O MacGuffin: Março 2013

sexta-feira, março 29, 2013

Tudo suiço

Vítor Matos, no Elevador da Bica:
"Parece mentira. O tempo passa, os miúdos crescem, o País encolhe e o Sócrates volta.
Um consultor de uma farmacêutica vai ter um programa de comentário político na RTP, não deixa de ser estranho. 
Estou ansioso para ver que remédios nos dará o novo Sócrates. 
Tenho aqui um anti-depressivo para os desempregados (enorme mercado). 
Tenho aqui comprimidos para o sr. ministro das Finanças dormir melhor (ganhávamos todos com isso). 
Tenho aqui anti-ansiolíticos para o sr. Relvas (passávaos a ter menos notícias). 
Tenho aqui vitaminas para o sr. primeiro-ministro (anda a precisar, coitadinho). 
E também comprimidos azuis para a falta de tusa do preservativo mental... ai, o Tózé, ai, o sr. secretário-geral do PS... 
Mas para começar tinha de nos dar a todos uma dose forte de comprimindinhos para limpar a memória que guardamos dele próprio. Tudo suíço e de confiança..."

Ser um "animal feroz" é uma coisa supimpa

Bruno Faria Lopes, no jornal i:
"Dois anos depois da demissão o ex-primeiro-ministro José Sócrates ainda não percebeu a natureza dos seus erros políticos - nem a mudança drástica e grave das circunstâncias na Europa. É uma pena que tenha escolhido Paris para “cumprir o sonho de estudar”. Berlim ou Munique teriam sido mais úteis como locais de aprendizagem.
Sócrates voltou agora porque pensa que agora há mais público para a defesa do seu legado. Portugal está em plena depressão económica e o programa de ajustamento da troika - que se confunde com o governo de Passos, apesar de ter sido assinado por Sócrates - tem cada vez menos adeptos. Sócrates aproveita para defender que os problemas do país não são da sua exclusiva responsabilidade. É verdade. A crise financeira mundial destapou a ficção do euro - alimentada por todos os países e instituições europeias - e alterou o contexto que permitiu a Sócrates e a outros governarem durante anos com base no endividamento. 
Mas nem o momento actual do país, nem a compreensão da importância da Europa limpam o cadastro do ex-primeiro-ministro. Sócrates foi o homem errado, na altura errada, como demonstrou bem na entrevista à RTP. 
Sócrates foi o homem errado quando olhamos para a política. Os que o gabam como “animal feroz” deviam perceber que a falta atroz de capacidade para construir pontes e governar com um mínimo de consenso foi um problema fatal para o então Primeiro-ministro. A agressividade do discurso de tomada de posse em 2009 deu o mote para o que aí vinha na trincheira política quando ainda ninguém sabia o que aí vinha na frente económica. Sócrates queixa-se do chumbo do PEC4 mas, fiel ao seu estilo, não cuidou de criar as condições para que o pacote fosse aprovado numa altura crucial para o país. Foi um mau político. 
Sócrates foi o homem errado quando olhamos para a economia. Podíamos falar da demência dos últimos meses, em que o chefe do governo deixou o país no limiar da sobrevivência financeira e teve de ser atado à cadeira pelo seu ministro das Finanças. Mas mais deprimente foi vê-lo, no ano da graça de 2013, gabar na entrevista à RTP o crescimento de 2,4% em 2007, “o mais alto da década” - 2007, um ano em que o défice externo foi de 8,6%. É o derradeiro sinal de alguém que ainda não percebe que o desequilíbrio externo está no centro da crise europeia. Falar desse PIB defunto é um obstáculo para não discutir o essencial: a viabilidade económica e social de Portugal neste novo euro. 
Depois de dois anos de afastamento do país, José Sócrates fala como quem saiu ontem de São Bento. Sobre a “Europa” - de quem recebeu as directrizes para o PEC4 - nem uma palavra, nem sequer sobre o que se passa em Chipre. Sobre o momento do país a única coisa que tem a dizer é um “temos de parar de escavar” (Como? Pois.) Sobre a austeridade continua a sugerir - com a vantagem de nunca ter que demonstrar - que o seu famoso PEC4, cujas metas eram mais ambiciosas do que as do memorando, seria mais suave. 
A entrevista foi o preço a pagar - um preço baixo - para Sócrates ganhar um palco televisivo sem contraditório, onde ventilará a sua “narrativa” contra a “narrativa” dos outros, enquanto prepara um regresso qualquer. Vai juntar-se a Jorge Coelho, a Marcelo Rebelo de Sousa, a Marques Mendes, a Morais Sarmento, a Francisco Louçã, a Manuela Ferreira Leite e a todos os deputados que pululam nos “frente-a-frente” televisivos, nessa originalidade portuguesa que é ter ex-políticos e políticos a fazerem “comentário” sem qualquer contraditório. Não creio que se tornará na ameaça (ao governo, a Seguro) de que muitos falam. Será um “agitador”, sem qualquer pudor em atiçar o lume numa altura crucial para o país. Será mais um na espuma com que nos entretemos (incluindo este cronista), sem nada de substancial para dizer, enquanto coisas mais sérias acontecem em Nicósia ou em Lisboa."

