O MacGuffin: "Descriminações"

segunda-feira, outubro 03, 2005

"Descriminações"

"Durante anos as questões da segurança foram acantonadas na área da direita, quando não mesmo do fascismo. Estava instituído que políticas de solidariedade, acção social e redistribuição de riqueza acabariam com esse problema. Mas, como a realidade é um pouco mais complexa que a bondade das soluções, não só não se resolveu o problema da insegurança como ainda se acabou a menosprezar as vítimas. Não deixa de ser tragicamente irónico que a morte dum colaborador duma companhia de teatro tida como alternativa tenha suscitado uma reacção próxima de histeria, com episódios quase de lenda urbana" por Helena Matos.

"Ele seguia à minha frente. Era novo. Às vezes olhava nervosamente para os lados. É certo que a rua de Lisboa em que nos deslocávamos tem um ar degradado mas o meu companheiro ocasional de passeio era bastante mais jovem do que a maior parte dos transeuntes com os quais nos cruzávamos. Logo o seu ar de quem avaliava o terreno era no mínimo deslocado: se alguém naquela rua tinha força e pernas para assaltar quem quer que fosse, era ele.

Mas eis que, abruptamente, ele atravessou a rua em direcção a um casal idoso. No primeiro momento pensei que os fosse assaltar. Mas não. Educadamente, perguntou-lhes se eram de Lisboa. Não sei o que lhe responderam mas percebi que, quase com tiques de clandestinidade, lhes depositou nas mãos uma folha de papel. E como quem ensaia um peculiar bailado, era vê-lo atravessar a rua ora num sentido ora noutro, abordando taxistas, pessoas com bengalas, senhoras idosas... para, depois de lhes perguntar se eram de Lisboa, lhes deixar nas mãos os tais papéis.

Note-se que as pessoas não deitavam para o chão esses papéis, antes pelo contrário, olhavam-nos e dobravam-nos até com algum cuidado. Esses papéis não eram uns papéis quaisquer iguais a tantos outros distribuídos neste período de campanha autárquica. Esses papéis incitavam ao ódio racial e responsabilizavam os estrangeiros pelo clima de insegurança que aquelas pessoas, pela sua profissão, idade ou condição física, experimentam quando atravessam aquela rua.

Um toque de telemóvel e a busca desesperada do mesmo nas profundezas da mala fez-me perder de vista aquela espécie de semeador de ódios mas imagino-o atravessando Lisboa numa espécie de safra infindável. Quanto tempo demorarão a germinar estas sementes de ódio? Creio que não muito. Para o perceber basta ver o que se escreveu ontem na caixa de comentários da edição on-line do Expresso, mais precisamente nos comentários à notícia que dava conta da identificação, pela Polícia Judiciária, da identidade e nacionalidade do assassino de Miguel Pereira, o colaborador do teatro A Comuna morto na Praça de Espanha.

Transcrevo apenas dois desses comentários porque me parecem suficientemente expressivos e note-se que escolhi entre os menos ofensivos. Um deles pergunta: "Porque não fazem um referendo sobre a imigração??? Simples, porque já sabem o resultado e aos políticos e grandes capitalistas interessa-lhes tudo menos isso... lá se ia a mão-de-obra barata!!!" Outro conclui: "Isto é no que dá isto ser uma República dos Bananas... É que a nossa escumalha, temos que a gramar, mas ter que gramar a dos outros???"

Note-se que esta prosa e outras de teor muito mais grave se encontram numa caixa de comentários do Expresso e não do jornal o Crime. O verniz, seja ele social ou político, estala muito facilmente nesta matéria. Tradicionalmente é de esquerda a zona de Lisboa onde foram não só distribuídos mas cuidadosamente guardados os tais folhetos xenófobos. Mas a verdade é que, tal como entre os leitores das classes A e B do Expresso, também nas velhas zonas operárias de Lisboa a segurança - ou a falta dela - torna as pessoas disponíveis para discursos radicais. Ou melhor, essa disponibilidade é estimulada pela ausência dum discurso dos partidos democráticos sobre este assunto.

Durante anos as questões da segurança foram acantonadas na área da direita, quando não mesmo do fascismo. Estava instituído que políticas de solidariedade, acção social e redistribuição de riqueza acabariam com esse problema. Mas, como a realidade é um pouco mais complexa que a bondade das soluções, não só não se resolveu o problema da insegurança como ainda se acabou a menosprezar as vítimas. Não deixa de ser tragicamente irónico que a morte dum colaborador duma companhia de teatro tida como alternativa tenha suscitado uma reacção próxima de histeria, com episódios quase de lenda urbana. Quantos taxistas já foram assassinados este ano? A reacção a esta morte não só seria diferente caso a vítima fosse taxista e não colaborador do teatro A Comuna, como também seria diferente caso o técnico de luz tivesse sido esfaqueado não à saída do teatro A Comuna com o qual colaborava, mas sim junto do Casino do Estoril onde trabalhava.

Tal como, no passado, as vítimas de violência sexual tinham de provar que não tinham provocado a agressão, actualmente as vítimas da insegurança têm de provar que nada nelas, nem na sua condição social ou profissional justifica a agressão que sofreram. E aí de facto as pessoas do mundo das artes aparecem revestidas duma bondade natural que nenhum taxista pode almejar. Desta mesma discriminação dava conta recentemente, numa entrevista à SIC, Luís Santos, o co-piloto da Air Luxor detido na Venezuela por suspeita de tráfico de cocaína, quando comparou a reacção do Governo português perante o seu caso e o do actor e realizador Ivo Ferreira.

Entre esqueletos no armário e preconceitos, os partidos democráticos vão deixando o campo aberto aos folhetos e à mensagem que gente como aquele rapaz lhes passa. Como uma senha. De mão em mão."

in Público 01-10-2005

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