O MacGuffin: Não sejam parvos

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Não sejam parvos

O meu micro-post sobre a canção dos Deolinda, suscitou dois comentários.

Aqui, o Richard pergunta «Não é legítimo os jovens manifestarem-se?».

Aqui, o Rodrigo manda-me «apanhar ar do mar», não sem antes me garantir, com direito a link (http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=469209), que o meu comentário é «completamente desajustado e irrealista» e que eu ando a «atirar areia nos olhos» de alguém (que ele próprio não quer ou não consegue identificar).

Ao Richard, digo: perfeitamente legítimo. Tão legítimo quanto a minha opinião sobre o assunto. A questão não é de legitimidade. Nem de liberdade.

Ao Rodrigo: não percebo por que razão me desajustei da realidade. Partindo do princípio de que podemos seccionar historicamente (leia-se evolutivamente) e em postas homogéneas a população de um determinado país em «gerações», lamento informá-lo do seguinte: todas as gerações tiveram, e têm, «problemas». Só um ignorante ou um distraído pode afirmar que a actual geração dos «jovens», está em pior condição que as anteriores.

Sim, é verdade: há trinta ou cinquenta anos atrás, as «oportunidades» (seja lá o que isso for), não se encontravam no estado de rarefacção actual. Havia, como diria o meu pai, «muito caminho para desbravar». Sim, é verdade: hoje a competição é maior e para o mesmo osso saltam, esfomeados, demasiados cães (que me desculpem a imagem). Mas é preciso ser-se muito míope para não aceitar e reconhecer várias coisas.

A primeira: o mundo mudou e, com ele, os «paradigmas», a sociedade, os mercados (incluindo o do trabalho). Em perspectiva, essa mudança não foi sinónimo de pobreza, miséria ou desespero. Pelo contrário: os níveis e padrões de vida são hoje incomensuravelmente superiores aos de trinta, cinquenta, cem anos atrás. Mais: a liberdade de escolha e a mobilidade são hoje maiores, com os benefícios daí decorrentes a suplantar os prejuízos. Duvido muito que um jovem adulto tenha, hoje, a cabeça formatada para aceitar um «emprego para a vida». Sim, existe mais «precariedade» se aferirmos a duração média de um determinado emprego, mas a liberdade de escolha e de movimentação é maior, por via, também, da formação e da educação. Há cinquenta anos atrás, um jovem filho de assalariados rurais, não tinha grande escolha quanto ao futuro. Hoje em dia, tem. Pouco? Talvez. Mas muito mais do que o avô.

A segunda: vejo por aí demasiados «jovens» agarrados, e sem parecerem estar propriamente muito incomodados, ao ócio e à doce e indulgente protecção paternal. Se queremos assacar responsabilidades a alguém, neste putativo impasse existencial em que vivem, desgraçados, os «jovens», não é ao Estado, à legislação laboral, ao neo-liberalismo ou à Sra. D.ª Merkel, mas antes à educação e a um ambiente familiar pouco exigente (reparem que rejeito a palavra «competitivo»), facilitador e excessivamente protector. Hoje, o menino quer um carro, o menino tem um carro. Hoje, o menino quer viajar, o menino vai viajar. Hoje, o menino está deprimido, passa-se a mão pela juba do menino, coitado, que os tempos são cruéis. Hoje, ao menino oferece-se um trabalho «desprestigiante», há que estar ao lado do menino quando ele disser «que horror, não nasci para isso». Nas últimas décadas, produziu-se a uma velocidade estonteante uma casta de «jovens» que, no que toca à garra, à vontade de lutar e trabalhar, mataria de vergonha os seus antepassados (que, é bom dizer-se, em 99,99% dos casos viviam muito pior).

Não me comovo, por isso, com a ladainha dos Deolinda. As estradas e as fronteiras – as físicas e as outras – estão desimpedidas. Como nunca, aliás, estiveram. Por isso, mexam-se, meus queridos. Não sejam parvos.

1 Comentários:

Blogger Margarida disse...

Ó Carlos, uf, ainda bem, às vezes penso que prego no deserto...

Mas por mais que resmunguem, mantenho:
http://jovensdorestelo.blogspot.com/2011/02/grande-parvoeira.html

11:30 da manhã  

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