O MacGuffin

segunda-feira, maio 12, 2003

JOHN GRAY E WINSTON CHURCHILL

John Gray também não escapou à síndroma CIPOC. No seu último livro (Al Qaeda and what it means to be modern), Gray chega à conclusão de que Donald Rumsfeld e Osama Bin Laden apenas representam variantes ideológicas diferentes. Ao que parece legítimas. Pois...
Mas Gray avança com algumas perspectivas interessantes. Para ele, os fundadores da Al Qaeda e os seus ideólgos reinterpretaram o Islão à luz de modelos político ocidentais de má memória, presentes ao longo do Sec. XX - adoptando, por exemplo, a noção Bolshevik de vanguarda revolucionária. Sim e não, penso eu de que.

Não creio que a religião muçulmana seja assim tão tolerante e pacifista. Leia-se “Islam Unveiled” de Robert Spencer e perceber-se-á porquê.

Mas concedo algum crédito a Gray (desculpem a falta de humildade) na parte que diz respeito à importação de modelos políticos ocidentais por parte dos regimes árabes.

Durante os séculos XIX e XX, os modernizadores islâmicos concentraram os seus esforços em três áreas: militar, económica e política. Os resultados foram, no mínimo, decepcionantes. Na questão económica, é por demais evidente que houve uma tentativa falhada de impulsionar uma espécie de revolução industrial, à imagem da europeia. Para não irmos mais longe, basta reparar que, se retirarmos as exportações dos combustíveis fósseis, ainda hoje o total das exportações do médio oriente é irrisório (inferior às da Filandia, por exemplo).

Ao nível da administração e organização política, as clivagens foram, e são, ainda maiores. Muito sintomaticamente, existem relatos nos quais se percebe que, no Sec. XVIII, os embaixadores muçulmanos em Berlim, Viena, Paris e Londres, descreviam, com estranheza, o facto de haver uma administração burocrática eficiente, baseada na nomeação e promoção das pessoas com base no mérito e na qualificação, e não por favor ou proteccionismo. A este nível (político e organizacional) registaram-se ironias terríveis: os países árabes, por exemplo, optaram por acolher os modelos errados. Durante os anos 30 (Sec. XX) a URSS, a Itália e, depois, a Alemanha ofereceram os modelos políticos e as ideologias que, por sinal, eram elas próprias um contra-poder dentro do ocidente. Vários tipos de socialismo foram adoptados (a que se seguiram novas categorias como "socialismo árabe") - mas todos resultaram em fracassos monumentais que fizeram perpetuar e acentuar formas de tiranias que ainda hoje se fazem sentir - das tradicionais autocracias às ditaduras mais modernas (ao nível do aparato de meios de repressão e doutrina). Uma coisa é certa: as experiências socialistas, aliadas ao ethos político e religioso muçulmano, deixaram uma marca que está à vista de todos: elevadíssimo nível de intervenção do Estado, com forte inibição do crescimento económico, aliada ao inseparável braço da religião.

Finalmente, John Gray avança com a seguinte frase: “Even intolerable regimes would be tolerated so long as they posed no danger to others.” Este foi o argumento apresentado pelo grosso da coluna, contra a intervenção no Iraque. É para mim claro que a frase em questão não só revela cinismo e comodismo, como também subjectivismo e irrespnsabilidade. Lembrei-me o bom velho Winston Churchill:

"Quando gentes pacíficas como os britânicos e os americanos - que, em tempo de paz, não se preocupam nada com a sua defesa, quando nações e povos despreocupados e confiantes, que nunca conheceram a derrota, quando nações imprevidentes, eu diria imprudentes, que desprezam a arte militar e acreditam que a guerra é demasiado iníqua para que um dia possa voltar - quando estas nações são atacadas por conspiradores altamente organizados e fortemente armados, que, ao longo de anos, planeiam em segredo, celebrando a guerra como a forma mais elevada do esforço humano, glorificando a morte e a agressão, preparados e treinados até aos limites permitidos pela ciência e pela disciplina - quando isto acontece, é natural que os pacíficos e imprevidentes sofram terrivelmente, e que os agressores intrigantes e cruéis dêem livre curso à sua exaltação selvagem. Mas não é o fim da história. É só o primeiro capítulo."

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar feedback [Atom]

<< Página inicial

Powered by Blogger Licença Creative Commons
Esta obra está licenciado sob uma Licença Creative Commons.