O MacGuffin: Junho 2013

quarta-feira, junho 19, 2013

Um socialista será sempre um socialista

A palavra ao senhor deputado Pedro Nuno Santos:

“A desvalorização cambial tem sido apresentada como a única alternativa à desvalorização interna para melhorar a competitividade-preço da nossa economia. Não é no entanto verdade que seja a única e muito menos a melhor. Se o objectivo de quem defende aquela solução é, através da desvalorização da moeda, diminuir o preço dos produtos nacionais no mercado externo para dessa forma aumentarem as exportações e, por outro lado, aumentar o preço dos bens importados de forma a incentivar a produção nacional, então há outra solução. Algumas formas de auxílio do Estado às empresas exportadoras permitem-lhes reduzir custos e, por essa via, reduzir o preço cobrado nos mercados externos. Poderíamos, assim, com intervenção do Estado fazer diminuir o preço das nossas exportações sem sair do euro ou sem precisar de deprimir os salários dos trabalhadores portugueses. Por outro lado, com vista a estimular a produção nacional e a substituição de importações o recurso à introdução de tarifas aduaneiras sobre alguns bens importados aumentaria o seu preço e dessa forma seria incentivada a sua substituição por produção nacional.” (Jornal i)

Ou seja: 1) mais despesa (sob a forma de benefícios fiscais ou subsídios); ou 2) mais impostos (que o próprio reconhece, mais à frente, serem de difícil implementação, uma vez que o Tratado Europeu é avesso a entraves aduaneiros.)

Conclusão: uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma. Pelo caminho, os habituais e estafados remédios socialistas. Next.

segunda-feira, junho 17, 2013

Tem-me acontecido, ultimamente: defender algumas coisas, mas já sem convicção

Retirado do livro Arcana Coelestia, de Emanuel Swedenborg:
"Os anjos me disseram que, quando Melanchton morreu, lhe foi oferecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual àquela que possuíra na Terra. (A quase todos os recém-chegados à eternidade acontece o mesmo e por isso acreditam que não morreram). Os objectos domésticos eram iguais: a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton despertou nessa casa, reatou suas tarefas literárias como se não fosse um morto e escreveu durante alguns dias sobre a salvação pela fé. Como era seu hábito, não disse uma palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram pessoas a interrogá-lo. Melanchton lhes falou: "Demonstrei de maneira irrefutável que a alma pode dispensar a caridade e que para entrar no céu basta a fé". Dizia isso com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram essa afirmativa o abandonaram. 
Em poucas semanas, os móveis começaram a se encantar até se tornarem invisíveis, com excepção da poltrona, da mesa, das folhas de papel e do tinteiro. Além disso, as paredes do aposento se mancharam de cal e o assoalho de um verniz amarelo. Sua própria roupa já estava muito mais ordinária. Continuava, entretanto, escrevendo, mas como persistia na negação da caridade, foi transferido para uma sala subterrânea, onde estavam outros teólogos como ele. Ali ficou preso alguns dias e começou a duvidar de sua tese, e lhe deram permissão de voltar. A roupa que vestia era de couro cru, mas procurou imaginar que a que tivera antes fora uma simples alucinação e continuou elevando a fé e denegrindo a caridade. Uma tarde, sentiu frio. Então percorreu a casa e comprovou que as demais peças já não correspondiam às de sua casa na Terra. Uma delas estava cheia de instrumentos desconhecidos; outra estava tão reduzida que era impossível entrar nela; outra não tinha sofrido modificação, mas suas janelas e portas davam para grandes dunas. A do fundo estava cheia de pessoas que o adoravam e lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio quanto ele. Essa adoração agradou-o, mas como uma das pessoas não tinha rosto e outras pareciam mortas, acabou se aborrecendo e desconfiando delas. Determinou-se então a escrever um elogio da caridade, mas as páginas que escrevia hoje apareciam apagadas amanhã. Isso aconteceu porque eram feitas sem convicção."

