O MacGuffin

terça-feira, outubro 14, 2003

SOBRE A DRA. ANA GOMES
A propósito da minha posta sobre a Dra. Ana Gomes (a quem eu apelidei, com um sorriso nos lábios, de La Passionara), André Bonito escreveu-me:

”Ai que feio o post " Dr.isto dr.aquilo mandem calar a passionara " (suponho
Ana Gomes).
O verniz pseudo democrático começa a estalar... E também mandarás calar a Time, o The New York Times, o Le Point, o Euro Notícias, a Sky, a SIC, a TVI, e o Spectator ? Já agora o Asahi Shimbum, a Far Eastern Review, o Wall Street Journal....
Shalom.”


Caro André: há quem se esforce por ler nas entrelinhas o que não está escrito, inventando. É óbvio, para quem me vai conhecendo, que eu não pretendo, nem alguma vez pretendi, calar quem quer que seja. A Dra. Ana Gomes tem todo o direito do mundo em falar o que bem entender. Mas até eu, que não sou propriamente um apoiante do Partido Socialista Português, tremo quando a observo e/ou escuto. As mais recentes aparições de Ana Gomes na TV, sobre o caso Paulo Pedroso, são um erro crasso para o PS. Até António Costa veio a terreiro, ontem, para pedir contenção aos dirigentes socialistas. Acredita: estava a fazê-lo com base no que se passou ontem.
A Dra. Ana Gomes está a prestar um péssimo serviço ao seu partido por uma razão simples: não só está a politizar a justiça como a sentar o PS no banco dos réus. Ora, quem está em causa é o cidadão Paulo Pedroso, não o dirigente político. E muito menos o PS. O PS é um partido importante, referência do Portugal democrático. A Dra. Ana Gomes é o exemplo acabado do que não se deveria fazer. Tal como, aliás, explicou Helena Matos na sua crónica de sábado no Público:

“A melhor forma que encontro para definir esta incapacidade do PS de manifestar solidariedade a Paulo Pedroso sem lhe hipotecar o partido é uma frase do jornalista e diplomata Augusto de Castro, proferida a propósito do falecimento da mãe do escritor Júlio Dantas. Em 1941, no quadro das comemorações da descoberta do Brasil, Portugal enviou àquele país uma embaixada diplomática e cultural em que se incluíam nomes como o médico e historiador de arte Reinaldo dos Santos, o jornalista e diplomata Augusto de Castro e o escritor Júlio Dantas. Do grupo também fazia parte Marcelo Caetano, que registou nas suas memórias alguns pormenores dessa viagem a bordo do navio "Serpa Pinto", nomeadamente os que resultavam do carácter exacerbado de Júlio Dantas e da ironia de Augusto de Castro. Um dos acontecimentos que proporcionou que cada um destes dois homens desse largas às suas idiossincrasias foi a morte da mãe de Júlio Dantas, ainda a viagem ia no seu segundo dia. Júlio Dantas deu uma tal dimensão nacional a esse facto da sua vida familiar que as autoridades brasileiras se propunham receber a embaixada portuguesa com uma missa de "requiem", na igreja da Candelária.
Augusto de Castro, ao perceber que a representação portuguesa na comemoração da descoberta do Brasil, mal desembarcasse no Rio de Janeiro, ia para uma missa de finados, não se conteve e imediata e certeiramente observou: "Eles no Rio estão equivocados: quem morreu foi a mãe do Dantas, não foi a mãe da embaixada..."
Parafraseando Augusto de Castro, eles no PS estão equivocados. Quem foi preso, quem é arguido é Paulo Pedroso, não é o PS! Mas na forma como o PS reagiu à libertação de Paulo Pedroso sobressai, tal como já havia sobressaído na sua detenção, esta bizarra intenção de atrelar o PS ao desfecho do caso Pedroso.
Mais uma vez reagiram como se fosse o PS, e não um seu militante, que tivesse saído da prisão preventiva. O que quer dizer que, quando o julgamento começar, o PS, se não arrepiar caminho desta estratégia, se vai sentar também no tribunal. Donde, seja qual for a sentença, nunca sairá bem. Porque se Paulo Pedroso for considerado culpado, o PS também o será. E se Paulo Pedroso for considerado inocente, assistiremos ao "remake", em versão "hard", do que se viu esta semana na Assembleia da República: um partido em rota de colisão com o poder judicial.”


