O MacGuffin

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

I INSIST
Há dias, JMF (Terras do Nunca) escreveu, a propósito dos meus gostos musicais:

”Dúvida: como é que um fulano destes tem tão bom gosto musical?”

Considero esta afirmação particularmente engraçada (JMF consegue, a espaços, ser deveras divertido). Explico: de vez em quando sou confrontado com essa espécie de reacção meio incrédula, meio atónita, por parte de quem considera, consciente ou inconscientemente, que há opções estéticas e «gostos» que são próprios de certas tendências políticas. E só destas. Quem, por exemplo, perfilha o ideário «direitista» não pode estar inclinado a escolher como «suas» certas manifestação culturais e/ou artísticas. Há muita gente que se interroga, desconcertadamente, como é que fulanos não alinhados politicamente na grande famiglia da Esquerda (da "Esquerda Caviar" à esquerda ‘tás-aqui-estás-em-Seattle-a-partir-montras’, passando pela Esquerda “cool as Miguel Sousa Tavares”, e acabando na Esquerda sofisticada do Dr. Prado Coelho), podem ter sensibilidade suficiente para apreciar Beckett e Ibsen, Calvino e Dostoievski, Kieslowski e Moretti, Lynch e Truffaut, Durutti Column, Billy Bragg ou Smiths? Ou, vendo o problema ao contrário, como é possível a um amante de Bellini, Mahler, Bacon, Lucien Freud ou Rothko, alinhar numa corrente política «insensível», «reaccionária», «fria» e, nestes últimos tempos, «belicista»?

Lembro-me de um leitor da defunta e saudosa Coluna Infame ter questionado Pedro Mexia pelo facto de este apreciar Sonic Youth - facto que, segundo esse leitor, esbarrava estrondosamente com as posições políticas do Pedro. O leitor insinuava, assim, que os Sonic Youth eram um eminente «grupo de Esquerda». Em boa verdade, o pessoal da Esquerda nunca teve pejo em apropriar-se do que julga culturalmente correcto. Chegam mesmo a ter como seus certos artistas e estilos. E ai de quem ouse tocar-lhes. Munida de uma suposta autoridade na matéria, a Esquerda apresenta-se, na maior parte do tempo, como a paladina exclusiva da cóltura e das coisas do «espírito». Para isso, usa e abusa do seu exercício preferido: politizar tudo o que toca. Daí que a malta da Esquerda vista a pele de “salteadores da mensagem perdida”, ou seja, ache conveniente vislumbrar sempre um “recado”, uma ”posição”, um “desígnio” político em tudo o que diga respeito ao trabalho dos «seus» criadores. Dirigidos, obviamente, a uma clientela eleita e esclarecida. Caso contrário, não contam. Deixam de ser elegíveis para fazer parte do seu cânone, ou seja, o do cantinho da «boa» cultura.

Acresce, ainda, o facto das mais proeminentes figuras do ‘milieu’ cultural da paróquia difundirem, ex-cathedra, a doutrina da separação das águas, que consiste mais ou menos nisto: a organização, selecção, escolha e divulgação culturais devem ser entregues aos verdadeiros guardiões do templo, sob pena de se vir a subverter a lógica da coisa. Claro está que a «boa» cultura não pode ser popular, tradicionalista ou classicista. A «boa» cultura tem de «rasgar», «incomodar», «questionar», «fazer avançar», ser «contra-poder». Vai daí, deitam mão às chamadas artes vivas (música, teatro, cinema, etc.) e tratam de, por um lado, aglutinar (escolhendo, para o seu lado, o que dá jeito), e, por outro, redireccionar (perante o crescente protagonismo da política como linguagem universal, o artista/autor deve ser impelido a sair da sua solidão criadora para se prostituir com aquela). Quem, do “lado de lá”, abrace os «seus» artistas e respectivas obras, das duas uma: ou está distraído, ou está equivocado (na escolha ou no lado). Desta lógica resulta, para mim, um prazer meditativo: verificar como a Esquerda, em abstracto, contínua convencida e altiva em relação ao seu putativo papel regulador e intervencionista, quanto aos gostos e opções da «ralé». No fundo, estamos hoje como estávamos há vinte, quarenta ou cem anos atrás.
Voltando à questão inicial (a dos gostos musicais), se me disserem que Billy Bragg, Sonic Youth, Clash, Manic Street Preachers, etc. são gente de Esquerda, tudo bem. Não vou negar essa evidência. Mas é bom não confundir as posições políticas dos autores/protagonistas, com a sua própria produção artística. É não só arriscado como, em 99% dos casos, irrelevante. Os Durutti Column, por exemplo, foram buscar o seu nome ao revolucionário anarquista Buenaventura Durruti, e o próprio álbum “LC” não é mais do que a abreviatura de “Lotta Continua”, com evidentes ligações ao ideário esquerdista. Mas daí até se afirmar que a sua música é de Esquerda vai uma distância enorme. O Billy Bragg, por exemplo, é provavelmente um dos mais auto-politizados músicos pop. As letras das suas músicas (“There is power in a Union”), os layouts e títulos dos álbuns (“Workers Playtime”) não enganam ninguém. Mas seria absurdo não reconhecer, na obra de Billy Bragg, uma qualidade e originalidade musical e lírica contagiante que ultrapassa essa dimensão ideológica, já para não falar na beleza crua de dezenas de canções ligadas a temas não-políticos (amor, amizade, sexualidade, etc.). No caso dos Sonic Youth, é evidente que o “Teenage Riot” (incluído no sublime “Daydream Nation”) não é propriamente uma canção a inserir durante um coffee break num seminário com Roger Scruton, mas ouvida no local próprio e com o espírito para aí virado, torna-se universal – para quem, obviamente, aprecie o rock.

O mundo não tem de ser das capelinhas ou das prateleiras estanques. Pode ser-se politicamente conservador (ou liberal) e esteticamente radical. Não vejo, francamente, grandes incompatibilidades entre uma coisa e outra. A não ser que se tenha uma visão caricatural e deturpada do que é o conservadorismo político. Ou, então, que se passe a vida inteira a olhar o mundo através das lunetas políticas. Como parece ser o caso do caríssimo JMF.

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