The one and only




É simples

O maradona explica:

Com Bruno de Carvalho, seremos nós a cair
"A vitória de Bruno de Carvalho nas eleições para o conselho directivo do Sporting Clube de Portugal representa a recusa dos seus sócios e adeptos em assistir à degradação, corrupção e eventual aniquilação do clube segundo os moldes que até agora nos foram propostos. Soubemos, felizmente, optar por uma decadência digna: teremos como presidente um dos nossos, um gajo que vive o clube disparatadamente, e não segundo o filtro do lazer, do passatempo, da "experiência nova", do conforto, do camarote bem posicionado e do diletantismo aristocrata (e nem vou entrar pelo lodo dos "interesses"). Não se trata apenas das estupendas burrice e estupidez dos mandatos de Bettencourt e Godinho, ou do lirismo idiota simultaneamente serôdio e futurista de Dias da Cunha ou Soares Franco; no desporto, sabemos que a distância entre competência e incompetência depende de uma distribuição de factores e condições em grande parte incompreensíveis ao edifício lógico, mais próximas da irregularidade caótica do bom-senso, da intuição e de uma sensibilidade especial com a alma humana e com a passagem do tempo; para nosso prejuízo, o sportinguista é um ser conhecedor e compreensivo com a inverosimilhança da realidade desportiva, especialmente quando a camisola é às riscas verdes; mas o que o sportinguista tem direito a exigir, e nestes últimos anos quase que nos roubavam essa derradeira dignidade, é de sermos nós a cair. Há década e meia pegaram no nosso clube e viajaram com ele para um local tão distante do adepto que quase nem nos sentíamos legitimados a sofrer: o "modelo de negócio", a "estrutura", o "projecto empresarial", "plantel profissional do sporting", ou a puta da "SAD" e os seus esotéricos comunicados à "CMVM", foram entrelaçando-se numa impenetrável malha de sujeitos a quem cabiam as responsabilidades de cada derrota, que nos substituiam na humilhação, que se envergonhavam por nós de cada vez que o Gelson Fernandes enviava um centro para trás da baliza. O mais grave da transformação do sportinguista de actor do que se passa em campo, para mero espectador de uma coreografia desportiva subsidiária de "modelos gestão", não será tanto a consequente dormência e anestesia, mas algo que argumento poder ser mais profundo: o estabelecimento de uma distância definitiva em relação à própria responsabilidade de sentir culpa, vergonha, raiva ou ódio. Durante os últimos anos o sportinguismo percorreu a quase totalidade da estrada que, no seu fim, inocenta o adepto de desenhar uma intimidade particular e privada perante o que sucede no campo de futebol, por mais corrupta ou infiel que nos pareça à identidade que imaginamos propriamente sportinguista. Para mim, isto não tem perdão; a alma pode ser recuperada tantas vezes quantas as que a percamos, mas se abandonarmos o instinto que nos informa da utilidade de demonstrar vontade colectiva, e onde é que devemos procurar para a encontrar e mobilizar, então sucede algo pior que a morte: o esquecimento; e se calha a esquecermo-nos de que estamos mortos, então, meu amigos, então não há zeus que nos salve. Na eventualidade provável de Bruno de Carvalho não ser a nossa redenção (já nem sonho com a glória, só com o perdão), contudo levar-nos-à por caminhos que inevitavelmente nos recordarão o que seria necessário, na posse da sorte e da força que antes demonstrámos, para voltarmos a ser o que nos criou."

