O MacGuffin: Sim e não, caro <a href= http://jpcoutinho.com/ >João</a>

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Sim e não, caro João

Sim, João: a escrita não é strip-tease para auditório aplaudir ou assobiar. A escrita é strip-tease para auditório muitíssimo particular. Quando nos entregamos a essa pretensiosa actividade – opinar em voz alta - somos irremediavelmente cliente, stripper, bartender, pimp e dealer. Quando a coisa corre de feição, somos também o homem da rusga, que promove o salvífico baralhar e dar de novo. No momento em que se escreve, não há nicho ou segmento de mercado a atingir, capelinha ou clientela a servir. É a nós próprios que tentamos seduzir, convencer, confrontar, desafiar - para gáudio augusto das little grey cells e satisfação inenarrável do nosso ego. Nada mais parece interessar. Nada mais importa. É esse o contexto que nos predispõe a dar a nossa opinião, a procurar um estilo e um modo que nos seja familiar, por via invariável das benditas «influências». O exercício da escrita tem muito de paradoxal: é ludicamente penoso e, ao mesmo tempo, pateticamente inebriante. Facto, caro João: quando escrevemos, o mundo não nos interessa. Em boa verdade, o que nos interessa é o nosso mundo - o mundinho interior - recheado de clichés, paradigmas e certezas, mas também, e acima de tudo, pejado de contradições, desconhecimento, dúvida e volatilidade sensorial. Mas, caríssimo João, passada a fase da masturbação catártica e passado o momento em que se acciona o botão publish, nunca foi de bom tom menosprezar a voluptuosa sedução que advém de se saber que, do lado de lá, no tal mundo exterior, há gente que nos lê, que nos observa, que nos dá atenção e, sublime prazer, que sente a úlcera espraiar-se. Mentirá aquele que disser que nada disto interessa. Interessa. É iguaria a que ninguém fica indiferente. Que condiciona. É também para isso e para esses que corremos.

Há dezoito dias atrás, escrevi: “Nada sei a não ser isto: vou parar. Por um momento. Se tudo correr de feição, voltarei. Ou talvez não.” Volto. Regresso ao local do crime, de onde, aliás, nunca saí. Explicação clássica: não resisti às saudades. Real motivo: não resisti ao murro daquele a quem, acima de tudo e todos, devo o regresso: João Pereira Coutinho. Para desprazer do biltre, claro.

PS: Um muito obrigado a todos os que (me) escreveram.

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