domingo, junho 16, 2013

Acabemos com a deificação, por favor

Alberto Gonçalves, Diário de Notícias 16/06/2013
Ninguém ensina os professores? 
"A greve dos professores suscitou um manifesto de apoio por parte de 22 autodesignados artistas, do cançonetista Carlos Mendes ao filhote de Lucas Pires. O manifesto começa com uma relativa evidência: "Sem Educação não há país que ande para a frente." Infelizmente, prossegue com generalizações diversas, umas difíceis de provar, outras fáceis de desmentir. O tom geral é o de que a classe docente constitui uma entidade abstracta, sempre maravilhosa, incansável e esclarecida. Em Portugal, o sabujismo rende. 
Donde a proliferação dos sabujos. Além de subscrever o texto, o escritor José Luís Peixoto alinhavara, em 2011, um texto pessoal no qual desenvolveu os arrebatamentos líricos e que o site do Bloco de Esquerda agora resgatou: os professores, garante a promessa da ficção nacional, trazem consigo "todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu". Além disso, os professores "não vendem o material que trabalham, oferecem-no", visto que "o trabalho dos professores é a generosidade". Os professores, com "as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás" são, jura o sr. Peixoto, "os guardiões da esperança". Os professores "ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar". E quanto a nós, antigos alunos, "basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores". 
Bonito, porém improvável. Se me inclinar ao tal esforço mínimo, e máximo, da memória, não abundam os "plims" (?) pequeninos de gratidão. Ao contrário do sr. Peixoto, homem de sorte, nunca tive professores que trabalhassem de borla, tive poucos carregados de conhecimento, ignoro os modelos dos automóveis que conduziam e, ao que me lembro, a função da maioria consistia justamente em encher-nos de certezas rígidas e opacas. Comecei a espernear no dia em que me arrastaram para a "primária". Parei de espernear no dia em que concluí a licenciatura, de longe o maior alívio que senti na vida. 
É claro que, da primeira à quarta classe e à custa de salvíficas reguadas, a dona Julieta me ensinou a fazer contas (da leitura e da escrita os meus pais e avós trataram antes). É claro que, no liceu, recordo meia dúzia de almas competentes e uma dúzia de almas esforçadas. E é claro que não esqueço um certo professor de história económica na faculdade. O resto foi uma imensa perda de tempo, às vezes uma tentativa de desvitalização do cérebro e, muito por feitio meu, uma longa tortura, que nem as benesses escolares alheias às aulas resgataram. Levei com gente que nos forçava à escuta de "Zeca" Afonso, gente que presumia a familiaridade de adolescentes com Schrödinger, gente convencida de que Pierre Bourdieu era um pensador, gente parcialmente analfabeta, gente que corria para a janela a cada avião, gente que sumia o ano inteiro mediante "baixa" (juro que não me importava), etc. Fabricar uma imagem idílica da docência é equivaler as fraudes aos profissionais sérios - e caluniar estes.
Pior: nivelar os professores por cima é uma burla idêntica à padronização por baixo que há décadas se aplica aos alunos e que, de resto, torna anacrónica a conversa acerca das virtudes e defeitos do ensino. A época em que, bem ou mal, os professores ensinavam morreu. Hoje, procuram sobretudo escapar das agressões verbais e físicas que alunos e famílias de alunos lhes dedicam. As criaturas que por oportunismo louvam em tons absurdos o papel dos professores são as mesmas que se calam quando um professor apanha uma sova por ousar sossegar a irreverência das criancinhas. Com frequência, o Ford Fiesta aparece sem pneus a título punitivo.
 
E se não são delinquentes a humilhar os professores, os próprios tratam do assunto por via sindical: marcar uma greve que se pretende incómoda para as datas dos exames é assumir que já só são imprescindíveis nas funções de vigilância, tarefa que uma câmara de 50 euros ou um contínuo com o salário mínimo desempenhariam com brio similar. E o Governo, que não accionou a câmara nem o contínuo, dá-lhes razão fingindo não a dar. Para quem acumula todo o conhecimento do mundo, impressiona o desconhecimento que tantos professores têm do seu. Ninguém é capaz de os ensinar?"

sábado, junho 15, 2013

Acabou-se a papa doce

Vasco Pulido Valente, Público 15/06/2013

O fim das vacas gordas

"O extraordinário número de independentes (?) que se candidata à presidência das câmaras talvez seja o primeiro sinal da próxima desagregação dos partidos tradicionais, sobretudo do PS e do PSD, que tomaram conta do Estado e nos governaram durante 30 anos. Contra o senso comum, há mais socialistas (19) que decidiram abandonar o rótulo do partido do que "sociais-democratas" (12). Mas vendo mais de perto a coisa não é assim tão estranha. Mal ou bem, Pedro Passos Coelho lá se vai aguentando e as ruínas que deixar ainda podem no futuro servir para alguma coisa. Infelizmente, nem agora, nem no futuro, Seguro, com o seu realejo e a sua vacuidade, não promete nada a ninguém. E pior: parte do eleitorado PSD parece mais fluido e, por isso, mais susceptível de acreditar numa solução milagrosa.

