões. Afinal, do que é que falamos quando falamos de «extrema-direita»? Desde logo, de algo que não pode ser evocado levianamente. As palavras são importantes e "quando perdermos o respeito pelas palavras, perdemos tudo", escreveu um dia João Pereira Coutinho.

Por outro lado, não deixa de ser curioso como a Direita, na sua variante «extrema» (e por vezes, tão só, na sua vertente soft), aparece colada a coisas terríveis, nefastas e violentas, enquanto que a esquerda, também na variante «extrema», parece sempre escapar incólume a tais infortúnios, como se se tratasse de um ramo irreverente e levemente escabroso da ideologia das «boas pessoas». Quando o assunto é «radicalismo, extremismo e violência», os olhares voltam-se para a direita. A esquerda acaba quase sempre esquecida, benevolente e prazenteiramente. Não que a extrema-direita não seja nefasta ou perigosa. É que, em matéria de extremismos, a esquerda e a direita tocam-se libidinosamente.

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