O MacGuffin: Irão, irão...

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Irão, irão...

"A bomba do Irão"
por Vasco Pulido Valente

"O pior pesadelo do Ocidente desde o fim da URSS é quase uma realidade: o Irão não desiste e, tarde ou cedo, se ninguém fizer nada, terá a primeira "bomba islâmica" do Médio Oriente. Essa bomba irá aparecer numa sociedade isolada, com um Estado teocrático e um Presidente radical, Mahmoud Ahmadinejad. Ahmadinejad entrou na política pela franja lunática dos "Guardas da Revolução" (a que ficou ligado) e é domesticamente um populista. Quanto à maneira como vê o mundo, basta dizer que nunca saiu do Irão, que já negou o Holocausto e se propõe arrasar Israel. Não o levar a sério seria um erro mortal. O que tomamos complacentemente por histerismo ou loucura, não passa para ele de uma evidência histórica: enquanto não expulsar e submeter o Grande Satã e os seus comparsas (Israel em primeiro ligar e a seguir a "Europa"), o islão continuará subordinado e pobre. O Egipto perdeu a guerra contra o inimigo, o Iraque também, chegou a vez de ele próprio, Ahmadinejad, tentar.

Para o Ocidente, há hoje uma única questão: quem o pára e como? E a resposta é inquietante. A diplomacia da "Europa", esse triste cortejo da Alemanha, da Inglaterra e da França, com Solana a reboque, falhou como devia falhar. Desarmada, desunida e sem sombra de vontade de resistir seja como for ou seja a quem for, a "Europa" não intimida, nem convence. O fracasso do Iraque deixou a América temporariamente incapaz de intervir. Israel só in extremis fará alguma coisa. E a ONU, de facto, não existe. Esta fraqueza ilustra uma velha verdade: qualquer demagogo à frente de um país menor pode abalar e até abater a ordem internacional, se achar que a recompensa vale o risco.

Ahmadinejad, evidentemente, acha que sim. A bomba dá ao Irão a capacidade de dominar o Médio Oriente. Bush provocou uma guerra civil no Iraque e, fora a afinidade de seita, a maioria xiita precisa de apoio. Com um regime inoperante e frágil, a Arábia Saudita não pesa muito. O Egipto, sem petróleo e dependente da América e da "Europa", não serve de contrapeso. A Síria e os principados do Golfo efectivamente não contam. E na cena crucial da Palestina, a bomba tornará Ahmadinejad um herói e um guia. Claro que grande parte do Médio Oriente, da Turquia ao Egipto, reagirá à hegemonia do Irão. Mas Bush garantiu que, esteja onde estiver, a populaça cada vez mais jovem, miserável e desesperada aclamará o Irão como a espada da justiça divina, que nenhum governo se atreverá abertamente a desafiar. Só as democracias do Ocidente, como de costume, têm os meios para evitar a catástrofe que se anuncia. Infelizmente, não têm tudo o resto."

in Público


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