De resto, os próprios candidatos que o PSD apresenta oficialmente evitam exibir nos cartazes o emblema da casa. Julgam que por este subtil processo evitam a sua associação aos desastres que o Governo dia a dia faz cair sobre os portugueses. Julgam com certeza que os portugueses são mentecaptos. O PS, pelo contrário, insiste em se apresentar com a militância do costume e, muito ajudado pelos "tempos de antena" de Sócrates, põe instantaneamente em coma o cidadão vulgar. Entregar ao dr. Seguro a salvação da Pátria é a última ideia que passa pela cabeça de uma pessoa sensata ou mesmo de um louco reconhecido e público com um ou outro intervalo de lucidez. Os "socialistas" com um pequeno resto de massa encefálica preferem que Passos lhes tire as castanhas do lume, para depois proclamarem o seu sacratíssimo direito à "alternância".

Mas sucede que a ebulição em que andam as máquinas dos partidos se deve manifestamente à redução drástica da sopa do convento. Acabou a época em que se fundavam "empresas municipais" para aconchegar os bolsos da ladroagem local; da "reclassificação" de terrenos; dos vereadores sem espécie de função; dos centros de cultura; dos cursos universitários sem universidade e sem alunos; da ornamentação urbana e das rotundas; das grandes festas para a populaça; dos jornais subsidiados para criarem o culto do "presidente"; do ócio quase permanente e de várias alegrias, que faziam o misterioso encanto da autarquia. A indisciplina partidária, que a troika trouxe na sua bagagem, transformou o antigo paraíso numa guerra corpo a corpo pelo que sobrou do tempo das vacas gordas."

Parabéns

No papel de garimpeira das consciências alheias, à procura das gemas de «falsidade» dos «maus carácteres», munida do seu pneumático moralismo «separador de águas», eis que, uma vez mais, conseguiu esburacar a «hipocrisia», na forma dos «elogios fúnebres de plástico», vazios de qualquer sentimento puro (elogios de plásticos que são já uma chatice avant la lettre).

sexta-feira, junho 14, 2013

João Pinto e Castro

Escrevia primorosamente. Tinha um sentido de humor fantástico (tantas vezes deliciosamente corrosivo, sobretudo quando batia «nos nossos»), pontuado pela ironia da praxe (da boa). Inteligente, culto e provocador, obrigava-nos a pensar (oiça-se esta entrevista, para o perceber). Para quem, como eu, não pertencia à sua família política (expressão irritante, eu sei), sabia-se que se estava na presença de um «adversário» de respeito (um «osso duro de roer»). Na política, batia-se com valentia e estilo (o que às vezes irritava a malta «deste lado»). Era um «moderado» (na acepção mais nobre da palavra), mas não tinha a mínima paciência (e com razão) para a mediocridade e para o lado «cafajeste» da politicazinha partidária (daí que, por vezes, fosse deliciosamente desbragado).

Não o conheci pessoalmente. E descobri-o tardiamente (agradeço ao maradona o empurrão). Apesar das discordâncias, ou sobretudo por causa delas, sinto que é uma grande perda.

Paz à sua alma. Condolências à família.

A melhor homenagem? Ler o que escreveu:

Milionários inconsoláveis

O neo-liberalismo e eu

Pesadelo encadernado

A tragédia do povo russo

TPC

Porque é errado avaliar os professores pelos resultados dos seus alunos

Mais contentores, já!

Etc. etc. etc.




segunda-feira, junho 10, 2013

31 de Maio de 1984

"Jogando com os descontentamentos naturais, sem contudo se apresentar qualquer programa coerente alternativo, intencionalmente procurou fomentar-se um clima deletério, de descrença generalizada, de pessimismo total, assacando todas as culpas ao governo - a este Governo - esquecendo o passado ainda tão próximo, denegrindo por sistema, entravando ou mesmo sabotando iniciativas em curso, silenciando ou minimizando os aspectos positivos de uma actuação que todos sabem ser feita em condições singularmente difíceis, que se pretende? Derrubar apenas o Governo? Mas como, se parece difícil fazê-lo no Parlamento, que é o único sítio, em democracia, onde se devem derrubar legitimamente os governos? Na rua? Para dar lugar a que confrontações e a que novo surto de anarco-populismo? Desagregando por dentro, desencorajando as pessoas e tentando destruir as suas imagens políticas? Para abrir caminhos a que tipo de aventuras?" 
Mário Soares

sexta-feira, junho 07, 2013

Pormenores

Pedro Picoito, no obrigatório Declínio e Queda, esquece um pormenor e entra em contradição.

