O MacGuffin: Fevereiro 2014

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

A assoar-se na gravata por engano

Vasco Pulido Valente, Público 07/02/2014

A que propósito andamos nós preocupados com Miró? 
"Quem foi Miró? Um defesa do Bilbau? Uma fragata da marinha chilena? Um cantor da Costa Rica? Uma fábrica de figuras de porcelanas? Há quatro ou cinco semanas apareceu no programa de Manuela Moura Guedes, minha querida amiga, um concorrente que tinha uma vaga ideia de quem o indivíduo fosse. 
De resto, em Dezembro, 99 por cento dos portugueses nunca tinha ouvido falar, nem queria ouvir falar em Miró. Na oceânica ignorância em que “a geração mais bem preparada de sempre” rejubila, isto é um pormenor sem qualquer importância. Eles não sabem nada de pintura, como de literatura, como de história; nem sequer sabem que a água ferve a 100 graus C; mas conhecem em pormenor as bandas pop com que foram criados e muito mal criados, e o que se passa dia a dia no facebook. 
Talvez não seja inútil observar que o surrealismo, como seria de esperar, influenciou em Portugal muito mais profundamente a literatura do que pintura. Alexandre O’Neill e Mário Cesariny não são comensuráveis com, por exemplo, Da Costa e Vespeira. O’Neill mudou a língua, Vespeira pouco mudou. Por outras palavras, o surrealismo entrou em Portugal como várias modas da França ou, se quiserem, “tendências” que transformaram um pouco o curso da cultura indígena, mas que no fundo não romperam com ela, nem (excepto no caso de O’Neill) lhe trouxeram nada de novo. Quem conheceu algumas das personagens da época não ignora que Miró não meteu para aqui prego nem estopa. Em 1950 não era mais conhecido e admirado do que as centenas do que Salazar não permitia que se visse ou falasse. 
Por tudo isto, espanta agora que se diga, na oposição e no governo, que os Mirós do antigo BPN, adquirido por meios que por enquanto ainda não se tornaram claros, ascenderam a “património nacional”. Não o são pela origem, não o são pela natureza e, principalmente, pelo quase nulo peso que exerceram sobre a pintura local. Conservar aqui uma colecção de 85 Mirós não faz qualquer sentido, nem servirá (na falta de um verdadeiro museu de arte moderna, decentemente organizado) para instruir ninguém. A polémica sobre a colecção Miró é outra triste manifestação da saloiice atávica. Não se investe na reabilitação urbana, nem em monumentos em ruínas ou perto disso, nem em bibliotecas, nem em arquivos. Mas precisamos, urgentemente, de 85 Mirós."

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Da praxe

Mário de Carvalho (daqui):

O PRAXISMO-JAVARDISMO 
"Antes da REACÇÃO contra a revolução do 25 de Abril de 1974, não havia praxe em Lisboa. O espírito crítico de um escol cultural, prevalente na Universidade, tinha padrões exigentes. Ensino superior não queria dizer ensino inferior. Era uma elevação sobre a miserável circunstância dominante. A praxe era considerada – e bem -- COISA DE LABREGOS. 
Em Coimbra, nos anos sessenta, após as críticas corajosas de Flávio Vara (“ O Espantalho da praxe…” 1958) e a chegada de uma geração mais desempoeirada, a praxe quase desapareceu. Reinstalaram-na depois com todo o seu fétido programa passadista. 
A praxe é o abraço alcoolizado entre o ricaço marialvão, abrutalhado e analfabeto e o povoléu boçal e trauliteiro, folclorizando o servilismo medieval em vestes eclesiásticas. Ao fim e ao cabo, o velho Portugal alarve, mendigo, medievalóide e agachadinho, mas de telemóvel em riste. 
Não se ponderem gradações entre um medievalismo civilizado e um medievalismo excessivo. Toda a praxe é desprezível. No estado a que as coisas, desgraçadamente, chegaram, proibir seria contraproducente. Mas há muitas formas de desencorajar. E os professores – que têm sido, aliás, de uma distracção cúmplice (mea culpa) – sabem isso bem. 
Oxalá os estudantes se dêem conta de como foram inferiorizados e transformados em «jovens velhinhos» por uma súcia rasca. 
Tanto mais que a situação assume contornos sinistros e mafiosos. Ao que parece, com “omertà” e tudo. Um atavismo lusitano vem fazer de hífen entre a tradição siciliana e o nórdico Nacional-Socialismo. Pior que mera COISA DE LABREGOS."

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