O MacGuffin: Reciclagem

segunda-feira, julho 25, 2005

Reciclagem

Não sou dos que alinham no pitiatismo das férias. Há algo de patético e simultaneamente deprimente na forma como a maioria procura insistentemente um programa para ocupar o período de férias, sob pena de se apoderar da alma um misto de derrota e frustração. Quando me perguntam “Onde foste nestas férias?” e recebem como resposta “A lado nenhum, fiquei por aqui”, vislumbro sempre um olhar de comiseração trocista. Parece não fazer sentido «ficar» quando é suposto «sair». Para além de parecer um sinal de profunda infelicidade ou de avançada imbecilidade, a atitude de ocupar os dias de férias a vegetar na mesma cidade onde se viveu durante todo o ano, ou em igual registo abroad, é incompreensível.

A sério, não percebo porquê. É assim tão errado não alinhar na voragem vigente? Será sinal de doença mental optar por fruir calma e prazenteiramente as férias sem «rasgos», «saídas» ou incómodos de natureza idílica, invariavelmente auto-infligidos com o patrocino da Halcon ou da Agência Abreu?

Entendam-me: gosto de viajar. Mas até aí não escondo aquilo que sou: um conservador com uma costela de pseudo-esteta e outra de snob (o que, na actual cultura proletária, serve para designar quem só lê jornais estrangeiros). Qualquer destino de férias tem que ser minimamente «civilizado» (as aspas são a contribuição da semana para o politicamente correcto): sem moscas, mosquitos, frio ou calor excessivos, comida ou líquidos diarreicos. A regra que me imponho é simples: sair só para onde a obra e o engenho humanos tenham florescido em todo o seu esplendor, após séculos de sedimentação civilizacional. Sítios onde possa continuar a comprar os jornais e as revistas do meu contentamento; onde possa desfrutar de bons museu, exposições, restaurantes e cafés; onde a quantidade por quilómetro quadrado de livrarias minimamente decentes seja razoável (mínimo: 2); onde os cinemas e os teatros apresentem um riquíssimo leque de escolhas; onde se possa beber um cappuccino decente na companhia de scones acabadinhos de fazer; e, é claro, onde haja gente «normal». Não me peçam para escolher retiros exóticos com climas absurdamente húmidos ou estupidamente secos, com programas de pesca submarina e aos gambozinos em praias «paradisíacas». Além disso, a minha consciência moral não me permite assistir indiferente e pacificamente à coabitação do luxo de uma estância balnear, paredes meias com a dura realidade da indigência autóctone – apesar do garrido pitoresco que a ocidente muito se preza.

Em suma: para quê a «diferença», o «exotismo» e o «paraíso» se há sempre Veneza, Roma, Londres, Nova Iorque, Barcelona ou Paris, a escassas horas de distância?

Com isto quero dizer que vou de férias? Não, ainda não. Mas mais postas só lá para finais de Agosto.

Até lá, um abraço. Do Mac.

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