Recomendação

Há que seguir este blogue:


Sem emenda

João Miranda, no Blasfémias:
"Não deixa de ser extraordinário que um fulano que desorçamentou dívida, deixou um défice de 10%, levou a banca ao limiar da falência e o país à bancarrota venha dizer que a dívida subiu muito nos 2 anos seguintes a um pedido de um empréstimo para sanar a bancarrota, recapitalizar a banca e reconhecer as desorçamentações. Só num país de tontos e ignorantes é que alguém tenta sequer este truque."

quinta-feira, março 28, 2013

O que vem a ser isto?!

Este blogue fez 10 anos e ninguém me avisou?!


O regresso

Sim, o regresso de uma forma de fazer política agressiva e acintosa, a espaços mal-educada, a espaços arrogante, sem classe e sentido de Estado. O regresso do "animal político". O regresso da política do "pêlo na venta", do "sangue na guelra", do "espera aí que já te lixo", do "vocês não percebem nada disto".

Como escrevi, há 24 horas, esperava o pior. Mas não esperava tanto. José Sócrates foi primeiro-ministro de Portugal, mas isso não o impediu de se apresentar ontem como um misto de brigão, de bully e de calimero revanchista. Nem Santana Lopes chegou tão longe.

Já tínhamos virado a página, mas este homem insiste em voltar atrás. Em ajustar contas. À frente de todos.

“Tudo estava bem, tudo foi bem feito, tudo estava controlado.” Quem beliscou esta (boa) “narrativa” com outra (má) "narrativa", vai levar. Quem se meteu com José Sócrates, vai levar. Porque ele quer, porque ele merece, porque os portugueses, enganados ou burros (ao ponto de o rejeitarem), o merecem.

Goodbye Lenin revisited: Christiane ‘Sócrates’ Kerner acordou de um coma, olhou para um monte de roupa suja (que estava no lixo) e pensou: vou lavar esta roupa. Na praça pública.

Não é só perturbador. É, sobretudo, triste.

Boa sorte a todos.

Para isso, teríamos de estar na presença de um político de outra estirpe (leia-se: de outra classe)

Manuela Maria Carrilho, no DN:
"O que Sócrates deve fazer é assumir as suas responsabilidades na crise, e pedir desculpa aos portugueses - e para isso basta uma entrevista pontual, sóbria, esclarecedora e responsável. É isso que os Portugueses merecem, é disso que a nossa democracia precisa, e é a isso que o Partido Socialista tem direito. Ficar a pastar nos comentários, pelo contrário, é puro circo político, e do pior: é usar o horário nobre do serviço público de televisão para jogadas de baixa política e de pura revanche política pessoal."

quarta-feira, março 27, 2013

Aferição do grau de aprendizagem de José Sócrates

(ordem das perguntas: aleatória)


  • Como avalia, a esta distância, a sua governação a partir de 2008, nomeadamente o conjunto de medidas que pôs em prática em 2009?


a) Eram medidas fundamentais para que Portugal aguentasse a crise - em linha, aliás, com as indicações das instituições europeias e em linha com a nossa aposta no investimento público e no Estado Social. Foram medidas que tiveram um impacto muito positivo nesse ano e nos anos subsequentes. Keynes ensinou-nos isso: medidas em contraciclo. Se não tivessem sido postas em prática, teria sido pior. Além disso, ninguém sonhava com o que veio a acontecer em 2010 e 2011. Aconteceu o impensável. O mundo mudou. Tudo o que fiz, foi bem feito, na boa-fé e sempre apoiado pelas instituições europeias e pelos melhores economistas; (1 ponto)

b) Foi a receita ditada pelas instituições europeias e defendida por alguns economistas, para fazer frente à crise internacional. Concordámos com essa opção, embora hoje perceba que deveríamos ter sido mais cautelosos, tendo em conta, aliás, a incerteza do impacto da crise do ‘subprime’, o crescente nível de endividamento do país e as consequências para as contas públicas; (2 pontos)

c) Confesso que houve um misto de excesso de voluntarismo, de ingenuidade e de eleitoralismo na forma como conduzimos as coisas em 2009. Não nos podemos esquecer que era ano de eleições. Seria impensável deitar tudo a perder com um discurso mais realista, leia-se pessimista, e com medidas que poderiam arrefecer a economia. Estávamos a gerir expectativas e disseram-me que havia folga. Hoje, lamento não ter tido mais coragem para travar o caminho do desequilíbrio orçamental e do endividamento, mas há que reconhecer que considerações retrospectivas são sempre mais fáceis de fazer do que considerações prospectivas. (3 pontos)


