O MacGuffin: Vasco Pulido Valente

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Vasco Pulido Valente

in Público 5-12-2004
"Desde 1820 que Portugal, como Cavaco, tenta perceber, angustiado, por que razão ou maldição temos tão maus políticos. Com o tempo, foram aparecendo várias teses. Nesta melancólica época de Santana e sarilhos, convém talvez recapitular. 1.ª Tese: A política, por não exigir qualquer espécie de qualificação substancial, e por ser uma forma de vadiagem reconhecida e glorificada, atrai os piores. 2.ª Tese: Os partidos políticos, que se regem pelo “princípio da fidelidade” e não da “qualidade”, repelem os melhores. 3.ª Tese: Um povo analfabeto, ignorante e primitivo, se o deixam votar, escolhe fatalmente a “canalha”. 4.ª Tese: Os políticos são maus, porque a elite é geralmente má. Não há bons políticos como não há bons jornalistas, bons professores, bons médicos, bons cozinheiros, bons químicos, nem, a falar com franqueza, qualquer outra classe profissional decente. 5.ª Tese: A elite é geralmente má, porque um ensino obsoleto e rígido não promove a independência e a critica. 6.ª Tese: A pobreza do país cria uma cultura de servilismo, mentira e manha, que os políticos fielmente reflectem. 7.ª Tese: A Igreja Católica Apostólica Romana educa os portugueses para a obediência e a hipocrisia. Os políticos, mesmo ateus, não se distinguem da manada.

Como se vê teses não faltam para explicar a existência, e a persistência, de maus políticos. E também historicamente não faltaram soluções. 1.ª Solução: Acabar com a política. 2.ª Solução: Substituir os partidos por corporações. 3.ª Solução: Não permitir que o povo, ou a maior parte dele, votasse. 4.ª Solução: Aturar resignadamente a mediocridade do país, morrer ou emigrar. 5.ª Solução: Reformar o ensino (coisa que também decorre da Tese 3). 6.ª Solução: Fazer a “revolução” (liberal, republicana ou “socialista”) para tornar a nossa querida Pátria rica, orgulhosa e honesta ou, na absoluta impossibilidade disso, “mudar a mentalidade” da elite por métodos suasórios. 7.ª Solução: Perseguir a Igreja Católica Apostólica Romana e principalmente exterminar os padres. Dito isto, não seria decoroso esconder que aplicação repetida, simultânea e sucessiva destas soluções nunca produziu o efeito esperado: os maus políticos, como se sabe, continuam connosco. Mas também, até com maus políticos, temos dias lindos. Ou não?"

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