O MacGuffin: CAMARADA JERÓNIMO

segunda-feira, novembro 29, 2004

CAMARADA JERÓNIMO

Lê-se no Público: “O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, foi eleito sem votos contra, com apenas quatro abstenções, na primeira reunião do novo Comité Central (CC) comunista, anunciou hoje Luísa Araújo, da mesa do XVII Congresso partidário.
A eleição foi feita por braço no ar, tal como a eleição dos organismos executivos, comissão política e secretariado.
A comissão central de controlo, que foi consagrada órgão jurisdicional do partido, foi eleita por voto secreto e por unanimidade, disse à Lusa um dirigente comunista.
Jerónimo de Sousa foi eleito na primeira reunião do novo CC com 176 membros, que decorreu na madrugada de hoje, à porta fechada, no complexo de Desportos de Almada, onde hoje termina o XVII Congresso do PCP.”


Há por aí quem ainda se surpreenda com esta notícia, reveladora, dizem, de um elevado, logo alarmante, nível de «unissonância» e de potencial falta de «democraticidade» . Há quem afirme que, assim, o PCP «não vai lá», e que caminha, afinal, para a decadência e para a fossilização. Que tudo aquilo, acrescentam, não se compadece com o «pluralismo», com o exercício da liberdade de voto e do direito à dissonância. E por aí fora. Longe de mim estragar mais um momento de indignação e espanto, hoje em dia tão em voga, mas seria bom lembrar duas coisas.

A primeira, mais do que óbvia: «aquilo» é o PCP, e o PCP sempre foi «aquilo». Dito de outra forma, não há PCP para além «daquilo»: o centralismo democrático, a omnipresente cúpula, o omnipotente aparelho, a ortodoxia vigente (sempre solicita a avançar com as «propostas irrecusáveis»), a cassete da «unidade interna» e da «união externa», em prol das eternas «jornadas de luta» contra o capitalismo e o neoliberalismo (o filho mais novo daquele). A tese, repito, é óbvia e já velha: no dia em que o PCP se «abrir», no dia em que o PCP se «renovar», no dia em que o PCP abandonar os slogans, no dia em que o PCP se «liberalizar», poderá continuar a chamar-se Partido Comunista Português, mas por essa altura já terá assinado a sua própria certidão de óbito.

A segunda, tem que ver com os próprios partidos: todos eles são, mais ou menos, «aquilo». O PCP e o BE (outro notável caso de «pluralismo» e «debate interno») poderão ser os casos mais extremos, mas não esperem dos partidos aquilo que eles não são: espaços de «democraticidade», «pluralismo» ou de «elevado debate» ideológico. Para além das balelas ideológicas que, de vez em quando, são aliviadas em congressos (que as bases, aliás, não entendem e consideram uma seca) os partidos são projectos de carreira e de poder, mais ou menos fulanizados, servidos por um aparelho devidamente burocratizado onde se vão gerindo interesses através de uma lógica de negociata inter pares. Qualquer projecto de poder de tipo partidário, precisa de «consensos alargados» - forçados ou induzidos - de «unanimismo» e de «unidade», coisas que o debate dito «pluralista» e «democrático» não serve por aí além.

Voltando ao PCP, estarei eu a defender a continuidade como futuro? Couldn't care less.

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