O MacGuffin: Um wishful thinking seguido de um ou dois comentários

sábado, abril 30, 2011

Um wishful thinking seguido de um ou dois comentários

1. Seria bom que os votos dos portugueses permitissem que, juntos, PSD e CDS formassem uma maioria absoluta no parlamento. Significaria o fim dessa sinistra figura política chamada José Sócrates, que enganou, enganou, enganou, enganou e continua a enganar (vide programa eleitoral do PS, uma peça inédita de amnésia e de falta de vergonha). E significaria uma sonora chapada nessa mesquinha, languenta e patética ideia dos «consensos».

2. O Henrique crítica a escola de comentário portuguesa. Estou com ele mas. Entendamo-nos, caro Henrique: a coisa dos «tiros nos pés» é, desgraçadamente, real. E sim, é mesmo verdade: em política, sobretudo na política e no país de hoje (que são os que temos, para já), a imagem, os sinais e a forma contam. É de uma tremenda ingenuidade pensar-se que, numa imberbe democracia de trinta e sete anos, e num país ainda iletrado (esqueçamos as estatísticas do sucesso escolar) e politicamente ignorante (capaz de «engolir» as mais diversas patranhas), o tacto e a prudência possam ser dispensados. O que tem faltado a Pedro Passos Coelho não é cinismo: é tacto político para perceber que país é este e que pessoas (eleitores) são estas. Ainda não é possível ganhar eleições em Portugal proclamando ideias «liberais», de clara emancipação dos cidadãos relativamente ao Estado, quando estas trazem agarradas propostas avulsas, pouco ou mal explicadas, que configuram aquilo a que poderíamos chamar, agora cinicamente, de «perda efectiva de direitos sociais» (um slogan que a esquerda gosta de usar e o português médio respeita) ou quando pura e simplesmente não têm contacto com a realidade. Não há massa crítica suficiente para perscrutar a bondade de medidas que são tratadas pela rama por uma simplista e simplória comunicação social, e apenas devidamente explicadas (quando o chegam a ser) em local restrito ou obscuro. A plateia não é constituída por quem escolheu assistir, por sua livre vontade, a um workshop da escola de Chicago. Por muito que nos custe aceitá-lo, caro Henrique, o português médio não está «maduro» para perceber que tem de mudar de vida – para «pior», acha ele - e continua piamente convencido de que este regabofe a que chamaram «democracia» - um sistema que, pelos vistos, fomenta desvarios e amplifica fraquezas humanas – precisa de mão firme e orientação paternal (boa parte da «boa» imagem de Sócrates ainda passa por aí). No fundo, Henrique, como eu escrevi há dois anos atrás, Portugal é um país com uma tradição liberal residual. O ADN dos portugueses tem um pendor esquerdista – como escreveu a Helena Matos, o PS constitui, ainda hoje, uma espécie de partido natural de poder – indutor de relações de desconfiança, para não dizer de rejeição, com quem proclama reduções no alcance do bendito e querido Estado Providência (que é pai e senhor, como sabes). É a vida.

3. Pretendo, ou defendo, o quê, então? Fingimento? Cinismo? Repito: tacto. Cabecinha. Massa cinzenta. Trabalho. E um tipo de firmeza e consistência que não rime nem com pusilanimidade, nem com guerrilha politica rasteira, própria de arrivistas (e Pedro Passos Coelho não é um arrivista). Aquilo que ainda aguardamos – o programa eleitoral do PSD – já deveria estar há muito incrustado na opinião pública. Pedro Passos Coelho deveria ter criado, em 2010, um governo sombra que não deixasse na paz dos anjos os ministros e as políticas (sobretudo a falta delas) do senhor engenheiro. Com caras de peso, críticas felinas, propostas objectivas e não titubeantes. Não foi isso que tivemos. Não é isso que temos. O terreno tem sido o ideal para os doutores do spin aproveitarem as fraquezas e amedrontarem as massas (as da Buitoni não são más).

1 Comentários:

Blogger Margarida disse...

...sempre que considero ter alcançado os píncaros, ultrapassa-se.
Começam a faltar panegíricos...
:)
Delicioso.

11:30 da manhã  

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