  • Acha que o PEC IV teria salvado Portugal do pedido de resgaste?


a) Claro que sim. O PEC IV era a solução. Era a única saída para evitar um pedido de resgate. Com ele, a confiança dos mercados seria restabelecida paulatinamente e o financiamento da economia estaria assegurado, a taxas de juro sustentadamente baixas. O governo foi traído. Portugal foi traído pelos partidos da oposição. Hoje estaríamos numa situação confortável; (1 ponto)

b) Não posso ter a certeza, como é óbvio, mas acredito que teria sido possível. Teria sido difícil, é certo. E teria de ter passado por uma estratégia de aproximação ao PSD, forjando uma espécie de pacto de regime com o beneplácito do PR. Mas as condições políticas eram péssimas. O ambiente não era de consensos, em parte por culpa nossa, em parte por culpa da oposição e do PR. As posições extremaram-se. O ambiente era de cortar à faca. Basta lembrar o discurso de posse do PR. Ninguém teve a necessária clarividência para pôr termo à escalada de antagonismos. Tive pena que não se tivesse aprovado o PEC IV. Quem sabe como estaríamos hoje? (2 pontos)

c) Naquela altura, estava convencido que sim. Hoje, estou mais inclinado para dizer que não. Teríamos adiado a coisa, por uns meses, mas tendo em conta a convulsão nos mercados, o comportamento dos nossos principais indicadores económicos, o clima político que se vivia, ao PEC IV seguir-se-ia o V, o VI, o VII… Mais tarde ou mais cedo, deixaria de haver condições para insistir nos paliativos, sem acudir seriamente às doenças – a súbita e a crónica. O problema português era e é um problema estrutural, que a crise internacional agudizou e escancarou. Um problema estrutural que nunca foi atacado convenientemente pelos governos, incluído o meu e, já agora, incluindo o presente. O dinamismo, a vitalidade e a capacidade produtiva de uma economia, não se reinventam num ano ou em poucos meses. Os credores não se convencem com retórica e com medidas pontuais, desgarradas ou meramente contabilísticas. Seria uma questão de tempo até ao pedido de resgaste. (3 pontos)


  • Há a suspeição de que viveu em Paris acima das suas possibilidades, ou seja, que terá adoptado um padrão de vida incompatível com o nível de riqueza que um ordenado de primeiro-ministro supostamente deixa acumular, ao fim de seis anos. Quer comentar isto?


a) É uma tentativa de assassinato de carácter, de achincalhamento. Trata-se de um exercício de maledicência inaceitável. Só revela o quanto as pessoas são vis e a forma como alguns elementos da oposição insistem nas campanhas negras. Irei apresentar queixa contra toda e qualquer pessoa que levante publicamente esse tipo de insinuações. Entendo que o meu bom nome foi posto em causa; (1 ponto)

b) São insinuações sem qualquer fundamento. Vivi com base em algumas economias pessoais e com a ajuda da minha família. Eu não nasci para o mundo em 2005. Fui secretário de Estado e ministro, prestei serviços de engenharia. Por outro lado, em Paris fiz uma vida simples, sem luxos, tentando controlar os gastos. Aceitei, recentemente, um cargo numa empresa farmacêutica porque preciso de ter um meio de subsistência, como qualquer mortal; (2 pontos)

c) Vivo como posso, com base nos meus recursos e nos recursos da minha família. Não tenho mais nada a acrescentar. (3 pontos)


  • Acha que a sua ida para Paris contribuiu para que a sua imagem, aos olhos dos portugueses, saísse prejudicada?