O pormenor: o «processo de intenções» está, obviamente, ligado ao facto de, à excepção da Antena 1, nenhum jornal ter pedido ao próprio (Francisco José Viegas) para comentar a notícia. No mínimo, estranho (mesmo levando em conta que não é coisa rara.)

A contradição: Pedro Picoito defende o carácter «solitário» e «autonómico» da decisão política do actor-governante (contra, se necessário for, «pareceres técnicos»), mas, logo a seguir, afirma que «o valor artístico e cultural do património pode discutir-se, mas não pode ficar sujeito à opinião ou ao gosto de um governante» - esquecendo, en passant, que Francisco José Viegas sustentou a sua decisão através de uma opção política:  «ao fim de três anos de duração do processo (o habitual é prolongar estes assuntos até uma das partes cair de inanição e a outra esquecer o assunto), era preciso dar uma resposta: ou ficar com o quadro, pagando-o, o que significava, na prática, dispor de aproximadamente €2,9 milhões; ou autorizar a sua saída para Paris. Escuso-me de comentar a hipótese de ter €2,9 milhões disponíveis.»

Será verdade?

Tão bonito, o unicórnio

Vasco Pulido Valente, Público 07/06/2013

Impunidade 
"Desde o princípio, o maior erro deste Governo foi não ajustar contas com o passado, a pretexto de que não queria perder tempo com velhas querelas. Por assim dizer, apagou a responsabilidade de toda a gente que tinha levado Portugal à situação desesperada de 2011. O nosso coração é bom e muito inclinado a não tocar no sossego e no bom nome do próximo. É um coração de ouro que não gosta de afligir ninguém. E, como não gosta, os portugueses ficaram sem saber ao certo como se acumulou a enorme dívida, soberana e outra, que nos sufoca; quem deliberadamente a fez por sua própria força e autoridade; e que espécie de razões presidiram ao exercício (corrupção? oportunismo eleitoral? incompetência? puro desleixo?). A julgar pela televisão e pelos jornais parece que um castigo do Altíssimo se abateu sobre nós para nos punir de inconfessáveis pecados. Entretanto, cai interminavelmente do céu uma chuva de números, que de resto mudam dia a dia e em que o cidadão vulgar deixou de acreditar. Durante o glorioso mandato deste Governo, os portugueses, pelo menos, conseguiram aprimorar a sua educação cívica, que se resume numa frase: não devemos confiar em nada e contar com nada. Um ministro pode perfeitamente decidir isto ou aquilo e, em meia dúzia de horas, decidir exactamente o contrário. O primeiro-ministro ora nos garante a felicidade para depois de amanhã, ora um futuro de miséria para 30 anos. Os profetas-comentadores, deliciados de se exibirem e subitamente sem excepção com uma licenciatura em Economia, discutem o extravagante dr. Gaspar, ou a iminência do apocalipse, ou a urgentíssima necessidade do “crescimento”, que se tornou um fenómeno tão mítico como um unicórnio. E nós continuamos passivos no meio desta feira de inocentes, sem a menor ideia do que nos vai suceder. Mas sem queixas. Portugal é o país da impunidade."

Entretanto…

…Fernanda Câncio insiste num tom truculento (“rapazola impreparado, ignaro e sonso”) e num estilo apocalíptico (“um país acabrunhado e calado a ser conduzido para abate”) que Marinho Pinto, certamente, não enjeitaria. É pena: ela não merece o senhor Bastonário (dito de outra forma: é bem capaz de melhor.)

Vamos com calma

Infelizmente, um destes dias, pela ordem natural da vida, Mário Soares deixará este mundo. Será uma perda para Portugal, quer se tenha ou não gostado dele. A seu favor ? «Apenas» o simples facto de ter sido decisivo, num período de grande instabilidade (que alguns patetas gostam de confundir com o que agora se vive), para a instauração de um sistema democrático e para a consolidação das liberdades.

Até lá, e por agora, o seu estado meio-senil fará as delícias da esquerda (que adora ter um «senador» aos berros contra o governo, numa linguagem apelativamente simples, embora desbragadamente primária) e da direita (que não desaproveitará algumas cenas para provar que o homem está xexé.) Acreditem: tudo isto é triste.

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