O MacGuffin: O problema do acordo

domingo, maio 29, 2011

O problema do acordo

Leio em parangonas, no Público: «O problema do acordo é ser muito economicista». A frase é de António Costa, destacado dirigente socialista e presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

O Sr. Antunes pede a um arquitecto «Sr. Arquitecto: não suporto a casa onde habito. Importa-se de me apresentar um projecto de remodelação do pardieiro?» O arquitecto pede pistas: «Uma coisa leve ou uma coisa à seria, Sr. Antunes?» «De alto a baixo, Sr. Arquitecto, de uma ponta à outra!» «Com certeza, Sr. Antunes.» Passado um mês, o arquitecto apresenta o projecto. O Sr. Antunes observa-o e afirma não estar convencido. «O problema deste projecto, Sr. Arquitecto, é ter muito desenho e muita estrutura.»

«O problema do acordo é ser muito economicista». A frase é lapidar. Eis um bom epíteto para o socialismo: «a gestão do dinheiro é muito economicista». Bem lá no fundo, o que pensa o Dr. António Costa e a generalidade dos socialistas não propriamente versados em Economia e Finanças Públicas, é mais ou menos isto: essa coisa de nos virem salvar da bancarrota e ainda por cima exigirem a devolução do dinheiro que nos emprestaram, é uma grande chatice. O socialismo adora «injectar» dinheiro na economia, através do investimento público e da conservação do seu querido «Estado Social», mas dá-se mal com o embolso e o saneamento. O ónus desse incómodo acaba recaído, mais tarde ou mais cedo, sobre a ralé. As causas desta mentalidade provêm de um preconceito: o enfoque no público, em detrimento do privado. Dito de forma simplista, entre: a) dotar o país de condições e instrumentos que permitam que os cidadãos, individualmente ou sob associação (vulgo empresas), «produzam riqueza» (um conceito muito confuso na cabeça de um socialista) de forma sustentada; e b) achar que cabe ao Estado o papel de motor da Economia (como empregador, investidor, dono de obras, etc.), o socialista não hesita. Tudo o que vier do Estado, no âmbito de uma estratégia «integrada», «global» e «a longo prazo», é uma bênção, uma panaceia, um seguro de vida colectivo. Há-de sempre haver quem pague a conta.

«O problema do acordo é ser muito economicista» é a típica frase de quem ainda não se deu conta do que se passou («bancarrota» é apenas uma palavra feia) e não vê com bons olhos aquilo que os «tecnocratas» parecem pretender: que Portugal pague as contas, que os governos percebam que o dinheiro tem de ser correctamente gerido, que o Estado não pode continuar ao serviço de agendazinhas ideológicas financeiramente insustentáveis e, finalmente, que a contumácia tem de acabar.

1 Comentários:

Blogger Margarida disse...

O que o meu amigo acaba de retratar, nessa habitual forma primorosa, não é apenas o que se passa no espírito dos socialistas, mas o que sucede na maior parte das cabecinhas não pensantes dos portugueses.
É ou não é?
Chegámos aqui porque a ambição egoísta e a inconsciência geral desestruturada não só votou no P.S. por duas vezes seguidas com o mundo a balançar, como se preparam para repetir a façanha com o mundo a estatelar-se ao comprido.
E vão sorridentes, convencidíssimos que o homem raia a santidade e a oposição é um monstro sacrílego de apetites vorazes 'pelo poder'.
A cegueira, o desinteresse pela informação objectiva e dura, o alheamento perante a verdade deixam-me perplexa e as razões que alguns evocam para seguir 'o engenheiro', sem palavras.
Ou por outro lado, cheia delas, mas não as posso aqui escrever.
Noblesse oblige.

1:52 da tarde  

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