a) De maneira nenhuma. Os portugueses conhecem-me e sabem o quão triste e amargurado fiquei após o acto eleitoral. Os portugueses perceberam o quão traído me senti, e compreenderam a necessidade de recato e de introspecção. E os portugueses sabem que existe, de há uns anos a esta parte, uma campanha orquestrada para denegrir a minha imagem. Tenho sido, invariavelmente, vítima de uma trama infame. Estivesse eu em Lisboa, Paris ou Vilar de Maçada; (1 ponto)

b) Penso que não. Não há razões para isso. A sua pergunta não faz sentido, até porque as pessoas são livres de circular. Sou um cidadão como outro qualquer; (2 pontos)

c) Retirando da equação os casos de má-fé ou de ódio puro à minha pessoa, sou capaz de compreender a posição dos que acharam estranho a minha ausência, ou observaram a minha ida para Paris como uma espécie de fuga. Não sou, nem era, na altura, um cidadão qualquer. Estando de consciência tranquila, devia ter explicado e defendido as minhas opções políticas após as eleições, de forma firme mas igualmente de forma serena, fossem quais fossem as vozes. Devia ter tido mais em conta o princípio da mulher de César. Não se tratava de «ficar por aí», mas de ponderar e perceber que fui primeiro-ministro de Portugal e, para todos os efeitos, o país acabou por pedir um resgate no meu mandato. Reconheço, hoje, que o meu silêncio não favoreceu a minha imagem. (3 pontos)


  • De 0% a 100%, que grau de responsabilidade atribuiria à sua governação para o estado a que chegou o país, ao ponto de ter de pedir um resgaste?


a) 0%. Não tivemos, obviamente, culpa. Fomos apanhados por uma crise internacional que não pedimos e para a qual nada contribuímos. Foi um problema sistémico. As coisas estavam controladas. O investimento público estava a dar os seus frutos. Portugal estava no bom caminho. Um caminho só interrompido por uma mentira e por um desejo cego de poder por parte da oposição. O PEC IV teria sido o instrumento ideal para atravessar esta crise, até que a Europa e as suas instituições adoptassem um sistema de mutualização das dívidas soberanas e um mecanismo de solidariedade pro-activo entre Estados, para salvar o Euro e as economias da especulação dos mercados e das agências de rating. Fiz o meu melhor, sendo que o meu melhor era o melhor para o país; (1 ponto)

b) Não gostaria de abordar o tema dessa forma. Não há aqui culpados. Foram as circunstâncias. Melhor: foi a confluência de uma série de factores, grande parte deles alheios à nossa vontade. O que aconteceu em Portugal, aconteceu um pouco por todo o lado. Interessa, agora, olhar para o futuro e debater o que fazer; (2 pontos)

c) Não sei responder a isso, de forma totalmente objectiva. Tivemos a nossa parte de culpa, como é óbvio. Ninguém, ao fim de seis anos de governação, pode chegar ao fim e dizer “não tive nada que ver com isto”. Uma parte da crise portuguesa veio de fora, foi importada. Esta é a parte que diz respeito ao problema do financiamento da economia portuguesa. Mas o comportamento dos mercados (e das agências de ‘rating’), não foi gratuito. Em bom rigor e em consciência, não posso deixar de reconhecer que trilhámos uma trajectória de endividamento que nos foi fatal, do ponto de vista da credibilidade e da confiança dos mercados. Fomos teimosos e tentámos, a certa altura, fazer omeletes sem ovos. O stock da dívida do Estado em função do PIB cresceu para níveis perigosos e o défice disparou a partir de 2009. Durante os anos da minha governação, a dívida pública aumentou em mais de 90%. Em 2004, o Estado devia, por português, qualquer coisa como 8.500 euros. Em 2011, já estávamos em 16.500 euros, fora PPPs. Economias mais fortes, mais dinâmicas, aguentam melhor esses desequilíbrios, sejam eles propositados (para fazer frente a crises) ou de natureza exógena. Não era o caso de Portugal. Como referi, a crise portuguesa foi agudizada por essa falta de resiliência, fruto de deficiências de ordem estrutural. Se me perguntar se ajudei a reformar o país, digo-lhe que sim, que ajudei. Tenho muito orgulho, por exemplo, no que fiz entre 2005 e 2007. Mas podia ter feito mais e melhor. Devia ter corrido menos riscos, já que estes pagam-se. Por exemplo: acho que perdi muito tempo e energia com o fogo fátuo de alguns programas e projectos públicos marcadamente propagandistas. Relaxei na contenção de gastos a partir de 2008. Não me desviei um milimetro do comportamento dos governos portugueses, de proteger algumas posições monopolistas de certas empresas-bandeira. E chutei para a frente encargos para o Estado, através das PPPs. Mas não é menos verdade que falar depois, é sempre fácil. Assim como foi fácil falar em «menos sacrifícios» e em «cortar as gorduras do Estado», como o fez Pedro Passos Coelho em 2011, para justificar o chumbo do PEC IV. (3 pontos)


