O MacGuffin

terça-feira, agosto 12, 2003

FOSSILIZAÇÃO
Mário Soares é uma figura incontornável da história portuguesa contemporânea. Falo de uma pessoa que influenciou para sempre o destino do pais – antes e depois de 74. A ele, embora não só, devemos a instauração de um regime democrático. Devemos à sua perseverança e coragem - bem como à de Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa, Ramalho Eanes e outras figuras de back-office - a travagem que impediu a estalinização e militarização do Portugal (no PREC e no seu aftermath). Também a ele devemos a boa negociação que permitiu a entrada de Portugal na então CEE. Como governante, Soares não teve tarefa fácil. Governou em períodos conturbados, com o pais em constantes derrapagens orçamentais e financeiras. Mais tarde, assistimos a um Soares em grande forma, a arrecadar de forma surpreendente a corrida para a presidência da república. Sobre o cargo, pode hoje dizer-se que o desempenhou de forma mais ou menos pacífica, tendo sido um apologista da tolerância, do bom senso e da pacificação entre órgãos de soberania. Entre alfinetadas aos governos de Cavaco – umas vezes injustas, outras vezes justíssimas - lá foi levando a sua água ao moinho. Tudo isto corporizado numa figura bonacheira, simpática, com uma postura fleumática e denotando, por vezes, um excelente sentido de humor. Este é, em traços gerais, o retrato rosáceo de um político que todos se habituaram a respeitar e, nalguns casos, a venerar. Uma espécie de referência do Portugal democrático.
Mas, como em tudo na vida, existe um outro lado. Existe um Soares mais obscuro, difuso, incerto e, certamente, menos pacífico. E é esse o Soares que, de há uns anos a esta parte, tem vindo a surgir à superfície.
O Soares de agora – o da defesa da corporação ‘Soarista’, o da anti-globalização e do anti-americanismo mais primário, o do esquerdismo radical-chic, o dos “tumores” - sempre existiu. É o Soares da vaidade e da presunção. É o Soares da boa e velha «ética republicana», reminiscência de um «velho mundo»: um mundo lodoso de amigalhaços e intocáveis; um mundo de sombras, manipulações e influências; um mundo de pequenos favores, de telefonemas oportunos, de pressões mesquinhas, de tacticismo, de eminências pardas e de seitas obscuras; um mundo onde é totalmente inconcebível que um «puto» de trinta e poucos anos, envergando uns ténis e uma t-shirt, possa decretar a prisão preventiva de um amigalhaço, ou autorizar a escuta dos telefonemas de outro. Neste mundo não se toleram tamanhas ousadias e alarvidades. É um mundo onde perdura e reina um respeitinho reverencial e uma babugem em torno dos chefes.
Poderão dizer que Soares é hoje um homem livre e que, como tal, ousa exprimir aos sete ventos a sua cosmivisão sobre o mundo e as suas convicções mais profundas. Pessoalmente, não dou um tostão por essa tese. Aquilo a que assistimos é a uma tentativa desenfreada de protagonismo. Uma tentativa de realinhamento e de resgate de um mundo em vias de extinção. Mete dó assistir ao desnorte de um ‘senador’. Mas, infelizmente, Mário Soares parece empenhado em destruir o que resta da sua imagem de estadista, de homem de bom senso, contrário a radicalismos e a maniqueísmos de pacotilha. É pena. Alguém o deveria avisar que o mundo mudou. E que, muito provavelmente, este já não lhe pertence.

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