O MacGuffin

quinta-feira, setembro 02, 2004

CORREIO (3)
Abaixo o vão de escada, viva o contentor
"Parece que para muita gente, inclusivamente para certos profissionais de saúde, não há qualquer problema em se ir fazer um aborto a 12 milhas da costa, num “cacilheiro” (como lhe chamou Francisco Louçã), dentro dum contentor dotado apenas de material básico, praticado por uma médica de clínica geral sem apoio directo de especialistas em cirurgia, obstetrícia ou ginecologia, sem possibilidade de acesso rápido a um centro hospitalar para uma situação de urgência, sem equipamento de reanimação ou de transfusão, e cujo aparelho mais sofisticado é um ecógrafo (inútil, por exemplo, em caso de acidente hemorrágico, choque ou perfuração uterina abortiva). Para quem reclama contra os perigos para a saúde dos abortos feitos em “vãos de escada” é no mínimo intrigante que aceitem colocar em risco mulheres apenas para montar uma operação mediática. Na verdade, se houver uma situação de emergência nada do que nos foi mostrado indica haver capacidade técnica e material para a socorrer. Curiosamente, nenhum dos eufóricos jornalistas de serviço se lembrou de inquirir sobre esse aspecto...

Para além de eventuais abortos cirúrgicos, os militantes do barco do aborto dispõem-se também a distribuir gratuitamente a pílula abortiva RU 486, que não é comercializada em Portugal, sendo portanto ilegal a sua venda. Esta substância tem uma eficácia de cerca de 93% em gravidezes até às 7 semanas e a estratégia dos abornautas consiste em levar as mulheres para fora das águas territoriais onde lhes é oferecida a referida pílula que é logo ali tomada, e mais outro medicamento para ajudar à expulsão do feto que deve ser tomado dois dias depois. Só um perfeito ingénuo acreditará que, para quem de facto estivesse empenhado em ajudar as mulheres que querem abortar e convicto da sua razão, não lhe fosse possível fazer-lhes chegar as ditas pílulas de uma maneira menos complicada, ultra-limitada e humilhante do que as obrigar a, perante um imenso circo mediático, fazer 24 milhas náuticas. Não lhe seria difícil nem arriscado, com tantos apoiantes, fazer entrar no país os comprimidos contornando a lei, nem com certeza isso lhe causaria problemas morais e ajudaria muitíssimo mais mulheres. Mas claro que sem a vassalagem ao barco lá se iam os soundbites e as audiências.

Já agora uma curiosidade que espantará muita gente: a lei sobre o aborto é, salvo alguns pormenores de prazos, rigorosamente igual em Espanha e Portugal, como qualquer pessoa pode pesquisar na Internet. O que acontece é que a sua aplicação prática é feita de modo diferente mas isso é algo que nunca vi algum militante pró-aborto ou jornalista questionar. É estranho que tantos feministas não se preocupem em utilizar a abertura que a lei dá para fazer aquilo que defendem e apenas queiram optar pelo o alarido ideológico que decorre da reclamação da sua alteração. Por que será que em vez de reclamarem a aplicação da lei que existe e que permite actuar como se faz em Espanha apenas protestam pela sua mudança? Por que será que a imprensa não esclarece este ponto? Por que será que, na falta de resposta dos establecimentos oficiais, não há profissionais de saúde que criem centros médicos onde, dentro das margens que a lei permite se façam abortos gratuitamente?

No fundo, esta história confirma a ideia que os auto proclamados “salvadores do mundo” não tomam atitudes políticas para resolver os problemas das pessoas mas antes usam os problemas das pessoas para obter ganhos políticos. As mulheres e os fetos são aqui apenas carne para canhão."


Fernando Gomes da Costa, Médico
(um dos mentores do site Sexualidades, que se dedica, há mais de 6 anos, a promover a educação sexual e a apoiar quem tem dificuldades ou dúvidas nessa área)

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