  • Como avalia a prestação do secretário-geral do PS, António José Seguro?


a) Está a fazer um excelente trabalho, dou-lhe os meus parabéns e faço votos para que continue pleno de combatividade, como até agora. Parabéns! (1 ponto)

b) Qualquer que fosse o secretário-geral do PS após as eleições de 2011, não teria pela frente uma tarefa fácil. António José Seguro tem feito o possível, embora reconheça que tem andado um pouco apagado. Hoje tem a vida mais facilitada, tendo em conta o nível de insatisfação da população portuguesa. Talvez pudesse ter ido mais além no que respeita a propostas alternativas concretas; (2 pontos)

c) Só quem está no exercício do cargo sabe o que tem pela frente. É uma gestão que lhe pertence. Não me cabe, por isso, avaliar a prestação de António José Seguro, tendo estado, ainda por cima, longe do país. António José Seguro é o secretário-geral do meu partido. Ou seja, é também o meu secretário-geral. Nada tenho mais nada a acrescentar. (3 pontos)


  • Porque decidiu voltar ao espaço mediático?


a) Porque está na hora de limpar o meu nome e de evidenciar o que já todos perceberam: eu tinha razão. Se ninguém o faz por mim, serei eu a fazê-lo. Chega de mentira e de farsa. Além disso, está na hora de arregimentar as minhas tropas, tomar conta do partido e reganhar o poder. Portugal precisa de mim; (1 ponto)

b) Agora que terminei o curso, tive condições para aceitar o convite que me foi endereçado, com a condição de não ser remunerado. Entendo que tenho algo a dizer sobre o que se está a passar no meu país. Julgo que devo explicar o que fiz e o que faria agora, se estivesse no governo; (2 pontos)

c) Como sabe, fiz comentário político durante vários anos. Agora que me afastei da política activa, embora com base na experiência adquirida no exercício de cargos governativos, entendo que posso dar algum contributo para a análise da realidade política portuguesa e europeia, de forma desassombrada, sem qualquer outra ambição. (3 pontos)


  • Na altura da negociação do Memorando de Entendimento, afirmou, perante as câmaras, que tinha alcançado um bom acordo. Ainda pensa assim?


a) Sim. Graças à nossa capacidade de negociação, alcançámos um bom acordo. Repare que o Memorando é o PEC IV. O problema é que, o actual governou, desvirtuou o Memorando. Quis ir para além do Memorando. Quis ir para além do PEC IV; (1 ponto)

b) Dadas as circunstâncias, foi um bom acordo. Foi uma espécie de PEC V, ou seja, o Memorando continha o PEC IV, mais um conjunto de medidas de carácter mais estrutural e com um alcance mais duradouro; (2 pontos)

c) Foi o acordo possível. Esperava condições mais gravosas, pelo que acabei por dizer que tinha sido um bom acordo. Provavelmente, não o devia ter dito, daquela forma, até porque o impacto do acordo era, à data, imprevisível. Foi, como disse, o acordo possível. Um pedido de resgaste não se faz sem contrapartidas, sem medidas de ajustamento, invariavelmente dolorosas. (3 pontos)


  • Que leitura faz da governação de Pedro Passos Coelho?


