O MacGuffin: Down memory lane

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Down memory lane

A propósito desta posta do Rui, recordo uma posta minha, escrita há bué (já está no dicionário da Academia).

A esquerda e a cóltura
Tenho amigos e «conhecidos» que, ao fim destes anos, continuam incrédulos em relação às minhas opções estéticas. A razão é simples: sendo supostamente «de direita» - conservador e/ou liberal - não deveria estar inclinado para certas tendências e gostos, muito menos apto a compreender certas manifestações culturais. Como é possível, questionam-se, um tipo não alinhado politicamente na grande famiglia da esquerda (da esquerda caviar à esquerda ‘tás-aqui-estás-em-Seattle-a-partir-montras, passando pela esquerda “cool as Miguel Sousa Tavares”) ter sensibilidade suficiente para apreciar Beckett e Ibsen, Italo Calvino e Dostoievski, Kieslowski e Moretti, Lynch e Truffaut, Durutti Column, Billy Bragg ou Smiths? Como é possível, a um amante de Bellini, Mahler, Bacon, Lucien Freud e Rothko, alinhar numa corrente política «insensível», «reaccionária» e, agora, «belicista»?

Um leitor da Coluna Infame, questionava, há dias, Pedro Mexia pelo facto deste gostar de Sonic Youth. Segundo o leitor, tal gosto esbarra estrondosamente com as posições políticos do Pedro porque, como toda a gente sabe, os Sonic Youth são um eminente «grupo de esquerda». Eis o problema, cristalinamente escancarado: a esquerda não tem pejo em classificar e catalogar esta ou aquela manifestação artística como sua. Em boa verdade, continua a julgar-se no direito de pensar que tem o monopólio da cultura e das coisas do «espírito». Exibe, intermitentemente, o seu fétiche: politizar tudo o que toca. Há sempre que vislumbrar uma “mensagem”, um “recado”, uma ”posição”, um “desígnio” político para uma clientela eleita. Caso contrário não conta, não é elegível para pertencer à «sua» cultura, que é a «boa» cultura – aquela que é relatada no Acontece (bocejo) ou num qualquer pasquim venerado.

O problema vai, no entanto, bem mais fundo. Há anos que as mais proeminentes figuras do ‘milieu’ cultural, como são o caso dos inefáveis e ‘deeply intellectuals’ Prado Coelho e Augusto M. Seabra, difundem ex-cathedra a doutrina da separação de águas, segundo a qual a cultura – a sua organização, selecção, escolha e divulgação – deve ser entregue aos verdadeiros guardiões do templo, sob pena de aparecerem certos figurões (Vasco Graça Moura, por exemplo) que venham subverter a lógica da coisa (porque a «boa» cultura não pode ser popular nem tradicionalista: tem de «rasgar», «incomodar», «questionar», «fazer avançar»). Vai daí, deitam mão das chamadas artes vivas (música, teatro, cinema, etc.) e tratam de: a) aglutinar, por um lado (escolhendo, para o seu lado, o que der jeito); e b) (re)criar, por outro (perante o crescente protagonismo da política como linguagem universal, o artista/autor é impelido a sair da sua solidão criadora para se prostituir com aquela).
Quem do “lado de lá” abrace os «seus» artistas e respectivas obras, das duas uma: ou está distraído, ou está equivocado (na escolha ou no lado). Desta lógica resulta, para mim, um prazer meditativo: verificar como a esquerda, em abstracto, contínua convencida e altiva em relação ao seu putativo papel regulador e intervencionista sobre os gostos e opções das pessoas. No fundo, estamos hoje como estávamos há vinte, quarenta ou cem anos atrás.

Voltando à questão inicial, porque temo que me tenha desviado irremediavelmente da rota, se me disserem que o Billy Bragg, o Thurston Moore, a Kim Gordon ou o Black Francis são de esquerda, tudo bem. Não vou negar essa evidência. Mas é bom não confundir as posições políticas dos autores/protagonistas, com a sua própria produção artística. É arriscado e, muitas vezes, errado. Em 99% dos casos, irrelevante. Os Durutti Column, por exemplo, foram buscar o seu nome ao revolucionário anarquista Buenaventura Durruti, e o próprio álbum “LC” não é mais do que a abreviatura de “Lotta Continua”, com evidentes ligações ao ideário esquerdista. Mas daí até se afirmar que a sua música é de «esquerda» vai uma enorme distância. O Billy Bragg, por exemplo, é provavelmente um dos mais auto-politizados músicos pop. As letras das suas músicas (“There is power in a Union”), os layouts e títulos dos álbuns (“Workers Playtime”) não enganam ninguém. Mas seria absurdo não reconhecer, na obra de Billy Bragg, uma qualidade e originalidade musical e lírica contagiante, já para não falar na beleza crua de dezenas de canções ligadas a temas não-políticos (amor, amizade, sexualidade, etc.). No caso dos Sonic Youth, é evidente que o “Teenage Riot” (incluído no sublime “Daydream Nation”) não é propriamente uma canção a inserir num coffe break de um seminário com Roger Scruton, mas ouvida no local próprio e com o espírito para aí virado, “ressoa-me pelo corpo e pelo coração”, como diria o Gonçalo Praça. À minha maneira, acrescento eu.

O mundo não tem de ser das capelinhas ou das prateleiras estanques. Pode ser-se politicamente conservador (ou liberal) e esteticamente radical. Não vejo, francamente, grandes incompatibilidades entre uma coisa e outra. A não ser que se tenha uma visão caricatural e deturpada do que é o conservadorismo político. Ou, então, que se passe a vida inteira a olhar o mundo através de lunetas político-ideológicas.

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