Ou, ainda, José Manuel Fernandes no seu editorial de hoje:

”Ferro Rodrigues indignou-se contra o jornalismo populista que, disse, é quase igual à extrema-direita. É pena que não tivesse sido mais concreto pois, se o tivesse feito, talvez tivesse evitado que Ana Gomes tivesse ido para uma sessão do PS em Aljustrel cavalgar exactamente um tipo de jornalismo populista que nem em Portugal se pratica.
Na verdade, o texto publicado pela revista francesa "Le Point" sobre o escândalo da pedofilia dificilmente poderia ser editado em Portugal nos termos em que foi em França. Não porque em Portugal, ao longo do processo da Casa Pia, não se tenham cometido graves atropelos à ética jornalística e muitos abusos - mas porque até ao momento ninguém se atreveu ainda a imprimir em letra de forma os milhares de boatos que circulam pelos corredores das redacções.
Ninguém, perdão: esses boatos já tiveram pouso público na Internet, através de um blogue denominado "muitomentiroso". Aí podíamos encontrar boatos como aqueles a que o "Le Point" deu publicidade e muitos outros, acumulados de forma desordenada e sem nexo aparente. Todos eles poderiam ter sido objecto de investigação pelas autoridades competentes e não sei se o foram. Alguns deles iam até mais longe do que a revista francesa pois esta, ao contrário do que Ana Gomes disse, não acusava ministros de pedofilia mas sim de frequentarem jovens prostitutos num parque lisboeta (o que não é exactamente a mesma coisa).
Ao repetir os boatos do "Le Point" - boatos que por certo não sabe se são verdadeiros ou se são caluniosos -, Ana Gomes optou pelo populismo mais incendiário. Mais: utilizou como arma de arremesso política insinuações que não andam muito longe das que enchiam o odioso blogue já desaparecido. E, por fim, contribuiu para aquilo que a própria definiu como sendo sintomas dos males do país: "uma absoluta desconfiança dos cidadãos e de abandalhamento e infiltração das instituições por esquemas perversos".
Tais declarações - ontem retomadas aos microfones da TSF - causam natural embaraço ao PS e acentuam uma deriva perigosa quer para o partido, quer para a saúde democrática das nossas instituições: o choque frontal entre a principal força da oposição e o Ministério Público.
A semana passada, quer alguns líderes socialistas, quer o procurador geral da República, Souto Moura, falaram demais. Comentaram o acórdão do Tribunal da Relação de forma desequilibrada, disseram apenas meias verdades e esqueceram-se das responsabilidades institucionais que têm. Ajudaram com isso à criação de um clima quer de politização da justiça, quer de judicialização da política.
Ora todos, ao seguirem por esse caminho, acabam por ficar prisioneiros dos desenvolvimentos de um processo cuja matéria de facto está muito longe de estar estabilizada. Basta recordar que, como aqui escrevia Miguel Sousa Tavares na passada sexta-feira, a justiça é humana e, no caso de Paulo Pedroso, quanto à presunção de culpabilidade, os juízes dividiram-se ao meio: de um lado dois juízes da relação, do outro o terceiro juiz da relação e o juiz de instrução. E se isso já de si é perturbante e gera dúvidas, os tiros trocados entre o PS e a Procuradoria só aumentam essa perturbação e essas dúvidas, ajudando a transferir a decisão dos tribunais para a mais aleatória e injusta das arenas: o julgamento na praça pública.
Convinha por isso mais contenção e, sobretudo, muito mais bom senso.”


Quanto ao resto, caro André, nós que já nos vamos conhecendo um pouco, surpreende-me muito pensares que eu quero literal e objectivamente calar alguém. Citares nomes de jornais e revistas, entra já no domínio do delirio a roçar o insulto. Mas eu vou tentar explicar: o “calar” na minha frase, foi no sentido do conselho, não no sentido da censura ou do impedimento da mais importante das liberdades: a de expressão. Se ofendi alguém, peço desculpas.

Shalom.

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