a) Um desastre. Motiva-o a ideologia. Tanto o primeiro-ministro, como o ministro das Finanças, olham as pessoas como números: descartáveis, dispensáveis, elimináveis. Foram, aliás, muito para além do Memorando. E insistem em ser os bons alunos, quando deviam ter logo, em 2011, renegociado algumas condições, e adiado outras, para ganhar tempo. Ganhar tempo teria sido a chave, enquanto íamos recebendo as tranches do empréstimo. Mas não, o programa deles é outro: acabar com o Estado Social, privatizar as áreas da educação, da saúde e da segurança social. São extremistas, gente perigosa que se recusa a ver o sofrimento que está a infligir com o seu neoliberalismo radical; (1 ponto)

b) Negativa. Com o desemprego a este nível, pouco mais há a dizer. Este governo enfiou Portugal numa espiral recessiva. Hoje estamos pior que há dois anos. Estamos a insistir nos erros que nos conduziram até aqui; (2 pontos)

c) Percebo que as metas impostas no memorando impunham medidas cegas, de natureza contabilística, na busca da décima ou do ponto percentual. Cortar salários ou pensões, é cortar despesa pelo lado mais fácil, atacando indiscriminadamente tudo e todos. Mas dificilmente poderia ser de outra forma. Provavelmente faria o mesmo. O memorando estabelecia prazos quase inexequíveis. O tempo era escasso e, sendo escasso, implicava medidas desta natureza. Para além de outros erros que possamos apontar, o que é imperdoável nesta governação é a incapacidade de perceber que as medidas fiscais preconizadas para 2013, iriam empurrar o país para uma profunda recessão. Uma coisa é tentar ir ao encontro das metas do Memorando, outra é insistir num caminho que, está provado, nos afasta dessas metas. (3 pontos)


  • O que acha das petições que foram lançadas contra a sua presença na televisão, e a manifestação que foi montada lá fora, para o impedir de participar nesta entrevista? Acha que está a ser julgado?


a) Um nojo e uma vergonha. O senhor já se pôs no meu lugar?! É gente sem escrúpulos, sem princípios, que não sabe viver em democracia; (1 ponto)

b) Confesso que não gostei. São atitudes que reflectem uma visão deturpada e perigosa da vida em democracia. Quem não se sente, não é filho de boa gente; (2 pontos)

c) As pessoas são livres de se manifestar. Estamos em democracia. E é aquela frase “os actos ficam com quem os pratica”. Para além disso, quem ocupa cargos de poder, tem de ter estofo para este tipo de coisas. São os ossos do ofício. Respondendo à sua segunda pergunta, não acho que esteja a ser julgado. Fui julgado, em 2011, pelos portugueses, nas eleições. Não tenho mais nada a acrescentar. (3 pontos)

AVALIAÇÃO
  • Até 10 pontos: não aprendeu rigorosamente nada;
  • Entre 11 e 15 pontos: há alguma esperança;
  • Entre 16 e 25 pontos: Paris fez-lhe bem;
  • Entre 26 e 30 pontos: temos homem!

terça-feira, março 19, 2013

The future's so bright, I gotta wear shades

Rui Albuquerque, no Blasfémias:

O que aí vem não vai ser bom 
"Nenhum político gosta de dar más notícias ao povo. Em situações de crise, essa atitude é agravada pelo facto dos políticos estarem convencidos que as boas notícias animam as pessoas e que o optimismo é meio caminho andado para se resolverem os problemas. Por isso, os governantes nunca dizem a verdade completa aos governados. Mesmo quando estão perante o abismo. Muitos deles acreditam mesmo que são capazes de dar a volta aos factos, conseguindo fazer em pouco tempo e sem recursos o que não foram capazes de fazer quando tinham uma coisa e a outra. Estes são, de longe, os que podem provocar os piores danos, porque estão completamente alheados da realidade, da sua própria e da do país em que têm responsabilidades. Ainda há pouco tempo assistimos a José Sócrates a resistir ao pedido de ajuda económica, convencido que ainda conseguiria evitar a bancarrota, quase seis anos depois de dispor do país como, infelizmente, muito bem quis. Vitor Gaspar não levou o país à bancarrota, porque ele já lá estava quando assumiu funções, nem dispôs de meios faraónicos para o recuperar, mas emprestou o seu nome a uma estratégia de recuperação que não podia resultar. E disso é inquestionavelmente responsável. 
Ora, o que se passa hoje com Portugal é por demais evidente para qualquer cidadão que não tenha responsabilidades políticas, nem adorações ideológicas ou partidárias que o ceguem. Por motivos que já nem interessa discutir, o estado e o país estão tecnicamente falidos, por isto se querendo dizer que não produzem a riqueza suficiente para pagar a sua despesa pública e a dívida que ela acumulou ao longo dos anos. Para reverter esta situação seria necessária uma radical redução dos custos correntes do estado, que nenhum governante tem coragem de assumir, porque provocaria uma hecatombe social de efeitos graves e imediatos. Infelizmente, o estado foi somando erros sobre erros, durante muitos anos, na forma como foi lidando com os cidadãos e nas expectativas que lhes criou sobre o modo como deviam conduzir as suas vidas: confiando sempre na existência de direitos económicos inalienáveis, que o estado lhes garantiria caso lhes falhassem. Desgraçadamente, um modelo social paternalista, imobilista e inimigo da produção e da responsabilidade individual com anos e anos de consolidação, não se substituiu em pouco tempo por um modelo económico produtivo e empresarial. 
O que o governo português tem feito, aplicando as regras, impostas pela troika, de uma gestão racional, desenhada para tempos de crise, mas de relativa normalidade, tem sido tapar buracos, sem verdadeiramente conseguir fechar nenhum, e aguardando que um milagre – as exportações, a União Europeia, um tecido empresarial cada vez mais frágil – inverta a situação e salve o país. Porque, a não ser um milagre (no qual José Sócrates também acreditava, convencido que a sua inflexibilidade atemorizaria os credores e a União Europeia), o país só pode agravar mais ainda a sua situação financeira e o défice das contas públicas. 
De facto, por cada aumento de impostos para alimentar o défice aumentam as falências, com as falências aumenta o desemprego, com o desemprego aumentam necessariamente os subsídios e os apoios do estado, crescendo, assim, o défice público em vez de diminuir, como se pretendia com as medidas fiscais. Por outro lado, a falência das nossas empresas não resulta do livre jogo do mercado, no que seriam facilmente substituídas por outras, não resulta nem da concorrência, nem da insatisfação dos consumidores, mas da pura e simples destruição do mercado, provocada pelo excessivo intervencionismo do estado que asfixiou fiscalmente as empresas e as pessoas, e descapitalizou os bancos que as podiam apoiar nos momentos de dificuldade. Neste cenário, como pode conceber-se uma recuperação da economia portuguesa que simultaneamente pague uma gigantesca dívida pública, equilibre a despesa corrente do estado (sempre necessariamente crescente em momentos de crise social) e ainda consiga criar empresas, emprego e riqueza que sustentem tudo isto, num cenário de crescimento desmesurado da carga fiscal e dos custos de produção? Isto é materialmente impossível, como é óbvio. 
Por outro lado, a solução socialista de suportar a dívida pública e produzir «crescimento» económico injectando dinheiro na economia, a velha fórmula que, no fim de contas, nos trouxe até aqui, é, ela também, uma impossibilidade evidente. Porque, por um lado, não temos esse dinheiro nem ninguém que no-lo empreste, e, por outro, se ainda tivéssemos ao nosso alcance a rotativa que produz moeda fiduciária (o Dr. Mário Soares sugeriu, há semanas, que a ligássemos novamente…), não estaríamos a fazer nada mais do que produzir folhas de papel com o símbolo da República, que apenas contribuiriam para aumentar a inflação e empobrecer ainda mais o país. 
Portugal está, deste modo, numa encruzilhada sem saída à vista. Com Passos e Gaspar, com outro Gaspar qualquer que Passos possa nomear, com Tozé ou Costa, o país já não depende de si mesmo, muito menos dos políticos que eufemisticamente o governam ou possam vir a governar nos próximos anos. Como qualquer empresa irremediavelmente falida, Portugal está inteiramente nas mãos dos seus credores e da União Europeia, na qual está política e economicamente integrado, e que é uma espécie de fiador das soberanias que a compõem. Estes, por sua vez, demonstram sinais crescentes de nervosismo e impaciência nunca antes vistos na história da União, como ficou bem claro com a intervenção no Chipre, que é um sério aviso e ameaça à navegação. 
Neste momento, a única coisa que podemos ter quase como certa, e que a 7ª auditoria da troika se limitou a confirmar, é que o que aí vem não vai ser bom."
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