O MacGuffin

sexta-feira, maio 09, 2003

SR. ANTUNES: POSSO VOLTAR? ESTOU PERDOADO?

Há palavras no português que são sonoramente cómicas. Outras soam a vulgaridade (no sentido reles do termo). Outras há que são insultuosas – embora o seu significado esteja nos antípodas do efeito produzido pelo som.

Ontem fui cortar o cabelo. Se há coisa que me põe de rastos, esta é uma delas. Tenho uma costela de Sansão, certamente. Mas, como eu ia dizendo, fui cortar o cabelo. O facto relevante é que traí, pela primeira vez, o Sr. Antunes – o meu habitual barbeiro. Por sugestão, e insistência, da minha namorada, dirigi-me a um salão de cabeleireiro. Às 11 em ponto entrei num ambiente estranho, alheio ao que estava habituado. Não havia calendários da Pirelli, relatos de bola na telefonia, fumo de cigarros, carradas de cabelo no chão e, o mais extraordinário, a voz sábia do Sr. Antunes – uma espécie de Nuno Rogeiro lá da rua. Fui atendido por uma menina com madeixas que mascava ávida e, suponho eu, prazenteiramente uma pastilha. Entregou-me um cartão, o qual era suposto acompanhar-me ao longo da linha de montagem (neste caso de desmontagem), não sem antes me desejar uma «bom dia». Uma outra menina encaminhou-me a uma das poltronas, sorrindo desmedidamente na minha direcção (eu que nunca vi os dentes ao Sr. Antunes). Colocou-me uma toalha timbrada à volta do pescoço, girou a cadeira (seria Vitra?), carregou num botão e o meu delicado pescoço aterrou numa superfície esponjosamente macia. Mandou-me inclinar a cabeça para trás e, logo a seguir, chamou a Ana. A Ana encarregar-se-ia de lavar a minha farta cabeleira – coisa que fez com particular atenção e devoção. As mãos da Ana massajaram o meu couro cabeludo durante longos minutos. Perguntou-me várias vezes se a temperatura da água estava «do meu agrado» (com o Sr. Antunes, a água encontra-se a meio caminho entre o frio e o gelado e é expressamente proibido perguntar o que quer que seja durante os escassos segundos em que demora a operação). Retirada a espuma, a Ana (simpática, a Ana) envolveu-me a cabeça (cuidado aí com os comentários ordinários!) numa toalha de algodão egípcio, imaculadamente branca (as do Sr. Antunes já foram brancas, em tempos não muito distantes...), retirando o excesso de água.

Foi então que pegou numa escova e proferiu a fatídica frase: “O Sr. Carlos quer a marrafa como?”

Bolas! Nunca o Sr. Antunes falou em «marrafas»!


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