O MacGuffin: Pusilanimidade

quinta-feira, agosto 14, 2008

Pusilanimidade

Esther Mucznik in Público (14/08/2008)

O Parlamento Europeu e a natureza do Hezbollah

A actividade dos nossos representantes no Parlamento Europeu permanece um mistério para a grande maioria dos portugueses. Trabalham? Passeiam? Que posições políticas, que causas defendem? O silêncio que rodeia o seu papel - tal como o dos deputados de outros países - é, no mínimo, contraditório numa instituição que se pretende representativa dos cidadãos nacionais.

Vem isto a propósito de um texto que me chegou às mãos, assinado por vários deputados do grupo parlamentar socialista europeu, entre os quais um português, Paulo Casaca. O texto é uma proposta, dirigida ao mesmo grupo parlamentar, de declaração a subscrever pelo Parlamento Europeu solicitando aos Estados-membros a inclusão do Hezbollah na lista da União Europeia das organizações terroristas. A proposta invoca acções terroristas do Hezbollah, como seja o atentado contra o contingente francês no Líbano em 1983 e contra a embaixada francesa no Kuwait no mesmo ano, o atentado a um restaurante em Madrid em 1985, as acções em centros comerciais e vias- -férreas em França em 1986 que mataram 89 pessoas e feriram mais de 250. Lembra também a rede de células de apoio ao Hezbollah disseminadas pela Europa, bases potenciais para atentados em países europeus, assim como o teor das emissões da estação televisiva Al-Manar para a Europa, incitando ao ódio ao Ocidente e glorificando a violência e os bombistas suicidas, nomeadamente através da utilização de passagens do Corão. O texto termina lembrando que seis países, incluindo o Reino Unido e os Países Baixos, já inscreveram o Hezbollah na lista das organizações consideradas terroristas.

Estranhamente, o Grupo do Partido Socialista Europeu não achou por bem ouvir nem os signatários da proposta nem o Movimento Socialista Libanês. Limitou-se a enviar aos líderes parlamentares do grupo socialista europeu uma nota dizendo: "Convidamos os membros do nosso grupo a não assinarem a proposta de Declaração Escrita e a promoverem as iniciativas adequadas para prevenir os colegas das vossas delegações nacionais". Quais os argumentos do Grupo do PSE? Em primeiro lugar, "o recente acordo entre os partidos políticos, incluindo o Hezbollah, que constitui um passo positivo na resolução política do conflito interno libanês"; em segundo lugar, "a ausência de competência do PE para propor a inclusão ou exclusão de alguma organização dessa lista".

Não discuto as competências do PE, que desconheço. Mas, tal como Paulo Casaca lembra na sua resposta, houve um tempo em que o PE reconhecia o carácter terrorista do Hezbollah ao aprovar uma resolução sobre a situação no Líbano, "apelando à Síria a não tolerar nenhuma forma de terrorismo, incluindo o apoio às operações do Hezbollah e outros grupos armados" (10/3/2005). O Parlamento Europeu terá mudado de posição, mas o Hezbollah não mudou de natureza. Instaurando um autêntico cerco ao governo de Fouad Siniora, paralisando a vida política libanesa durante meses a fio, perseguindo, prendendo, torturando e assassinando quem se lhe opõe, o Hezbollah tornou a sociedade e o governo libanês reféns do seu poder militar violento. Só nos meses que precederam o acordo de Maio entre as diferentes facções libanesas morreram 81 pessoas e mais de 200 foram feridas pelos militantes do Hezbollah. Contrariamente ao que afirma o grupo parlamentar do PSE, os recentes acordos entre as forças políticas no Líbano não são um passo positivo na estabilização política do país. São apenas a confirmação de que o Hezbollah aumentou dramaticamente o seu poder no Líbano, graças à poderosa força militar que, desde a guerra do Líbano, o Irão e a Síria não pararam de alimentar nas barbas da UNIFIL, a força internacional encarregada de implementar no terreno a Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU que, no final da guerra do Líbano em 2006, preconiza o desarmamento do Hezbollah.

Faz agora exactamente dois anos do fim da guerra. Durante estes dois anos, o Hezbollah triplicou o número de mísseis, nomeadamente de longo alcance, em flagrante contradição com a Resolução 1701. O armamento é essencialmente iraniano e contrabandeado via Síria. Apesar de algum material ser de origem síria, as armas mais letais são de fabrico russo. E quanto aos fins deste armamento é o próprio comandante das forças do Hezbollah na fronteira com Israel, Sheik Nabil Kaouk, que nos esclarece: "A Resistência está agora mais forte do que antes e isto mantém aberta a opção da guerra". O Hezbollah quer um Líbano na primeira linha de confronto com Israel e não o esconde: "Se me perguntarem se a destruição de Israel e a libertação da Palestina é o objectivo do Hezbollah, eu repondo: esse é o nosso principal objectivo", afirmou o líder máximo, Hassan Nasrallah.

Graças à sua força militar, o Hezbollah conseguiu impor a sua vontade nos recentes acordos que levaram à constituição do novo governo dito de união nacional, liderando uma oposição de bloqueio de 11 ministros, com direito a veto, entre os 30 que constituem o novo executivo. Mais importante ainda, o Hezbollah conseguiu que na declaração de política geral ficasse sublinhado o igual direito "do exército e da resistência" - ou seja, do Hezbollah - de libertar os territórios libaneses "ainda ocupados" por Israel. De nada valeu a tentativa da maioria governamental de precisar que "o direito à resistência deve ser exercido sob a égide do Estado". A minoria de bloqueio opôs-se... e venceu. Temos pois, em oposição flagrante à resolução 1701 da ONU, um poder dentro do poder e um equilíbrio extraordinariamente precário que apenas serve para reforçar o extremismo político e religioso no Líbano e na região. Aliás, desde o acordo, já morreram mais 29 pessoas. Mas isso o grupo parlamentar do PSE parece não ver.

Uma organização política, tal como uma sociedade, pode e deve ser julgada pelos ídolos que glorifica e pelos heróis que celebra. Em troca dos dois cadáveres dos soldados raptados pelo Hezbollah, o grupo terrorista recebeu Samir Kuntar, o terrorista assassino de crianças, como um herói da resistência. À sua chegada, um imenso estandarte triunfava: "Enquanto Israel chora lágrimas de dor, o Líbano chora lágrimas de alegria"... Será que a participação num governo mesmo de "unidade nacional" transforma a natureza de uma organização?

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