O MacGuffin: Mais nada

domingo, janeiro 08, 2012

Mais nada

Vasco Pulido Valente, Público 08/01/2012

Arcaísmo 
"A maçonaria (nas suas dezenas de encarnações) foi um produto do Iluminismo. Ou seja, um instrumento de protecção e de luta contra a religião, no caso a religião cristã, e a Igreja. Não por acaso, tomou algumas das formas mais típicas do inimigo: um trajo esotérico, a hierarquia, o ritual e por aí fora. Coisas que a mim pessoalmente me repugnam, mas que no século XVIII e em parte do século XIX são, pelo menos, compreensíveis. Nos países "protestantes", em que o Estado já dominava a igreja ou igrejas "reformadas", a maçonaria nunca chegou a ter muita importância, nem a intervir significativamente na política. Mas nos países católicos, em que a aliança do "trono e do altar" era uma realidade sólida e activa, acabou por se tornar um instrumento indispensável de subversão.
Organizou ou contribuiu para organizar a resistência ao "absolutismo" e, quando os liberais se estabeleceram no poder, escolheu o pessoal do governo ou mesmo, em certos casos, governou ela própria directamente. Por isso, nas regiões de influência católica a sua força (e o horror oficial que inspirava) sobreviveu até muito mais tarde. Disseram alguns comentadores que Hitler e Mussolini a perseguiram com especial rancor. Não é verdade. Como é lógico, as grandes perseguições vieram de Pétain e de Franco, que detestavam a República e queriam fortalecer a Igreja, e também acessoriamente de Salazar, tão devoto e monárquico como eles. Não admira que a maçonaria (o Grande Oriente Lusitano) ainda existisse em Portugal no "25 de Abril" e ajudasse a fundar o primeiro PS de Mário Soares.

Mas de então para cá deixou de ter razões para continuar. Não há monárquicos, nem a mais vaga hipótese de restauração da Monarquia. A Igreja em grande decadência pesa pouco e, sobretudo, não ameaça ninguém. O PS já não anda atrás da "irmandade"; e o PSD, ao princípio protegido e pupilo do catolicismo tradicional, é hoje um partido sem um carácter definido, sempre disposto a recolher a última novidade política. Por isso, apareceram de repente a Grande Loja Regular de Portugal e a Grande Loja Legal de Portugal, duas maçonarias sem história, nem explicação. Porquê? Porque a presença do Grande Oriente Lusitano diminuíra no Estado e no governo e era preciso outra organização (ou organizações) para o substituir em nome da entreajuda secreta que a fraternidade fornece e dos negócios que patrocina ou que a patrocinam. Mais nada."

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