O MacGuffin: Ainda e sempre igual

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Ainda e sempre igual

“Pessoalmente, é claro, deploro tudo. Não há uma palavra, um acto, um pensamento, uma necessidade, uma pena, uma alegria, uma rapariga, um rapaz, um medo, uma dúvida, uma confiança, um sarcasmo, um desejo, uma esperança, um medo, um sorriso, uma lágrima, um nome, uma face, um tempo, um lugar, que eu não deplore, para lá de tudo. Lixo, de principio ao fim. E, no entanto, quando me sentei na cerimónia de admissão, salvo o furúnculo no traseiro… O resto, lixo. As carrancas de terça, os resmungos da quarta, as pragas da quinta, os uivos da sexta, os ressonares do sábado, os bocejos de domingo, os carpidos da segunda, os carpidos da segunda. As bengaladas, os queixumes, as pancadas, os gemidos, as chicotadas, os guinchos, as ferroadas, os rogos, as estaladas, e os ganidos. E a pobre velha piolhenta terra, a minha terra, e a terra do meu pai e da minha mãe, e do pai do meu pai e da mãe da minha mãe, e da mãe do meu pai e do pai da minha mãe, e do pai da mãe do meu pai e da mãe do pai da minha mãe, e do pai do pai da minha mãe e da mãe do pai do meu pai, e da mãe do pai da minha mãe, e do pai da mãe do meu pai, e da mãe do pai do meu pai, e do pai da mãe da minha mãe, e do pai do pai do meu pai, e da mãe da mãe da minha mãe, e dos pais e mães das outras pessoas, e dos pais dos pais e das mães das mães, e das mães dos pais e dos pais da mães, e dos pais dos pais da mães, e das mães das mães dos pais, e das mães dos pais das mães, e dos pais das mães dos pais, e das mães dos pais dos pais, e dos pais das mães das mães, e dos pais dos pais dos pais e das mães das mães das mães. Um excremento. Os açafrões e os larícios que ficam verdes todos os anos uma semana antes dos outros e os pastos vermelhos com a placenta não comida das ovelhas e os longos dias de Verão e o feno recém-cortado, e o pombo-bravo de manhã e o cuco de tarde e o codornizão à noitinha e as vespas na geleia e o cheiro da giesta e o ar da giesta e as maçãs a cair e as crianças a andar nas folhas mortas e o larício que vira castanho uma semana antes dos outros e as castanhas a cair e o ventos uivantes e o mar a quebrar no molhe e os primeiros fogos e os cascos no caminho e o carteiro tísico a assobiar As Rosas Florescem na Picardia e o candeeiro de petróleo standard e, é claro, a neve e, escusado será dizer, a saraivada e, louvado seja, a lama gelada e de quatro em quatro anos o ruir de Fevereiro e em Abril águas mil e os açafrões e depois todo o estuporado circo a recomeçar tudo de novo. Um monte de merda. E se eu pudesse recomeçar tudo de novo, sabendo o que sei hoje, o resultado seria igual. E seu eu pudesse recomeçar terceira vez, sabendo o que saberia na altura, o resultado seria igual. E se eu pudesse recomeçar cem vezes, sabendo de cada vez um pouco mais do que o que sabia na vez anterior, o resultado seria ainda e sempre igual, e a centésima vida seria como a primeira, e as cem vidas como uma só. Uma diarreia de gato. Mas a este ritmo, vamos ficar aqui toda a noite.”

Samuel Beckett in Watt, 1943


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